O Amor n√£o Acontece. Decide-se.

H√° quem julgue que o amor √© alheio √† vontade humana, algo superior que elege, embala e conduz‚Ķ e que quase nada se pode fazer perante tamanha for√ßa. Isso √© uma mera paix√£o no seu sentido menos nobre. E, nesse caso, sim, o amor acontece… Ao contr√°rio, amar √© estar acima das paix√Ķes e dos apetites. Mesmo quando o amor nasce de uma espontaneidade, resulta de um claro discernimento.

O amor decorre de uma decisão. De um compromisso. Constrói-se de forma consciente. Através do heroísmo de alguém livre que decide ser o que poucos ousam. Escolhe para fim de si mesmo ser o meio para a felicidade daquele a quem ama. Sim, decide-se amar e, sim, decide-se a quem amar.

O amor aut√™ntico √© raro e extraordin√°rio, embora o seu nome sirva para quase tudo… a maior parte das vezes designa ego√≠smos entrela√ßados, cada vez mais comuns. S√£o poucos os que se aventuram, os que arriscam tudo, os que se disp√Ķem a amar mesmo quando sabem que poucos sequer perceber√£o o que fazem, o seu porqu√™ e o para qu√™.
O amor n√£o sup√Ķe reciprocidade. Amar √© dar-se por completo e aceitar tudo… n√£o se contabilizam ganhos e perdas, porque o seu maior ganho √© esse mesmo: perder-se. Entregar o corpo e o esp√≠rito, o passado e o futuro, a raz√£o e o cora√ß√£o… n√£o √© ser metade de qualquer coisa, √© dar-se inteiro em troca de nada.

Quem ama nunca se funde nem confunde com o amado. Os egoísmos buscam modificar o outro para o fazer à sua imagem e semelhança. O amor aceita e promove o ser do outro, enquanto verdade livre e autónoma, com o seu significado, rumo e valor próprios.

O amor envolve alegrias puras e tristezas fundas, sorrisos sinceros e dores profundas. Amar não é ser feliz. Mas será muito mais importante amar do que ser feliz, porque só é feliz quem ama, seja neste momento ou na eternidade.

Nunca se est√° t√£o perto da solid√£o absoluta como quando se √© capaz de amar. O risco de tudo ser absurdo… √© grande. Enorme. Mas o amor √© uma perfei√ß√£o, n√£o uma perdi√ß√£o. √Č uma virtude porque resulta de uma escolha respons√°vel, um compromisso √≠ntimo de algu√©m com outra pessoa a quem se d√° o melhor de si‚Ķ face a face com a possibilidade do pior dos fracassos: uma vida em v√£o.

√Č mais forte do que a morte. Quando se ama algu√©m, a sua perda apenas aprofunda e eleva, engrandece e alarga o cora√ß√£o de quem, apesar de todos os sofrimentos, medos e ang√ļstias, aqui decide n√£o ser daqui. A verdade √© que se todos os caminhos nos levam ao amanh√£, s√≥ o do amor nos entrega √† eternidade.

Amar √© renunciar a muito, a quase tudo, sentir, pensar e dizer n√£o… a todas as outras possibilidades, √†s superficialidades e aos prazeres, ao pr√≥prio ego√≠smo que tenta impor-se, tantas vezes, como se fosse uma quest√£o de sobreviv√™ncia.

Amar √© criar. Do nada faz tudo. A sua ess√™ncia escapa por completo √† compreens√£o humana. A sua l√≥gica √© outra… O amor √© divino. Quem ama faz-se a si mesmo imagem de Deus.

√Č preciso muita coragem e uma nobreza suprema para sentir, pensar e dizer a cada dia e a cada noite: sim, quero! sim, aceito! sim, amo!