Passagens de Milan Kundera

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A Vantagem da Frivolidade

O respeito que a tragédia inspira é muito mais perigoso do que a despreocupação de um chilrear de criança. Qual é a eterna condição das tragédias? A existência de ideias, cujo valor é considerado mais alto do que o da vida humana. E qual é a condição das guerras? A mesma coisa. Obrigam-te a morreres porque existe, dizem, alguma coisa que é superior à tua vida. A guerra só pode existir no mundo da tragédia; desde o começo da sua história, o homem apenas conheceu o mundo trágico e não é capaz de sair dele. A idade da tragédia só pode ser encerrada por uma revolta da frivolidade. As pessoas já só conhecem da Nona de Beethoven os quatro compassos do hino à alegria que acompanham a publicidade dos perfumes Bella. Isso não me escandaliza. A tragédia será banida do mundo como uma velha cabotina que, com a mão no peito, declama em voz áspera. A frivolidade é uma cura de emagrecimento radical. As coisas perderão noventa por cento do seu sentido e tornar-se-ão leves. Nessa atmosfera rarefeita, desaparecerá o fanatismo. A guerra passará a ser impossível.

A vida é a memória do povo, a consciência colectiva da continuidade histórica, a maneira de pensar e de viver.

A partir do momento em que tomamos uma idéia ao pé da letra, a fé transporta essa coisa para o absurdo.

Aquilo que não é necessariamente uma escolha não pode ser considerado como mérito ou como fracasso.

O Planeta da Inexperiência

Primeiro t√≠tulo pensado para A Insustent√°vel Leveza do Ser: ¬ęO Planeta da Inexperi√™ncia¬Ľ. A inexperi√™ncia como uma qualidade da condi√ß√£o humana. Nascemos uma vez por todas, nunca poderemos recome√ßar uma outra vida com as experi√™ncias da vida anterior. Sa√≠mos da inf√Ęncia sem sabermos o que √© a juventude, casamo-nos sem sabermos o que √© ser casado, e mesmo quando entramos na velhice, n√£o sabemos para onde vamos: os velhos s√£o crian√ßas inocentes da sua velhice. Neste sentido, a terra do homem √© o planeta da inexperi√™ncia.

Percebi com espanto que as coisas concebidas pelo engano s√£o t√£o reais quanto as coisas concebidas pela raz√£o e pela necessidade.

Tomas repete para si mesmo o provérbio alemão: einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Não poder viver mais do que uma vida é como não viver nunca.

A cultura desaparece numa multid√£o de produ√ß√Ķes, numa avalanche de frases, na dem√™ncia da quantidade.

A nossa vida não é como um rascunho, a gente não pode simplesmente amassar o papel e começar tudo novamente.

Tinha uma vontade terrível de lhe dizer como as mais comuns das mulheres: não me deixe, guarde-me perto de você, escravize-me, seja forte! Mas eram palavras que não podia e não sabia pronunciar.

O Amor Era a Festa do Inimit√°vel

O amor, outrora, era a festa do individual, do inimit√°vel, a gl√≥ria do que √© √ļnico, do que n√£o suporta qualquer repeti√ß√£o. Mas o umbigo n√£o s√≥ n√£o se revolta contra a repeti√ß√£o, √© um apelo √†s repeti√ß√Ķes! Vamos viver, no nosso mil√©nio, sob o signo do umbigo. Sob este signo, somos todos, tanto um como outro, soldados do sexo, com o mesmo olhar fixo n√£o sobre a mulher amada mas sobre o mesmo pequeno buraco no meio da barriga que representa o √ļnico sentido, o √ļnico fim, o √ļnico futuro de todo o desejo er√≥tico.

Os c√£es s√£o o nosso elo com o para√≠so. Eles n√£o conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um c√£o ao p√© de uma colina numa linda tarde, √© voltar ao √Čden onde ficar sem fazer nada n√£o era t√©dio, era paz.

O Romancista e o Escritor

Releio o curto ensaio de Sartre O Que é Escrever?. Nem uma vez ele utiliza as palavras romance, romancista. Fala apenas do escritor da prosa. Distinção justa. O escritor tem ideias originais e uma voz inimitável. Pode servir-se de qualquer forma (romance incluído) e tudo o que escreve, já que marcado pelo seu pensamento, levado pela sua voz, faz parte da sua obra. Rouseau, Goethe, ChateauBriand, Gide, Malraux, Camus, Montherland.
O romancista n√£o liga muito √†s suas ideias. √Č um descobridor que, tacteando, se esfor√ßa por desvendar um aspecto desconhecido da exist√™ncia. N√£o est√° fascinado pela sua voz mas por uma forma que persegue, e s√≥ as formas que respondem √†s exig√™ncias do seu sonho fazem parte da sua obra. Fielding, Sterne, Flaubert, Proust, Faulkner, C√©line, Calvino.
O escritor inscreve-se na carta espiritual do seu tempo, da sua na√ß√£o, na da hist√≥ria das ideias. O √ļnico contexto em que se pode apreender o valor de um romance √© o da hist√≥ria do romance europeu. O romancista n√£o tem contas a prestar a ningu√©m, excepto a Cervantes.

O amor não se manifesta no desejo de dormir com alguém, mas dormir junto à alguém.

Longe de serem mais sensatos depois de mortos, os habitantes do cemitério eram ainda mais extravagantes do que em vida.

Se pode com raz√£o, criticar o homem por ser cego a esses acasos, privando a vida da sua dimens√£o de beleza.