Cita√ß√Ķes sobre Fundo

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Frases sobre fundo, poemas sobre fundo e outras cita√ß√Ķes sobre fundo para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Tua Boca Adormeceu

A tua boca adormeceu
parece um cais muito antigo
à volta da minha boca.

Mas as palavras querem voltar à terra
ao fogo do silêncio que sustém as pontes
perdidas na sua própria sombra.

E h√° um c√£o de pedra como um fruto
que nos cobre com o seu uivo
enquanto p√°ssaros de ouro com m√£os de marfim
transplantam as √°rvores transparentes
para o ponto mais fundo do mar.

As l√°grimas que n√£o chorei
arrependidas
fazem transbordar a eterna agonia do mar
como um len√ßol f√ļnebre
com que tivesse alguém coberto o rosto metafórico
dos cinco continentes que em nós existem.

Assim é ao mesmo tempo
que sou eu e n√£o o sou
aquele relógio das horas de ouro
que além flutua.

Saudades Trágico-Marítimas

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.
Na praia, de bruços,
fico sonhando, fico-me escutando
o que em mim sonha e lembra e chora alguém;
e oiço nesta alma minha
um longínquo rumor de ladainha,
e soluços,
de al√©m…

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

São meus Avós rezando,
que andaram navegando e que se foram,
olhando todos os céus;
s√£o eles que em mim choram
seu fundo e longo adeus,
e rezam na √Ęnsia crua dos naufr√°gios;
choram de longe em mim, e eu oiço-os bem,
choram ao longe em mim sinas, press√°gios,
de al√©m, de al√©m…

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Naufraguei cem vezes j√°…
Uma, foi na nau S. Bento,
e vi morrer, no tr√°gico tormento,
Dona Leonor de S√°:
vi-a nua, na praia √°spera e feia,
com os olhos implorando
– olhos de esposa e m√£e –
e vi-a, seus cabelos desatando,
cavar a sua cova e enterrar-se na areia.
– E sozinho me fui pela praia al√©m…

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Parece com momentos que tive contigo, quando te amava, além dos quais não pude ir pois fui ao fundo dos momentos.

Sou J√° Meus Pensamentos Mas N√£o Eu

Tornei-me uma figura de livro, uma vida lida. O que sinto é (sem que eu queira) sentido para se escrever que se sentiu. O que penso está logo em palavras, misturado com imagens que o desfazem, aberto em ritmos que são outra coisa qualquer. De tanto recompor-me destruí-me. De tanto pensar-me, sou já meus pensamentos mas não eu. Sondei-me e deixei cair a sonda; vivo a pensar se sou fundo ou não, sem outra sonda agora senão o olhar que me mostra, claro a negro no espelho do poço alto, meu próprio rosto que me contempla contemplá-lo.

A Moda

As varia√ß√Ķes da sensibilidade sob a influ√™ncia das modifica√ß√Ķes do meio, das necessidades, das preocupa√ß√Ķes, etc., criam um esp√≠rito p√ļblico que varia de uma gera√ß√£o para outra e mesmo muitas vezes no espa√ßo de uma gera√ß√£o. Esse esp√≠rito publico, rapidamente dilatado por contacto mental, determina o que se chama a moda. Ela √© um possante factor de propaga√ß√£o da maior parte dos elementos da vida social, das nossas opini√Ķes e das nossas cren√ßas.
Não é só o vestuário que se submete às suas vontades. O teatro, a literatura, a política, a arte, as próprias idéias científicas lhe obedecem, e é por isso que certas obras apresentam um fundo de semelhança que permite falar do estilo de uma época.
Em virtude da sua acção inconsciente, submetemo-nos à moda sem que o percebamos. Os espíritos mais independentes a ela não se podem subtrair. São muito raros os artistas, os escritores que ousam produzir uma obra muito diferente das ideias do dia.
A influência da moda é tão pujante que ela obriga-nos, por vezes, a admirar coisas sem interesse e que parecerão mesmo de uma fealdade extrema, alguns anos mais tarde. O que nos impressiona numa obra de arte é muito raramente a obra em si mesma,

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Espiritualismo

I

Como um vento de morte e de ruína,
A D√ļvida soprou sobre o Universo.
Fez-se noite de s√ļbito, imerso
O mundo em densa e algida neblina.

Nem astro j√° reluz, nem ave trina,
Nem flor sorri no seu aéreo berço.
Um veneno subtil, vago, disperso,
Empeçonhou a criação divina.

E, no meio da noite monstruosa,
Do silêncio glacial, que paira e estende
O seu sud√°rio, d’onde a morte pende,

Só uma flor humilde, misteriosa,
Como um vago protesto da existência,
Desabroxa no fundo da Consciência.

II

Dorme entre os gelos, flor imaculada!
Luta, pedindo um ultimo clar√£o
Aos sóis que ruem pela imensidão,
Arrastando uma aur√©ola apagada…

Em v√£o! Do abismo a boca escancarada
Chama por ti na g√©lida amplid√£o…
Sobe do poço eterno, em turbilhão,
A treva primitiva conglobada…

Tu morrerás também. Um ai supremo,
Na noite universal que envolve o mundo,
Ha-de ecoar, e teu perfume extremo

No v√°cuo eterno se esvair√° disperso,
Como o alento final d’um moribundo,
Como o √ļltimo suspiro do Universo.

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Havia uma palavra no escuro. Min√ļscula. Ignorada. Martelava no escuro. Martelava no ch√£o da √°gua. Do fundo do tempo, martelava. contra o muro. Uma palavra. No escuro. Que me chamava.

Ruínas

Cobrem plantas sem flor crestados muros;
Range a porta anci√£; o ch√£o de pedra
Gemer parece aos pés do inquieto vate.
Ruína é tudo: a casa, a escada, o horto,
S√≠tios caros da inf√Ęncia.
Austera moça
Junto ao velho port√£o o vate aguarda;
Pendem-lhe as tranças soltas
Por sobre as roxas vestes.
Risos n√£o tem, e em seu magoado gesto
Transluz n√£o sei que dor oculta aos olhos;
‚ÄĒ Dor que √† face n√£o vem, ‚ÄĒ medrosa e casta,
√ćntima e funda; ‚ÄĒ e dos cerrados c√≠lios
Se uma discreta muda
L√°grima cai, n√£o murcha a flor do rosto;
Melancolia t√°cita e serena,
Que os ecos n√£o acorda em seus queixumes,
Respira aquele rosto. A m√£o lhe estende
O abatido poeta. Ei-los percorrem
Com tardo passo os relembrados sítios,
Ermos depois que a m√£o da fria morte
Tantas almas colhera. Desmaiavam,
Nos serros do poente,
As rosas do crep√ļsculo.
“Quem és? pergunta o vate; o sol que foge
No teu l√Ęnguido olhar um raio deixa;
‚ÄĒ Raio quebrado e frio; ‚ÄĒ o vento agita
Tímido e frouxo as tuas longas tranças.

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Rompeu-Se O Denso Véu Do Atroz Marasmo

Rompeu-se o denso véu do atroz marasmo
E como por fatal, negro hebetismo
De antro sepulcral, de fundo abismo
O povo ressurgiu com entusiasmo!

O Zoilo mazorral se queda pasmo
Sup√Ķe quimera ser, ser cataclismo
Roga, j√° por dobrez, por ceticismo
De néscio, vil truão solta o sarcasmo.

Perd√£o, Filho da Luz, minh’alma exora,
Porém, a pátria diz, somente agora
Os grilh√Ķes biparti de atroz moleza!

E ele, o nosso herói já redivivo
De pé, sem se curvar, sereno, altivo
Co’as raias do porvir mede a grandeza!

A Satisfação do Trabalho

Para não sofrer, trabalha. Sempre que puderes diminuir o teu tédio ou o teu sofrimento pelo trabalho, trabalha sem pensar. Parece simples à primeira vista. Eis um exemplo trivial: saí de casa e sinto que as roupas me incomodam, mas com a preguiça de voltar atrás e mudar de roupa continuo a caminhar. Existem contudo muitos outros exemplos. Se se aplicasse esta determinação tanto às coisas banais da existência como às coisas importantes, comunicar-se-ia à alma um fundo e um equilíbrio que constituem o estado mais propício para repelir o tédio.
Sentir que fazemos o que devemos fazer aumenta a considera√ß√£o que temos por n√≥s pr√≥prios; desfrutamos, √† falta de outros motivos de contentamento, do primeiro dos prazeres – o de estar contente consigo mesmo… √Č enorme a satisfa√ß√£o de um homem que trabalhou e que aproveitou convenientemente o seu dia. Quando me encontro nesse estado, gozo depois, deliciadamente, com o repouso e os mais pequenos lazeres. Posso mesmo encontrar-me no meio das pessoas mais aborrecidas, sem o menor desagrado; a recorda√ß√£o do trabalho feito n√£o me abandona e preserva-me do aborrecimento e da tristeza.

Não se pode mudar ninguém, só nós mesmos. Ninguém é como nós, como tal jamais poderemos exigir que os outros tenham as atitudes que nós teríamos. Não estamos dentro das suas peles, não conhecemos a fundo as suas histórias, os traumas adquiridos nem as incapacidades que os toldaram.

Assim

Assim foi nosso amor… um sonho que viveu
de um sonho, e despertou na realidade um dia…
Um pouco de quimera ao l√©u da fantasia…
Um flor que brotou e num bot√£o morreu…

Embora sendo nosso, este amor foi só meu,
porque o teu, n√£o foi mais que pura hipocrisia,
– no fundo, h√° muito tempo, a minha alma sentia
este fim que o destino afinal j√° lhe deu…

Não podes, bem o sei Рsendo mulher como és,
saber quanto sofri, vendo esta flor desfeita
e as p√©talas no ch√£o, pisadas por teus p√©s…

Que importa ? H√°s de sofrer mais tarde – a vida √© assim…
Esse mesmo sorrir que agora te deleita
√© o mesmo que depois h√° de amargar teu fim!…

Maurício, Quero que o teu nome fique inscrito também no pórtico deste livro, que viste amadurecer e que enriqueceste com mais de uma sugestão preciosa. Ele ficará como um marco significativo em nossas vidas- o símbolo de uma funda amizade, a recordação dos sonhos de solidariedade humana que sonhamos juntos.

Spleen

Fora, na vasta noute, um vento de procela
Erra, aos saltos, uivando, em rajadas e em f√ļria;
E num rumor de choro, uma voz de lam√ļria,
Ouço a chuva a escorrer nos vidros da janela.

No desconforto do meu quarto de estudante,
Velo. Sinto-me como insulado da vida.
Eu imagino a morte assim, aborrecida
Solid√£o numa sombra infinita e constante…

Tu, que √©s forte, rebrame em f√ļria, natureza!
Eu, caído num fundo abismo de tristeza,
Invejo-te a expans√£o livre do temporal;

E, no tédio feroz que me assalta e me toma,
Sinto ansiarem-me n’alma instintos de chacal…
E compreendo Nero incendiando Roma.

O mundo que eu criei, não é o mundo que me criaram, enfim, e, porquanto eu sei, no fundo, nunca saberei de mim, mas eu sei quem eu sou.

Memória Consentida

Neste lugar sem tempo nem memória,
nesta luz absoluta ou absurda,
ou só escuridão total, relances há
em que creio, ou se me afigura,
ter tido, alguma vez, passado

com biografia, onde se misturam
datas, nomes, caras, paisagens
que, de t√£o r√°pidas, me deixam
apenas a lembrança agoniada
de n√£o mais poder lembr√°-las.

Sobra, por vezes, um estilhaço
ou fragmento, como o latido
de um c√£o na tarde dolente
e comprida de uma remota inf√Ęncia.
Ou o indistinto murm√ļrio de vozes

junto de um rio que, como as vozes,
n√£o existe j√° quando para ele
volvo, surpreso, o olhar cansado.
Insidiosas, rangem t√°buas no soalho,
ou é o sussurro brando do vento

no zinco ondulado, na fronde umbrosa
dos eucaliptos de perfil no horizonte,
com o mar ao fundo. Que soalho,
de que casa, que vento em que paragens,
onde o mar ao longe que, entrevistos,

os n√£o vejo j√° ou, sequer, recordo
na brevidade do instante cruel?
De que sonho, ou vida, ou espaço de outrem
provêm tais sombras melancólicas,

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Desastre

Ele ia numa maca, em √Ęnsias, contrafeito,
Soltando fundos ais e trêmulos queixumes;
Caíra dum andaime e dera com o peito,
Pesada e secamente, em cima duns tapumes.

A brisa que balouça as árvores das praças,
Como uma m√£e erguia ao leito os cortinados,
E dentro eu divisei o ungido das desgraças,
Trazendo em sangue negro os membros ensopados.

Um preto, que sustinha o peso dum varal,
Chorava ao murmurar-lhe: “Homem n√£o desfale√ßa!”
E um lenço esfarrapado em volta da cabeça,
Talvez lhe aumentasse a febre cerebral.

***
Findara honrosamente. As lutas, afinal,
Deixavam repousar essa criança escrava,
E a gente da prov√≠ncia, at√īnita, exclamava:
“Que provid√™ncias! Deus! L√° vai para o hospital!”

Por onde o morto passa h√° grupos, murmurinhos;
Mornas essências vêm duma perfumaria,
E cheira a peixe frito um armazém de vinhos,
Numa travessa escura em que n√£o entra o dia!

Um fidalgote brada e duas prostitutas:
“Que espantos! Um rapaz servente de pedreiro!”
Bisonhos, devagar, passeiam uns recrutas
E conta-se o que foi na loja dum barbeiro.

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