Textos sobre Acaso

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Textos de acaso escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Sábio Face à Vida

Existe acaso algu√©m a quem possas colocar acima do s√°bio? O s√°bio tem, sobre os deuses, opini√Ķes piedosas. N√£o teme a morte em momento nenhum, considera-a o fim normal da natureza, julga que o termo dos bens √© f√°cil de atingir e de possuir, sabe que os males t√™m uma dura√ß√£o e uma gravidade limitadas; sabe o que √© mister pensar da fatalidade, da qual se constuma fazer uma ama desp√≥tica. Sabe que os acontecimentos nascem, uns da fortuna, outros de n√≥s pr√≥prios, porque a fatalidade √© cega e a fortuna inconstante; que o que vem de n√≥s n√£o est√° submisso a nenhuma tirania, sujeito a reproche e a elogio.
Com efeito, melhor fora acreditar nas narrativas mitol√≥gicas sobre os deuses que tornar-se escravo da fatalidade dos f√≠sicos. A mitologia consente a esperan√ßa de que, honrando os deuses, poderemos disp√ī-los a nosso favor, enquanto a fatalidade √© inexor√°vel. O s√°bio n√£o cr√™, como o vulgo, que a fortuna seja uma divindade, pois um deus n√£o pode agir de maneira desordenada. Nem √©, para ele, uma causa, dada a sua instabilidade. N√£o a admite como causa do bem e do mal, ou da vida feliz; n√£o obstante, sabe que pode trazer grandes bens ou grandes males.

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O Sensacionismo

Sentir é criar.
Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o Universo não tem ideias.
РMas o que é sentir?
Ter opini√Ķes √© n√£o sentir.
Todas as nossas opini√Ķes s√£o dos outros.
Pensar é querer transmitir aos outros aquilo que se julga que se sente.
Só o que se pensa é que se pode comunicar aos outros. O que se sente não se pode comunicar. Só se pode comunicar o valor do que se sente. Só se pode fazer sentir o que se sente. Não que o leitor sinta a pena comum [?].
Basta que sinta da mesma maneira.
O sentimento abre as portas da pris√£o com que o pensamento fecha a alma.
A lucidez s√≥ deve chegar ao limiar da alma. Nas pr√≥prias antec√Ęmaras √© proibido ser expl√≠cito.
Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela. Ser outra pessoa é de uma grande utilidade metafísica. Deus é toda a gente.
Ver, ouvir, cheirar, gostar, palpar – s√£o os √ļnicos mandamentos da lei de Deus. Os sentidos s√£o divinos porque s√£o a nossa rela√ß√£o com o Universo,

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O Mal só nos Afecta na Medida em que o Deixarmos

Os homens (diz uma antiga máxima grega) são atormentados pelas ideias que têm das coisas, e não pelas próprias coisas. Haveria um grande ponto ganho para o alívio da nossa miserável condição humana se pudéssemos estabelecer essa asserção como totalmente verdadeira. Pois, se os males só entraram em nós pelo nosso julgamento, parece que está em nosso poder desprezá-los ou transformá-los em bem. Se as coisas se entregam à nossa mercê, por que não dispomos delas ou não as moldarmos para vantagem nossa? Se o que denominamos mal e tormento não é nem mal nem tormento por si mesmo, mas somente porque a nossa imaginação lhe dá essa qualidade, está em nós mudá-la. E, tendo essa escolha, se nada nos força, somos extraordinariamente loucos de bandear para o partido que nos é o mais penoso e dar às doenças, à indigência e ao desvalor um gosto acre e mau, se lhes podemos dar um gosto bom e se, a fortuna fornecendo simplesmente a matéria, cabe a nós dar-lhe a forma.
Porém vejamos se é possível sustentar que aquilo que denominamos por mal não o é em si mesmo, ou pelo menos que, seja ele qual for, depende de nós dar-lhe outro sabor e outro aspecto,

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O Paradoxo da Representação da Realidade

Farei, por√©m, um esfor√ßo para vos dar aquela realidade que voc√™s julgam ter, ou seja, esfor√ßar-me-ei por vos querer em mim como voc√™s se querem. J√° sabemos que n√£o √© poss√≠vel, dado que, por mais esfor√ßos que eu fa√ßa para vos representar √† vossa maneira, ser√° sempre ¬ę√† vossa maneira¬Ľ apenas para mim, n√£o ¬ę√† vossa maneira¬Ľ para voc√™s e para os outros.
Mas desculpem: se para voc√™s eu n√£o tenho outra realidade fora daquela que voc√™s me d√£o, e estou pronto a reconhecer e a admitir que essa n√£o √© menos verdadeira que a que eu poderei dar a mim mesmo, que essa, para voc√™s, √© a √ļnica verdadeira (e sabe Deus a realidade que voc√™s me d√£o!), v√£o lamentar-se agora da realidade que eu lhes darei, esfor√ßando-me, com toda a boa vontade, por vos representar √† vossa maneira tanto quanto me seja poss√≠vel?
N√£o presumo que voc√™s sejam como eu vos represento. J√° disse que voc√™s tamb√©m n√£o s√£o aquele um tal como o representam para voc√™s pr√≥prios, mas muitos ao mesmo tempo, segundo todas as vossas possibilidades de ser e os acasos, as rela√ß√Ķes e as circunst√Ęncias. Ent√£o, que mal √© que eu vos fiz?

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Um Mundo de Vidas

N√≥s vivemos da nossa vida um fragmento t√£o breve. N√£o √© da vida geral – √© da nossa. √Č em primeiro lugar a restrita por√ß√£o do que em cada elemento haveria para viver. Porque em cada um desses elementos h√° a intensidade com o que poder√≠amos viver, a profundeza, as ramifica√ß√Ķes. N√≥s vivemos √† superf√≠cie de tudo na parte deslizante, a que √© facilidade e fuga. O resto prende-se irremediavelmente ao escuro do esquecimento e distrac√ß√£o. Mas h√° sobretudo a zona incomensur√°vel dos poss√≠veis que n√£o poderemos viver. Porque em cada instante, a cada op√ß√£o que fazemos, a cada op√ß√£o que faz o destino por n√≥s, correspondem as inumer√°veis op√ß√Ķes que nada para n√≥s poder√° fazer. Um golpe de sorte ou de azar, o acaso de um encontro, de um lance, de uma fal√™ncia ou benef√≠cio fazem-nos eliminar toda uma rede de caminhos para se percorrer um s√≥. Em cada momento h√° in√ļmeros poss√≠veis, favor√°veis ou desfavor√°veis, diante de n√≥s. Mas √© um s√≥ o que se escolheu ou nos calhou.
Assim durante a vida v√£o-nos ficando para tr√°s mil solu√ß√Ķes que se abandonaram e n√£o poder√£o jamais fazer parte da nossa vida. Regresso √† minha inf√Ęncia e entonte√ßo com as milhentas possibilidades que se me puseram de parte.

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Rentabilizar os Acasos

Todos os acasos da nossa vida são materiais de que podemos fazer o que quisermos. Quem possui muito espírito faz muito da sua vida Рcada tomada de conhecimento, cada acontecimento seria para ele inteiramente espiritual Рum primeiro membro de uma série infinita Рo início de um romance infinito.

A Caridade como Dever

Ser caritativo quando se pode s√™-lo √© um dever, e h√° al√©m disso muitas almas de disposi√ß√£o t√£o compassiva que, mesmo sem nenhum outro motivo de vaidade ou interesse, acham √≠ntimo prazer em espalhar alegria √† sua volta e se podem alegrar com o contentamento dos outros, enquanto este √© obra sua. Eu afirmo por√©m que neste caso uma tal ac√ß√£o, por conforme ao dever, por am√°vel que ela seja, n√£o tem contudo nenhum verdadeiro valor moral, mas vai emparelhar com outras inclina√ß√Ķes, por exemplo o amor das honras que, quando por feliz acaso topa aquilo que efectivamente √© de interesse geral e conforme ao dever, √© consequentemente honroso e merece louvor e est√≠mulo, mas n√£o estima; pois √† sua m√°xima falta o conte√ļdo moral que manda que tais ac√ß√Ķes se pratiquem, n√£o por inclina√ß√£o, mas por dever.
Admitindo pois que o √Ęnimo desse filantropo estivesse velado pelo desgosto pessoal que apaga toda a compaix√£o pela sorte alheia, e que ele continuasse a ter a possibilidade de fazer bem aos desgra√ßados, mas que a desgra√ßa alheia o n√£o tocava porque estava bastante ocupado com a sua pr√≥pria; se agora, que nenhuma inclina√ß√£o o estimula j√°, ele se arrancasse a esta mortal insensibilidade e praticasse a ac√ß√£o sem qualquer inclina√ß√£o,

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Moral para Psicólogos

N√£o cultivar uma psicologia de bisbilhoteiro! Nunca observar s√≥ por observar! Isso provoca uma √≥ptica falsa, uma perspectiva vesga, algo que resulta for√ßado e que exagera as coisas. O ter experi√™ncias, quando √© um querer-ter-experi√™ncias, ‚ÄĒ n√£o resulta bem. Na experi√™ncia n√£o √© l√≠cito olhar para si mesmo, todo o olhar se converte ent√£o num ¬ęmau-olhado¬Ľ. Um psic√≥logo nato guarda-se, por instinto, de ver por ver; o mesmo se pode dizer do pintor nato. Este n√£o trabalha jamais ¬ęsegundo a natureza¬Ľ, encomenda ao seu instinto, √† sua c√Ęmara escura o crivar e exprimir o ¬ęcaso¬Ľ, a ¬ęnatureza¬Ľ, o ¬ęvivido¬Ľ… At√© √† sua consci√™ncia chega s√≥ o universal, a conclus√£o, o resultado: n√£o conhece esse arbitr√°rio abstrair do caso individual. ‚ÄĒ Que √© que resulta quando se procede de outro modo? Quando se cultiva, por exemplo, uma psicologia de bisbilhoteiro, √† maneira dos romanciers parisienses, grandes e pequenos? Essa gente anda, por assim diz√™-lo, √† espreita da realidade, essa gente leva para casa cada noite um punhado de curiosidades… Por√©m veja-se o que acaba por sair da√≠ ‚ÄĒ um mont√£o de borr√Ķes, um mosaico no melhor dos casos, e de qualquer forma algo que √© o resultado da soma de v√°rias coisas,

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O Desporto √© a Intelig√™ncia In√ļtil

O sport √© a intelig√™ncia in√ļtil manifestada nos movimentos do corpo. O que o paradoxo alegra no cont√°gio das almas, o sport aligeira na demonstra√ß√£o dos bonecos delas. A beleza existe, verdadeiramente, s√≥ nos altos pensamentos, nas grandes emo√ß√Ķes, nas vontades conseguidas. No sport – ludo, jogo, brincadeira – o que existe √© sup√©rfluo, como o que o gato faz antes de comer o rato que lhe h√°-de escapar. Ningu√©m pensa a s√©rio no resultado, e, enquanto dura o que desaparece, existe o que n√£o dura. H√° uma certa beleza nisso, como no domin√≥, e, quando o acaso proporciona o jogo acertado, a maravilha entesoura o corpo encostado do vencedor. Fica, no fim, e sempre virado para o in√ļtil, o inconseguido do jogo. Pueri ludunt, como no prim√°rio do latim…

Ao sol brilham, no seu breve movimento de gl√≥ria esp√ļria, os corpos juvenis que envelhecer√£o, os trajectos que, com o existirem, deixaram j√° de existir. Entardece no que vemos, como no que vimos. A Gr√©cia antiga n√£o nos afaga sen√£o intelectualmente. Ditosos os que naufragam no sacrif√≠cio da posse. S√£o comuns e verdadeiros. O sol das arenas faz suar os gestos dos outros. Os poetas cantam-nos antes que des√ßa todo o sol.

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A Palavra Secreta

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio. Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.
Devemos modelar nossas palavras at√© se tornarem o mais fino inv√≥lucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o tra√ßo de um escultor √© identific√°vel por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo ‚Äď √© por esconderem outras palavras.
Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade.

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A Vida Oblíqua

S√≥ agora pressenti o obl√≠quo da vida. Antes s√≥ via atrav√©s de cortes retos e paralelos. N√£o percebia o sonso tra√ßo enviesado. Agora adivinho que a vida √© outra. Que viver n√£o √© s√≥ desenrolar sentimentos grossos ‚ÄĒ √© algo mais sortil√©gico e mais gr√°cil, sem por isso perder o seu fino vigor animal. Sobre essa vida insolitamente enviesada tenho posto minha pata que pesa, fazendo assim com que a exist√™ncia fene√ßa no que tem de obl√≠quo e fortuito e no entanto ao mesmo tempo sutilmente fatal. Compreendi a fatalidade do acaso e n√£o existe nisso contradi√ß√£o.

A vida oblíqua é muito íntima. Não digo mais sobre essa intimidade para não ferir o pensar-sentir com palavras secas. Para deixar esse oblíquo na sua independência desenvolta.
E conheço também um modo de vida que é suave orgulho, graça de movimentos, frustração leve e contínua, de uma habilidade de esquivança que vem de longo caminho antigo. Como sinal de revolta apenas uma ironia sem peso e excêntrica. Tem um lado da vida que é como no inverno tomar café num terraço dentro da friagem e aconchegada na lã.
Conheço um modo de vida que é sombra leve desfraldada ao vento e balançando leve no chão: vida que é sombra flutuante,

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Espírito Aniquilado pelo Corpo

O corpo encerra o espírito numa fortaleza; depressa a fortaleza é cercada por todos os lados, e por fim o espírito tem de se render. Mas, limitando-me a distinguir as duas espécies de perigos que ameaçam o espírito, e começando pelo exterior, lembrava-me de que já muitas vezes na vida me acontecera, em momentos de excitação intelectual em que uma circunstãncia qualquer suspendera em mim toda a actividade física (por exemplo, ao deixar de carruagem, meio embriagado, o restaurante de Rivebelle a caminho de um casino qualquer nas proximidades), sentir muito nitidamente dentro de mim o objecto actual do meu pensamento e compreender até que ponto dependia de um acaso, não apenas que tal objecto não entrasse ainda nos meus pensamentos, mas que fosse aniquilado com o meu próprio corpo.

Conta só Contigo

Encontrarmo-nos diante das coisas liberta o espírito. Encontrarmo-nos diante dos homens, de dependermos deles, avilta, e tal acontece, quer esta dependência tenha a forma da submissão, quer a da autoridade.
Porquê estes homens entre mim e a natureza?
Nunca ter de contar com um pensamento desconhecido… (porque, nesse caso, somos abandonados ao acaso).
Rem√©dio: fora dos la√ßos fraternos, tratar os homens como um espect√°culo e nunca procurar a amizade. Viver no meio dos homens como no vag√£o de Saint-Etienne a Puy… Sobretudo nunca permitir-se desejar a amizade. Tudo se paga. Conta s√≥ contigo.

Incoerência Humana

√Č f√°cil imaginar os homens inteiri√ßos, reduzi-los a f√≥rmulas simples que se condenam com uma palavra, negligenciando o resto, que as desmente; o mais dif√≠cil seria sair de si para entrar nos outros e julg√°-los segundo o ponto de vista deles, sem preconceitos, acompanhar nos seus desvios e nas suas incoer√™ncias uma natureza incerta feita mais pelo acaso do que pela vontade, desenredar, quando falha a l√≥gica, os sofismas semiconscientes sob os quais a paix√£o dissimula o ego√≠smo dos seus conselhos.

O Amor Português não é um Fenómeno Ternurento

Do carinho e do mimo, toda a gente sabe tudo o que h√° a saber ‚ÄĒ e mais um bocado. Do amor, ningu√©m sabe nada. Ou pensa-se que se sabe, o que √© um bocado menos do que nada. O mais que se pode fazer √© procurar saber quem se ama, sem querer saber que coisa √© o amor que se tem, ou de que s√≠tio vem o amor que se faz.

Do amor √© bom falar, pelo menos naqueles intervalos em que n√£o √© t√£o bom amar. Todos os pa√≠ses h√£o-de ter a sua pr√≥pria cultura amorosa. A portuguesa √© excepcional. Nas culturas mais parecidas com a nossa, √© muito maior a diferen√ßa que se faz entre o amor e a paix√£o. Faz-se de conta que o amor √© uma coisa ‚ÄĒ mais tranquila e pura e duradoura ‚ÄĒ e a paix√£o √© outra ‚ÄĒ mais do√≠da e complicada e ef√©mera. Em Portugal, por√©m, n√£o gostamos de dizer que nos ¬ęenamoramos¬Ľ, e o ¬ęenamoramento¬Ľ e outras palavras que contenham a palavra ¬ęamor¬Ľ s√£o-nos sempre um pouco estranhas. Quando n√≥s nos perdemos de amores por algu√©m, dizemos (e nitidamente sentimos) que nos apaixonamos. Aqui, sabe-se l√° por que atavismos atl√Ęnticos,

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A Felicidade Pertence aos que se Bastam a si Próprios

Cada um deve ser e proporcionar a si mesmo o melhor e o m√°ximo. Quanto mais for assim e, por conseguinte, mais encontrar em si mesmo as fontes dos seus deleites, tanto mais ser√° feliz. Com o maior dos acertos, diz Arist√≥teles: A felicidade pertence aos que se bastam a si pr√≥prios. Pois todas as fontes externas de felicidade e deleite s√£o, segundo a sua natureza, extremamente inseguras, prec√°rias, passageiras e submetidas ao acaso; podem, portanto, estancar com facilidade, mesmo sob as mais favor√°veis circunst√Ęncias; isso √© inevit√°vel, visto que n√£o podem estar sempre √† m√£o.
Na velhice, ent√£o, quase todos se esgotam necessariamente, pois abandonam-nos o amor, o gracejo, o prazer das viagens, o prazer da equita√ß√£o e a propens√£o para a sociedade. At√© os amigos e parentes nos s√£o levados pela morte. √Č quando, mais do que nunca, importa saber o que algu√©m tem em si mesmo. Pois isso se conservar√° por mais tempo. Mas tamb√©m em cada idade isso √© e permanece a √ļnica fonte genu√≠na e duradoura da felicidade. Em qualquer parte do mundo, n√£o h√° muito a buscar: a mis√©ria e a dor preenchem-no, e aqueles que lhes escaparam s√£o espreitados em todos os cantos pelo t√©dio.

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Teoria e Pr√°tica

Toda a teoria deve ser feita para poder ser posta em pr√°tica, e toda a pr√°tica deve obedecer a uma teoria. S√≥ os esp√≠ritos superficiais desligam a teoria da pr√°tica, n√£o olhando a que a teoria n√£o √© sen√£o uma teoria da pr√°tica, e a pr√°tica n√£o √© sen√£o a pr√°tica de uma teoria. Quem n√£o sabe nada dum assunto, e consegue alguma coisa nele por sorte ou acaso, chama ¬ęte√≥rico¬Ľ a quem sabe mais, e, por igual acaso, consegue menos. Quem sabe, mas n√£o sabe aplicar – isto √©, quem afinal n√£o sabe, porque n√£o saber aplicar √© uma maneira de n√£o saber -, tem rancor a quem aplica por instinto, isto √©, sem saber que realmente sabe. Mas, em ambos os casos, para o homem s√£o de esp√≠rito e equilibrado de intelig√™ncia, h√° uma separa√ß√£o abusiva. Na vida superior a teoria e a pr√°tica completam-se. Foram feitas uma para a outra.

O Costume Constrange a Natureza

A coisa mais importante de toda a vida √© a escolha do of√≠cio: o acaso prepara-a. O costume faz os pedreiros, soldados, empalhadores. ¬ęE um excelente empalhado¬Ľ, diz-se; e, falando dos soldados: ¬ęEles s√£o loucos¬Ľ, diz-se; e outros pelo contr√°rio: ¬ęN√£o h√° nada maior do que a guerra; o resto dos homens s√£o uns cobardes¬Ľ. √Ä for√ßa de ouvir louvar na inf√Ęncia estes of√≠cios e desprezar todos os outros, escolhe-se; pois naturalmente ama-se a virtude, e detesta-se a loucura; estas palavras emocionam-nos: s√≥ se peca na aplica√ß√£o. √Č t√£o grande a for√ßa do costume que, daqueles que a natureza fez apenas homens, se fazem todas as condi√ß√Ķes dos homens; pois h√° regi√Ķes onde s√£o todos pedreiros, noutras todos soldados, etc. Certamente que a natureza n√£o √© t√£o uniforme. √Č portanto o costume que faz isto, porque constrange a natureza; e algumas vezes a natureza supera-o, e conserva o homem no seu instinto, apesar do costume, bom ou mau.

Estabelecer Princípios

Existem pessoas que têm propensão para modelar a sua vida de acordo com princípios definidos, Рe outras que gostam de forjar os seus princípios de acordo com os acasos do seu destino pessoal. Em ambos os casos trata-se apenas de experimentar tornar a vida o mais cómoda possível, quando o importante é, apesar de tudo, enfrentar cada acontecimento, desembaraçado de qualquer preconceito e prevenção, mesmo correndo o risco de um constante extravio.