Passagens sobre Morte

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Frases sobre morte, poemas sobre morte e outras passagens sobre morte para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

L√ļcia

(Alfred de Musset)

Nós estávamos sós; era de noite;
Ela curvara a fronte, e a m√£o formosa,
Na embriaguez da cisma,
Tênue deixava errar sobre o teclado;
Era um murm√ļrio; parecia a nota
De aura longínqua a resvalar nas balsas
E temendo acordar a ave no bosque;
Em torno respiravam as boninas
Das noites belas as vol√ļpias mornas;
Do parque os castanheiros e os carvalhos
Brando embalavam orvalhados ramos;
Ouvíamos a noite, entre-fechada,
A rasgada janela
Deixava entrar da primavera os b√°lsamos;
A v√°rzea estava erma e o vento mudo;
Na embriaguez da cisma a sós estávamos
E tínhamos quinze anos!

L√ļcia era loura e p√°lida;
Nunca o mais puro azul de um céu profundo
Em olhos mais suaves refletiu-se.
Eu me perdia na beleza dela,
E aquele amor com que eu a amava ‚Äď e tanto ! ‚Äď
Era assim de um irm√£o o afeto casto,
Tanto pudor nessa criatura havia!

Nem um som despertava em nossos l√°bios;
Ela deixou as suas m√£os nas minhas;
Tíbia sombra dormia-lhe na fronte,

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Eu relutei, mas acabei por descartar a possibilidade de continuar a gerir o portif√≥lio da Berkshire depois da minha morte. E, com isso, abandonei a esperan√ßa de dar um novo significado √† express√£o ‘pensar fora da caixa’.

Abre-me as Portas, M√£e

Abre-me as portas, m√£e, enquanto as estrelas
buscam em mim agora a treva infinda,
sem luz alguma no meu olhar a vê-las
nessa cegueira a ser da altura vinda.
Assim, mãe, invado tua noite, a sabê-las
eternamente em pó na luz que é finda
só para mim, que vou comigo pelas
manh√£s nascendo todas cegas ainda.
Como fazê-las ser de novo vivas?
Como, se nunca delas fui um conviva
às vidas feitas festas para as vistas?
Para arranc√°-las da morte onde as pus,
quero essa noite, ó mãe, roubada à luz
do céu que, embora cega, tu conquistas.

A Minha √ļnica Felicidade √©s Tu

At√© agora ainda nada te disse da nossa vida de fam√≠lia. Devo dizer-te algumas palavras para que saibas com que contar. Temos uma vida muito tranquila, vida que sempre desejei e a que estou realmente habituado. A m√ļsica ou o teatro v√™m por vezes interromper a monotonia desta vida quase mon√°stica. Quando vieres faremos mais ou menos a mesma vida interrompendo no entanto a monotonia pelo teatro, pequenos ser√Ķes musicais e mesmo dan√ßantes se isso te agradar. Sem isso passaremos os nossos ser√Ķes ao lado um do outro a conversar e a dar gra√ßas ao bom Deus pela nossa felicidade. Devo tamb√©m falar-te dos meus gostos e das minhas qualidades tanto quanto posso conhec√™-los. Sou um grande fumador, um ca√ßador bastante bom, apaixonado pela m√ļsica e dan√ßarino med√≠ocre. Quanto √†s qualidades e aos defeitos, j√° que todos os temos, tenho mais dificuldade em falar deles, j√° que ningu√©m √© bom juiz em causa pr√≥pria. Contudo todas as minhas qualidades se fundir√£o numa s√≥, a de te adorar e n√£o amar a mais ningu√©m no mundo, anjo da minha vida. Quando estivermos unidos, s√≥ viveremos juntos, onde um ir√°, o outro seguir√°, o que um quiser o outro tamb√©m h√°-de querer.

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Da mesma forma que a religião não pode viver sem a morte, também o capitalismo não só vive da pobreza como a multiplica.

As Pessoas Riam-se de Mim

A minha susceptibilidade a certo tipo de sustos (medo) era grande. Na rua, um homem caminhando na minha direcção, isto é, na direcção contrária, tirou da algibeira um lenço à minha frente; comecei de imediato a pensar, inconscientemente, acho, que estava a tirar uma arma ou um revólver.
A minha vista curta ‚ÄĒ nem sempre, mas excessivamente no que respeita aos tra√ßos das pessoas, aos gestos ‚ÄĒ afectava o meu c√©rebro desequilibrado. A minha imagina√ß√£o interpretava mal o car√°cter dos seus olhares. Distorcia, n√£o sabia explicar porqu√™, a inten√ß√£o e o significado dos seus gestos. O meu pr√≥prio sentido de audi√ß√£o era d√©bil; aplicava a mim pr√≥prio, retorcendo-as, as palavras que captava. Via em cada palavra um termo destinado a ofender-me, em cada frase, mal apanhada, a sombra e o vislumbre de um insulto.
As pessoas na rua riam-se: riam-se de mim. A minha vista d√©bil n√£o me deixava destruir esta ilus√£o. N√£o me atrevia a p√īr os √≥culos que tinha no bolso, pois temia que as minhas desconfian√ßas se revelassem fundadas.
Ansiava por ter uma grande auto-estima, para que a minha pessoa me fizesse esquecer de mim pr√≥prio. Desejava, oh, como desejava! ‚ÄĒ o impulso de me dedicar aos outros para que eles me fizessem esquecer de mim.

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O h√°bito √© que me faz suportar a vida. √Äs vezes acordo com este grito: – A morte! A morte! – e debalde arredo o est√ļpido aguilh√£o. Choro sobre mim mesmo como sobre um sepulcro vazio. Oh! Como a vida pesa, como este √ļnico minuto com a morte pela eternidade pesa! Como a vida espl√™ndida √© aborrecida e in√ļtil! N√£o se passa nada, n√£o se passa nada. Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras. Petrificam-se os h√°bitos lentamente acumulados. O tempo m√≥i: m√≥i a ambi√ß√£o e o fel e torna as figuras grotescas.

Os V√°rios Tipos de Amor

Parece-me que podemos, com maior razão, distinguir o amor em função da estima que temos pelo que amamos, em comparação com nós mesmos. Pois quando estimamos o objecto do nosso amor menos que a nós mesmos, temos por ele apenas uma simples afeição; quando o estimamos tanto quanto a nós mesmos, a isso se chama amizade; e quando o estimamos mais, a paixão que temos pode ser denominada como devoção. Assim, podemos te afeição por uma flor, por um pássaro, por um cavalo; porém, a menos que o nosso espírito seja muito desajustado, apenas por seres humanos podemos ter amizade. E de tal maneira eles são objecto dessa paixão que não há homem tão imperfeito que não possamos ter por ele uma amizade muito perfeita, quando pensamos que somos amados por ele e quando temos a alma verdadeiramente nobre e generosa.
Quanto √† devo√ß√£o, o seu principal objecto √© sem d√ļvida a soberana divindade, da qual n√£o poder√≠amos deixar de ser devotos quando a conhecemos como se deve conhecer. Mas tamb√©m podemos ter devo√ß√£o pelo nosso pr√≠ncipe, pelo nosso pa√≠s, pela nossa cidade, e mesmo por um homem particular quando o estimamos muito mais que a n√≥s mesmos. Ora,

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Contra a Morte e o Amor n√£o H√° Quem Tenha Valia

Era ainda o mês de abril,
de maio antes um dia,
quando lírios e rosas
mostram mais sua alegria;
pela noite mais serena
que fazer o céu podia,
quando Flérida, a formosa
infanta, j√° se partia,
ela na horta do pai
para as √°rvores dizia:
“Ficai, adeus, minhas flores,
em que glória ver soía.
Vou-me a terras estrangeiras,
a que ventura me guia.
Se meu pai me for buscar,
que grande bem me queria,
digam-lhe que amor me leva,
e que eu sem culpa o seguia;
que tanto por mim porfiava
que venceu sua porfia.
Triste, n√£o sei aonde vou,
e a mim ningu√©m o dizia!‚ÄĚ
Eis que fala Dom Duardos:
“Não choreis, minha alegria,
que nos reinos de Inglaterra
mais claras √°guas havia,
e mais formosos jardins,
e vossos, senhora, um dia:
tereis trezentas donzelas
de alta genealogia,
de prata s√£o os pal√°cios
para vossa senhoria;
de esmeraldas e jacintos,
de ouro fino da Turquia,
com letreiros esmaltados
que minha vida à porfia
v√£o contando,

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Sonho

Numa casa de vidro te sonhei.
Numa casa de vidro me esperavas.
Num poço ou num cristal me debrucei.
Só no teu rosto a morte me alcançava.

De quem a morte, por terror de mim?
De quem o infinito que faltava?
Numa casa de vidro vi meu fim.
Numa casa de vidro me esperavas.

Numa casa de vidro as persianas
desciam lentamente e em seu lugar
a noite abria o escuro das entranhas
e o teu rosto morria devagar.

Numa casa de vidro te sonhei.
Numa casa de vidro me esperavas.
Fiz do teu corpo sonho e n√£o olhei
nas palavras a morte que guardavas.

Descemos devagar as persianas,
deix√°mos que o amor nos corroesse
o íntimo da casa e as estranhas
cerimónias do dia que adoece.

Numa casa de vidro. Num espelho.
Na memória, por vezes amargura,
por vezes riso falso de t√£o velho,
cantar da sombra sobre a selva escura.

Numa casa de vidro te sonhei.
No vazio dessa casa me esperavas.

Vida Sempre

Entre a vida e a morte h√° apenas
o simples fenómeno
de uma subtil transformação. A morte
não é morte da vida.
A morte não é inação, inutilidade.
A morte é apenas a face obscura,
mínima, em gestação
de uma viagem que n√£o cessa de ser. Aventura
prolongada
desde o por√£o do tempo. Projectando-se
nas naves inconcebíveis do futuro.

A morte não é morte da vida: apenas
novas formas de vida. Nova
utilidade. Outro papel a desempenhar
no palco velocíssimo do mundo. Novo ser-se (comércio
do pó) e não se pertencer.
Nova claridade, respiração, naufrágio
na maquina incompar√°vel do universo.

Manufacturamos Realidades

Damos comummente √†s nossas ideias do desconhecido a cor das nossas no√ß√Ķes do conhecido: se chamamos √† morte um sono √© porque parece um sono por fora; se chamamos √† morte uma nova vida √© porque parece uma coisa diferente da vida. Com pequenos mal-entendidos com a realidade constru√≠mos as cren√ßas e as esperan√ßas, e vivemos das c√īdeas a que chamamos bolos, como as crian√ßas pobres que brincam a ser felizes.
Mas assim é toda a vida; assim, pelo menos, é aquele sistema de vida particular a que no geral se chama civilização. A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objecto torna-se realmente outro, porque o tornámos outro.
Manufacturamos realidades. A matéria-prima continua a ser a mesma, mas a forma, que a arte lhe deu, afasta-a efectivamente de continuar sendo a mesma. Uma mesa de pinho é pinho mas também é mesa. Sentamo-nos à mesa e não ao pinho. Um amor é um instinto sexual, porém não amamos com o instinto sexual, mas com a pressuposição de outro sentimento. E essa pressuposição é,

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(À morte da esposa)

√ď alma pura enquanto c√° vivias,
Alma, l√° onde vives, j√° mais pura,
Porque me desprezaste? Quem t√£o dura
Te tornou ao amor que me devias?

Isto era o que mil vezes prometias,
Em que minha alma estava t√£o segura?
Que ambos juntos Da hora desta escura
Noute nos subiria aos claros dias?

Como em t√£o triste c√°rcer’ me deixaste?
Como pude eu sem mi deixar partir-te?
Como vive este corpo sem sua alma?

Ah! que o caminho tu bem mo mostraste,
Porque correste à gloriosa palma!
Triste de quem n√£o mereceu seguir-te!

Se você trata cada situação como uma questão de vida ou morte, morrerá muitas vezes.

O Inventário da Nossa Civilização

Fazer o invent√°rio ou uma an√°lise da nossa civiliza√ß√£o, quer dizer o qu√™? Procurar esclarecer, de uma maneira rigorosa, a armadilha que fez do homem escravo das suas pr√≥prias cria√ß√Ķes. Por onde se infiltrou a inconsci√™ncia entre a ac√ß√£o e o pensamento met√≥dicos? Na vida selvagem, a evas√£o constitui uma solu√ß√£o pregui√ßosa. √Č preciso reencontrar, na pr√≥pria civiliza√ß√£o em que vivemos, o pacto original entre o esp√≠rito e o mundo. De resto, trata-se de uma tarefa imposs√≠vel de concretizar, por causa da brevidade da vida e da impossibilidade da colabora√ß√£o e da sucess√£o. O que n√£o √© raz√£o para n√£o a empreender. Estamos todos em situa√ß√£o an√°loga √† de S√≥crates, o qual, enquanto esperava a morte na pris√£o, aprendeu a tocar lira… pelo menos, teremos vivido…

N√£o tema deus,
N√£o se preocupe com a morte
O que é bom é fácil de ter, e
O que é terrível é fácil aguentar.