Passagens sobre Momentos

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Frases sobre momentos, poemas sobre momentos e outras passagens sobre momentos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Memória Amada

Para Alain Fournier

Vinham de longe em bandos. Acorriam
Jubilosos. Fantasias
De parques pluviosos
E, descendo,
Os patos bravos lançados
Entre juncos, salgueiros e veados.
Tarde,
Muito tarde, uns olhos tais
Haviam de aparecer, sobressaltados
Entre enigmas e um floco de cabelos
Osculado pelo vento. Alegorias…
Do agora ou nunca e do momento
Definido. Trégua impensada,
Insuspeita, no perfume alado
Da p√°gina dobrada e abandonada
Dum livro interrompido. Sinto a dor fina,
Finamente atravessada e suave,
– Quase saudade.

Muito depende de sermos capazes de estar no momento em que estamos, sem pensar no que fizemos para ali estar ou nos preocuparmos para onde vamos a seguir. (…) H√° um estado activo de recep√ß√£o, de estarmos prontos para o que vier, sem termos nada marcado ou expectativa nenhuma.

A Democracia Política Conduz à Ineficiência e Fraqueza de Direcção

Os defeitos da democracia pol√≠tica como sistema de governo s√£o t√£o √≥bvios, e t√™m sido tantas vezes catalogados, que n√£o preciso mais do que resumi-los aqui. A democracia pol√≠tica foi criticada porque conduz √† inefici√™ncia e fraqueza de direc√ß√£o, porque permite aos homens menos desej√°veis obter o poder, porque fomenta a corrup√ß√£o. A inefici√™ncia e fraqueza da democracia pol√≠tica tornam-se mais aparentes nos momentos de crise, quando √© preciso tomar e cumprir decis√Ķes rapidamente. Averiguar e registar os desejos de muitos milh√Ķes de eleitores em poucas horas √© uma impossibilidade f√≠sica. Segue-se, portanto, que, numa crise, uma de duas coisas tem de acontecer: ou os governantes decidem apresentar o facto consumado da sua decis√£o aos eleitores – em cujo caso todo o princ√≠pio da democracia pol√≠tica ter√° sido tratado com o desprezo que em circunst√Ęncias cr√≠ticas ela merece; ou ent√£o o povo √© consultado e perde-se tempo, frequentemente, com consequ√™ncias fatais. Durante a guerra todos os beligerantes adoptaram o primeiro caminho. A democracia pol√≠tica foi em toda a parte temporariamente abolida. Um sistema de governo que necessita de ser abolido todas as vezes que surge um perigo, dificilmente se pode descrever como um sistema perfeito.

Os Ses Importantes da Vida

Hoje escrevo-te sobre os ses importantes da vida. Agarra-te bem a eles, e depois, quando te sentires assustada em algum momento, volta a agarrar-te a eles. Vais ver que nunca te vai faltar nada. Prometo.

Se amares com toda a segurança, desiste de amar, porque, ficas agora a saber, quando se ama com toda a segurança não se ama coisa nenhuma.
Se não tiveres medo de dizer que amas, como se sentisses que estavas a expor o mais imenso lado de ti, desiste de amar, porque, ficas agora a saber, é só o que nos faz ter medo que vale a pena ter medo perder.

Se não adormeceres todos os dias com uma inexplicável vontade de voltar a acordar só para estares nos braços da pessoa com quem adormeceste, desiste de amar, porque, ficas agora a saber, só o que nos faz adormecer felizes sem deixar de nos fazer ter vontade de acordar felizes é que é mesmo amor.

Se não acordares todos os dias com uma vontade inexplicável de voltar a adormecer só para poderes adormecer em paz ao lado de quem amas, desiste de amar, porque, ficas agora a saber, só o que nos faz acordar felizes sem deixar de nos fazer ter vontade de adormecermos felizes é que é mesmo amor.

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Fugir ao Desconhecido

Existe, frequentemente, em suma, uma esp√©cie de humildade receosa, que, quando nos aflige, nos torna para sempre impr√≥prios para as disciplinas do conhecimento. Porque, no momento em que o homem que a transporta descobre uma coisa que o choca, d√° meia volta seja como for, e diz consigo: ¬ęEnganaste-te! Onde √© que tinhas a cabe√ßa? Isso n√£o pode ser verdade!¬Ľ. De forma que em vez de examinar mais de perto e de ouvir com mais aten√ß√£o, desata a fugir completamente aterrado, evita encontrar aquilo que o choca e procura esquec√™-lo o mais depressa poss√≠vel. Porque eis o que diz a sua lei: ¬ęN√£o quero dizer nada que contradiga a opini√£o corrente. Serei eu feito para descobrir novas verdades? J√° h√° demasiadas antigas¬Ľ.

Desabafar o Sofrimento

Nunca compreendi como √© poss√≠vel que algu√©m que escreva consiga objectivar os seus sofrimentos enquanto vive sob o seu peso; assim eu, por exemplo, no meio da minha infelicidade, provavelmente ainda com a minha cabe√ßa a queimar de infelicidade, sento-me e escrevo a algu√©m: sou infeliz. Sim, eu at√© posso ir al√©m disto e com todos os floreados que o meu talento possa inventar, que n√£o parecem ter nada a ver com a minha infelicidade, toco uma orquestra√ß√£o simples, ou em contraponto, ou uma orquestra√ß√£o completa de varia√ß√Ķes sobre o meu tema. E n√£o √© uma mentira, e n√£o mitiga a minha dor: √© simplesmente um extra misericordioso de for√ßa num momento em que o sofrimento me consumiu at√© ao fundo do meu ser e gastou completamente todas as minhas for√ßas.

Têm-se Deveres Conforme o Alcance do Espírito

Em quase todos os acontecimentos da vida, uma alma generosa v√™ a possibilidade duma ac√ß√£o de que uma alma comum n√£o tem a mesma ideia. No pr√≥prio instante em que a possibilidade dessa ac√ß√£o se torna vis√≠vel para a alma generosa, √© de seu interesse lev√°-la a cabo. Se n√£o executasse essa ac√ß√£o que acaba de lhe surgir no esp√≠rito, desprezar-se-ia a si pr√≥pria; seria infeliz. T√™m-se deveres conforme o alcance do esp√≠rito. (…) √Č contra a natureza do homem, √© imposs√≠vel para o homem n√£o fazer sempre, e em qualquer momento que se queira examin√°-lo, o que nesse momento √© poss√≠vel e lhe d√° prazer.

Ah, a Moral!

Ah, a palavra ¬ęmoral¬Ľ! Sempre que aparece, penso nos crimes que foram cometidos em seu nome. As confus√Ķes que este termo engendrou abarcam quase toda a hist√≥ria das persegui√ß√Ķes movidas pelo homem ao seu semelhante. Para al√©m do facto de n√£o existir apenas uma moral, mas muitas, √© evidente que em todos os pa√≠ses, seja qual for a moral dominante, h√° uma moral para o tempo de paz e uma moral para a guerra. Em tempo de guerra tudo √© permitido, tudo √© perdoado. Ou seja, tudo o que de abomin√°vel e infame o lado vencedor praticou. Os vencidos, que servem sempre de bode expiat√≥rio, ¬ęn√£o t√™m moral¬Ľ.
Pensar-se-√° que, se realmente glorific√°ssemos a vida e n√£o a morte, se d√©ssemos valor √† cria√ß√£o e n√£o √† destrui√ß√£o, se acredit√°ssemos na fecundidade e n√£o na impot√™ncia, a tarefa suprema em que nos empenhar√≠amos seria a da elimina√ß√£o da guerra. Pensar-se-√° que, fartos de carnificina, os homens se voltariam contra os assassinos, ou seja, os homens que planeiam a guerra, os homens que decidem das modalidades da arte da guerra, os homens que dirigem a ind√ļstria de material de guerra, material que hoje se tornou indescrivelmente diab√≥lico. Digo ¬ęassassinos¬Ľ, porque em √ļltima an√°lise esses homens n√£o s√£o outra coisa.

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Conhecidos de Vista

Conhecem-se há meses de vista, do bairro onde vivem, de se verem na rua, no supermercado, no café, de passearem os cães no jardim. Ela mora dois prédios ao lado do dele, não sabe o seu nome, nem o que faz, mas conhece-lhe algumas rotinas, já ouviu a sua voz, aprecia a forma de ele se vestir. Acha-o atraente e fica atenta quando o vê.
Ele gosta de levar um livro consigo quando vai com o c√£o ao jardim. Senta-se num banco a ler, mas, se ela chega, n√£o consegue concentrar-se. Finge que l√™, espreita-a por cima do livro, maravilhado com o seu jeito distra√≠do de caminhar num vaiv√©m constante enquanto fala ao telem√≥vel, rodando o vestido numa volta graciosa ao fim de alguns passos casuais. Adora o seu sorriso encantador, o modo como inclina a cabe√ßa para tr√°s e lan√ßa um risinho espont√Ęneo para o ar a meio da conversa.
√Č s√°bado, est√£o sentados numa esplanada do jardim, ambos sozinhos, em mesas pr√≥ximas, frente a frente. Ela pede um caf√©, deita o a√ß√ļcar, mexe-o demoradamente com a colher, distra√≠da a observ√°-lo a ler o jornal. Fantasia que ele vai erguer os olhos a qualquer instante e surpreend√™-la a olhar,

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N√£o h√° caminho que resista sem momentos de celebra√ß√£o. S√£o eles o t√≥nico para mantermos um ritmo consistente de passada e o foco onde queremos chegar. (…) Celebrar √© caminhar.

A Solidão é Necessária ao Convívio

As pessoas est√£o prontas a viver em bom entendimento, mas n√£o querem ser viciadas em agradar. A condi√ß√£o humana assenta num pressuposto equilibrado: a vida agrada a uns e desagrada a outros. H√° uma parte da solid√£o que n√£o podemos compor, e √© melhor que assim seja, porque √© na solid√£o que assenta a diferen√ßa t√£o falada. √Č isso que se receia: que nos pro√≠bam a solid√£o, esse pequeno espinho que afinal nos faz solid√°rios na multid√£o. Observem um grupo de pessoas que ri da mesma anedota: est√£o abertas a esse prazer do momento, mas n√£o se distraem da faculdade de serem s√≥s na sua fundamental forma de orgulho que √© serem √ļnicas. A moral consta duma certa dose de cortesia para parecermos bons. ¬ęS√≥ Deus √© bom.¬Ľ Se percebermos esta conclus√£o, percebemos que imitar o bem √© tudo o que humanamente nos √© permitido.

Mais Beijos

Devagar…
outro beijo… ou ainda…
O teu olhar, misterioso e lento,
veio desgrenhar
a c√°lida tempestade
que me desvaira o pensamento!

Mais beijos!…
Deixa que eu, endoidecida,
incendeie a tua boca
e domine a tua vida!

Sim, amor..
deixa que se alongue mais
este momento breve!…
‚ÄĒ que o meu desejo subindo
solte a rubra asa
e nos leve!

Riqueza Ilimitada mas Mortal

Eu n√£o posso, pensando bem, descobrir como √© poss√≠vel a n√≥s, que demos tanta import√Ęncia √† riqueza ilimitada e que, para falar a verdade, a divinizamos, n√£o admitir nas nossas almas os males que crescem com ela. Acompanha, com efeito, a riqueza sem medida e sem cora√ß√£o, ligada a ela, e como se diz marchando no mesmo passo, a prodigalidade, e √† medida que a riqueza abre o acesso √†s cidades e √†s casas ela entra junto e coabita. Depois, com o tempo, segundo os s√°bios, esses seres fazem os seus ninhos nas vidas humanas e rapidamente engendram outros seres, no momento da procria√ß√£o, como a cupidez, o orgulho e a lux√ļria, que n√£o s√£o seus bastardos mas filhos leg√≠timos.
Mas se permitir que esses filhos da riqueza avancem na idade, logo para as almas eles engendrar√£o tiranos inexor√°veis, a viol√™ncia, a ilegalidade e a imprud√™ncia. Pois √© assim necessariamente; os homens n√£o olham mais para o alto e n√£o d√£o import√Ęncia ao renome na posteridade, mas a destrui√ß√£o das vidas (dos homens) completa-se pouco a pouco num tal ciclo e a grandeza das almas fenece, enfraquece e n√£o √© mais assunto de emula√ß√£o, quando se reserva a sua admira√ß√£o √†s partes mortais de si mesmo,

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Para eliminar a desarmonia do lar √© preciso que o marido, a mulher, os pais, os filhos, a sogra, a nora, etc. se coloquem um no lugar do outro. O marido deve pensar: ‚ÄėColocando-me no lugar de minha mulher, percebo qu√£o desastrado tenho sido como marido. Perdoe-me, querida‚Äô. A mulher deve pensar: ‚Äė Colocando-me no lugar de meu marido, percebo o quanto tenho sido incompetente como esposa. Perd√£o, querido‚Äô. Deste modo, cada um deve abrir o cora√ß√£o e pedir perd√£o. O ser humano n√£o perde a dignidade s√≥ porque pediu perd√£o. Se algu√©m se sente diminu√≠do quando pede perd√£o √© porque n√£o conhece a Verdade. Pedir perd√£o significa anular o ‚Äėfalso eu‚Äô e fazer renascer o ‚ÄėEu verdadeiro‚Äô (filho de Deus). Nesse momento, a pessoa se torna verdadeiramente forte.

A imagem é tanto mais bela quanto ela for auditiva, evocando sonoridades do momento.

Um Amor Verdadeiro

Admitamos: o amor é um assunto que já foi falado e voltado a falar, trivializado e dramatizado ao ponto de as pessoas não saberem já o que é e o que não é. A maioria de nós não consegue vê-lo porque temos as nossas ideias preconcebidas sobre o que é (é suposto ser mais forte do que nós e arrebatar-nos) e como aparece (num embrulho alto, magro, bem-humorado e charmoso). Por isso, se o amor não aparecer envolvido na nossa fantasia, não o conseguimos reconhecer.

Mas tenho a certeza do seguinte: o amor est√° em todo o lado. √Č poss√≠vel amar e ser amado independentemente do s√≠tio onde estamos. O amor existe sob todas as formas. √Äs vezes vou at√© ao jardim da minha casa e sinto o amor a vibrar em todas as minhas √°rvores. Est√° sempre dispon√≠vel.

J√° vi tantas mulheres (incluindo eu) confundidas pela ideia de um romance, acreditando que s√≥ ser√£o pessoas completas se encontrarem algu√©m que complete as suas vidas. Se pensarmos bem, n√£o √© uma ideia maluca? Voc√™, sozinho, tem de preencher com amor esses espa√ßos vazios e destru√≠dos. Como diz Ralph Waldo Emerson: ¬ęNada lhe poder√° dar paz a n√£o ser voc√™ mesmo.¬Ľ

Nunca esquecerei o momento em que estava a limpar uma gaveta e me deparei com doze p√°ginas que me obrigaram a parar.

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No meu of√≠cio de escritor, penso n√£o me ter afastado nunca da minha consci√™ncia de cidad√£o. Defendo que aonde vai um, deve ir o outro. N√£o recordo ter escrito uma s√≥ palavra que estivesse em contradi√ß√£o com as minhas convic√ß√Ķes pol√≠ticas, mas isso n√£o significa que alguma vez tenha posto a literatura ao servi√ßo da minha ideologia. O que significa, isso sim, √© que no momento em que escrevo estou expressando a totalidade da pessoa que sou.

O Que é a Inspiração?

Eu n√£o sei o que √© a inspira√ß√£o. Mas tamb√©m a verdade √© que √†s vezes n√≥s usamos conceitos que nunca paramos a examinar. Vamos l√° a ver: imaginemos que eu estou a pensar determinado tema e vou andando, no desenvolvimento do racioc√≠nio sobre esse tema, at√© chegar a uma certa conclus√£o. Isto pode ser descrito, posso descrever os diversos passos desse trajecto, mas tamb√©m pode acontecer que a raz√£o, em certos momentos, avance por saltos; ela pode, sem deixar de ser raz√£o, avan√ßar t√£o rapidamente que eu n√£o me aperceba disso, ou s√≥ me aperceba quando ela tiver chegado ao ponto a que, em circunst√Ęncias diferentes, s√≥ chegaria depois de ter passado por todas essas fases.
Talvez, no fundo, isso seja inspiração, porque há algo que aparece subitamente; talvez isso possa chamar-se também intuição, qualquer coisa que não passa pelos pontos de apoio, que saltou de uma margem do rio para a outra, sem passar pelas pedrinhas que estão no meio e que ligam uma à outra. Que uma coisa a que nós chamamos razão funcione desta maneira ou daquela, que funcione com mais velocidade ou que funcione de forma mais lenta e que eu posso acompanhar o próprio processo,

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