Textos sobre Sofrimento

129 resultados
Textos de sofrimento escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

N√£o te Queixes

N√£o te queixes. Recolhe em ti a amargura, n√£o a disperses, n√£o a esbanjes com os outros. Ela √© tua, nasceu de ti, da tua mis√©ria, pertence-te como os ossos e as v√≠sceras. Concentra-te nela, absorve-a, faz dela a tua grandeza. Porque s√≥ se √© grande pelo sofrimento, n√£o pela futilidade do prazer. As pedras n√£o sofrem, Cristo esteve ¬ętriste at√© √† morte¬Ľ. Tem desprezo pelos homens felizes, porque dos homens felizes ¬ęn√£o reza a hist√≥ria¬Ľ. S√≥ a dor pode medir o teu tamanho de excep√ß√£o, s√≥ ela pode medir o que tu vales. O sofrimento med√≠ocre n√£o d√° mais do que a com√©dia, mas a grandeza da trag√©dia s√≥ pode atribuir-se aos grandes. N√£o te aconselho a que v√°s ao encontro da amargura, mas se ela vier ter contigo, acolhe-a com serenidade. N√£o sucumbas aos seus golpes, aguenta-os at√© onde puderes. E se √©s homem de verdade, tu a aguentar√°s.
Também as grandes alegrias são do destino dos grandes, porque elas são irmãs dos grandes sofrimentos. Só os pequenos e mesquinhos se alegram e sofrem com o que é mesquinho e pequeno. Aquilo que é pequeno é imperceptível a quem o não é. Que juízo fazem de ti,

Continue lendo…

Ser Devasso é Pior do que não Ter Domínio de Si

Uma vez que alguns prazeres s√£o necess√°rios e outros n√£o s√£o, e s√£o necess√°rios apenas at√© certo ponto, sem admitir excesso nem defeito, e uma vez que o mesmo se passa com os desejos e os sofrimentos necess√°rios, – devasso √© quem persegue o excesso no prazer ou prazeres excessivos, e, na verdade, quando os persegue por decis√£o pr√≥pria em vista do excesso e n√£o de qualquer outra consequ√™ncia da√≠ resultante. √Č for√ßoso que algu√©m deste g√©nero n√£o tenha nenhuma disposi√ß√£o natural para se arrepender do que faz, de tal sorte que √© incur√°vel. Pois, na verdade, quem for capaz de se arrepender pode ser curado. Quem n√£o sente falta nenhuma [destes prazeres] √© o oposto do devasso. Mas quem se encontrava na disposi√ß√£o interm√©dia √© temperado. De modo semelhante [devasso] √© tamb√©m quem foge aos sofrimentos do corpo [causados pela insatisfa√ß√£o do desejo], n√£o por lhes sucumbir, mas por uma decis√£o tomada pelo pr√≥prio.
Há também os que não chegam a tomar nenhuma decisão. Estes são obrigados a perseguir o prazer, e a procurar escapar ao sofrimento causado pelo desejo insatisfeito. Há assim diferenças entre esses dois modos de ceder ao prazer ora por uma decisão tomada ou sem decisão prévia.

Continue lendo…

Lutar Contra as Adversidades

Depois dos bons momentos… v√™m sempre os piores. O encontro com o mais belo da exist√™ncia n√£o anula a nossa fragilidade. Mais uma vez, ca√≠mos. Mais uma vez, experimentamos a derrota, sentimos que n√£o somos t√£o importantes quanto julg√°vamos, nem, t√£o-pouco, nada de extraordin√°rio. Estamos, mais uma vez, no ch√£o. Encolhidos. Como no ventre da nossa m√£e.

A fraqueza acumulada √© uma adversidade brutal. N√£o √© apenas necess√°rio lutar contra o que temos por diante, temos de combater tamb√©m as derrotas das lutas anteriores, todas as dores, cicatrizes e feridas abertas… todas as perdas.

O que faz à vontade o sofrimento recorrente? Aumenta a tentação de ceder ao mal. Como se fosse natural habituarmo-nos mais aos vícios do que às virtudes.

A cada passo o caminho se torna mais longo…

Sofremos o que n√£o merecemos. Mas a tristeza s√≥ √© absurda quando n√£o se sabe por que se luta… enquanto n√£o se consegue ver sentido algum na dor…

Há homens e mulheres que, longe dos olhares alheios, lutam contra adversidades enormes, que alguns imaginam impossíveis. Lutam, sofrem e erguem-se, apesar de tudo.

A sua vontade de viver e sorrir é maior do que a de desistir e chorar.

Continue lendo…

Crueldade e Sofrimento

A crueldade √© constitutiva do universo, √© o pre√ßo a pagar pela grande solidariedade da biosfera, √© inelimin√°vel da vida humana. Nascemos na crueldade do mundo e da vida, a que acrescent√°mos a crueldade do ser humano e a crueldade da sociedade humana. Os rec√©m-nascidos nascem com gritos de dor. Os animais dotados de sistemas nervosos sofrem, talvez os vegetais tamb√©m, mas foram os humanos que adquiriram as maiores aptid√Ķes para o sofrimento ao adquirirem as maiores aptid√Ķes para a frui√ß√£o. A crueldade do mundo √© sentida mais vivamente e mais violentamente pelas criaturas de carne, alma e esp√≠rito, que podem sofrer ao mesmo tempo com o sofrimento carnal, com o sofrimento da alma e com o sofrimento do esp√≠rito, e que, pelo esp√≠rito, podem conceber a crueldade do mundo e horrorizar-se com ela.
A crueldade entre homens, indiv√≠duos, grupos, etnias, religi√Ķes, ra√ßas √© aterradora. O ser humano cont√©m em si um ru√≠do de monstros que liberta em todas as ocasi√Ķes favor√°veis. O √≥dio desencadeia-se por um pequeno nada, por um esquecimento, pela sorte de outrem, por um favor que se julga perdido. O √≥dio abstracto por uma ideia ou uma religi√£o transforma-se em √≥dio concreto por um indiv√≠duo ou um grupo;

Continue lendo…

Depois de Chorar

N√£o √© a tristeza que nos faz chorar, mas o amor que enfrenta os vazios. As ang√ļstias e desesperos s√£o express√Ķes de falta.

As lágrimas que de nós brotam e caem longe do olhar dos outros são as que mais força trazem em si, as que fazem concreto e objetivo o sentir mais íntimo.

Por vezes, o cora√ß√£o cai nas armadilhas das tristezas antigas… outras, sentimos os espinhos das novas adversidades cravarem-se-nos na carne. H√° sempre tristezas, h√° sempre sofrimento, haver√° sempre dor enquanto houver amor.
As lágrimas não choradas não deixam de ser amargas, mas essas, ao contrário das que nascem, corroem o interior de quem com elas não chega a regar a terra que lhe segura os pés.

A vida faz-se também com as nossas lágrimas e vence-se, muitas vezes, de olhos carregados de mar. O esforço que nos é exigido chega quase a ser impossível sem lágrimas. Chorar não é sinal de derrota, antes sim de um amor que busca a paz merecida.

O sentido da vida cabe dentro de uma gota de √°gua salgada‚Ķ a verdadeira paix√£o √© a dor m√°xima do amor mais profundo. Aquele que faz germinar em n√≥s o melhor…

Continue lendo…

Felicidade e Prazer

Devemos estudar os meios de alcan√ßar a felicidade, pois, quando a temos, possu√≠mos tudo e, quando n√£o a temos, fazemos tudo por alcan√ß√°-la. Respeita, portanto, e aplica os princ√≠pios que continuadamente te inculquei, convencendo-te de que eles s√£o os elementos necess√°rios para bem viver. Pensa primeiro que o deus √© um ser imortal e feliz, como o indica a no√ß√£o comum de divindade, e n√£o lhe atribuas jamais car√°cter algum oposto √† sua imortalidade e √† sua beatitude. Habitua-te, em segundo lugar, a pensar que a morte nada √©, pois o bem e o mal s√≥ existem na sensa√ß√£o. De onde se segue que um conhecimento exacto do facto de a morte nada ser nos permite fruir esta vida mortal, poupando-nos o acr√©scimo de uma ideia de dura√ß√£o eterna e a pena da imortalidade. Porque n√£o teme a vida quem compreende que n√£o h√° nada de tem√≠vel no facto de se n√£o viver mais. √Č, portanto, tolo quem declara ter medo da morte, n√£o porque seja tem√≠vel quando chega, mas porque √© tem√≠vel esperar por ela.
√Č tolice afligirmo-nos com a espera da morte, visto ser ela uma coisa que n√£o faz mal, uma vez chegada. Por conseguinte, o mais pavoroso de todos os males,

Continue lendo…

A Razão da Minha Esperança

Meu bom amigo,

Sei que tens sofrido bastante.

Não posso esquecer que um dia me ensinaste: que leal é quem não abandona; que devemos procurar ser pessoas dignas de confiança, mais do que tentar encontrar alguém assim; e, que a vontade de amar já é, em si mesma, amor.

Permite-me que partilhe contigo, hoje, algumas ideias a respeito dos momentos dif√≠ceis…

S√£o muitas as provas que na vida servem para testar quem somos, a for√ßa que temos em n√≥s e o nosso valor. Algumas vezes uma pedra gigante vem cair mesmo diante de n√≥s… outras vezes s√£o s√©ries infind√°veis de pequenos obst√°culos no caminho… longas etapas que nos obrigam a seguir adiante sem descansar, em percursos onde quase nunca se v√™ o horizonte.
A agita√ß√£o permanente em que vivemos leva muitos a desistir de encontrar refer√™ncias mais adiante, mas √© preciso que nos afastemos do tempo para assim encontrarmos a posi√ß√£o mais segura, elevando-nos acima dos momentos passageiros para os compreender melhor. No meio da confus√£o √© preciso ver para al√©m do que se pode olhar… estabelecer os alicerces sobre o que √© s√≥lido, ainda que seja preciso escavar muito mais fundo do que o normal…

Continue lendo…

O Amor n√£o Acontece. Decide-se.

H√° quem julgue que o amor √© alheio √† vontade humana, algo superior que elege, embala e conduz‚Ķ e que quase nada se pode fazer perante tamanha for√ßa. Isso √© uma mera paix√£o no seu sentido menos nobre. E, nesse caso, sim, o amor acontece… Ao contr√°rio, amar √© estar acima das paix√Ķes e dos apetites. Mesmo quando o amor nasce de uma espontaneidade, resulta de um claro discernimento.

O amor decorre de uma decisão. De um compromisso. Constrói-se de forma consciente. Através do heroísmo de alguém livre que decide ser o que poucos ousam. Escolhe para fim de si mesmo ser o meio para a felicidade daquele a quem ama. Sim, decide-se amar e, sim, decide-se a quem amar.

O amor aut√™ntico √© raro e extraordin√°rio, embora o seu nome sirva para quase tudo… a maior parte das vezes designa ego√≠smos entrela√ßados, cada vez mais comuns. S√£o poucos os que se aventuram, os que arriscam tudo, os que se disp√Ķem a amar mesmo quando sabem que poucos sequer perceber√£o o que fazem, o seu porqu√™ e o para qu√™.
O amor n√£o sup√Ķe reciprocidade. Amar √© dar-se por completo e aceitar tudo… n√£o se contabilizam ganhos e perdas,

Continue lendo…

Conta Comigo Sempre

Conta comigo sempre. Desde a s√≠laba inicial at√© √† √ļltima gota de sangue. Venho do sil√™ncio incerto do poema e sou, umas vezes constela√ß√£o e outras vezes √°rvore, tantas vezes equil√≠brio, outras tantas tempestade. A nossa mem√≥ria √© um mist√©rio, recordo-me de uma m√ļsica maravilhosa que nunca ouvi, na qual consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o obo√©.
O sonho √©, e ser√° sempre e apenas, dos vivos, dos que mastigam o p√£o amadurecido da d√ļvida e a carne deslumbrada das pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as m√£os com uma fragilidade que √© um p√°ssaro s√°bio e distra√≠do que se aninha no cora√ß√£o e se alimenta de amor, esse amor acima do desejo, bem acima do sofrimento.
Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas, ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, contigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, contigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repartirei até o que é indivisível. Tu sabes onde estou.
Sabes como me chamo. Estarei presente quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a hora decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua antiga coragem vacilar.

Continue lendo…

Todos Pensam de Forma Diferente, e Muitas Vezes Efémera

Cada indiv√≠duo v√™ o mundo – e o que este tem de acabado, de regular, de complexo e de perfeito – como se se tratasse apenas de um elemento da Natureza a partir do qual tivesse que constituir um outro mundo, particular, adaptado √†s suas necessidades. Os homens mais capazes tomam-no sem hesita√ß√Ķes e procuram na medida do poss√≠vel comportar-se de acordo com ele. H√° outros que n√£o se conseguem decidir e que ficam parados a olhar para ele. E h√° ainda os que chegam ao ponto de duvidar da exist√™ncia do mundo.
Se algu√©m se sentisse tocado por esta verdade fundamental, nunca mais entraria em disputas e passaria a considerar, quer as representa√ß√Ķes que os outros possam fazer das coisas, quer a sua, como meros fen√≥menos. Porque de facto verificamos quase todos os dias que aquilo que um indiv√≠duo consegue pensar com toda a facilidade pode ser imposs√≠vel de pensar para um outro. E n√£o apenas em rela√ß√£o a quest√Ķes que tivessem uma qualquer influ√™ncia no bem estar ou no sofrimento das pessoas, mas tamb√©m a prop√≥sito de assuntos que nos s√£o totalmente indiferentes.

O Pessimismo é Excelente para os Inertes

O Pessimismo √© uma teoria bem consoladora para os que sofrem, porque desindividualiza o sofrimento, alarga-o at√© o tornar uma lei universal, a lei pr√≥pria da Vida; portanto lhe tira o car√°cter pungente de uma injusti√ßa especial, cometida contra o sofredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso vizinho – porque nos sentimos escolhidos e destacados para a Infelicidade, podendo, como ele, ter nascido para a Fortuna. Quem se queixaria de ser coxo – se toda a humanidade coxeasse? E quais n√£o seriam os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e borrasca de um Inverno especial, organizado nos c√©us para o envolver a ele unicamente – enquanto em redor toda a humanidade se movesse na benignidade de uma Primavera? (…) O Pessimismo √© excelente para os Inertes, porque lhes atenua o desgracioso delito da In√©rcia.

A Indiferença ou a Paixão pelos Outros

O que √© mais proveitoso ‚ÄĒ perguntava eu ‚ÄĒ representar o mundo como pequeno ou como grande? Vejamos como eu resolvia o assunto: os homens eminentes, os capit√£es famosos, os estadistas competentes, em suma, todos os conquistadores e todos os chefes que se elevam pela viol√™ncia acima dos outros homens, devem ser feitos de tal maneira que o Mundo lhes deve parecer como um tabuleiro de damas. Se assim n√£o fosse, eles n√£o teriam a rudeza e a impassibilidade necess√°rias para subordinarem audaciosamente aos seus imprevis√≠veis planos a felicidade e os sofrimentos dos indiv√≠duos isolados, sem se importarem nada com isso. Em contrapartida, uma t√£o limitada concep√ß√£o pode levar os homens a n√£o realizarem coisa alguma, porque todo aquele que considera a humanidade como uma coisa sem import√Ęncia acabar√° por a achar insignificante e por so√ßobrar na indiferen√ßa e na passividade. Desdenhoso de tudo, preferir√° a in√©rcia √† ac√ß√£o sobre os esp√≠ritos, sem contar que a sua insensibilidade, a sua aus√™ncia de simpatia e a sua letargia chocar√£o toda a gente, ofendendo constantemente um mundo imbu√≠do do seu pr√≥prio valor. Assim se lhe fechar√£o todas as vias de um sucesso imprevisto. Ser√° mais razo√°vel ‚ÄĒ perguntava eu, ent√£o ‚ÄĒ ver na humanidade qualquer coisa de grande,

Continue lendo…

Imaginação ou Sensibilidade?

N√£o √© certo que para a cria√ß√£o de uma obra liter√°ria a imagina√ß√£o e a sensibilidade sejam qualidades equivalentes, e que a segunda possa sem grande inconveniente substituir a primeira, do mesmo modo que h√° pessoas cujo est√īmago √© incapaz de digerir e que encarregam os intestinos dessa fun√ß√£o. Um homem que nasceu sens√≠vel e que n√£o tenha imagina√ß√£o poder√° apesar disso escrever romances admir√°veis. O sofrimento que os outros lhe causar√£o, os esfor√ßos para o evitar, os conflitos que esse sofrimento e a outra pessoa cruel ir√£o criar, tudo isso, interpretado pela intelig√™ncia, poder√° constituir mat√©ria para um livro n√£o apenas t√£o belo como se tivesse sido imaginado, inventado, mas tamb√©m t√£o exterior aos sonhos, do autor, se este, feliz, se tivesse deixado arrastar por si mesmo, t√£o surpreendente para ele pr√≥prio, t√£o acidental como um capricho fortuito da imagina√ß√£o.

A Tirania do Sofrimento

O homem, quando sofre, faz uma ideia muito ideia muito especial do bem e do mal, ou seja, do bem que os outros lhe deveriam fazer e que ele pretende como se do seu sofrimento derivasse um qualquer direito a ser compensado, e do mal que pode fazer aos outros como se igualmente o seu sofrimento o autorizasse a pratic√°-lo. E se os outros n√£o lhe fazem o bem quase por dever, ele acusa-os; e de todo o mal que ele faz, quase por direito, facilmente se desculpa.

Evitar o Sofrimento

Privamo-nos para mantermos a nossa integridade, poupamos a nossa sa√ļde, a nossa capacidade de gozar a vida, as nossas emo√ß√Ķes, guardamo-nos para alguma coisa sem sequer sabermos o que essa coisa √©. E este h√°bito de reprimirmos constantemente as nossas puls√Ķes naturais √© o que faz de n√≥s seres t√£o refinados. Porque √© que n√£o nos embriagamos? Porque a vergonha e os transtornos das dores de cabe√ßa fazem nascer um desprazer mais importante que o prazer da embriaguez. Porque √© que n√£o nos apaixonamos todos os meses de novo? Porque, por altura de cada separa√ß√£o, uma parte dos nossos cora√ß√Ķes fica desfeita. Assim, esfor√ßamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer.

Desabafar o Sofrimento

Nunca compreendi como √© poss√≠vel que algu√©m que escreva consiga objectivar os seus sofrimentos enquanto vive sob o seu peso; assim eu, por exemplo, no meio da minha infelicidade, provavelmente ainda com a minha cabe√ßa a queimar de infelicidade, sento-me e escrevo a algu√©m: sou infeliz. Sim, eu at√© posso ir al√©m disto e com todos os floreados que o meu talento possa inventar, que n√£o parecem ter nada a ver com a minha infelicidade, toco uma orquestra√ß√£o simples, ou em contraponto, ou uma orquestra√ß√£o completa de varia√ß√Ķes sobre o meu tema. E n√£o √© uma mentira, e n√£o mitiga a minha dor: √© simplesmente um extra misericordioso de for√ßa num momento em que o sofrimento me consumiu at√© ao fundo do meu ser e gastou completamente todas as minhas for√ßas.

Amo-te, Portugal

Portugal,

Estou há que séculos para te escrever. A primeira vez que dei por ti foi quando dei pela tua falta. Tinha 19 anos e estava na Inglaterra. De repente, deixei de me sentir um homem do mundo e percebi, com tristeza, que era apenas mais um dos teus desesperados pretendentes.

Apaixonaste-me sem que eu desse por isso. Deve ter sido durante os meus primeiros 18 anos de vida, quando estava em Portugal e só queria sair de ti. Insinuaste-te. Não fui eu que te escolhi. Quando descobri que te amava, já era tarde de mais.

Eu n√£o queria ficar preso a ti; queria correr mundo. Passei a querer correr para ti – e foi para ti que corri, mal pude.

Teria preferido chegar √† conclus√£o que te amava por uma lenta acumula√ß√£o de raz√Ķes, emo√ß√Ķes e vantagens. Mas foi ao contr√°rio. Apaixonei-me de um dia para o outro, sem qualquer esp√©cie de aviso, e desde esse dia, que rem√©dio, l√° fui acumulando, lentamente, as raz√Ķes por que te amo, retirando-as uma a uma dentre todas as outras raz√Ķes, para n√£o te amar, ou n√£o querer saber de ti.

Custou-me justificar o meu amor por ti.

Continue lendo…

O Amargo Destino do Sonho

Aí residia a sua força e a sua virtude, aí era invergável e incorruptível, aí o seu carácter era firme e rectilíneo. No entanto, esta virtude trazia estreitamente ligados a si também o seu sofrimento e o seu destino.
Acontecia-lhe o que a todos acontece: aquilo que por impulso da sua mais √≠ntima natureza demandava e em que se empenhava com a maior pertin√°cia, era-lhe concedido, mas ultrapassando aquilo que ao homem √© ben√©fico. O que come√ßava por ser sonho e felicidade, redundava em amargo destino. O homem do poder dest√≥i-se pelo poder, o homem do dinheiro, pelo dinheiro, o subserviente pelo servir, o sequioso de prazer pela lux√ļria.