Textos sobre Divis√£o

19 resultados
Textos de divisão escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Habilidade Específica do Político

A habilidade espec√≠fica do pol√≠tico consiste em saber que paix√Ķes pode com maior facilidade despertar e como evitar, quando despertas, que sejam nocivas a ele pr√≥prio e aos seus aliados. Na pol√≠tica como na moeda h√° uma lei de Gresham; o homem que visa a objectivos mais nobres ser√° expulso, excepto naqueles raros momentos (principalmente revolu√ß√Ķes) em que o idealismo se conjuga com um poderoso movimento de paix√£o interesseira. Al√©m disso, como os pol√≠ticos est√£o divididos em grupos rivais, visam a dividir a na√ß√£o, a menos que tenham a sorte de a unir na guerra contra outra. Vivem √† custa do ¬ęru√≠do e da f√ļria, que nada significam¬Ľ. N√£o podem prestar aten√ß√£o a nada que seja dif√≠cil de explicar, nem a nada que n√£o acarrete divis√£o (seja entre na√ß√Ķes ou na frente nacional), nem a nada que reduza o poderio dos pol√≠ticos como classe.

O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

Continue lendo…

O Dilema do Conhecimento

Como todos sabemos, aprender pouco é algo perigoso. Mas o excesso de aprendizado altamente especializado também é uma coisa perigosa, e por vezes pode ser ainda mais perigoso do que aprender só um pouco. Um dos principais problemas da educação superior agora é conciliar as exigências da muita aprendizagem, que é essencialmente uma aprendizagem especializada, com as exigências da pouca aprendizagem, que é a abordagem mais ampla, mas menos profunda, dos problemas humanos em geral.
(…) O que precisamos fazer √© arranjar casamentos, ou melhor, trazer de volta ao seu estado original de casados os diversos departamentos do conhecimento e das emo√ß√Ķes, que foram arbitrariamente separados e levados a viver em isolamento nas suas celas mon√°sticas. Podemos parodiar a B√≠blia e dizer: “Que o homem n√£o separe o que a natureza juntou”; n√£o permitamos que a arbitr√°ria divis√£o acad√©mica em disciplinas rompa a teia densa da realidade, transformando-a em absurdo.
Mas aqui deparamo-nos com um problema muito grave: qualquer forma de conhecimento superior exige especializa√ß√£o. Precisamos de nos especializar para entrar mais profundamente em certos aspectos separados da realidade. Mas se a especializa√ß√£o √© absolutamente necess√°ria, pode ser absolutamente fatal, se levada longe demais. Por isso, precisamos de descobrir algum meio de tirar o maior proveito de ambos os mundos –

Continue lendo…

De que Serve Discutir as Ideologias?

Para compreendermos o homem e as suas necessidades, para o conhecermos naquilo que ele tem de essencial, n√£o precisamos de p√īr em confronto as evid√™ncias das nossas verdades. Sim, t√™m raz√£o. T√™m todos raz√£o. A l√≥gica demonstra tudo. Tem raz√£o aquele que rejeita que todas as desgra√ßas do mundo recaiam sobre os corcundas. Se declararmos guerra aos corcundas, aprenderemos rapidamente a exaltar-nos. Vingaremos os crimes dos corcundas. E, sem d√ļvida, tamb√©m os corcundas cometem crimes.
A fim de tentarmos separar este essencial, √© necess√°rio esquecermos por um instante as divis√Ķes que, uma vez admitidas, implicam todo um Cor√£o de verdades inabal√°veis e o inerente fanatismo. Podemos classificar os homens em homens de direita e em homens de esquerda, em corcundas e n√£o corcundas, em fascistas e em democratas, e estas distin√ß√Ķes s√£o incontest√°veis.
Mas sabem que a verdade é aquilo que simplifica o mundo, e não aquilo que cria o caos. A verdade é a linguagem que desencadeia o universal.
Newton n√£o ¬ędescobriu¬Ľ uma lei h√° muito disfar√ßada de solu√ß√£o de enigma, Newton efectuou uma opera√ß√£o criativa. Instituiu uma linguagem de homem capaz de exprimir simultaneamente a queda da ma√ß√£ num prado ou a ascens√£o do sol.

Continue lendo…

Plano de Vida

Um plano geral para a vida deve implicar, antes de mais, alcan√ßar-se qualquer forma de estabilidade financeira. Marquei como limite para essa coisa humilde a que chamo estabilidade financeira cerca de sessenta d√≥lares‚ÄĒquarenta para o necess√°rio, e vinte para as coisas sup√©rfluas da vida. A forma de o alcan√ßar √© adicionar aos trinta e um d√≥lares dos dois escrit√≥rios (P & FF) vinte e nove d√≥lares de proveni√™ncia a determinar. Em rigor, para viver apenas, cinquenta d√≥lares bastariam, pois, tomando trinta e cinco como base necess√°ria, quinze j√° davam para o resto.

A coisa essencial que vem logo a seguir √© residir numa casa com bastante espa√ßo, espa√ßo quanto a divis√Ķes e divis√Ķes com os requisitos necess√°rios, para arrumar todos os meus pap√©is e livros na devida ordem; e tudo isto sem grande possibilidade de me mudar dentro de pouco tempo. Parece que o mais f√°cil seria alugar eu pr√≥prio uma casa ‚ÄĒ √† base de, suponhamos, oito ou, quando muito, nove d√≥lares ‚ÄĒ e viver l√° √† vontade, combinando que me levassem o jantar (e o pequeno-almo√ßo) todos os dias, ou coisa parecida. Mas seria este sistema absolutamente conveniente?

Substituir, no tocante à ordem dos papéis,

Continue lendo…

A Vaidade como Base da Sociedade

Nada contribui tanto para a sociedade dos homens, como a mesma vaidade deles: os Imp√©rios, e Rep√ļblicas, n√£o tiveram outra origem, ou ao menos n√£o tiveram outro princ√≠pio, em que mais seguramente se fundassem: na reparti√ß√£o da terra, n√£o s√≥ fez ajuntar os homens os mesmos g√©neros de interesses, mas tamb√©m os mesmos g√©neros de vaidades, e nisto se v√™ dois efeitos contr√°rios; porque sendo pr√≥prio na vaidade o separar os homens, tamb√©m serve muitas vezes de os unir. H√° vaidades, que s√£o universais, e compreendem Vilas, Cidades, e Na√ß√Ķes Inteiras; as outras s√£o particulares, e pr√≥prias de cada um de n√≥s; das primeiras resulta a sociedade, das segundas a divis√£o.

Estamos a Cair na Mediocridade Governativa

Estamos a cair na mediocridade porque estamos muito subservientes aos padr√Ķes de efic√°cia e da racionalidade europeia. Os tempos festivos da revolu√ß√£o passaram. Teriam naturalmente que passar, mas aplica-se a terap√™utica da racionaliza√ß√£o tecnocr√°tica e isso mata o sonho. Devia haver outras vias. Vias apropriadas √†quilo que somos. N√£o somos um Pa√≠s de grandes voos capitalistas. Se o quisermos ser ca√≠mos, inexoravelmente, nas garras do monopolismo. Portanto, dev√≠amos cultivar as pequenas e m√©dias empresas. Esta devia ser a l√≥gica da economia portuguesa. Devia dar-se grande valor √†s pequenas e m√©dias empresas e realmente deixarmo-nos de ambi√ß√Ķes que nos alcem aos grandes padr√Ķes europeus.

(…) Os (partidos pol√≠ticos t√™m) os mesmos defeitos e algumas qualidades em comum. Evidentemente que os partidos s√£o um defeito necess√°rio, porque dividem, mas √© uma divis√£o necess√°ria para agrupar, para reunir a ideia da democracia parlamentar que temos. Agora, o erro das pessoas √© adorn√°-los com m√©ritos extraordin√°rios, porque isso faz-nos cair numa partidolatria, impr√≥pria de esp√≠ritos livres! N√£o penso que a nossa classe pol√≠tica seja pior do que a classe pol√≠tica de outros pa√≠ses. Ponhamos as coisas neste p√©: as minhas exig√™ncias est√©ticas e √©ticas n√£o tornam muito f√°ceis as minhas rela√ß√Ķes com a classe pol√≠tica.

Continue lendo…

Que Todos os Dias Sejam Dias de Amor

Jo√£o Brand√£o pergunta, prop√Ķe e decreta:
Se h√° o Dia dos Namorados, por que n√£o haver o Dia dos Amorosos, o Dia dos Amadores, o Dia dos Amantes? Com todo o fogo desta √ļltima palavra, que circula entre o carnal e o sublime?
E o Dia dos Amantes Exemplares e o Dia dos Amantes Plat√īnicos, que tamb√©m s√£o exemplares √† sua maneira, e dizem at√© que mais?
Por que não instituir, ó psicólogos, ó sociólogos, ó lojistas e publicitários, o Dia do Amor?
O Dia de Fazê-lo, o Dia de Agradecer-lhe, o de Meditá-lo em tudo que encerra de mistério e grandeza, o Dia de Amá-lo? Pois o Amor se desperdiça ou é incompreendido até por aqueles que amam e não sabem, pobrezinhos, como é essencial amar o Amor.
E mais o Dia do Amor Tranq√ľilo, t√£o raro e vestido de linho alvo, o Dia do Amor Violento, o Dia do Amor Que N√£o Ousava Dizer o Seu Nome Mas Agora Ousa, na arrebenta√ß√£o geral do s√©culo?
Amor Complicado pede o seu Dia, n√£o para tornar-se pedestre, mas para requintar em sua complica√ß√£o cheia de v√īos fora do hor√°rio e da visibilidade. Amor √† Primeira Vista,

Continue lendo…

A Temporalidade

A temporalidade √© evidentemente uma estrutura organizada, e esses tr√™s pretensos “elementos” do tempo, passado, presente , futuro, n√£o devem ser considerados como uma colec√ß√£o de “dados” cuja soma deve ser feita – por exemplo, como uma s√©rie infinita de “agora”, alguns dos quais ainda n√£o s√£o, outros que n√£o s√£o mais -, mas como momentos estruturados de uma s√≠ntese original. Sen√£o encontraremos, em primeiro lugar, este paradoxo: o passado n√£o √© mais, o futuro ainda n√£o √©, quanto ao presente instant√Ęneo, todos sabem que ele n√£o √© tudo, √© o limite de uma divis√£o infinita, como o ponto sem dimens√£o.

A √önica Coisa Duradoura Que Podes Criar

A mam√£ costumava dizer-lhe que tinha muita pena. As pessoas tinham andado a trabalhar durante tantos anos para fazer do mundo um s√≠tio organizado e seguro. Ningu√©m percebera como ele se iria tornar aborrecido. Com todo o mundo dividido em propriedades, com os limites de velocidade e as divis√Ķes por zonas, com tudo regulado e tributado, com todas as pessoas analisadas e recenseadas e rotuladas e registadas. Ningu√©m tinha deixado muito espa√ßo para a aventura, exceptuando, talvez, a do g√©nero que se pode comprar. Numa montanha-russa. Num cinema. No entanto, isso seria sempre uma excita√ß√£o falsa. Sabes que os dinossauros n√£o v√£o comer os m√≠udos. Os referendos recusaram com os seus votos qualquer hip√≥tese de um desastre falso ainda maior. E porque n√£o existe a possibilidade de um desastre verdadeiro, ficamos sem nenhuma hip√≥tese de termos uma salva√ß√£o verdadeira. Entusiasmo verdadeiro. Excita√ß√£o a s√©rio. Alegria. Descoberta. Inven√ß√£o.
As leis que nos dão segurança, estas mesmas leis condenam-nos ao aborrecimento. Sem acesso ao verdadeiro caos, nunca teremos paz verdadeira.

A n√£o ser que tudo possa ficar pior, nunca poder√° ficar melhor.
Isto eram tudo coisas que a mam√£ lhe costumava dizer.
E dizia-lhe mais:

Continue lendo…

Forças Constantes e Imutáveis Através da História

O uso da hist√≥ria n√£o traz surpresas. Ele (o historiador) j√° viu tudo. Sabe que for√ßas constantes e imut√°veis ir√£o resistir √† verdade e ao prop√≥sito superior. Qual a fraqueza, divis√£o, excesso que ir√° prejudicar a causa superior. A espl√™ndida plausibilidade do erro, o inebriante poder de atrac√ß√£o do pecado. E por for√ßa de que adapta√ß√£o a motiva√ß√Ķes inferiores as boas causas s√£o bem sucedidas […] A hist√≥ria n√£o √© uma teia tecida por m√£os inocentes. Entre todas as causas que degradam e desmoralizam os homens, o poder √© o mais constante e activo.

A Disputa das Ideias

Temos cada vez mais tipos de ordem e cada vez menos ordem. (…) Depois de todos os esfor√ßos do passado, entr√°mos num per√≠odo de retrocesso. V√™ bem como as coisas se passam hoje: quando um homem importante lan√ßa uma nova ideia no mundo, ela √© imediatamente apanhada por um mecanismo de divis√£o, constitu√≠do por simpatia e repulsa. Primeiro v√™m os admiradores e arrancam grandes bocados, os que lhes conv√™m, a essa ideia, e despeda√ßam o mestre como as raposas a presa; a seguir, os advers√°rios destroem as partes fracas, e em pouco tempo o que resta de um grande feito mais n√£o √© do que uma reserva de aforismos de que amigos e inimigos se servem a seu bel-prazer. O resultado √© uma ambiguidade generalizada. N√£o h√° Sim a que se n√£o junte um N√£o. Podes fazer o que quiseres, que encontras sempre vinte das mais belas ideias a favor e, se quiseres, vinte que s√£o contra. Quase somos levados a acreditar que √© como no amor e no √≥dio, ou na fome, em que os gostos t√™m de ser diferentes, para que cada um fique com o seu bocado.

O Centro do Universo

Se todo o indivíduo pudesse escolher entre o seu próprio aniquilamento e o do resto do mundo, não preciso dizer para que lado, na maioria dos casos, penderia a balança. Conforme essa escolha, cada um faz de si o centro do universo, refere tudo a si mesmo e considera primeiramente tudo o que acontece Рpor exemplo, as maiores mudanças no destino dos povos Рdo ponto de vista do seu interesse. Ainda que este seja muito pequeno e remoto, é nele que pensa acima de tudo. Não existe contraste maior do que aquele entre a alta e exclusiva divisão, que cada um faz dentro do seu próprio eu, e a indiferença com a qual, em geral, todos os outros consideram aquele eu, bem como o primeiro faz com o deles.
Chega a ter o seu lado c√≥mico ver os in√ļmeros indiv√≠duos que, pelo menos no aspecto pr√°tico, consideram-se exclusivamente reais e aos outros, de certo modo, como meros fantasmas.
[…] O √ļnico universo que todos realmente conhecem e do qual t√™m consci√™ncia √© aquele que carregam consigo como sua representa√ß√£o e que, portanto, constitui o seu centro. √Č justamente por isso que cada um √© em si mesmo tudo em tudo.

Continue lendo…

Somos Traídos pela Nossa Própria Percepção e Experiência

Vemos muito bem que as coisas não se alojam em nós com a sua forma e essência, e não penetram em nós pela sua própria força e autoridade; porque, se assim fosse, recebê-las-íamos do mesmo modo: o vinho seria o mesmo na boca do doente e na boca do homem são. Quem tem os dedos gretados, ou que os tem entorpecidos, encontraria na lança ou na espada que maneja uma rigidez semelhante à que o outro encontra. Os objetos externos rendem-se então à nossa mercê; alojam-se em nós como nos apraz. Ora, se da nossa parte recebêssemos alguma coisa sem alteração, se as faculdades humanas fossem bastante capazes e firmes para apreender a verdade pelos nossos próprios meios, esses meios sendo comuns a todos os homens, essa verdade se transmitiria de mão em mão de um para outro. E pelo menos se encontraria uma coisa no mundo, entre tantas que há, que seria acreditada pelos homens por um consenso universal. Mas o facto de não se ver proposição alguma que não seja debatida e controversa entre nós, ou que não o possa ser, mostra bem que o nosso julgamento natural não apreende muito claramente aquilo que apreende; pois o meu julgamento não pode fazer com que isso seja aceite pelo julgamento do meu companheiro,

Continue lendo…

A Verdadeira Divis√£o Humana

Sois v√≥s um daqueles a quem se chama feliz? Pois bem, v√≥s estais tristes todos os dias. Cada dia tem uma grande amargura e um pequeno cuidado. Ontem trem√≠eis pela sa√ļde de algu√©m que vos √© caro, hoje receais pela vossa; amanh√£ ser√° uma inquitea√ß√£o de dinheiro, depois a diatribe de um caluniador ou a infelicidade de um amigo, mais tarde o mau tempo que faz, qualquer coisa que se quebrou ou se perdeu, uma vez um prazer que a vossa consci√™ncia e a coluna vertebral reprovam, outra vez a marcha dos neg√≥cios p√ļblicos. Isto sem contar as penas de cora√ß√£o. E assim sucessivamente. Uma nuvem que se dissipa e outra que se forma logo. Apenas um dia em cem de plena felicidade e cheio de sol. E sois desse pequeno n√ļmero que √© feliz! Quanto aos outros homens, envolve-os a noite estagnante.
Os espíritos reflectidos usam pouco desta locução: os felizes e os infelizes. Neste mundo, evidentemente vestíbulo de outro, não há felizes.
A verdadeira divisão humana é esta: os iluminados e os tenebrosos.
Diminuir o n√ļmero dos tenebrosos e aumentar o dos iluminados, eis o fim. √Č por isso que n√≥s gritamos: ensino, ci√™ncia! Aprender a ler,

Continue lendo…

As Entranhas da Terra na Vida de um Homem

Ao fim dos primeiros dias de trabalho, deu por si de p√© no centro do corredor, percorrendo as divis√Ķes com o olhar, e julgou perceber melhor a massa de que era feito o seu povo. Tudo oxidava. Os metais oxidavam, as madeiras oxidavam, as paredes e os tecidos e os objectos oxidavam ‚ÄĒ e o que n√£o oxidava enchia-se de salitre, ressequia ao sol ou, sobrevivendo aos abalos de terra, tombava √† f√ļria do vento. E, no entanto, havia algo de belo nisso tamb√©m, como se ao cabo de uma s√≥ vida um homem pudesse dizer, sem grande esfor√ßo meton√≠mico, que as entranhas da Terra se revolviam no interior do seu pr√≥prio est√īmago.

O Mal das Doutrinas Religiosas

– Bem, o que at√© agora me pareceu mais interessante foi verificar que a grande maioria de todas essas cren√ßas parte de um facto ou de uma personagem de relativa probabilidade hist√≥rica, mas todas evoluem rapidamente para movimentos sociais subordinados e enformados pelas circunst√Ęncias pol√≠ticas, econ√≥micas e sociais do grupo que as aceita. Ainda est√° acordada?
Eulalia assentiu.
РUma boa parte da mitologia que se desenvolve à volta de cada uma destas doutrinas, desde a liturgia até às normas e tabus, provém da burocracia que é gerada à medida que evoluem e não do suposto facto sobrenatural que lhes deu origem. A maior parte das anedotas simples e bonançosas, um misto de senso comum e folclore, e toda a carga beligerante que conseguem desenvolver provém da interpretação posterior daqueles princípios, quando não tendem a desvirtuar-se, nas mãos dos seus administradores. A questão administrativa e hierárquica parece ser a chave da sua evolução. A verdade é revelada em princípio a todos os homens, mas depressa aparecem indivíduos que se atribuem o poder e o dever de interpretar, administrar e, nalguns casos, alterar essa verdade em nome do bem comum, estabelecendo para isso uma organização poderosa e potencialmente repressiva.

Continue lendo…

O Saber Ajuda em Todas as Actividades

O mero fil√≥sofo √© geralmente uma personalidade pouco admis¬≠s√≠vel no mundo, pois sup√Ķe-se que ele em nada contribui para o be¬≠nef√≠cio ou para o prazer da sociedade, porquanto vive distante de toda comunica√ß√£o com os homens e envolto em princ√≠pios e no√ß√Ķes igualmente distantes de sua compreens√£o. Por outro lado, o mero ig¬≠norante √© ainda mais desprezado, pois n√£o h√° sinal mais seguro de um esp√≠rito grosseiro, numa √©poca e uma na√ß√£o em que as ci√™ncias florescem, do que permanecer inteiramente destitu√≠do de toda esp√©cie de gosto por estes nobres entretenimentos. Sup√Ķe-se que o car√°cter mais perfeito se encontra entre estes dois extremos: conserva igual capacidade e gosto para os livros, para a sociedade e para os neg√≥cios; mant√©m na conversa√ß√£o discernimento e delicadeza que nascem da cultura liter√°ria; nos neg√≥cios, a probidade e a exatid√£o que resultam naturalmente de uma filosofia conveniente. Para difundir e cultivar um car√°cter t√£o aperfei√ßoado, nada pode ser mais √ļtil do que as com¬≠posi√ß√Ķes de estilo e modalidade f√°ceis, que n√£o se afastam em demasia da vida, que n√£o requerem, para ser compreendidas, profunda apli¬≠ca√ß√£o ou retraimento e que devolvem o estudante para o meio de homens plenos de nobres sentimentos e de s√°bios preceitos,

Continue lendo…

Crescimento Cultural

Como indivíduos, verificamos que o nosso desenvolvimento depende das pessoas que conhecemos no curso da nossa vida (essas pessoas incluem os autores cujas obras lemos e as personagens, tanto da ficção como da história). O benefício desses encontros é devido tanto às diferenças como às semelhanças, tanto ao conflito como à simpatia entre pessoas. Feliz é o homem que, no momento oportuno, encontra o amigo adequado; feliz também o homem que, no momento adequado, encontra o inimigo adequado.
Não aprovo o extermínio do inimigo; a política de exterminar ou, como se diz barbaramente, liquidar o inimigo constitui um dos mais alarmantes desenvolvimentos da guerra moderna e, também, da paz moderna, do ponto de vista de quem deseja a sobrevivência da cultura. Precisamos do inimigo. Assim, dentro de certos limites, o atrito, não só entre indivíduos mas também entre grupos, parece-me necessário à civilização.
A universidade da irrita√ß√£o √© a melhor garantia de paz. Um pa√≠s dentro do qual as divis√Ķes tenham ido demasiado longe √© um perigo para si pr√≥prio; um pa√≠s demasiado unido – seja por natureza ou por inten√ß√£o, por fins honestos ou por fraude e opress√£o – √© uma amea√ßa para os outros.