Passagens sobre Passado

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Frases sobre passado, poemas sobre passado e outras passagens sobre passado para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Os Verdadeiros Burros e os Falsos Loucos

O mais esperto dos homens √© aquele que, pelo menos no meu parecer, espont√Ęneamente, uma vez por m√™s, no m√≠nimo, se chama a si mesmo asno…, coisa que hoje em dia constitui uma raridade inaudita. Outrora dizia-se do burro, pelo menos uma vez por ano, que ele o era, de facto; mas hoje… nada disso. E a tal ponto tudo hoje est√° mudado que, valha-me Deus!, n√£o h√° maneira certa de distinguirmos o homem de talento do imbecil. Coisa que, naturalmente, obedece a um prop√≥sito.
Acabo de me lembrar, a prop√≥sito, de uma anedota espanhola. Coisa de dois s√©culos e meio passados dizia-se em Espanha, quando os Franceses constru√≠ram o primeiro manic√≥mio: ¬ęFecharam num lugar √† parte todos os seus doidos para nos fazerem acreditar que t√™m ju√≠zo¬Ľ. Os Espanh√≥is t√™m raz√£o: quando fechamos os outros num manic√≥mio, pretendemos demonstrar que estamos em nosso perfeito ju√≠zo. ¬ęX endoideceu…; portanto n√≥s temos o nosso ju√≠zo no seu lugar¬Ľ. N√£o; h√° tempos j√° que a conclus√£o n√£o √© l√≠cita.

Esta Palavra Saudade

Junto de um catre vil, grosseiro e feio,
por uma noite de luar saudoso,
Cam√Ķes, pendida a fronte sobre o seio,
cisma, embebido num pesar lutuoso…

Eis que na rua um c√Ęntico amoroso
subit√Ęneo se ouviu da noite em meio:
J√° se abrem as adufas com receio…
Noites de amores! Que trovar mimoso!

Cam√Ķes acorda e √† gelosia assoma;
e aquele canto, como um antigo aroma,
ressuscita-lhe os risos do passado.

Viu-se moço e feliz, e ah! nesse instante,
no azul viu perpassar, claro e distante,
de Nat√©rcia gentil o vulto amado…

A m√°scara de bronze da guerra civil tem dois perfis, um que olha para o passado, outro que olha para o futuro, mas ambos igualmente tr√°gicos.

Vive o Dia de Hoje!

N√£o penses para amanh√£. N√£o lembres o que foi de ontem. A mem√≥ria teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. Mas tudo hoje √© t√£o ef√©mero. Mesmo o que se pensa para amanh√£ √© para j√° ter sido, que √© o que desejamos que seja logo que for. √Č o tempo de Deus que n√£o tem futuro nem passado. Foi o que dele n√≥s escolhemos no sonho do nosso absoluto. N√£o penses para amanh√£ na urg√™ncia de seres agora. Mesmo logo √† tarde √© muito tarde. Tudo o que √©s em ti para seres, v√™ se o √©s neste instante. Porque antes e depois tudo √© morte e insensatez. N√£o esperes, s√™ agora. L√™ os jornais. O futuro √© o embrulho que fizeres com eles ou o papel urgente da retrete quando n√£o houver outro.

A Essência da Poesia

Não aprendi nos livros qualquer receita para a composição de um poema; e não deixarei impresso, por meu turno, nem sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria. Se narrei neste discurso alguns sucessos do passado, se revivi um nunca esquecido relato nesta ocasião e neste lugar tão diferentes do sucedido, é porque durante a minha vida encontrei sempre em alguma parte a asseveração necessária, a fórmula que me aguardava, não para se endurecer nas minhas palavras, mas para me explicar a mim próprio.
Encontrei, naquela longa jornada, as doses necess√°rias para a forma√ß√£o do poema. Ali me foram dadas as contribui√ß√Ķes da terra e da alma. E penso que a poesia √© uma ac√ß√£o passageira ou solene em que entram em doses medidas a solid√£o e solidariedade, o sentimento e a ac√ß√£o, a intimidade da pr√≥pria pessoa, a intimidade do homem e a revela√ß√£o secreta da Natureza. E penso com n√£o menor f√© que tudo se apoia – o homem e a sua sombra, o homem e a sua atitude, o homem e a sua poesia – numa comunidade cada vez mais extensa, num exerc√≠cio que integrar√° para sempre em n√≥s a realidade e os sonhos,

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A Eternidade é o Nosso Signo

Sim, a eternidade √© o nosso signo. N√£o come√ß√°mos a existir nem o fim da exist√™ncia o entendemos como fim. Por isso n√£o sentimos que n√£o existimos antes de come√ßarmos a existir mas apenas que tudo isso que aconteceu antes de termos existido foi apenas qualquer coisa a que por acaso n√£o assistimos como a muito do que acontece no nosso tempo. E √† morte invencivelmente a ultrapassamos para nos pormos a existir depois dela. O prazer que nos d√° a hist√≥ria do passado, sobretudo os documentos que no-lo d√£o flagrantemente, vem de nos sentirmos prolongados at√© l√°, de nos sentirmos de facto presentes nesse modo de ser contempor√Ęneos. Mas sobretudo h√° em n√≥s uma mem√≥ria-limite, uma mem√≥ria absoluta que n√£o tem nada de referenci√°vel e se prolonga ao sem fim. Do mesmo modo h√° o futuro que √© pura projec√ß√£o de n√≥s, apelo irreprim√≠vel a um amanh√£ sem termo ou sem amanh√£. Por isso a morte nos angustia e sobretudo nos intriga por nos provar √† evid√™ncia o que profundamente n√£o conseguimos compreender. Mas sobretudo a eternidade √© o que se nos imp√Ķe no instante em que vivemos. O tempo n√£o passa por n√≥s e da√≠ vem a impossibilidade de nos sentirmos envelhecer.

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√Č Imposs√≠vel que o Tempo Actual n√£o Seja o Amanhecer doutra Era

√Č imposs√≠vel que o tempo actual n√£o seja o amanhecer doutra era, onde os homens signifiquem apenas um instinto √†s ordens da primeira solicita√ß√£o. Tudo quanto era coer√™ncia, dignidade, hombridade, respeito humano, foi-se. Os dois ou tr√™s casos pessoais que conhe√ßo do s√©culo passado, levam-me a concluir que era uma gente naturalmente cheia de limita√ß√Ķes, mas digna, direita, capaz de repetir no fim da vida a palavra com que se comprometera no in√≠cio dela. Al√©m disso her√≥ica nas suas dores, sofrendo-as ao mesmo tempo com a tristeza do animal e a grandeza da pessoa. Agora √© esta ferocidade que se v√™, esta coragem que n√£o d√° para deixar abrir um panar√≠cio ou parir um filho sem anestesia, esta tartufice, que a gente chega a perguntar que diferen√ßa haver√° entre uma humanidade que √© daqui, dali, de acol√°, conforme a brisa, e uma col√≥nia de bichos que sentem a humidade ou o cheiro do alimento de certo lado, e n√£o t√™m mais nenhuma hesita√ß√£o nem mais nenhum entrave.

Quem congemina vingan√ßas acredita antecipar-se ao futuro. √Č um logro: o vingador vive apenas num tempo que j√° foi. O vingador n√£o age apenas em nome de quem j√° morreu. Ele pr√≥prio j√° morreu. Foi morto pelo passado.

Há Momentos que Resulta tão Difícil Chegarmos a um Sentimento

H√° momentos em que do fogo sobe para a noite
há momentos que resulta tão difícil chegarmos a um
sentimento.
Descubro uma figura que j√° n√£o
sei seguir. H√° momentos
eu vejo o que se senta à minha frente o amável corte
de cabelo o severo intento tomado como correcto
rosto onde a plenitude era possível. Rosto onde o
passado é a tarde de verão a pequena cidade onde o
sol pode dizer-se cai no campo rosto de passados ou
uma tarde de ver√£o para ter tempo.

O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.

A Disputa das Ideias

Temos cada vez mais tipos de ordem e cada vez menos ordem. (…) Depois de todos os esfor√ßos do passado, entr√°mos num per√≠odo de retrocesso. V√™ bem como as coisas se passam hoje: quando um homem importante lan√ßa uma nova ideia no mundo, ela √© imediatamente apanhada por um mecanismo de divis√£o, constitu√≠do por simpatia e repulsa. Primeiro v√™m os admiradores e arrancam grandes bocados, os que lhes conv√™m, a essa ideia, e despeda√ßam o mestre como as raposas a presa; a seguir, os advers√°rios destroem as partes fracas, e em pouco tempo o que resta de um grande feito mais n√£o √© do que uma reserva de aforismos de que amigos e inimigos se servem a seu bel-prazer. O resultado √© uma ambiguidade generalizada. N√£o h√° Sim a que se n√£o junte um N√£o. Podes fazer o que quiseres, que encontras sempre vinte das mais belas ideias a favor e, se quiseres, vinte que s√£o contra. Quase somos levados a acreditar que √© como no amor e no √≥dio, ou na fome, em que os gostos t√™m de ser diferentes, para que cada um fique com o seu bocado.

O ser humano, por natureza, prefere o passado ao futuro ou vice-versa, sempre à custa do presente. Tanto a ideia que as coisas vão melhorar (não podem piorar mais) como a ideia que não vão piorar (é triste ficar na mesma).

Amor, Co A Esperança Já Perdida

Amor, co a esperança já perdida,
teu soberano templo visitei;
por sinal do naufr√°gio que passei,
em lugar dos vestidos, pus a vida.

Que queres mais de mim, que destruída
me tens a glória toda que alcancei?
Não cuides de forçar me, que não sei
tornar a entrar onde não há saída.

Vês aqui alma, vida e esperança,
despojos doces de meu bem passado,
enquanto quis aquela que eu adoro:

nelas podes tomar de mim vingança;
e se inda n√£o est√°s de mim vingado,
contenta te com as l√°grimas que choro.

Vivemos Presos ao Nosso Passado e ao Nosso Futuro

A nós ligam-nos o nosso passado e o nosso futuro. Passamos quase todo o nosso tempo livre e também quanto do nosso tempo de trabalho a deixá-los subir e descer na balança. O que o futuro excede em dimensão, substitui o passado em peso, e no fim não se distinguem os dois, a meninice torna-se clara mais tarde, tal como é o futuro, e o fim do futuro já é de facto vivido em todos os nossos suspiros e assim se torna passado. Assim quase se fecha este círculo em cujo rebordo andamos. Bem, este círculo pertence-nos de facto, mas só nos pertence enquanto nos mantivermos nele; se nos afastarmos para o lado uma vez que seja, por distracção, por esquecimento, por susto, por espanto, por cansaço, eis que já o perdemos no espaço; até agora tínhamos tido o nariz metido na corrente do tempo, agora retrocedemos, ex-nadadores, caminhantes actuais, e estamos perdidos. Estamos do lado de fora da lei, ninguém sabe disso, mas todos nos tratam de acordo com isso.

Procuro e n√£o te encontro

Procuro e n√£o te encontro
n√£o paro, nem volto atr√°s
Eu sei, dizem todos que é loucura
Eu andar à tua procura
Sabendo bem onde tu est√°s!
Procuro e n√£o te encontro
Procuro nem sei o quê!
Só sei, que por vezes ficamos frente a frente
E ao ver-te ali finalmente
Procuro, mas n√£o te encontro!

Preferes a outra e queres
Que eu nunca, v√° ter contigo
Por isso, tenho um caminho marcado
E vou procurar-te ao passado
Para lembrar o amor antigo
Procuro e n√£o te encontro,
Procuro, nem sei o quê
Só sei, que por vezes ficamos frente a frente
E ao ver-te ali finalmente
Procuro, mas… n√£o te encontro!

Memória Personalizada

N√£o acontece apenas que certas pessoas t√™m mem√≥ria e outras n√£o (…), mas, mesmo com mem√≥rias iguais, duas pessoas n√£o se lembram das mesmas coisas. Uma ter√° prestado pouca aten√ß√£o a um facto do qual a outra guardar√° um grande remorso, e em contrapartida ter√° apanhado no ar como sinal simp√°tico e caracter√≠stico uma palavra que a outra ter√° deixado escapar quase sem pensar. O interesse de n√£o nos termos enganado quando emitimos um progn√≥stico falso abrevia a dura√ß√£o da lembran√ßa desse progn√≥stico e permite-nos afirmar em breve que n√£o o emitimos. Enfim, um interesse mais profundo, mais desinteressado, diversifica as mem√≥rias das pessoas, de tal modo que o poeta que esqueceu quase tudo dos factos que outros lhe recordam ret√©m deles uma impress√£o fugidia.
De tudo isso, resulta que, passados vinte anos de aus√™ncia, encontramos, em lugar de esperados rancores, perd√Ķes involunt√°rios, inconscientes, e, em contrapartida, tantos √≥dios cuja raz√£o n√£o conseguimos explicar (porque esquecemos tamb√©m a m√° impress√£o que caus√°mos). At√© da hist√≥ria das pessoas que conhecemos melhor esquecemos as datas.

A mudança é a lei da vida. E aqueles que confiam somente no passado ou no presente estão destinados a perder o futuro.

Tateio

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em l√ļcida altivez, eu j√° sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De n√ļpcias e caminho
√Č t√£o diversa da tua fronte descuidada.

Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e √°gua
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.