Passagens de Milan Kundera

109 resultados
Frases, pensamentos e outras passagens de Milan Kundera para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

O ci√ļme tem o poder espantoso de iluminar uma √ļnica pessoa com um intenso feixe de luz, mantendo a multid√£o dos outros na escurid√£o total.

Há uma parte de todos nós que vive fora do tempo. Talvez só tomemos consciência da nossa idade em momentos excecionais, na maioria do tempo não temos idade.

A emoção do amor dá-nos a todos nós uma ilusão enganadora de conhecermos o outro.

Mas era justamente o fraco que devia ser forte e partir quando o forte fosse fraco demais para poder ofender o fraco.

A ambição é uma desculpa esfarrapada por não se ser suficientemente preguiçoso.

Antes de sermos esquecidos,seremos transformados em kitsch.O kitsch é a estação intermediária entre o ser e o esquecimento.

O acaso tem seus sortilégios, a necessidade não. Para que um amor seja inesquecível, é preciso que os acasos se encontrem nele desde o primeiro instante como os pássaros nos ombros de São Francisco

A Actualidade Absorve o Romance

O esp√≠rito do romance √© o esp√≠rito da complexidade. Cada romance diz ao leitor: ¬ęAs coisas s√£o mais complicadas do que tu pensas¬Ľ. √Č a verdade eterna do romance mas que cada vez se faz menos ouvir na algazarra das respostas simples e r√°pidas que precedem a pergunta e a excluem. Para o esp√≠rito do nosso tempo √© ou Anna ou ent√£o Karenine quem tem raz√£o, e a velha sabedoria de Cervantes, que nos fala da dificuldade de saber e da inacess√≠vel verdade, parece inc√≥moda e in√ļtil.
O esp√≠rito do romance √© o esp√≠rito de continuidade: cada obra √© a resposta √†s obras precedentes, cada obra cont√©m toda a experi√™ncia anterior do romance. Mas o esp√≠rito do nosso tempo est√° fixado sobre a actualidade que √© t√£o expansiva, t√£o ampla, que empurra o passado do nosso horizonte e reduz o tempo ao √ļnico segundo presente. Inclu√≠do neste sistema, o romance j√° n√£o √© obra (coisa destinada a durar, a ligar o passado ao futuro) mas acontecimento da actualidade como outros acontecimentos, um gesto sem amanh√£.

Como seria simples encontrar a paz num mundo imagin√°rio! Mas sempre tentei viver nos dois mundos ao mesmo tempo…

Ser√° que o amor absoluto n√£o significa que devemos amar o outro com tudo que h√° nele e sobre ele, inclusive as suas sombras?

O n√ļmero de s√©rie da esp√©cie humana √© o rosto, que √© uma acidental e irrepet√≠vel combina√ß√£o de caracter√≠sticas.

A Nostalgia da Europa

Na Idade Média, a unidade europeia repousava na religião comum. Nos Tempos Modernos, ela cedeu o lugar à cultura (à criação cultural) que se tornou na realização dos valores supremos pelos quais os Europeus se reconhecem, se definem, se identificam. Ora, hoje, a cultura cede, por sua vez, o lugar.
Mas, a qu√™ e a quem? Qual √© o dom√≠nio onde se realizaram valores supremos suscept√≠veis de unir a Europa? As conquistas t√©cnicas? O mercado? A pol√≠tica com o ideal de democracia, com o princ√≠pio da toler√Ęncia? Mas, essa toler√Ęncia, que j√° n√£o protege nenhuma cria√ß√£o rica nem nenhum pensamento forte, n√£o se tornar√° oca e in√ļtil? Ou ent√£o, ser√° que podemos entender a demiss√£o da cultura como uma esp√©cie de liberta√ß√£o √† qual nos devemos abandonar com euforia? N√£o sei. A √ļnica coisa que julgo saber √© que a cultura j√° cedeu o seu lugar. Assim, a imagem da identidade europeia afasta-se do passado. Europeu: aquele que tem a nostalgia da Europa.

Femeeiro L√≠rico e Femeeiro √Čpico

Os homens que têm a mania das mulheres dividem-se facilmente em duas categorias. Uns procuram em todas as mulheres a ideia que eles próprios têm da mulher tal como ela lhe aparece em sonhos, o que é algo de subjectivo e sempre igual. Aos outros, move-os o desejo de se apoderarem da infinita diversidade do mundo feminino objectivo.
A obsess√£o dos primeiros √© uma obsess√£o l√≠rica; o que procuram nas mulheres n√£o √© sen√£o eles pr√≥prios, n√£o √© sen√£o o seu pr√≥prio ideal, mas, ao fim e ao cabo, apanham sempre uma grande desilus√£o, porque, como sabemos, o ideal √© precisamente o que nunca se encontra. Como a desilus√£o que os faz andar de mulher em mulher d√°, ao mesmo tempo, uma esp√©cie de desculpa melodram√°tica √† sua inconst√Ęncia, n√£o poucos cora√ß√Ķes sens√≠veis acham comovente a sua perseverante poligamia.
A outra obsessão é uma obsessão épica e as mulheres não vêem nela nada de comovente: como o homem não projecta nas mulheres um ideal subjecitvo, tudo tem interesse e nada pode desiludi-lo. E esta impossibilidade de desilusão encerra em si algo de escandaloso. Aos olhos do mundo, a obsessão do femeeiro épico não tem remissão (porque não é resgatada pela desilusão).

Continue lendo…

Aquilo que não é consequência de uma escolha não pode ser considerado nem mérito nem fracasso