Textos sobre Tamanhos

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Textos de tamanhos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Os Deuses Reclinados

… Por todos os lados as est√°tuas de Buda, de Lorde Buda… As severas, verticais, carcomidas est√°tuas, com um dourado de resplendor animal, com uma dissolu√ß√£o como se o ar as desgastasse… Crescem-lhes nas faces, nas pregas das t√ļnicas, nos cotovelos, nos umbigos, na boca e no sorriso pequenas m√°culas: fungos, porosidades, vest√≠gios excrement√≠cios da selva… Ou ent√£o as jacentes, as imensas jacentes, as est√°tuas de quarenta metros de pedra, de granito areento, p√°lidas, estendidas entre as sussurrantes frondes, inesperadas, surgindo de qualquer canto da selva, de qualquer plataforma circundante… Adormecidas ou n√£o adormecidas, est√£o ali h√° cem anos, mil anos, mil vezes mil anos… Mas s√£o suaves, com uma conhecida ambiguidade ultraterrena, aspirando a ficar e a ir-se embora… E aquele sorriso de suav√≠ssima pedra, aquela majestade imponder√°vel, mas feita de pedra dura, perp√©tua, para quem sorriem, para quem, sobre a terra sangrenta?… Passaram as camponesas que fugiam, os homens do inc√™ndio, os guerreiros mascarados, os falsos sacerdotes, os turistas devoradores…

E manteve-se no seu lugar a est√°tua, a imensa pedra com joelhos, com pregas na t√ļnica de pedra, com o olhar perdido e n√£o obstante existente, inteiramente inumana e de alguma forma tamb√©m humana, de alguma forma ou de alguma contradi√ß√£o estatu√°ria,

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Fomos Vítimas de uma Ilusão

N√£o creio que tenhamos falhado. Fomos v√≠timas de uma ilus√£o que n√£o foi s√≥ nossa, a de que Portugal fosse capaz de arrancar-se √† ¬ętristeza vil e apagada¬Ľ em que mais ou menos sempre tem vivido. Imagin√°mos que seria poss√≠vel tornarmo-nos melhores do que √©ramos, e foi tanto maior o tamanho da decep√ß√£o quanto era imensa a esperan√ßa. Ficou a democracia, dizem-nos. A democracia pode ser muito, pouco ou quase nada. Escolha cada qual o que lhe pare√ßa corresponder melhor √† situa√ß√£o do pa√≠s…

O Edifício Metafísico da Sociedade

Pode-se considerar o edifício metafísico da sociedade como um edifício material que seria composto de diferentes nichos ou compartimentos de grandeza mais ou menos considerável. Os lugares com as suas prerrogativas, os seus direitos, etc. formam esses diversos compartimentos, esses diferentes nichos. Eles são duráveis, e os homens passam. Aqueles que os ocupam são ora grandes, ora pequenos, e nenhum ou quase nenhum é feito para o seu lugar. Ali vemos um gigante, curvado ou agachado no seu nicho; lá vemos um anão sob uma arcada: raramente o nicho é feito para a estatura; em torno do edifício circula uma multidão de homens de diversos tamanhos. Todos esperam que haja um nicho vazio para ali se colocarem, qualquer que seja o nicho.

O País é Pequeno e a Gente que nele Vive também não é Grande

Em tempos disse que Portugal estava culturalmente morto. Talvez o tenha dito em determinado momento, mas tamb√©m o diria hoje porque Portugal n√£o tem ideias de futuro, nenhuma ideia do futuro portugu√™s, nem uma ideia que seja sua, e vai navegando ao sabor da corrente. A cultura, apesar de tudo, tem sobrevivido e √© aquilo que pode dar do pa√≠s uma imagem aberta e positiva em todos os aspectos, seja no cinema, na literatura ou na arte – temos grandes pintores que andam espalhados pelo mundo. Mas o Almeida Garrett definiu-nos de uma vez para sempre e de uma maneira que se tem de reconhecer que √© uma radiografia de corpo inteiro: ¬ęO pa√≠s √© pequeno e a gente que nele vive tamb√©m n√£o √© grande.¬Ľ √Č tremenda esta defini√ß√£o, mas se tivermos ocasi√£o de verificar, desde o tempo do Almeida Garrett e, projectando para tr√°s, efectivamente o pa√≠s √© pequeno (…), mas o que est√° em causa n√£o √© o tamanho f√≠sico do pa√≠s mas a dimens√£o espiritual e mental dos seus habitantes.

N√£o Morrer√° Como os Restantes

Certo dia, quando recolhia esp√©cimes por baixo de um carvalho, encontrei, entre as outras plantas e ervas daninhas, e do mesmo tamanho que elas, uma planta de cor escura com folhas contra√≠das e um caule direito e r√≠gido. Quando ia tocar-lhe, disse-me com voz firme: ¬ęDeixa-me em paz! N√£o sou uma erva para o teu herb√°rio, como as outras a quem a natureza deu apenas um ano de vida. A minha vida mede-se em s√©culos. Sou um pequeno carvalho.¬Ľ Assim √© aquele cuja influ√™ncia se far√° sentir ao longo dos s√©culos, quando crian√ßa, quando jovem, muitas vezes j√° quando homem, uma criatura viva aparentemente igual √†s restantes e t√£o insignificante como elas. Mas basta que lhe d√™em tempo e, com o tempo, pessoas que saibam reconhec√™-lo. N√£o morrer√° como os restantes.

Afirmação da Verdade

Se queres convencer alguém da tua verdade, não a expliques ou demonstres Рafirma-a. E ela será tanto mais convincente quanto mais força puseres na afirmação. A afirmação é compacta, a demonstração é cheia de buracos. Uma pedra não tem intervalos para os ratos se intervalarem nela. Se queres ser chefe e dominador e senhor, berra o teu sim ou o teu não e deixa aos fracos o talvez. E terás ocupado o baldio das almas humanas em que elas não sabem que semear. E serás histórico, se fores grande, mesmo no crime. Porque o homem é míope de sua natureza e só vê acima do tamanho do boi.

Tive um Cavalo de Cart√£o

Mulher. A tua pele branca foi um verão que quis viver e me foi negado. Um caminho que não me enganou. Enganou-me a luz e os olhos foscos das manhãs revividas. Enganou-me um sonho de poder ser o filho que fui, a correr pelos campos todo o dia, a medir as searas pelo tamanho dos braços abertos; enganou-me um sonho de poder ser o filho que fui no teu homem e no teu rosto, no teu filho, nosso. Não há manhãs para reviver, sei-o hoje. Não se podem construir dias novos sobre manhãs que se recordam. Inventei-te talvez, partindo de uma estrela como todas estas. Quis ter uma estrela e dar-lhe as manhãs de julho. As grandes manhãs de julho diante de casa e a minha mãe a acabar o almoço bom e o meu pai a chegar e a ralhar, sem ser a sério, por o almoço não estar pronto e eu sentado na terra, talvez a fazer um barroco, talvez a brincar com o cavalo de cartão. Tive um cavalo de cartão. Nunca te contei, pouco te contei, mas tive um cavalo de cartão. Brincava com ele e era bonito. Gostava muito dele. Tanto. Tanto. Tanto. Quando o meu pai mo trouxe,

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Cada Homem Só se Pode Salvar ou Perder Sozinho

Também eu acredito que a existência precede a essência. Que tudo começa quando o coração pulsa pela primeira vez, e tudo acaba quando ele desiste de lutar. Que todas as paisagens são cenários do nosso drama pessoal, comentários decorativos da nossa aventura íntima e profunda. E que, por isso, cada homem só se pode salvar ou perder sozinho, e que só ele é o responsável pelos seus passos, que só as suas próprias raízes são raízes, e que está nas suas mãos a grandeza ou a pequenez do seu destino. Companheiro doutros homens, será belo tudo quanto de acordo com o semelhante fizer, todas as suas fraternidades necessárias e louváveis. Mas que será do tamanho e da qualidade da sua realização singular, da força da sua unidade, da posição que escolheu e da obra que realizou, que a consciência lhe perguntará dia a dia, minuto a minuto.

Religião e Superstição

√Č t√£o grande a fraqueza do g√©nero humano, tamanha a sua perversidade, que, sem d√ļvida, lhe vale mais estar subjugado por todas as supersti√ß√Ķes poss√≠veis – desde que n√£o tenham car√°cter assassino – do que viver sem religi√£o. O homem sempre teve necessidade de um freio e, por rid√≠culo que fosse sacrificar aos faunos, aos silvanos ou √†s n√°iades, era mais razo√°vel e mais √ļtil adorar essas imagens fant√°sticas da Divindade do que entregar-se ao ate√≠smo. Um ateu que fosse razoador, violento e poderoso, seria um flagelo t√£o funesto como um supersticioso sanguin√°rio.
Quando os homens n√£o disp√Ķem de s√£s no√ß√Ķes acerca da Divindade, as ideias falsas suprem-lhes a falta, tal como nos tempos de desgra√ßa se fazem neg√≥cios com moeda falsa quando falta a moeda boa. O pag√£o, se cometia um crime, temia ser punido pelos seus falsos deuses; o malabar teme ser punido pelo seu pagode. Em todo o lado onde h√° uma sociedade estabelecida, √© necess√°ria uma religi√£o. As leis exercem vigil√Ęncia sobre os crimes conhecidos, a religi√£o exerce-a sobre os crimes secretos.
Mas, a partir do momento em que os homens chegam a abra√ßar uma religi√£o pura e santa, a supersti√ß√£o torna-se n√£o apenas in√ļtil,

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Sapiência Diversificada

Entre outras vantagens, a sabedoria tamb√©m tem isto de bom: s√≥ se pode ser ultrapassado por outro durante a fase de ascen√ß√£o. Quando se chega ao cume, n√£o mais subsistem diferen√ßas: a sabedoria √© um estado constante, n√£o pass√≠vel de qualquer incremento. Acaso o Sol pode aumentar de tamanho ou a Lua sair da sua √≥rbita? Os oceanos tamb√©m n√£o crescem; o mundo conserva sempre a sua forma e as suas medidas. Todos os seres que atingiram as suas dimens√Ķes ideais j√° n√£o podem aumentar e, por isso, todos os homens que atingirem a sapi√™ncia s√£o de valor inteiramente id√™ntico. De entre eles, cada um ter√° as suas qualidades pr√≥prias: um poder√° ser mais af√°vel, outro mais desembara√ßado, outro de palavra mais pronta, outro dotado de maior eloqu√™ncia. Mas o ponto que nos interessa – a sapi√™ncia que gera a beatitude – essa ser√° igual em todos eles.

Vivemos numa Paz de Animais Domésticos

Uma cobra de água numa poça do choupal, a gozar o resto destes calores, e umas meninas histéricas aos gritinhos, cheias de saber que o bicho era tão inofensivo como uma folha.
Por fidelidade a um mandato profundo, o nosso instinto, diante de certos factos, ainda quer reagir. Mas logo a raz√£o acode, e o uivo do plasma acaba num cacarejo convencional. Todos os tratados e todos os preceptores nos explicaram j√° quantas esp√©cies de of√≠dios existem e o soro que neutraliza a mordedura de cada um. Herdamos um mundo j√° quase decifrado, e sabemos de cor as ervas que n√£o devemos comer e as feras que nos n√£o podem devorar. Vivemos numa paz de animais dom√©sticos, vacinados, com os dentes caninos a trincar past√©is de nata, tendo aos p√©s, submissos, os antigos pesadelos da nossa ignor√Ęncia. Passamos pela terra como espectros, indo aos jardins zool√≥gicos e bot√Ęnicos ver, pacata e s√†biamente, em jaulas e canteiros, o que j√° foi perigo e mist√©rio. E, por mais que nos custe, n√£o conseguimos captar a alma do brinquedo esventrado. O homem selvagem, que teve de escolher tudo, de separar o trigo do joio, de mondar dos seus reflexos o que era manso e o que era bravo,

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Viver Sozinho

A infelicidade do celibatário, pretensa ou verdadeira, é tão fácil de adivinhar pelo mundo que o rodeia que ele maldiz a decisão, pelo menos se ficou solteiro por causa dos prazeres que tem em segredo. Anda por aí com o casaco abotoado, as mãos nos bolsos do casaco, os braços flectidos, o chapéu bem enterrado para a cara, um sorriso falso, que se tornou natural nele, pretende esconder-lhe a boca como os óculos lhe escondem os olhos, as calças demasiado apertadas para parecerem bem nas pernas. Mas toda a gente sabe da sua situação, pode pormenorizar os sofrimentos. Uma brisa fria sopra sobre ele vinda de dentro e ele olha lá para dentro com a metade ainda mais triste da sua dupla cara. Muda-se incessantemente, mas com regularidade previsível, de um apartamento para outro. Quanto mais foge dos vivos, para quem, contudo, e é este o ponto mais cruel, ele tem de trabalhar como um escravo consciente, que não pode revelar a sua consciência, tanto menor é o espaço que consideram bastar-lhe. Enquanto é a morte que irá fazer tombar os outros, mesmo que tenham passado a vida num leito de doente, porque embora eles já há muito tivessem sucumbido por si próprios devido à sua fraqueza,

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No Teu Colo

No teu colo cabem todos os meus medos.
E se Deus existir, √© a calma do teus ombros, o sossego divino que vai do teu pesco√ßo ao teu peito. E eu ali, t√£o pequeno que nem me√ßo os cent√≠metros que tenho, e ainda assim t√£o grande que nem o c√©u teria espa√ßo para me guardar assim. Somos criaturas para al√©m do mundo, pares √ļnicos de uma viagem que nem o final dos corpos conseguir√° parar.
Até o pior da vida se acalma quando estou nos teus olhos.
H√° pessoas m√°s, m√£e. Pessoas que n√£o imaginam o que √© resistir por dentro deste corpo, por tr√°s destes ossos, sob os escombros de uma idade por descobrir. H√° pessoas que n√£o sabem que sou uma crian√ßa com medo como todas as crian√ßas (uma pessoa com medo como todas as pessoas: os adultos tamb√©m t√™m medo, n√£o t√™m, m√£e?, toda a gente tem medo, n√£o tem, m√£e?), e ontem um adulto disse-me para crescer e aparecer, e uma crian√ßa menos crian√ßa do que eu agarrou-me pelos cabelos e atirou-me ao ch√£o, a escola toda a olhar e a rir, e o adulto a dizer ¬ęcresce e aparece¬Ľ e a crian√ßa a dizer ¬ętoma l√° que √© para aprenderes¬Ľ.

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Reagir à Saudade e à Tristeza

A maneira de reagir √† saudade e √† tristeza √© ter um cora√ß√£o bom e uma cabe√ßa viva. A saudade e a tristeza n√£o s√£o doen√ßas, ou lapsos, ou intervalos, como se diz nos pa√≠ses do Norte. S√£o verdades, condi√ß√Ķes, coisas do dia a dia, parecidas com apertar os atacadores dos sapatos. √Č banalizando-as que as acompanhamos. Um sofrimento n√£o anula outro. Mas acompanha-o. Para isto √© preciso intelig√™ncia e bondade.
Aquilo que resta s√£o as pequenas alegrias. No contexto de tamanha tristeza e tanta verdade tornam-se grandes, por serem as √ļnicas que h√°. N√£o falo nas alegrias que passam, como passam quase todas as paix√Ķes.
Falo das alegrias que se tornam rotinas, com que se conta: comprar revistas, jantar ao balc√£o, dormir junto do mar, dizer disparates, beber de mais, rir. Coisas assim. S√£o essas coisas ‚ÄĒ entre as quais o amor ‚ÄĒ que n√£o se podem deitar fora sem, pelo menos, morrer primeiro.

O Amor é a Nossa Essência Primordial

Teria a vida algum encanto sem o amor? Acredito que o amor √© o mist√©rio invis√≠vel que nos envolve. Tal como escreveu o grande poeta indiano Rabindranath Tagore: ¬ęO amor n√£o √© um mero impulso. Deve conter a verdade, que √© a lei.¬Ľ Nem todos n√≥s somos capazes de o exprimir por palavras t√£o eloquentes mas a intensidade do nosso desejo de amar e de sermos amados √© uma caracter√≠stica exclusivamente humana.

Na sua forma mais elevada, o amor transforma a nossa natureza. Gera ternura e afeto. Substitui a raiva pela compaix√£o. Quando as pessoas procuram o meu conselho, o amor e os relacionamentos s√£o o principal tema das quest√Ķes que me colocam. Repare bem: a paix√£o talvez seja a experi√™ncia mais profunda que qualquer um de n√≥s poder√° viver – mas tamb√©m a mais enigm√°tica. Porque ser√° o amor t√£o doloroso quando nos proporciona tamanho √™xtase? O que o tornar√° t√£o extremo ao ponto de se transformar em √≥dio e ci√ļme quando nos sentimos tra√≠dos?

No nosso dia a dia confrontamo-nos com toda a espécie de pequenos imprevistos mas, no que diz respeito ao amor, a nossa própria vida parece estar em jogo. Os nossos relacionamentos amorosos e os laços de família são as forças mais poderosas que influenciam a nossa vida.

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Saber Ler um Poema

– O poema est√° ent√£o centrado em si mesmo, monstruosamente solit√°rio?
– N√£o tem pressa, pode bem esperar que o arranquem da sua solid√£o, possui for√ßas expansivas bastantes, fa√ßam-no sair dali. Mas ou levam-no inteiro com o centro no centro e armado √† vo]ta como um corpo vivo ou n√£o levam nada, nem um fragmento. E o que muitas vezes se faz √© contrabandear bocados: leva-se a parte errada dele na parte errada de n√≥s para qualquer parte errada: filosofia, moral, politica, psican√°lise, lingu√≠stica, simbologia, literatura. Onde est√£o o corpo e a vida dele e a sua integridade? Onde, a solid√£o para escutar a solid√£o daquela voz? Porque √© obrigat√≥rio diz√©-lo: pouca gente tem ouvidos puros. Ou m√£os limpas. Ler um poema √© poder faz√™-lo, refaz√™-lo: eis o espelho, o m√°gico objecto do reconhecimento, o objecto activo de cria√ß√£o do rosto. O eco visual se quanto a rostos fosse apenas l√™-los fora e ver. Porque o mostrado e o visto s√£o a totalidade daquilo que se mostra e v√™ ‚ÄĒ o nome: a revela√ß√£o.
‚ÄĒ N√£o √© um destino assegurado.
‚ÄĒ S√≥ √© seguro que a pergunta, a procura, o poema reincidente, cristalizam numa grande massa transl√ļcida,

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Prejudicar a Estupidez

A reprova√ß√£o do ego√≠smo, que se pregou com tamanha convic√ß√£o casmurra, prejudicou certamente, no conjunto, esse sentimento (em benef√≠cio, hei-de repeti-lo milhares e milhares de vezes, dos instintos greg√°rios do homem), e prejudicou-o, nomeadamente no facto de o ter despojado da sua boa consci√™ncia e de lhe ter ordenado a procurar em si pr√≥prio a verdadeira fonte de todos os males. ¬ęO teu ego√≠smo √© a maldi√ß√£o da tua vida¬Ľ, eis o que se pregou durante mil√©nios: esta cren√ßa, como eu ia dizendo, fez mal ao ego√≠smo; tirou-lhe muito esp√≠rito, serenidade, engenhosidade e beleza; bestializou-o, tornou-o feio, envenenado.
Os fil√≥sofos antigos indicavam, ao contr√°rio, uma fonte completamente diferente para o mar; os pensadores n√£o cessaram de pregar desde S√≥crates: ¬ę√Č a vossa irreflex√£o, s√£o a vossa estupidez, o vosso h√°bito de vegetar obedecendo √† regra e de vos subordinar ao ju√≠zo do pr√≥ximo, que vos impedem t√£o amiudadamente de serdes felizes; somos n√≥s, pensadores, que o somos mais, porque pensamos¬Ľ. N√£o nos perguntemos aqui se este serm√£o contra a estupidez tem mais fundamentos do que o serm√£o contra o ego√≠smo; o que √© certo √© que despojou a estupidez da sua boa consci√™ncia: estes fil√≥sofos foram prejudiciais √† estupidez!

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A Educação das Crianças

A educa√ß√£o das crian√ßas como conspira√ß√£o da parte dos adultos. Atra√≠mo-las dos seus livres rompantes para as nossas moradas estreitas com ilus√Ķes em que talvez acreditemos, mas n√£o no sentido que pretendemos. (Quem n√£o gostaria de ser nobre? Fechar a porta.)
O valor do acto de dar rédeas livres aos nossos vícios consiste em que eles se erguem à vista com toda a sua força e todo o seu tamanho, mesmo que, na excitação da indulgência, só tenhamos deles um leve vislumbre. Não se aprende a ser marinheiro com exercícios numa poça de água, embora demasiados exercícios nessa poça de água nos possam provavelmente tornar incapazes de ser marinheiros.

Vim para os Teus Braços Chicoteada pela Vida

Ent√£o tu pensas que h√° muitos casais como n√≥s por esse mundo? Os nossos mimos, a nossa intimidade, as nossas car√≠cias s√£o s√≥ nossas; no nosso amor n√£o h√° cansa√ßos, n√£o h√° fastios, meu pequenito adorado! Como o meu desequilibrado e inconstante cora√ß√£o d’artista se prendeu a ti! Como um raminho de hera que criou ra√≠zes e que se agarra cada vez mais. Vim para os teus bra√ßos chicoteada pela vida e quando √†s vezes deito a cabe√ßa no teu peito, passa nos meus olhos, como uma vis√£o de horror, a minha solid√£o tamanha no meio de tanta gente! A minha imensa solid√£o de dantes que me p√īs frio na alma. Eu era um pequenino inverno que tremia sempre; era como essa roseira que temos na varanda do Castelo que est√° quase sempre cheia de bot√Ķes mas que nunca d√° rosas! Na vida, agora h√° s√≥ tu e eu, mais ningu√©m. De mim n√£o sei que mais te dizer: como bem mas durmo mal; falta-me todas as manh√£s o primeiro olhar duns lindos olhos claros que s√£o todo o meu bem.

Luta de Classes

N√£o contem comigo para defender o elitismo cultural. Pelo contr√°rio, contem comigo para rebentar cada detalhe do seu preconceito.
A cultura √© usada como s√≠mbolo de status por alguns, alfinete de lapela, bot√£o de punho. A raridade √© condi√ß√£o indispens√°vel desse exibicionismo. S√≥ pertencendo a poucos se pode ostentar como diferenciadora. Essa colec√ß√£o de s√≠mbolos √© descrita com pron√ļncia mais ou menos afectada e tem o objectivo de definir socialmente quem a enumera.
Para esses indiv√≠duos raros, a cultura √© caracterizada por aqueles que a consomem. Assim, conv√©m n√£o haver misturas. Conhe√ßo melhor o mundo da leitura, por isso, tomo-o como exemplo: se, no in√≠cio da madrugada, uma dessas mulheres que acorda cedo e faz limpeza em escrit√≥rios for vista a ler um determinado livro nos transportes p√ļblicos, os snobs que assistam a essa imagem s√£o capazes de enjeit√°-lo na hora. Come√ßar√£o a definir essa obra como “leitura de empregadas de limpeza” (com muita probabilidade utilizar√£o um sin√≥nimo mais depreciativo para descrev√™-las).
Este exemplo aplica-se em qualquer outra √°rea cultural que possa chegar a muita gente: m√ļsica, cinema, televis√£o, etc. Aquilo que mais surpreende √© que estes “argumentos”, esta forma de falar e de pensar seja utilizada em meios supostamente culturais por indiv√≠duos supostamente cultos,

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