Passagens sobre Pior

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Frases sobre pior, poemas sobre pior e outras passagens sobre pior para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

N√£o iriam entender que vezenquando a gente fica triste sem motivo, ou pior ainda, sem saber sequer se est√° mesmo triste.

O Crédulo

A f√© pode ser definida em resumo como uma cren√ßa il√≥gica na ocorr√™ncia do improv√°vel. Ela cont√©m um saber patol√≥gico; extrapola o processo intelectual normal e atravessa o viscoso dom√≠nio da metaf√≠sica transcedental. O homem de f√© √© aquele que simplesmente perdeu (ou nunca teve) a capacidade para um pensamento claro e realista. N√£o que ele seja uma mula; √©, na realidade, um doente. Pior ainda, √© incur√°vel, porque o desapontamento, sendo essencialmente um fen√≥meno objetivo, n√£o consegue afectar a sua enfermidade subjectiva. A sua f√© apodera-se da virul√™ncia de uma infec√ß√£o cr√≥nica. O que ele diz, em suma, √©: ‚ÄúVamos confiar em Deus, Aquele que sempre nos enganou no passado‚ÄĚ.

Só há no mundo uma coisa pior do que ser objecto de falatórios: é não o ser.

Um Escritor é Uma Contradição

Um escritor √© uma coisa curiosa. √Č uma contradi√ß√£o e, tamb√©m, um contra-senso. Escrever tamb√©m √© n√£o falar. √Č calar. √Č gritar sem ru√≠do. Um escritor √©, muitas vezes, repousante: ouve muito. N√£o fala muito porque √© imposs√≠vel falar a algu√©m de um livro que se escreveu e, sobretudo, de um livro que se est√° a escrever.
√Č imposs√≠vel. √Č o oposto do cinema, o oposto do teatro e de outros espect√°culos. √Č o oposto de todas as leituras. √Č o mais dif√≠cil de tudo. √Č o pior. Porque um livro √© o desconhecido, √© a noite, √© fechado, √© assim. √Č o livro que avan√ßa, que cresce, que avan√ßa em direc√ß√Ķes que julg√°vamos ter explorado, que avan√ßa em direc√ß√£o ao seu pr√≥prio destino e ao do seu autor, ent√£o aniquilado pela sua publica√ß√£o: a sua separa√ß√£o dele, do livro sonhado, como da crian√ßa rec√©m-nascida, sempre a mais amada.

Um artista √© pior que uma mulher – e um artista escandalizado na sua vaidade de colorista e estilista √© capaz das maiores inf√Ęmias.

As ac√ß√Ķes s√£o a primeira trag√©dia da vida, as palavras s√£o a segunda. Sem d√ļvida, s√£o as palavras a pior trag√©dia. As palavras s√£o impiedosas.

Deixar Sempre as Coisas a Meio

A grandeza, o verdadeiro luxo, est√° nessa displic√™ncia algo aristocr√°tica, n√£o na pior ace√ß√£o da palavra, de deixar sempre as coisas a meio: esse copo de conhaque que se abandona na varanda do bar, as moedas que nunca mais se acabam de recolher da bandejinha em que o criado nos trazia o troco, os pratos por limpar, as tardes inteiras de torpor e moleza, desperdi√ßadas sem culpa porque sobra vida, porque haver√° tempo. Essa √© a atitude que se op√Ķe √† do miser√°vel a quem a necessidade mais visceral e mesquinha faz ver poesia nesse sorver at√© √† √ļltima gota o que a vida lhe oferece. E n√£o deita nada fora, ent√£o, e guarda para amanh√£, e mesquinhamente esconde as sobras para as aproveitar depois como um c√£o saciado que enterra os ossos junto de uma √°rvore para n√£o desperdi√ßar nem um grama de alimento; e molha no chocolate todos os churros que fazem parte da dose, mesmo a rebentar de cheio, caibam ou n√£o dentro do seu est√īmago. E mil vezes prefer√≠vel deixar sempre qualquer coisa no prato, desdenhar com eleg√Ęncia de parte do festim; jantar, por exemplo, com uma senhora admir√°vel e permitir graciosamente que escape viva. E,

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Não há pior vida do que estarem juntos na mesma habitação os que estão desunidos no espírito

Não há pior vida do que estarem juntos na mesma habitação os que estão desunidos no espírito.

Alguma coisa h√° mais perigosa do que a ignor√Ęncia, e √© n√£o a conhecer; porque todas as ignor√Ęncias humanas, que s√£o mais inumer√°veis do que as estrelas do c√©u, a pior de todas, a mais fatal, a mais fecunda de infinitos desastres, √© a ignor√Ęncia da pr√≥pria ignor√Ęncia.

Conhecer-se a Si Próprio

Conhece-te a ti pr√≥prio – eis o que √© dif√≠cil. Ainda posso conhecer os outros, mas a mim mesmo n√£o consigo conhecer-me. Um fio – instintos e um fantasma… Dos outros fa√ßo ideia mais ou menos aproximada, de mim n√£o fa√ßo ideia nenhuma.
H√° uma disparidade entre mim e mim. H√° em mim o homem correcto, o homem igual a todos os homens – e o homem que l√° dentro sonha, grita e √© capaz, por insignific√Ęncias, de imaginar um terramoto ou de desejar uma cat√°strofe. O que eu me tenho desfeito dos meus inimigos – o que √© razo√°vel – mas dos meus amigos que me fazem sombra!…
O meu verdadeiro ser n√£o √© aquele que compus, recalcando l√° para o fundo os instintos e as paix√Ķes; o meu verdadeiro ser √© uma √°rvore desgrenhada – √© o fantasma que nos momentos de exalta√ß√£o me leva a rasto para actos que reprovo. S√≥ a custo o contenho. Parece que est√° morto, e est√° mais vivo que o histri√£o que represento. Asseguro este simulcaro at√© √† cova com os h√°bitos de compress√£o que adquiri. N√£o sei se a maior parte dos homens √© assim – eu sou assim: sou um fantasma desesperado.

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Um Beijo

Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior…Gl√≥ria e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!
Morreste, e o meu desejo n√£o te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.
Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu n√£o morri contigo?
Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perp√©tua saudade de um minuto….

Eu vos digo que o melhor time é o Fluminense. E podem me dizer que os fatos provam o contrário, que eu vos respondo: pior para os fatos

Nunca se Escreve para Si Mesmo

O escritor não prevê nem conjectura: projecta. Acontece por vezes que espera por si mesmo, que espera pela inspiração, como se diz. Mas não se espera por si mesmo como se espera pelos outros; se hesita, sabe que o futuro não está feito, que é ele próprio que o vai fazer, e, se não sabe ainda o que acontecerá ao herói, isto quer simplesmente dizer que não pensou nisso, que não decidiu nada; então, o futuro é uma página branca, ao passo que o futuro do leitor são as duzentas páginas sobrecarregadas de palavras que o separam do fim.

Assim, o escritor só encontra por toda a parte o seu saber, a sua vontade, os seus projectos, em resumo, ele mesmo; atinge apenas a sua própria subjectividade; o objecto que cria está fora de alcance; não o cria para ele. Se relê o que escreveu, já é demasiado tarde; a sua frase nunca será a seus olhos exactamente uma coisa. Vai até aos limites do subjectivo, mas sem o transpor; aprecia o efeito dum traço, duma máxima, dum adjectivo bem colocado; mas é o efeito que produzirão nos outros; pode avaliá-lo, mas não senti-lo.
Proust nunca descobriu a homossexualidade de Charlus,

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Instinto de Sociabilidade

O instinto de sociabilidade de cada um est√° na propor√ß√£o inversa da sua idade. A criancinha solta gritos de medo e de dor, lamentando ter sido deixada sozinha por alguns minutos. Para jovens rapazes, estar sozinho √© uma grande penit√™ncia. Os adolescentes reunem-se com facilidade: s√≥ os mais nobres e mais dotados de esp√≠rito j√° procuram, √†s vezes, a solid√£o. Contudo, passar um dia inteiro sozinhos ainda lhes √© penoso. Para o homem adulto, todavia, isso √© f√°cil: ele consegue passar bastante tempo sozinho, e tanto mais quanto mais avan√ßa nos anos. O anci√£o, √ļnico sobrevivente de gera√ß√Ķes desaparecidas, encontra na solid√£o o seu elemento pr√≥prio, em parte porque j√° ultrapassou a idade de sentir os prazeres da vida, em parte porque j√° est√° morto para eles. Entretanto, em cada indiv√≠duo, o aumento da inclina√ß√£o para o isolamento e a solid√£o ocorrer√° em conformidade com o seu valor intelectual.
Pois tal tend√™ncia, como dito, n√£o √© puramente natural, produzida directamente pela necessidade, mas, antes, s√≥ um efeito da experi√™ncia vivida e da reflex√£o sobre ela, sobretudo da intelec√ß√£o adquirida a respeito da miser√°vel √≠ndole moral e intelectual da maioria dos homens. O que h√° de pior nesse caso √© o facto de as imperfei√ß√Ķes morais e intelectuais do indiv√≠duo conspirarem entre si e trabalharem de m√£os dadas,

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Ode ao Destino

Destino: desisti, regresso, aqui me tens.

Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
Рah então, no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.

Em v√£o tentei n√£o conhecer-te, n√£o notar
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam
que eu, de soslaio, e disfarçando, observava                               [em bandos,
pura conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.

Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magn√Ęnimo,
√ļnico mist√©rio de um mundo cujo mist√©rio eras tu.

Lei universal que a sem-razão constrói,
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada,

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