Passagens sobre Absoluto

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Frases sobre absoluto, poemas sobre absoluto e outras passagens sobre absoluto para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Confiss√£o

√Č certo que me repito,
é certo que me refuto
e que, decidido, hesito
no entra-e-sai de um minuto.

√Č certo que irresoluto
entre o velho e o novo rito
atiro à cesta o absoluto
como in√ļtil papelito.

√Č t√£o certo que me aperto
numa tenaz de mosquito
como é trinta vezes certo
que me oculto no meu grito.

Certo, certo, certo, certo
que mais sinto que reflicto
as f√°bulas do deserto
do raciocínio infinito.

√Č tudo certo e prescrito
em nebuloso estatuto.
O homem, chamar-lhe mito
n√£o passa de anacoluto.

O √ďdio liga mais os Indiv√≠duos que a Amizade

O √≥dio, a inveja e o desejo de vingan√ßa ligam muitas vezes mais dois indiv√≠duos um ao outro do que o podem fazer o amor e a amizade. Pois est√° em causa a comunidade de interesses interiores ou exteriores e a alegria que se sente nessa comunidade – onde √© muitas vezes determinada a ess√™ncia das rela√ß√Ķes positivas entre os indiv√≠duos: o amor e a amizade – √© sempre relativa e n√£o √© em nenhum caso um estado de alma permanente; mas as rela√ß√Ķes negativas, essas s√£o, a maior parte das vezes, absolutas e constantes. O √≥dio, a inveja e o desejo de vingan√ßa t√™m, poder-se-ia dizer, o sono mais ligeiro do que o amor. O menor sopro os desperta, enquanto que o amor e a amizade continuam tranquilamente a dormir, mesmo sob o trov√£o e os rel√Ęmpagos.

A Moral Pura

A moral pura √© √ļnica e universal: n√£o sofreu altera√ß√Ķes ao longo dos tempos, nem altera√ß√Ķes nem melhorias. N√£o depende de factores hist√≥ricos, econ√≥micos, sociol√≥gicos ou culturais, ou seja, n√£o depende do que quer que seja. N√£o √© determin√°vel mas determinante. N√£o √© condicionada, √© condicionante. Para ser mais claro, √© um absoluto. Uma moral observ√°vel √© sempre, na pr√°tica, o resultado da mistura, em propor√ß√Ķes vari√°veis, de elementos de moral pura e elementos de origem mais obscura, quase sempre religiosa. Quanto maior √© a propor√ß√£o de elementos de moral pura, tanto mais longa e feliz ser√° a exist√™ncia de uma sociedade que suporte essa moral. Se fosse poss√≠vel imaginar uma sociedade que se regesse pelos princ√≠pios puros da moral universal, ent√£o essa sociedade duraria o que dura o mundo.

Bem Supremo e Raz√£o

Quando a experi√™ncia me ensinou que os acontecimentos ordin√°rios da vida s√£o f√ļteis e v√£os e me apercebi de que tudo que era para mim causa ou objecto de receio n√£o tem em si mesmo nada de bom ou de mau, a n√£o ser na medida da como√ß√£o que excita na alma, resolvi, finalmente, indagar se existia um bem verdadeiro e suscept√≠vel de se comunicar, qualquer coisa enfim cuja descoberta e posse me trouxessem para sempre um j√ļbilo continuo e soberano.
(…) O que nos ocupa mais frequentemente na vida e que os homens, como pode concluir-se dos seus actos, consideram ser o bem supremo pode reduzir-se a três coisas: riqueza, fama, prazer dos sentidos.
Ora cada um deles distrai o espírito de tal modo que mal pode pensar noutro bem. (…)
РPelo prazer sensual se detém a alma como se repousasse num bem verdadeiro, o que a impede em absoluto de pensar noutra coisa; após o prazer vem a extrema tristeza, que, se não suspende o pensamento, perturba e embota. A busca da fama e da riqueza não absorve menos o espírito, sobretudo quando a riqueza é desejada por si mesma, conferindo-lhe, então, a categoria de bem supremo.

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Casar por Amor

Quando eu pensava que n√£o podia ser mais feliz, manh√£ ap√≥s manh√£ era mais, mas s√≥ um bocadinho mais do que o m√°ximo humanamente poss√≠vel; pensava eu ser absolutamente imposs√≠vel que eu fosse, de repente, muito mais feliz, do que a pr√≥pria felicidade at√©. Mas, de repente, fui. Muito mais. Casei com o meu amor e o meu amor tornou-se a minha mulher, minha em tudo, para tudo, para sempre. E eu, finalmente, consegui divorciar-me de mim e deixar de ser t√£o triste e aborrecidamente meu, trocando-me, no melhor neg√≥cio do s√©culo, por ela. Ela ficou minha. Eu fiquei dela. √Č ou n√£o √© estranho e lindo e bem pensado por Deus Nosso Senhor que ambos pensemos que nos livr√°mos de boa e fic√°mos a ganhar? √Č.

√Č sim. A minha mulher √© mais minha do que eu alguma vez fui meu ‚ÄĒ e eu antes n√£o podia ter sido mais para mim, felizmente. Por ter tudo agora para lhe dar. Que al√≠vio. Nunca mais me quero ver na vida.
A n√£o ser aos olhos dela, onde sou muito bem visto ‚ÄĒ talvez o maior homem que j√° viveu, logo a seguir ao pai dela, claro. √Č um milagre como melhorei tanto.

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A Idade

Ao princípio, era a doença de ser, pura e simples
exaltação das trevas de que a casa era a luz do mundo.
Ao princípio, estava o amor oculto no secreto fio
da memória do mundo. Ao princípio, era o insondável

desconhecido, aberto nas mãos maternais, sortilégio
do mundo. Ao princípio, vinha o silêncio como ponto
de encontro do nada do mundo. Ao princípio, chegava
a dor da pedra opressa nos cora√ß√Ķes, sublime prod√≠gio

do mundo. Ao princípio, revelava-se o inominável,
o imóvel, o informe, a intimidade temida do mundo.
Ao princípio, clamava-se a concórdia e a piedade,

afirma√ß√£o absoluta da const√Ęncia do mundo.
Ao princípio, era o calor e a paz. Depois, a casa
abriu-se à terra fértil, a madre terra, a medonha terra.

Vive o Dia de Hoje!

N√£o penses para amanh√£. N√£o lembres o que foi de ontem. A mem√≥ria teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. Mas tudo hoje √© t√£o ef√©mero. Mesmo o que se pensa para amanh√£ √© para j√° ter sido, que √© o que desejamos que seja logo que for. √Č o tempo de Deus que n√£o tem futuro nem passado. Foi o que dele n√≥s escolhemos no sonho do nosso absoluto. N√£o penses para amanh√£ na urg√™ncia de seres agora. Mesmo logo √† tarde √© muito tarde. Tudo o que √©s em ti para seres, v√™ se o √©s neste instante. Porque antes e depois tudo √© morte e insensatez. N√£o esperes, s√™ agora. L√™ os jornais. O futuro √© o embrulho que fizeres com eles ou o papel urgente da retrete quando n√£o houver outro.

A Saturação da Servidão

Hoje est√£o em causa, n√£o as paradas, que √© tudo em que as multid√Ķes s√£o adestradas, ou a guerra, a que se convidam; est√° em causa toda uma din√Ęmica nova para criar o habitat duma humanidade que atingiu a satura√ß√£o da servid√£o, depois de h√° mil√©nios ter dado o passo da reflex√£o. As pessoas interrogam-se em tudo quanto vivem. A satura√ß√£o da servid√£o n√£o √© uma revolta; √© um sentimento de desapego imenso quanto aos princ√≠pios que amaram, os deuses a que se curvaram, os homens que exaltaram. (…) Mas foi crescendo a satura√ß√£o da servid√£o, porque a alma humana cresceu tamb√©m, tornou-se capaz de ser amada espontaneamente; tudo o que servimos era o intermedi√°rio do nosso amor pelo que em absoluto n√≥s somos. Serviram-se valores porque neles se representava a apar√™ncia duma qualidade, como a beleza, o saber, a for√ßa; esses valores est√£o agora saturados, demolidos pela revela√ß√£o da verdade de que tudo √© concedido ao corpo moral da humanidade e n√£o ao seu executor.
Um grande terror sucede à saturação da servidão. Receamos essa motivação nova que é a nossa vontade, a nossa fé sem justificação a não ser estarmos presentes num imenso espaço que não é povoado pela mitologia de coisa alguma.

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A Eternidade é o Nosso Signo

Sim, a eternidade √© o nosso signo. N√£o come√ß√°mos a existir nem o fim da exist√™ncia o entendemos como fim. Por isso n√£o sentimos que n√£o existimos antes de come√ßarmos a existir mas apenas que tudo isso que aconteceu antes de termos existido foi apenas qualquer coisa a que por acaso n√£o assistimos como a muito do que acontece no nosso tempo. E √† morte invencivelmente a ultrapassamos para nos pormos a existir depois dela. O prazer que nos d√° a hist√≥ria do passado, sobretudo os documentos que no-lo d√£o flagrantemente, vem de nos sentirmos prolongados at√© l√°, de nos sentirmos de facto presentes nesse modo de ser contempor√Ęneos. Mas sobretudo h√° em n√≥s uma mem√≥ria-limite, uma mem√≥ria absoluta que n√£o tem nada de referenci√°vel e se prolonga ao sem fim. Do mesmo modo h√° o futuro que √© pura projec√ß√£o de n√≥s, apelo irreprim√≠vel a um amanh√£ sem termo ou sem amanh√£. Por isso a morte nos angustia e sobretudo nos intriga por nos provar √† evid√™ncia o que profundamente n√£o conseguimos compreender. Mas sobretudo a eternidade √© o que se nos imp√Ķe no instante em que vivemos. O tempo n√£o passa por n√≥s e da√≠ vem a impossibilidade de nos sentirmos envelhecer.

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Em geral, toma-se perante o que sucedeu não uma posição histórica, mas uma posição de absoluto; é à luz de uma metafísica ou de uma moral sobranceira ao tempo que se julgam os homens, os acontecimentos e as ideias.

Ningu√©m tem medo da morte. Ao nascer, n√£o h√° outra finalidade certa que n√£o seja a morte. Hoje, na minha idade, penso que a morte, quer para um religioso e crente, como eu sou, quer para um leigo, ser√° a √ļnica entrada para o absoluto.

Despedida

Uma harpa envelhece.
Nada se ouve ao longo dos canais e os remadores
sonham junto às estátuas de treva.
A tua sombra está atrás da minha sombra e dança.
Tocas-me de tão longe, sobre a falésia, e não sei se
foi amor.
Certo rumor de c√°lices, uma s√ļplica ao dealbar das
ruínas,
tudo se perdeu no solitário campo dos céus.
Uma estrela caía.
Esse fogo consumido queima ainda a lembrança do
sul, a sua extrema dor anoitecida.
N√£o vens jamais.
O teu rosto é a relva mutilada dos passos em que me
entristeço, a absoluta condenação.
Chove quando penso que um dia as tuas rosas floriam
no centro desta cidade.
Não quis, à volta dos lábios, a profanação do jasmim,
as tuas folhas de outubro.
Ocultarei, na agonia das casas, uma pena que esvoaça,
a nudez de quem sangra à vista das catedrais.
O meu peito abriga as tuas sementes, e morre.
Esta m√ļsica √© quase o vento.

M√°ximo de Felicidade no M√°ximo de Lucidez

O que √© a sabedoria? √Č a felicidade na verdade, ou ¬ęa alegria que nasce da verdade¬Ľ. Esta √© a express√£o que Santo Agostinho utiliza para definir a beatitude, a vida verdadeiramente feliz, em oposi√ß√£o √°s nossas pequenas felicidades, sempre mais ou menos fact√≠cias ou ilus√≥rias. Sou sens√≠vel ao facto de que √© a mesma palavra beatitude que Espinoza retomar√°, bem mais tarde, para designar a felicidade do s√°bio, a felicidade que n√£o √© a recompensa da virtude mas a pr√≥pria virtude… a beatitude √© a felicidade do s√°bio, em oposi√ß√£o √†s felicidades que n√≥s, que n√£o somos s√°bios, conhecemos comumente, ou, digamos, √†s nossas apar√™ncias de felicidade, que √†s vezes s√£o alimentadas por drogas ou √°lcoois, muitas vezes por ilus√Ķes, divers√£o ou m√°-f√©. Pequenas mentiras, pequenos derivativos, remedinhos, estimulantezinhos… n√£o sejamos severos demais. Nem sempre podemos dispens√°-los. Mas a sabedoria √© outra coisa. A sabedoria seria a felicidade na verdade.
A sabedoria? √Č uma felicidade verdadeira ou uma verdade feliz. N√£o fa√ßamos disso um absoluto, por√©m. Podemos ser mais ou menos s√°bios, do mesmo modo que podemos ser mais ou menos loucos. Digamos que a sabedoria aponta para uma direc√ß√£o: a do m√°ximo de felicidade no m√°ximo de lucidez.

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A absoluta catolicidade de gosto não deixa de ter os seus perigos. Só um leiloeiro deve admirar todas as escolas de arte.

Vida Ilusória

Ao mesmo tempo que a realidade √© uma f√°bula, simula√ß√Ķes e enganos s√£o considerados como as verdades mais s√≥lidas. Se os homens se detivessem a observar apenas as realidades, e n√£o se permitissem ser enganados, a vida, comparada com as coisas que conhecemos, seria como um conto de fadas ou as hist√≥rias das Mil e Uma Noites.
Se respeit√°ssemos apenas o que √© inevit√°vel e tem direito a ser, a m√ļsica e a poesia ressoariam pelas ruas fora. Quando somos calmos e s√°bios, percebemos que s√≥ as coisas grandes e dignas t√™m exist√™ncia permanente e absoluta, que os pequenos medos e os pequenos prazeres n√£o passam de sombra da realidade, o que √© sempre estimulante e sublime. Por fecharem os olhos e dormirem, por consentirem ser enganados pelas apar√™ncias, os homens em toda a parte estabelecem e confinam as suas vidas di√°rias de rotina e h√°bito em cima de funda√ß√Ķes puramente ilus√≥rias.

Aproximou-se duma sepultura e tomou a atitude de alguém que estivesse a meditar profundamente na irremissível precariedade da existência, na vacuidade de todos os sonhos e de todas as esperanças, na fragilidade absoluta das glórias mundanas e divinas.

Conta teu sofrimento a Deus e não às pessoas. Quando contas às pessoas, teu sofrimento ecoa e aumenta ainda mais. Quando contas a Deus, teu sofrimento desaparece. Deus é a Imagem Verdadeira (perfeição absoluta) e onde brilha a luz da Imagem Verdadeira é impossível existir a treva do sofrimento: o sofrimento transforma-se em alegria e a lamentação, em agradecimento. Tudo de bom já foi dado a ti.