Passagens sobre Morte

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Frases sobre morte, poemas sobre morte e outras passagens sobre morte para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O Corpo Insurrecto

Sendo com o seu ouro, aurífero,
o corpo é insurrecto.
Consome-se, combustível,
no sexo, boca e recto.

Ainda antes que pegue
aos cinco sentidos a chama,
por um aceso acesso
da imaginação
ateiam-se à cama
ou a sítio algures,
terra de ninguém,
(quem desliza é o espaço
para o corpo que vem),

labaredas tais
que, lume, crepitam
nos ciclos mais extremos,
nas réstias mais íntimas,
as gl√Ęndulas, esponjas
que os corpos apoiam,
zonas aqu√°ticas
onde os órgãos boiam.

No amor, dizendo acto de o sagrar,
apertado o corpo do recém-nascido
no ovo solar, h√° ainda um outro
corpo incluído,
mas um corpo aquém
de ser s√£o ou podre,
um repuxo, um magma,
subst√Ęncia solta,
com pulm√Ķes.

Neste amor equívoco
(ou respiração),
sendo um corpo humano,
sendo outro mais alto,
suspenso da morte,
mortalmente intenso,
mais alto e mais denso,

mais talhado é o golpe
quando o p√Ķem em pr√°tica
com desassossego na respiração
e o sossego cru de quem,

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A Duração da Vida em Perspectiva

A nossa religião não teve fundamento humano mais seguro do que o desprezo pela vida. Não somente o exercício da razão nos convida a isso, pois por que temeríamos perder uma coisa que perdida não pode ser lamentada; e, já que somos ameaçados por tantas formas de morte, não haverá maior mal em temê-las todas do que em suportar uma?
Que importa quando ela ser√°, pois que √© inevit√°vel? A algu√©m que dizia a S√≥crates: ¬ęOs trinta tiranos condenaram-te √† morte¬Ľ, respondeu ele: ¬ęE a natureza a eles¬Ľ. Que tolice nos atormentarmos sobre o momento da passagem para a isen√ß√£o de todo o tormento!
Assim como o nosso nascimento nos trouxe o nascimento de todas as coisas, assim a nossa morte trará a morte de todas as coisas. Por isso, chorar porque daqui a cem anos não estaremos a viver é loucura igual a chorar porque há cem anos atrás não vivíamos. A morte é origem de uma outra vida. Assim choramos nós; assim nos custou entrar nesta aqui; assim nos despojamos do nosso antigo véu quando entramos naquela.
Não pode ser penoso algo que o é apenas uma vez. Será certo temer por tão longo tempo uma coisa de tão breve duração?

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Ai de mim, que me abraso em fogo vivo,
Com mil mortes ao lado,
E, quando morro mais, ent√£o mais vivo!
Porque assi me h√° ordenado
Meu infelice estado
Que, quando me convida
A morte, pera a morte tenha vida.

A Matança

N√£o penses
que a carne apenas é aquela oca
lívida carcaça
em imóvel galope alucinado,
embarrada numa trave da adega.

N√£o penses
que o milagre anual da salgadeira
vem sem morte e sem trabalhos. N√£o:

Contar-te-ei
que primeiro atam o porco em sua loja
com uma corda em torno do focinho
e o arrastam à força para o ar lavado e frio.

Contar-te-ei
que o porco luta e resiste: ora sentado
sobre os quartos traseiros (os futuros presuntos),
ora comicamente no solo as quatro patas
fincando com bravura se defende
da mal-agourada violação. Por fim, cedendo,
colocam-no, ainda contrafeito,
entre roncos, bufos e sac√Ķes,
no banco, deitado sobre o lado,
por forma a expor o vulner√°vel,
comestível coração.

Contar-te-ei
que quando a faca penetra nas entranhas,
qual punhal vingador de antiga fome,
o grito é tal, tão desolado e aflito,
t√£o humano, t√£o digno de compaix√£o,
t√£o de criatura insultada e indefesa –
que tenho de tapar a m√£os ambas os ouvidos
e recuar para os fundos da casa,

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Realmente, toda a nossa vida é uma luta e uma fuga constante à depressão e ao receio da morte, não é? E ao mecanismo que nós arranjamos para nos defendermos disso. Se a gente esgravata um bocadinho em nós próprios ou nos outros, é aquilo que acaba por encontrar, o enorme receio da solidão, do abandono (que é aquilo que as pessoas suportam pior) e da morte.

Morte n√£o √© coisa alguma. √Č a aus√™ncia de presen√ßa, nada mais… O tempo sem fim, de nunca voltar atr√°s… um buraco que voc√™ n√£o pode ver, e quando o vento sopra n√£o faz nenhum som.

Eu Deliro, Gertr√ļria, eu Desespero

Eu deliro, Gertr√ļria, eu desespero
No inferno de suspeitas e temores.
Eu da morte as ang√ļstias e os horrores
Por mil vezes sem morrer tolero.

Pelo Céu, por teus olhos te assevero
Que ferve esta alma em c√Ęndidos amores;
Longe o prazer de ilícitos favores!
Quero o teu coração, mais nada quero.

Ah! não sejas também qual é comigo
A cega divindade, a Sorte dura.
A v√°ria Deusa, que me nega abrigo!

Tudo perdi: mas valha-me a ternura
Amor me valha, e pague-me contigo
Os roubos que me faz a m√° ventura.

Elegia Marítima

Nasceu da terra. Seu corpo,
feito do limo das grutas,
surgiu cavalgando um rio
por uma estrada de luas.

Através de ondas agrestes
de um oceano vegetal,
de onde acenavam aos olhos
ilhotas de manac√°s,

alcançou o colo das praias
que a m√£o lasciva do mar
aperta, despe e mergulha
em seu aroma de sal.

Ali viveu junto às vagas
essa esquiva amendoeira,
cabelos soltos à brisa,
pés escondidos na areia.

Um dia o mar a arrastou
através de ilhas sem fim.
Parti com ela. E hoje canta
a morte dentro de mim.

O melhor ato de bondade é transmitir o ensinamento que anula os pecados, as doenças, a morte e a carência, e conduz o ser humano à compreensão de que sua Vida é dotada de todas as coisas boas.

A vida é um processo de tornar-se, uma combinação de estados que temos de percorrer. Onde as pessoas falham é que querem eleger um estado e permanecer nele. Este é um tipo de morte.

Todo o Amor em Nosso Amor se Encerra

Minha moça selvagem, tivemos
que recuperar o tempo
e caminhar para tr√°s, na dist√Ęncia
das nossas vidas, beijo a beijo,
retirando de um lugar o que demos
sem alegria, descobrindo noutro
o caminho secreto
que aproximava os teus pés dos meus,
e assim tornas a ver
na minha boca a planta insatisfeita
da tua vida estendendo as raízes
para o meu coração que te esperava.
E entre as nossas cidades separadas
as noites, uma a uma,
juntam-se à noite que nos une.
Tirando-as do tempo, entregam-nos
a luz de cada dia,
a sua chama ou o seu repouso,
e assim se desenterra
na sombra ou na luz nosso tesouro,
e assim beijam a vida os nossos beijos:
todo o amor em nosso amor se encerra:
toda a sede termina em nosso abraço.
Aqui estamos agora frente a frente,
encontr√°mo-nos,
n√£o perdemos nada.
Percorremo-nos l√°bio a l√°bio,
mil vezes troc√°mos
entre nós a morte e a vida,
tudo o que trazíamos
quais mortas medalhas
atir√°mo-lo ao fundo do mar,
tudo o que aprendemos
de nada serviu:
começámos de novo,

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√Čramos proibidos mas am√°mo-nos √† maneira de Deus, at√© que a morte nos separasse, claro est√°, o problema √© que havia v√°rias mortes para experimentar e √© por isso que ainda aqui estamos, quantas vezes √© poss√≠vel amar-te pela primeira vez?

Cantar, dizem, é um afastamento da morte. A voz suspende o passo da morte e, em volta, tudo se torna pegada da vida.

Não concordo com o que dizes, mas defendo até a morte o direito de o dizeres.

Procuro-te

Procuro a ternura s√ļbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um p√°ssaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da √°gua entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou m√ļsica.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o p√£o e a √°gua,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manh√£ de maio.

Um p√°ssaro e um navio s√£o a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas n√£o quando se ama,
n√£o quando apertamos contra o peito
uma flor √°vida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solid√£o,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

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