Textos sobre Regi√£o

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Textos de região escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Essência do Fanatismo

A ess√™ncia do fanatismo consiste em considerar determinado problema como t√£o importante que ultrapasse qualquer outro. Os bizantinos, nos dias que precederam a conquista turca, entendiam ser mais importante evitar o uso do p√£o √°zimo na comunh√£o do que salvar Constantinopla para a cristandade. Muitos habitantes da pen√≠nsula indiana est√£o dispostos a precipitar o seu pa√≠s na ru√≠na por divergirem numa quest√£o importante: saber se o pecado mais detest√°vel consiste em comer carne de porco ou de vaca. Os reaccion√°rios amercianos prefiririam perder a pr√≥xima guerra do que empregar nas investiga√ß√Ķes at√≥micas qualquer indiv√≠duo cujo primo em segundo grau tivesse encontrado um comunista nalguma regi√£o. Durante a Primeira Guerra Mundial, os escoceses sabat√°rios, a despeito da escassez de v√≠veres provocada pela actividade dos submarinos alem√£es, protestavam contra a planta√ß√£o de batatas ao domingo e diziam que a c√≥lera divina, devido a esse pecado, explicava os nossos malogros militares. Os que op√Ķem objec√ß√Ķes teol√≥gicas √† limita√ß√£o dos nascimentos, consentem que a fome, a mis√©ria e a guerra persistam at√© ao fim dos tempos porque n√£o podem esquecer um texto, mal interpretado, do G√©nese. Os partid√°rios entusiastas do comunismo, tal como os seus maiores inimigos, preferem ver a ra√ßa humana exterminada pela radioactividade do que chegar a um compromisso com o mal –

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O Governo Mundial

Pode evitar-se a guerra por algum tempo por meio de paliativos, expedientes ou uma diplomacia subtil, mas tudo isso √© prec√°rio, e enquanto durar o nosso sistema pol√≠tico actual, pode ser considerado como quase certo que grandes conflitos h√£o-de surgir de vez em quando. Isso acontecer√° inevitavelmente enquanto houver diferentes Esados soberanos, cada um com as suas for√ßas armadas e juiz supremo dos seus pr√≥prios direitos em qualquer disputa. H√° somente um meio de o mundo poder libertar-se da guerra, √© a cria√ß√£o de uma autoridade mundial √ļnica, que possua o monop√≥lio de todas as armas mais perigosas.

Para que um governo mundial pudesse evitar graves conflitos, seria indispens√°vel possuir um m√≠nimo de poderes. Em primeiro lugar precisava de ter o monop√≥lio de todas as principais armas de guerra e as for√ßas armadas necess√°rias para o seu emprego. Devia tamb√©m tomar as precau√ß√Ķes indispens√°veis, quaisquer que fossem, para assegurar, em todas as circunst√Ęncias, a lealdade dessas for√ßas ao governo central.

O governo mundial tinha de formular, portanto, certas regras relativas ao emprego das suas for√ßas armadas. A mais importante determinaria que, em qualquer conflito entre dois Estados. cada um tinha de se submeter √†s decis√Ķes da autoridade mundial.

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O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

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A Moral é a Base da Sociedade

A moral é a base da sociedade; se tudo, porém, é matéria em nós, não há realmente vício nem virtude, e por consequência não há moral.
As nossas leis, sempre relativas e mut√°veis, n√£o podem servir de ponto de apoio √† moral, sempre absoluta e inalter√°vel; √© pois preciso que ela tenha origem numa regi√£o mais est√°vel que esta, e cau√ß√Ķes mais seguras que recompensas prec√°rias ou castigos passageiros. Alguns fil√≥sofos acreditaram que a religi√£o f√īra inventada para a sustentar, sem se avisarem de que tomavam o efeito pela causa. N√£o √© a religi√£o que deriva da moral, √© a moral que nasce da religi√£o, pois √© certo, como h√° pouco dissemos, que a moral n√£o pode ter a sua origem no homem physico, ou na simples mat√©ria; pois √© certo ainda, que, quando os homens perdem a ideia de Deus, se despenham em todos os crimes, a despeito das leis e dos verdugos.

O Costume Constrange a Natureza

A coisa mais importante de toda a vida √© a escolha do of√≠cio: o acaso prepara-a. O costume faz os pedreiros, soldados, empalhadores. ¬ęE um excelente empalhado¬Ľ, diz-se; e, falando dos soldados: ¬ęEles s√£o loucos¬Ľ, diz-se; e outros pelo contr√°rio: ¬ęN√£o h√° nada maior do que a guerra; o resto dos homens s√£o uns cobardes¬Ľ. √Ä for√ßa de ouvir louvar na inf√Ęncia estes of√≠cios e desprezar todos os outros, escolhe-se; pois naturalmente ama-se a virtude, e detesta-se a loucura; estas palavras emocionam-nos: s√≥ se peca na aplica√ß√£o. √Č t√£o grande a for√ßa do costume que, daqueles que a natureza fez apenas homens, se fazem todas as condi√ß√Ķes dos homens; pois h√° regi√Ķes onde s√£o todos pedreiros, noutras todos soldados, etc. Certamente que a natureza n√£o √© t√£o uniforme. √Č portanto o costume que faz isto, porque constrange a natureza; e algumas vezes a natureza supera-o, e conserva o homem no seu instinto, apesar do costume, bom ou mau.

Da Ideia do Belo em Geral

I РChamamos ao belo ideia do belo. Este deve ser concebido como ideia e, ao mesmo tempo, como a ideia sob forma particular; quer dizer, como ideal. O belo, já o dissemos, é a ideia; não a ideia abstracta, anterior à sua manifestação, não realizada, mas a ideia concreta ou realizada, inseparável da forma, como esta o é do principio que nela aparece. Ainda menos devemos ver na ideia uma pura generalidade ou uma colecção de qualidades abstraídas dos objectos reais. A ideia é o fundo, a própria essência de toda a existência, o tipo, unidade real e viva da qual os objectos visíveis não são mais que a realização exterior. Assim, a verdadeira ideia, a ideia concreta, é a que resume a totalidade dos elementos desenvolvidos e manifestados pelo conjunto dos seres. Numa palavra, a ideia é um todo, a harmoniosa unidade deste conjunto universal que se processa eternamente na natureza e no mundo moral ou do espírito.
Só deste modo a ideia é verdade, e verdade total.
Tudo quanto existe, portanto, só é verdadeiro na medida em que é a ideia em estado de existência; pois a ideia é a verdadeira e absoluta realidade. Nada do que aparece como real aos sentidos e à consciência é verdadeiro por ser real,

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Nos Extremos é que Está a Sabedoria

Pode-se dizer que, muito plausivelmente, h√° uma ignor√Ęncia abeced√°ria que precede o saber e uma outra, doutoral, que se lhe segue, ignor√Ęncia esta que o saber produz e engendra da mesma maneira que desfaz e destr√≥i aqueloutra. Dos esp√≠ritos simples, menos curiosos e menos instru√≠dos, fazem-se bons crist√£os, que, por rever√™ncia e obedi√™ncia, com simplicidade, cr√™em e mant√™m-se submissos √†s leis. √Č nos esp√≠ritos de vigor e capacidade m√©dios que se engendram as opini√Ķes err√≥neas, pois eles seguem a apar√™ncia das suas primeiras impress√Ķes e t√™m pretextos para interpretar como simpleza e estult√≠cia o nosso apego aos antigos usos, considerando que n√≥s a√≠ n√£o cheg√°mos por via do estudo dessas mat√©rias.
Os grandes esp√≠ritos, mais avisados e clarividentes, constituem um outro g√©nero de bons crentes: por meio de uma aturada e escrupulosa investiga√ß√£o, penetram nas Escrituras at√© atingir uma luz mais profunda e abstrusa, e entendem o misterioso e divino segredo da nossa pol√≠tica eclesi√°stica. Vemos, por√©m, alguns, com maravilhoso proveito e com consolida√ß√£o da sua f√©, chegarem, atrav√©s do segundo, a este √ļltimo n√≠vel, como o extremo limite da intelig√™ncia crist√£, e rejubilar na sua vit√≥ria com refrig√©rio, ac√ß√Ķes de gra√ßas, reformas dos costumes e grande mod√©stia. N√£o entendo nesta categoria situar aqueloutros que,

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A Verdade e o Erro

A verdade contradiz a nossa natureza; o erro n√£o. A raz√£o disso √© simples: a verdade imp√Ķe-nos o dever de reconhecer a nossa limita√ß√£o, ao passo que o erro nos lisonjeia dando-nos a entender que, de uma forma ou de outra, n√£o estamos sujeitos a limites.
Qualquer pessoa gosta do falso, do absurdo, pois ele opera pela insinuação. Mas não do verdadeiro, do que é sólido, já que este opera pela exclusão.
Para os fracos é quase sempre mais cómodo o falso, o erro.
O que é verdadeiro estimula. Nada se pode desenvolver com base no erro, porque o erro limita-se a envolver-nos no erro.
√Č muito mais f√°cil verificar o erro do que encontrar a verdade. O erro est√° √† superf√≠cie, e com isso podemos n√≥s bem. A verdade repousa nas profundidades, e n√£o √© qualquer um que se pode lan√ßar √† investiga√ß√£o nessas regi√Ķes.

A Loucura do Dinheiro

O dinheiro suscita a maior parte das vocifera√ß√Ķes que ouvimos: √© o dinheiro que fatiga os tribunais, √© ele que coloca pais e filhos em desaven√ßa, √© ele que derrama venenos, √© ele que p√Ķe a espada nas m√£os dos assassinos e das legi√Ķes; ele est√° manchado de sangue nosso; √© por causa dele que as discuss√Ķes de marido e mulher ressoam na noite, √© por causa dele que a turba aflui aos tribunais; por causa dele, os reis massacram, saqueiam e arrasam cidades que demoraram s√©culos a construir, para procurarem ouro e prata entre as cinzas. V√™s os cofres arrumados a um canto? √Č por causa deles que se grita at√© os olhos sa√≠rem das suas √≥rbitas e que os brados ressoam nos tribunais; √© por causa deles que ju√≠zes vindo de regi√Ķes long√≠nquas se re√ļnem para decidir qual √© a avidez mais justa.
E quando, n√£o por um cofre, mas por um punhado de ouro ou por um den√°rio que se dispensaria a um escravo, se perfura o est√īmago de um velho que ia morrer sem herdeiros? E quando, possuindo v√°rios milhares, um usur√°rio de p√©s e m√£os deformados, incapaz sequer de mexer no dinheiro, reclama, furioso,

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A Riqueza de Espírito no Estado de Doença

Considerando como a doen√ßa √© comum, como √© tremenda a mudan√ßa espiritual que traz, como √© espantoso quando as luzes da sa√ļde se apagam, as regi√Ķes por descobrir que se revelam, que extens√Ķes desoladas e desertos da alma uma ligeira gripe nos faz ver, que precip√≠cios e relvados pontilhados de flores brilhantes uma pequena subida de temperatura exp√Ķe, que antigos e rijos carvalhos s√£o desenraizados em n√≥s pela ac√ß√£o da doen√ßa, como nos afundamos no po√ßo da morte e sentimos as √°guas da aniquila√ß√£o fecharem-se acima da cabe√ßa e acordamos julgando estar na presen√ßa de anjos e harpas quando tiramos um dente, vimos √† superf√≠cie na cadeira do dentista e confundimos o seu ¬ębocheche… bocheche¬Ľ com sauda√ß√£o da divindade debru√ßada no ch√£o do c√©u para nos dar as boas-vindas – quando pensamos nisto, como tantas vezes somos for√ßados a pensar, torna-se realmente estranho que a doen√ßa n√£o tenha arranjado um lugar, juntamente com o amor, as batalhas e o ci√ļme, por entre os principais temas da literatura.

O Meu Futuro

Do ponto de vista da literatura, o meu futuro √© muito simples. O meu talento para retratar os sonhos da minha vida interior empurrou todos os outros temas para o lado, e est√° de tal maneira enfezado e n√£o deixa de ficar cada vez mais enfezado. Nada mais alguma vez me poder√° satisfazer. Mas a for√ßa que posso dominar para o tal retrato n√£o √© de confiar: talvez at√© j√° tenha desaparecido para sempre, talvez volte de novo at√© mim, se bem que as condi√ß√Ķes da minha vida n√£o favore√ßam tal regresso. E assim vacilo, voo constantemente para a ponta da montanha, mas ent√£o caio de repente. H√° outros que tamb√©m vacilam, mas em regi√Ķes mais baixas, com mais for√ßa; se est√£o em perigo de cair s√£o apanhados pela pessoa de fam√≠lia que vai ao lado precisamente para isso. Mas eu vacilo nas alturas, n√£o √© a morte, infelizmente, mas os tormentos eternos da agonia.

Actividade Exterior Por N√£o Existir Actividade Interior

As pessoas necessitam de actividade exterior porque n√£o t√™m actividade interior. Quando, pelo contr√°rio, esta √ļltima existe, √© prov√°vel que a primeira seja um aborrecimento muito inc√≥modo, mesmo execr√°vel, e um impedimento. Este facto tamb√©m explica a inquieta√ß√£o daqueles que nada t√™m para fazer, e as suas viagens sem objectivo. O que os impele de pa√≠s em pa√≠s √© o mesmo t√©dio que no seu pa√≠s os congrega em t√£o grandes grupos que chegam a tornar-se divertidos.

Recebi certa vez uma excelente confirma√ß√£o desta verdade atrav√©s de um cavalheiro de cinquenta anos que n√£o conhecia, e que me falou de uma viagem de recreio de dois anos que havia feito a terras distantes e a estranhas regi√Ķes da Terra. Quando observei que por certo tivera de enfrentar muitas dificuldades e perigos, respondeu-me muito ingenuamente, sem hesita√ß√£o nem pre√Ęmbulo, mas como se enunciasse simplesmente a conclus√£o de um silogismo: ¬ęN√£o tive um instante de aborrecimento¬Ľ.

A Alegoria da Caverna

– Imagina agora o estado da natureza humana com respeito √† ci√™ncia e √† ignor√Ęncia, conforme o quadro que dele vou esbo√ßar. Imagina uma caverna subterr√Ęnea que tem a toda a sua largura uma abertura por onde entra livremente a luz e, nessa caverna, homens agrilhoados desde a inf√Ęncia, de tal modo que n√£o possam mudar de lugar nem volver a cabe√ßa devido √†s cadeias que lhes prendem as pernas e o tronco, podendo t√£o-s√≥ ver aquilo que se encontra diante deles. Nas suas costas, a certa dist√Ęncia e a certa altura, existe um fogo cujo fulgor os ilumina, e entre esse fogo e os prisioneiros depara-se um caminho dificilmente acess√≠vel. Ao lado desse caminho, imagina uma parede semelhante a esses tapumes que os charlat√£es de feita colocam entre si e os espectadores para esconder destes o jogo e os truques secretos das maravilhas que exibem.
– Estou a imaginar tudo isso.
РImagina homens que passem para além da parede, carregando objectos de todas as espécies ou pedra, figuras de homens e animais de madeira ou de pedra, de tal modo que tudo isso apareça por cima do muro. Os que tal transportam, ou falam uns com os outros,

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O Gosto Pela Contemplação

O poder interior do homem pode-se comparar ao de um rio que, impedido por um dique, forme uma bacia artificial dando assim origem a uma fonte de energia. Mas h√° s√©culos que este dique tem uma falha, a bacia est√° quase vazia, a energia pouco menos que gasta e todas as regi√Ķes em volta est√£o na escurid√£o. Deve-se portanto refor√ßar o dique e permitir que o n√≠vel da √°gua suba. Por outras palavras, para encontrar uma ideia do homem, isto √©, uma fonte de verdadeira energia, necessita-se que os homens reencontrem o gosto pela contempla√ß√£o. A contempla√ß√£o √© o dique que alimenta de √°gua a bacia. Ela permite aos homens acumular de novo a energia de que a ac√ß√£o os privou.

O Estado de Transe

O estado de transe √© um estado quase normal no ser humano; basta muito pouco para provoc√°-lo. Uma coisa de nada, um pouco de √°lcool no sangue, um pouco de droga, excesso de oxig√©nio, a c√≥lera, o cansa√ßo. Mas este estado √© interessante na medida em que √© orient√°vel. Trata-se de um balan√ßo, mas esse lan√ßa m√£o das regi√Ķes desconhecidas do nosso esp√≠rito. De facto, n√£o h√° fundamentalmente nenhuma diferen√ßa, entre um homem intoxicado pelo √°lcool e um santo que se entregue ao √™xtase. E no entanto h√° apesar de tudo uma diferen√ßa: a da interpreta√ß√£o. O momento de loucura √© preparado por uma etapa onde o assunto √© mergulhado numa esp√©cie de vacila√ß√£o da consci√™ncia, de excita√ß√£o cerebral violenta. √Č esse momento que fabrica verdadeiramente o √™xtase e lhe d√° o sentido. Enquanto o √™xtase em si mesmo √© cego. √Č o vazio total, sem ascens√£o nem queda. A calma plana. Tanto quanto se possa dizer que o santo nunca conhecer√° Deus. Aproxima-O, depois regressa. E estas duas etapas s√£o as que s√£o. Entre as duas, √© o nada. O vazio, a amn√©sia completa. No momento X do √™xtase, o santo e o intoxicado s√£o semelhantes, est√£o no mesmo local.

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A Verdade Universal N√£o Existe

Consultei os fil√≥sofos, folheei os seus livros, examinei as suas diversas opini√Ķes; achei-os todos orgulhosos, afirmativos, dog¬≠m√°ticos – mesmo no seu pretenso cepticismo -, n√£o ignorando nada, n√£o demonstrando nada, tro√ßando uns dos outros; e esse ponto, que √© comum a todos eles, pareceu-me ser o √ļnico em que todos concordavam. Triunfantes quando atacam, n√£o t√™m vigor quando se defendem. Se examinais as suas raz√Ķes, s√≥ as t√™m pa¬≠ra destruir; se contais os seus caminhos, cada um est√° limitado ao seu; s√≥ se p√Ķem de acordo para discutir; prestar-lhes ouvidos n√£o era o meio de me livrar da minha incerteza. Compreendi que a insufici√™ncia do esp√≠rito humano √© a pri¬≠meira causa dessa prodigiosa diversidade de sentimentos, e que o orgulho √© a segunda.
N√≥s n√£o temos a medida dessa imensa m√°qui¬≠na, n√£o podemos calcular as suas propor√ß√Ķes; n√£o lhe conhecemos nem as primeiras leis nem a causa final; ignoramo-nos a n√≥s mes¬≠mos; n√£o conhecemos nem a nossa natureza nem o nosso princ√≠pio activo; mal sabemos se o homem √© um ser simples ou composto: mist√©rios impenetr√°veis rodeiam-nos por todos os lados; pairam por cima da regi√£o sens√≠vel; para os compreendermos, supomos ter intelig√™ncia, e apenas temos imagina√ß√£o. Cada um de n√≥s abre¬≠ atrav√©s desse mundo imagin√°rio –

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As Ideias dependem das Sensa√ß√Ķes

√Ä primeira vista, nada pode parecer mais ilimitado do que o pensamento humano, que n√£o apenas escapa a toda autoridade e a todo poder do homem, mas tamb√©m nem sempre √© reprimido dentro dos limites da natureza e da realidade. Formar monstros e juntar for¬≠mas e apar√™ncias incongruentes n√£o causam √† imagina√ß√£o mais em¬≠bara√ßo do que conceber os objectos mais naturais e mais familiares. Apesar de o corpo confinar-se num s√≥ planeta, sobre o qual se arrasta com sofrimento e dificuldade, o pensamento pode transportar-nos num instante √†s regi√Ķes mais distantes do Universo, ou mesmo, al√©m do Universo, para o caos indeterminado, onde se sup√Ķe que a Natureza se encontra em total confus√£o. Pode-se conceber o que ainda n√£o foi visto ou ouvido, porque n√£o h√° nada que esteja fora do poder do pensamento, excepto o que implica absoluta contradi√ß√£o.

Entretanto, embora o nosso pensamento pare√ßa possuir esta liber¬≠dade ilimitada (…) ele est√° realmente confinado dentro de limites muito reduzidos e todo o poder criador do esp√≠rito n√£o ultrapassa a faculdade de combinar, de transpor, aumentar ou de diminuir os materiais que nos foram fornecidos pelos sentidos e pela experi√™ncia. Quando pensamos numa montanha de ouro, apenas unimos duas id√©ias compat√≠veis,

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Os Dois Infinitos

Duas coisas enchem a alma de admiração e de respeito sempre renovados e que aumentam à medida que o pensamento mais vezes se concentra nelas: acima de nós, o céu estrelado; no nosso íntimo, a lei moral. Não é necessário buscá-las e adivinhá-las como se estivessem ofuscadas por nuvens ou situadas em região inacessível, para além do meu horizonte; vejo-as ante mim e relaciono-as imediatamente com a consciência da minha existência. A primeira, a partir do lugar que ocupo no mundo exterior, estende a relação do meu ser com as coisas sensíveis a todo esse imenso espaço onde os mundos se sucedem aos mundos e os sistemas aos sistemas e a toda a duração ilimitada dos seus movimentos periódicos. A segunda parte do meu invisível eu, da minha personalidade e do meu posto num mundo que possui a verdadeira infinitude, mas no qual o entendimento mal pode penetrar e ao qual reconheço estar vinculado por uma relação não apenas contingente, mas universal e necessária (relação que também alargo a todos esses mundos visíveis).
Numa, a vis√£o de uma infinidade de mundos quase aniquila a minha import√Ęncia, na medida em que me considero uma criatura animal que, depois de ter (n√£o se sabe como) gozado a vida durante um breve lapso de tempo,

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A Sociedade é Filha do Medo

Creio que a sociedade √© filha do medo, n√£o da fome. Ou melhor, eu diria que o primeiro efeito da fome deve ter sido mais dispersar os homens do que agrup√°-los, todos indo buscar o seu alimento justamente nas regi√Ķes menos exploradas. S√≥ que, enquanto o desejo os dispersava, o medo os agrupava. Pela manh√£, sentiam fome e tornavam-se anarquistas. Mas, √† noite, sentiam o cansa√ßo e o medo e amavam as leis.

A Vantagem do Conhecimento Alargado

No que se refere ao esp√≠rito dotado de capacidades elevadas – o √ļnico que pode ousar a solu√ß√£o dos grandes e dif√≠ceis problemas concernentes ao universal e geral das coisas -, ele far√° bem em estender o m√°ximo poss√≠vel o seu horizonte, mas sempre com equanimidade, para todos os lados, sem se perder muito numa dessas regi√Ķes bem espec√≠ficas e conhecidas apenas por poucos. Ou seja, sem penetrar demasiado profundamente nas especialidades de alguma ci√™ncia isolada, muito menos envolver-se com a micrologia. Pois n√£o tem necessidade de se dedicar a objectos de dif√≠cil acesso para livrar-se da multid√£o de concorrentes; pelo contr√°rio, justamente aquilo que est√° ao alcance de todos √© o que fornecer√° a mat√©ria para combina√ß√Ķes novas, importantes e verdadeiras. Desse modo, o seu m√©rito poder√° ser apreciado por todos os que conhecem os dados, portanto, por uma boa parte do g√©nero humano. Nisso reside a imensa diferen√ßa entre a gl√≥ria que os poetas e os fil√≥sofos alcan√ßam e aquela acess√≠vel a f√≠sicos, qu√≠micos, anatomistas, mineralogistas, zo√≥logos, fil√≥logos, historiadores, etc.