Passagens sobre Humanos

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Frases sobre humanos, poemas sobre humanos e outras passagens sobre humanos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O Livro da Vida

Absorto, o S√°bio antigo, estranho a tudo, lia…
‚ÄĒ Lia o ¬ęLivro da Vida¬Ľ ‚ÄĒ heran√ßa inesperada,
Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria
Ao primeiro clar√£o da primeira alvorada.

Perto dele caminha, em ruidoso tumulto,
Todo o humano tropel num clamor ululando,
Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,
Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.

Passa o Estio, a cantar; acumulam-se Invernos;
E ele sempre, ‚ÄĒ inclinada a dorida cabe√ßa,‚ÄĒ
A ler e a meditar postulados eternos,
Sem um fanal que o seu espírito esclareça!

Cada p√°gina abrange um est√°dio da Vida,
Cujo eterno segredo e alcance transcendente
Ele tenta arrancar da folha percorrida,
Como de mina obscura a pedra refulgente.

Mas o tempo caminha; os anos v√£o correndo;
Passam as gera√ß√Ķes; tudo √© p√≥, tudo √© v√£o…
E ele sem descansar, sempre o seu Livro lendo!
E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.

Nesse eterno cismar, nada vê, nada escuta:
Nem o tempo a dobrar os seus anos mais belos,
Nem o humano sofrer,

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O Terror como Base da Religi√£o

√Č verdade que tanto o medo como a esperan√ßa entram na religi√£o, porque estas duas paix√Ķes, em alturas diferentes, agitam a mente humana e cada uma delas forma uma esp√©cie de divindade que lhe √© adequada. Mas, quando um homem se sente bem, ele est√° inclinado para os neg√≥cios, para o conv√≠vio ou para qualquer esp√©cie de divertimento, e dedica-se naturalmente a essas actividades e n√£o pensa em religi√£o. Quando est√° melanc√≥lico e abatido, tudo o que para fazer √© meditar sobre os terrores do mundo invis√≠vel, e mergulhar mais profundamente ainda na afli√ß√£o. Pode realmente acontecer que, ap√≥s ter assim gravado profundamente as opini√Ķes religiosas no seu pensamento e imagina√ß√£o, ocorra uma altera√ß√£o da sa√ļde ou das circunst√Ęncias que restaure o seu bom humor e, ocasionando boas perspectivas de futuro, o fa√ßa cair no extremo oposto da alegria e triunfo. Mas, ainda assim deve reconhecer-se que, como o terror √© o princ√≠pio primordial da religi√£o, √© essa a paix√£o que predomina nela e que s√≥ admite pequenos intervalos de prazer.

A Solidão é Necessária ao Convívio

As pessoas est√£o prontas a viver em bom entendimento, mas n√£o querem ser viciadas em agradar. A condi√ß√£o humana assenta num pressuposto equilibrado: a vida agrada a uns e desagrada a outros. H√° uma parte da solid√£o que n√£o podemos compor, e √© melhor que assim seja, porque √© na solid√£o que assenta a diferen√ßa t√£o falada. √Č isso que se receia: que nos pro√≠bam a solid√£o, esse pequeno espinho que afinal nos faz solid√°rios na multid√£o. Observem um grupo de pessoas que ri da mesma anedota: est√£o abertas a esse prazer do momento, mas n√£o se distraem da faculdade de serem s√≥s na sua fundamental forma de orgulho que √© serem √ļnicas. A moral consta duma certa dose de cortesia para parecermos bons. ¬ęS√≥ Deus √© bom.¬Ľ Se percebermos esta conclus√£o, percebemos que imitar o bem √© tudo o que humanamente nos √© permitido.

Riqueza Ilimitada mas Mortal

Eu n√£o posso, pensando bem, descobrir como √© poss√≠vel a n√≥s, que demos tanta import√Ęncia √† riqueza ilimitada e que, para falar a verdade, a divinizamos, n√£o admitir nas nossas almas os males que crescem com ela. Acompanha, com efeito, a riqueza sem medida e sem cora√ß√£o, ligada a ela, e como se diz marchando no mesmo passo, a prodigalidade, e √† medida que a riqueza abre o acesso √†s cidades e √†s casas ela entra junto e coabita. Depois, com o tempo, segundo os s√°bios, esses seres fazem os seus ninhos nas vidas humanas e rapidamente engendram outros seres, no momento da procria√ß√£o, como a cupidez, o orgulho e a lux√ļria, que n√£o s√£o seus bastardos mas filhos leg√≠timos.
Mas se permitir que esses filhos da riqueza avancem na idade, logo para as almas eles engendrar√£o tiranos inexor√°veis, a viol√™ncia, a ilegalidade e a imprud√™ncia. Pois √© assim necessariamente; os homens n√£o olham mais para o alto e n√£o d√£o import√Ęncia ao renome na posteridade, mas a destrui√ß√£o das vidas (dos homens) completa-se pouco a pouco num tal ciclo e a grandeza das almas fenece, enfraquece e n√£o √© mais assunto de emula√ß√£o, quando se reserva a sua admira√ß√£o √†s partes mortais de si mesmo,

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Como é Difícil Ser Natural

√Č curioso como √© dif√≠cil ser natural. Como a gente est√° sempre pronta a vestir a casaca das ideias, sem a humildade de se mostrar em camisa, na intimidade simples e humana da estupidez ou mesmo da indiferen√ßa. Fiz agora um grande esfor√ßo para dizer coisas brilhantes da guerra futura, da harmonia dos povos, da pr√≥xima crise. E, afinal de contas, era em camisa que eu devia continuar quando a visita chegou. No fundo, n√£o disse nada de novo, n√£o fiquei mais do que sou, n√£o mudei o curso da vida. Fui apenas rid√≠culo. Se n√£o aos olhos do interlocutor, que disse no fim que gostou muito de me ouvir, pelo menos aos meus, o que ainda √© mais penoso e mais tr√°gico.

Para eliminar a desarmonia do lar √© preciso que o marido, a mulher, os pais, os filhos, a sogra, a nora, etc. se coloquem um no lugar do outro. O marido deve pensar: ‚ÄėColocando-me no lugar de minha mulher, percebo qu√£o desastrado tenho sido como marido. Perdoe-me, querida‚Äô. A mulher deve pensar: ‚Äė Colocando-me no lugar de meu marido, percebo o quanto tenho sido incompetente como esposa. Perd√£o, querido‚Äô. Deste modo, cada um deve abrir o cora√ß√£o e pedir perd√£o. O ser humano n√£o perde a dignidade s√≥ porque pediu perd√£o. Se algu√©m se sente diminu√≠do quando pede perd√£o √© porque n√£o conhece a Verdade. Pedir perd√£o significa anular o ‚Äėfalso eu‚Äô e fazer renascer o ‚ÄėEu verdadeiro‚Äô (filho de Deus). Nesse momento, a pessoa se torna verdadeiramente forte.

A Quimera da Felicidade

(…) do alto de uma montanha, inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, atrav√©s de um nevoeiro, uma cousa √ļnica. Imagina tu, leitor, uma redu√ß√£o dos s√©culos, e um desfilar de todos eles, as ra√ßas todas, todas as paix√Ķes, o tumulto dos imp√©rios, a guerra dos apetites e dos √≥dios, a destrui√ß√£o rec√≠proca dos seres e das cousas. Tal era o espect√°culo, acerbo e curioso espect√°culo. A hist√≥ria do homem e da terra tinha assim uma intensidade que n√£o lhe podiam dar nem a imagina√ß√£o nem a ci√™ncia, porque a ci√™ncia √© mais lenta e a imagina√ß√£o mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensa√ß√£o viva de todos os tempos. Para descrev√™-la seria preciso fixar o rel√Ęmpago. Os s√©culos desfilavam num turbilh√£o, e, n√£o obstante, porque os olhos do del√≠rio s√£o outros, eu via tudo o que passava diante de mim, – flagelos e del√≠cias, – desde essa cousa que se chama gl√≥ria at√© essa outra que se chama mis√©ria, e via o amor multiplicando a mis√©ria, e via a mis√©ria agravando a debilidade. A√≠ vinham a cobi√ßa que devora, a c√≥lera que inflama, a inveja que baba,

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O perdão vai além da justiça humana; é perdoar aquelas coisas que absolutamente não podem ser perdoadas.

Limiar da Maldade

S√£o conhecidos da f√≠sica fen√≥menos que ocorrem apenas a magnitudes limiares, que de modo algum existem at√© determinado limiar codificado e conhecido da natureza ter sido ultrapassado… √Č evidente que a malvadez tamb√©m tem o seu limiar. Sim, um ser humano hesita e oscila entre o bem e o mal toda a sua vida… Mas enquanto o limiar de maldade n√£o for ultrapassado, a possibilidade de retorno mant√©m-se e o indiv√≠duo mant√©m-se dentro dos limites da nossa esperan√ßa.

Soneto XXII

Ao mesmo

Rico Almazém, que Deus estima e preza,
Mais forte que o poder do inferno forte,
Bem te armas de ua morte e de outra morte,
Para qualquer encontro e brava empresa.

Arma-se o fraco c√° de fortaleza
Para que assi resista ao duro corte;
Mas Deus sempre peleja d’outra sorte,
Cobrindo o forte de mortal fraqueza.

Usou c’o inferno deste pr√≥prio modo,
Iscando o anzol da natureza sua
Co’ a nossa; e foi-se o pece tr√°s o engano.

E co’ as armas da carne rota e nua
Dos M√°rtires venceu o mundo todo,
Hoje em ti as p√Ķem para socorro humano.

A Racionalidade Irracional

Eu digo muitas vezes que o instinto serve melhor os animais do que a raz√£o a nossa esp√©cie. E o instinto serve melhor os animais porque √© conservador, defende a vida. Se um animal come outro, come-o porque tem de comer, porque tem de viver; mas quando assistimos a cenas de lutas terr√≠veis entre animais, o le√£o que persegue a gazela e que a morde e que a mata e que a devora, parece que o nosso cora√ß√£o sens√≠vel dir√° ¬ęque coisa t√£o cruel¬Ľ. N√£o: quem se comporta com crueldade √© o homem, n√£o √© o animal, aquilo n√£o √© crueldade; o animal n√£o tortura, √© o homem que tortura. Ent√£o o que eu critico √© o comportamento do ser humano, um ser dotado de raz√£o, raz√£o disciplinadora, organizadora, mantenedora da vida, que deveria s√™-lo e que n√£o o √©; o que eu critico √© a facilidade com que o ser humano se corrompe, com que se torna maligno.

Aquela ideia que temos da esperança nas crianças, nos meninos e nas meninas pequenas, a ideia de que são seres aparentemente maravilhosos, de olhares puros, relativamente a essa ideia eu digo: pois sim, é tudo muito bonito, são de facto muito simpáticos,

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Soneto V РÀ Sra. Marieta Landa

Disseste a nota amena d’alegria,
E, arrebatado ent√£o nesse momento
De um doce, divinal contentamento,
Eu senti que minh’alma aos c√©us subia.

Disseste a nota da melancolia,
Negra nuvem toldou-me o pensamento;
Senti que agudo espinho virulento
Do coração as fibras me rompia.

√Čs anjo ou nume, tu que desta sorte
Trazes o peito humano arrebatado
Em sucessivo e r√°pido transporte?!

Anjo ou nume não és; mas, se te é dado
No canto dar a vida, ou dar a morte,
Tens nas m√£os teu Porvir, teu bem, teu fado.

Mesmo que transforme o mundo exterior, o ser humano n√£o ser√° feliz se n√£o mudar a sua mente. A felicidade est√° na mente do pr√≥prio ser humano. Mentalizando a felicidade, ocorre a vibra√ß√£o mental de felicidade; ocorrendo a vibra√ß√£o mental de felicidade, estabelece-se a sintonia com as vibra√ß√Ķes de felicidade do mundo e concretiza-se uma vida feliz.

M√£e

Conheço a tua força, mãe, e a tua fragilidade.
Uma e outra têm a tua coragem, o teu alento vital.
Estou contigo mãe, no teu sonho permanente na tua esperança incerta
Estou contigo na tua simplicidade e nos teus gestos generosos.
Vejo-te menina e noiva, vejo-te m√£e mulher de trabalho
Sempre fr√°gil e forte. Quantos problemas enfrentaste,
Quantas afli√ß√Ķes! Sempre uma for√ßa te erguia vertical,
sempre o alento da tua fé, o prodigioso alento
a que se chama Deus. Que existe porque tu o amas,
tu o desejas. Deus alimenta-te e inunda a tua fragilidade.
E assim est√°s no meio do amor como o centro da rosa.
Essa √Ęnsia de amor de toda a tua vida √© uma onda incandescente.
Com o teu amor humano e divino
quero fundir o diamante do fogo universal.

O ser humano vivencia a si mesmo, os seus pensamentos como algo separado do resto do universo, numa espécie de ilusão de óptica da sua consciência. E essa ilusão é uma espécie de prisão que nos restringe aos nossos desejos pessoais, conceitos e ao afeto por pessoas mais próximas.

Soneto XXXXIIII

Do fundo sobe do mar Indo acima
A recolher o orvalho a concha, e nela,
Despois que pouco a pouco se congela,
A pérola nos dá de tanta estima.

Hoje, despois que o Céu choveu de cima
O rico orvalho, aquela concha, aquela
Divina humana, mais que todas bela,
O mundo pobre com seu parto anima.

Mas ai que a concha aberta o orvalho fino
Recebe, e em pedra dá; porém, Maria,
De outra invenção e modo extraordinário.

E como vem t√£o pobre este minino?
Vem tosca pedra, e seu preço e valia
Só conhece o discreto lapidário.

Cuidar da vida humana e da felicidade, e n√£o de sua destrui√ß√£o, √© o primeiro e √ļnico objetivo do bom governo.

A Carnal Tentação Desenfreada

A carnal tentação desenfreada
Que ao sangue quente alta justiça pede,
Fez com que eu, embrulhando-me na rede
Subisse de uma puta a infame escada.

Ligeiras pulgas saltam de emboscada
Fartando em mim de sangue humano a sede;
Arde a vela pregada na parede,
J√° de antigos morr√Ķes afogueada.

Saiu da alcova a desgrenhada f√ļria
Respirando venal sensualidade,
Vil desalinho, s√≥rdida pen√ļria:

Muito pode a pobreza e a porquidade;
Abati as bandeiras √† lux√ļria
Jurei no altar de Vénus castidade.