Citação de

O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás, que sejam sempre erradas. Por natureza, forma o povo um bloco, onde não há mentalmente indivíduos; e o pensamento é individual.
O que caracteriza a segunda camada que não é a burguesia, é a capacidade de reflectir, porém sem ideias próprias; de criticar, porém com ideias de outrem. Na classe média mental, o indivíduo, que mentalmente já existe, sabe já escolher Рpor ideias e não por instinto Рentre duas ideias ou doutrinas que lhe apresentem; não sabe, porém, contrapor a ambas uma terceira, que seja própria. Quando, aqui e ali, neste ou naquele, fica uma opinião média entre duas doutrinas, isso não representa um cuidado crítico, mas uma hesitação mental.
O que caracteriza a terceira camada, o escol, é como é de ver por contraste com as outras duas, a capacidade de criticar com ideias próprias. Importa, porém, notar que essas ideias próprias podem não ser fundamentais. O indivíduo do escol pode, por exemplo, aceitar inteiramente uma doutrina alheia; aceita-a, porém, criticamente, e, quando a defende, defende-a com argumentos seus Рos que o levaram a aceitá-la Рe não, como fará o mental da classe média, com os argumentos originais dos criadores ou expositores dessas doutrinas.
Esta divisão em camadas mentais, embora coincida em parte com a divisão em camadas sociais Рeconómicas ou outras, Рnão se ajusta exatamente a essa. Muita gente das aristocracias de história e de dinheiro pertence mentalmente ao povo. Bastantes operários, sobretudo das cidades, pertencem à classe média mental. Um homem de génio ou de talento, ainda que nascido de camponeses, pertence de nascença ao escol.
Quando, portanto, digo que a palavra “provincianismo” define, sem outra que a condicione, o estado mental presente do povo portugu√™s, digo que essa palavra “provincianismo”, que mais adiante definirei, define a mentalidade do povo portugu√™s em todas as tr√™s camadas que a comp√Ķem. Como, por√©m, a primeira e a segunda camadas mentais n√£o podem por natureza ser superiores ao escol, basta que eu prove o provincianismo do nosso escol presente, para que fique provado o provincianismo mental da generalidade da na√ß√£o.
Os homens, desde que entre eles se levantou a ilus√£o ou realidade chamada civiliza√ß√£o, passaram a viver, em rela√ß√£o a ela, de uma de tr√™s maneiras, que definirei por s√≠mbolos, dizendo que vivem ou como os camp√īnios, ou como provincianos, ou como citadinos. N√£o se esque√ßa que trato de estados mentais e n√£o geogr√°ficos, e que portanto o camp√īnio ou o provinciano pode ter vivido sempre em cidade, e o citadino sempre no que lhe √© natural desterro.
Ora a civilização consiste simplesmente na substituição do artificial ao natural no uso e correnteza da vida. Tudo quanto constitui a civilização, por mais natural que nos hoje pareça, são artifícios: o transporte sobre rodas, o discurso disposto em verso escrito, renegam a naturalidade original dos pés e da prosa falada.
A artificialidade, por√©m, √© de dois tipos. H√° aquela, acumulada atrav√©s das eras, e que, tendo-a j√° encontrado quando nascemos, achamos natural; e h√° aquela que todos os dias se vai acrescentando √† primeira. A esta segunda √© uso chamar “progresso” e dizer que √© “moderno” o que vem dela. Ora o camp√īnio, o provinciano e o citadino diferen√ßam-se entre si pelas suas diferentes rea√ß√Ķes a esta segunda artificialidade.
O que chamei camp√īnio sente violentamente a artificialidade do progresso; por isso se sente mal nele e com ele, e intimamente o detesta. At√© das conveni√™ncias e das comodidades do progresso se serve constrangido, a ponto de, por vezes, e em desproveito pr√≥prio, se esquivar a servir-se delas. √Č o homem dos “bons tempos”, entendendo-se por isso os da sua mocidade, se √© j√° idoso, ou os da mocidade dos bisav√≥s, se √© simplesmente p√°rvuo.
No p√≥lo oposto, o citadino n√£o sente a artificialidade do progresso. Para ele √© como se fosse natural. Serve-se do que √© dele, portanto, sem constrangimento nem apre√ßo. Por isso o n√£o ama nem desama: √©-lhe indiferente. Viveu sempre (f√≠sica ou mentalmente) em grandes cidades; viu nascer, mudar e passar (real ou idealmente) as modas e a novidade das inven√ß√Ķes; s√£o pois para ele aspectos correntes, e por isso incolores, de uma coisa continuamente j√° sabida, como as pessoas com quem convivemos, ainda que de dia para dia sejam realmente diversas, s√£o todavia para n√≥s idealmente sempre as mesmas.
Situado mentalmente entre os dois, o provinciano sente, sim, a artificialidade do progresso, mas por isso mesmo o ama. Para o seu esp√≠rito desperto, mas incompletamente desperto, o artificial novo, que √© o progresso, √© atraente como novidade, mas ainda sentido como artificial. E, porque √© sentido simultaneamente como artificial √© sentido como atraente, e √© por artificial que √© amado. O amor √†s grandes cidades, √†s novas modas, √†s “√ļltimas novidades”, √© o caracter√≠stico distintivo do provinciano.
Se de aqui se concluir que a grande maioria da humanidade civilizada √© composta de provincianos, ter-se-√° conclu√≠do bem, porque assim √©. Nas na√ß√Ķes deveras civilizadas, o escol escapa, por√©m, em grande parte, e por sua mesma natureza, ao provincianismo. A trag√©dia mental de Portugal presente √© que, como veremos, o nosso escol √© estruturalmente provinciano.
N√£o se estabele√ßa, pois seria erro, analogia, por justa posi√ß√£o, entre as duas classifica√ß√Ķes, que se fizeram, de camadas e tipos mentais. A primeira, de sociologia est√°tica, define estados mentais em si mesmos; a segunda, de sociologia din√Ęmica, define estados de adapta√ß√£o mental ao ambiente. H√° gente do povo mental que √© citadina em suas rela√ß√Ķes com a civiliza√ß√£o. H√° gente do escol, e do melhor escol – homens de g√©nio e de talento -, que √© camp√īnio nessas rela√ß√Ķes.

Pelas características indicadas como as do provinciano, imediatamente se verifica que a mentalidade dele tem uma semelhança perfeita com a da criança. A reação do provinciano, às suas artificialidades, que são as novidades sociais, é igual à da criança às suas artificialidades, que são os brinquedos. Ambos as amam espontaneamente, e porque são artificiais.
Ora o que distingue a mentalidade da criança é, na inteligência, o espírito de imitação; na emoção, a vivacidade pobre; na vontade, a impulsividade incoordenada. São estes, portanto, os característicos que iremos achar no provinciano; fruto, na criança, da falta de desenvolvimento civilizacional, e assim ambos efeitos da mesma causa Рa falta de desenvolvimento. A criança é, como o provinciano, um espírito desperto, mas incompletamente desperto.
S√£o estes caracter√≠sticos que distinguir√£o o provinciano do camp√īnio e do citadino. No camp√īnio, semelhante ao animal, a imita√ß√£o existe, mas √† superf√≠cie, e n√£o, como na crian√ßa e no provinciano, vinda do fundo da alma; a emo√ß√£o √© pobre, por√©m n√£o √© vivaz, pois √© concentrada e n√£o dispersa; a vontade, se de facto √© impulsiva, tem contudo a coordena√ß√£o fechada do instinto, que substitui na pr√°tica, salvo em mat√©ria complexa, a coordena√ß√£o aberta da raz√£o. No citadino, semelhante ao homem adulto, n√£o h√° imita√ß√£o, mas aproveitamento dos exemplos alheios, e a isso se chama, quando pr√°tica, experi√™ncia, quando te√≥rico, cultura; a emo√ß√£o, ainda quando n√£o seja vivaz, √© contudo rica, porque complexa, e √© complexa por ser complexo quem a ter√°; a vontade, filha da intelig√™ncia e n√£o do impulso, √© coordenada, tanto que, ainda quando fale√ßa, falece coordenadamente, em prop√≥sitos frustes mas idealmente sistematizados.
Percorramos, olhando sem √≥culos de qualquer grau ou cor, a paisagem que nos apresentam as produ√ß√Ķes e improdu√ß√Ķes do nosso escol. Nelas verificaremos, pormenor a pormenor, aqueles caracter√≠sticos que vimos serem distintivos do provinciano.
Comecemos por n√£o deixar de ver o escol se comp√Ķe de duas camadas – os homens de intelig√™ncia, que formam a sua maioria, e os homens de g√©nio e de talento, que formam a sua minoria, o escol do escol, por assim dizer. Aos primeiros exigimos esp√≠rito cr√≠tico; aos segundos exigimos originalidade, que √©, em certo modo, um esp√≠rito cr√≠tico involunt√°rio. Fa√ßamos pois incidir a an√°lise que nos propusemos fazer, primeiro sobre o pequeno escol, que s√£o os homens de g√©nio e de talento, depois sobre o grande escol.
Temos, √© certo, alguns escritores e artistas que s√£o homens de talento; se algum deles o √© de g√©nio, n√£o sabemos, nem para o caso importa. Nesses, evidentemente, n√£o se pode revelar em absoluto o esp√≠rito de imita√ß√£o, pois isso importaria a aus√™ncia de originalidade, e esta a aus√™ncia de talento. Esses nossos escritores e artistas s√£o, por√©m, originais uma s√≥ vez, que √© a inevit√°vel. Depois disso, n√£o evoluem, n√£o crescem; fixado esse primeiro momento, vivem parasitas de si mesmos, plagiando-se indefinidamente. A tal ponto isto √© assim, que n√£o h√°, por exemplo, poeta nosso presente – dos c√©lebres, pelo menos – que n√£o fique completamente lido quando incompletamente lido, em que a parte n√£o seja igual ao todo. E se em um ou outro se nota, em certa altura, o que parece ser uma modifica√ß√£o da sua “maneira”, a an√°lise revelar√° que a modifica√ß√£o foi regressiva: o poeta ou perdeu a originalidade e assim ficou diferente pelo processo simples de ficar inferior, ou decidiu come√ßar a imitar outros por impot√™ncia de progredir de dentro, ou resolveu, por cansa√ßo, atrelar a carro√ßa do seu estro ao burro de uma doutrina externa, como o catolicismo ou o internacionalismo. Descrevo abstratamente, mas os casos que descrevo s√£o concretos; n√£o preciso de explicar, porque n√£o junto a cada exemplo o nome do indiv√≠duo que mo fornece.
O mesmo provincianismo se nota na esfera da emoção. A pobreza, a monotonia da emoção nos nossos homens de talento literário e artístico, salta ao coração e confrange a inteligência. Emoção viva, sim, como aliás era de esperar, mas sempre a mesma, sempre simples, sempre simples emoção, sem auxílio crítico da inteligência ou da cultura.   A ironia emotiva, a sutileza passional, a contradição no sentimento Рnão as encontrareis em nenhum dos nossos poetas emotivos, e são quase todos emotivos. Escrevem, em matéria do que sentem, como escreveria o pai Adão, se tivesse dado à humanidade, além do mau exemplo já sabido, o, ainda pior, de escrever.
A demonstra√ß√£o fica completa quando conduzimos a an√°lise √† regi√£o da vontade. Os nossos escritores e artistas s√£o incapazes de meditar uma obra antes de a fazer, desconhecem o que seja a coordena√ß√£o, pela vontade intelectual, dos elementos fornecidos pelas emo√ß√£o, n√£o sabem o que √© a disposi√ß√£o das mat√©rias, ignoram que um poema, por exemplo, n√£o √© mais que uma carne de emo√ß√£o cobrindo um esqueleto de racioc√≠nio. Nenhuma capacidade de aten√ß√£o e concentra√ß√£o, nenhuma pot√™ncia de esfor√ßo meditado, nenhuma faculdade de inibi√ß√£o. Escrevem ou artistam ao sabor da, chamada “inspira√ß√£o”, que n√£o √© mais que um impulso complexo do subconsciente que cumpre sempre submeter, por uma aplica√ß√£o centr√≠peta da vontade, √† transmuta√ß√£o alqu√≠mica da consci√™ncia. Produzem como Deus √© servido, e Deus fica mal servido. N√£o sei de poeta portugu√™s de hoje que, construtivamente, seja de confian√ßa para al√©m do soneto.
Ora, feitos estes reparos anal√≠ticos quanto ao estado mental dos nossos homens de talento, √© in√ļtil alongar este breve estudo, tratando com igual pormenor a maioria do escol. Se o escol do escol √© assim, como n√£o ser√° o n√£o-escol do escol? H√°, por√©m, um caracter√≠stico comum a ambos esses elementos da nossa camada mental superior, que aos dois irmana, e, irmanados, define: √© a aus√™ncia de ideias gerais e, portanto, do esp√≠rito cr√≠tico e filos√≥fico que prov√©m de as ter. O nosso escol pol√≠tico n√£o tem ideias excepto sobre pol√≠tica, e as que tem sobre pol√≠tica s√£o servilmente plagiadas do estrangeiro – aceites, n√£o porque sejam boas, mas porque s√£o francesas ou italianas, ou russas, ou o quer que seja. O nosso escol liter√°rio √© ainda pior: nem sobre literatura tem ideias. Seria tr√°gico, √† for√ßa de deixar de ser c√≥mico, o resultado de uma investiga√ß√£o sobre, por exemplo, as ideias dos nossos poetas c√©lebres. J√° n√£o quero que se submetesse qualquer deles ao enxovalho de lhe perguntar o que √© a filosofia de Kant ou a teoria da evolu√ß√£o. Bastaria submet√™-lo ao enxovalho maior de lhe perguntar o que √© o ritmo.