Passagens sobre Franceses

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Fui um Leitor Apaixonado

Eu fui um leitor apaixonado. N√£o havia livros em minha casa, mas costumava ler bastante nas biblioteca p√ļblicas, especialmente √† noite. Lia indiscriminadamente. Lembro-me de ler a tradu√ß√£o do ¬ęPara√≠so Perdido¬Ľ quando tinha 16 anos. N√£o havia ningu√©m que me dissesse o que experimentar a seguir. Por isso tive uma educa√ß√£o liter√°ria an√°rquica cheia de lacunas, mas com o tempo consegui organizar uma esp√©cie de vis√£o coerente da literatura, acima de tudo da literatura francesa.

Os Portugueses S√£o Profundamente Vaidosos

Os Portugueses s√£o profundamente vaidosos. Quando me dizem que eu sou muito vaidosa, eu, nisso, sinto-me muito portuguesa. Quando, por exemplo, os Franceses me dizem, com uma linguagem muito catedr√°tica, ¬ęeu conhe√ßo muito bem os Portugueses atrav√©s de toda essa onda de emigra√ß√£o, eles s√£o muito humildes e dizem que o lugar onde gostariam de morrer seria em Fran√ßa¬Ľ, eu digo ¬ętenha cuidado, o portugu√™s mente sempre. √Č como o japon√™s, mente sempre.¬Ľ Porque tem receio de mostrar o seu complexo de superioridade. Ele acha que √© imprudente e que √© at√© disparatado, mas que faz parte da sua natureza. Portanto, apresenta uma esp√©cie de capa e de fisionomia de humildade, mod√©stia, submiss√£o. Mas n√£o √© nada disso, √© justamente o contr√°rio. Houve √©pocas da nossa Hist√≥ria em que a sua verdadeira natureza p√īde expandir-se sem cair no rid√≠culo, mas h√° outras em que n√£o. E ent√£o, para se defender desse rid√≠culo, o portugu√™s parece essa pessoa modesta, cordata, que n√£o levanta demasiados problemas, seja aos regimes seja na sua vida particular.

O Milagre De Guaxenduba

Minha Terra natal, em Guaxenduba;
Na trincheira, em que o luso ainda trabalha,
A artilharia, que ao francês derruba,
Por três bocas letais pragueja e ralha.

O leão de França, arregaçando a juba,
Saltou. E o luso, como um tigre, o atalha.
Troveja a boca do arcabuz, e a tuba
Do índio corta o clamor e o medo espalha.

Foi ent√£o que se viu, sagrando a guerra,
Nossa Senhora, com o Menino ao colo,
Surgir lutando pela minha terra.

Foi-lhe vista na m√£o a espada em brilho…
(P√°tria, se a Virgem quis assim teu solo,
Que por ti n√£o far√° quem for teu filho?)

Opi√°rio

Ao Senhor M√°rio de S√°-Carneiro

√Č antes do √≥pio que a minh’alma √© doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo h√°-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
j√° n√£o encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os pr√≥prios gozos g√Ęnglios do meu mal.

√Č por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre vis√Ķes de cadafalsos
Num jardim onde h√° flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impress√£o de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um av√ī meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

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Posfácio à Toca do Lobo

РPai, vem da morte e vamos às perdizes.
Vejo a aurora, que tinge do seu rajo
de dente a dente a Serra de Soajo…
РCiprestes, desatai-o das raízes!

– Este Inverno as perdizes est√£o em barda:
criaram-se as ninhadas sem granizo.
Vamos chumbar dos perdig√Ķes o guizo,
anda matar securas da espingarda.

A tua Holland… O animal de presa…
O azul brunido… Velha e como nova…
Bem a merecias a alegrar-te a cova.
Penou-te de saudades, com certeza.

Aqui a tens. Porque era ver-te, olh√°-la,
sequer um dia que não fosse vê-la.
Olha deluz-se a derradeira estrela,
j√° folga a luz no lustra aqui da sala.

Trinta anos depois, caçar contigo,
e sempre conversando e √† chala√ßa…
Mais que perdizes, hoje, melhor caça
√Č matar fomes do ca√ßar antigo.

Ver-te sorrir à escapatória sonsa
da velha que n√£o viu ¬ęperdiz nem chasco!¬Ľ
E o Lorde a anunci√°-la sob o fasco,
e tu lambendo o cigarrinho de on√ßa…

√ď pai, se n√£o vivias h√° trinta anos,
também há trinta eu não vivia,

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Queria que os Portugueses

Queria que os portugueses
tivessem senso de humor
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor

sobretudo se é o próprio
que se afirma como tal
só porque sabendo ler
o que lê entende mal

todos os que s√£o formados
deviam ter que fazer
exame de analfabeto
para provar que sem ler

teriam sido capazes
de constituir cultura
por tudo que a vida ensina
e mais do que livro dura

e tem certeza de sol
mesmo que a noite se instale
visto que ser-se o que se é
muito mais que saber vale

até para aproveitar-se
das d√ļvidas da raz√£o
que a si própria se devia
olhar pura opini√£o

que hoje é uma manhã outra
e talvez depois terceira
sendo que o mundo sucede
sempre de nova maneira

alfabetizar cuidado
n√£o me ponham tudo em culto
dos que não citar francês
consideram puro insulto

se a nação analfabeta
derrubou filosofia
e no jeito aristotélico
o que certo parecia

deixem-na ser o que seja
em todo o tempo futuro
talvez encontre sozinha
o mais além que procuro.

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Se Queres Ser Feliz Abdica da Inteligência

Os tolos s√£o felizes; eu se fosse casado eliminava os tolos da minha casa. Cada cidad√£o, que me fosse apresentado, n√£o poderia s√™-lo, sem exibir o diploma de s√≥cio da academia real das ci√™ncias. Olha, crian√ßa, decora estas duas verdades que o Balzac n√£o menciona na ¬ęFisiologia do Casamento¬Ľ. Um erudito, ao p√© da tua mulher, fala-lhe na civiliza√ß√£o grega, na decad√™ncia do imp√©rio romano, em economia politica, em direito publico, e at√© em qu√≠mica aplicada ao extracto do esp√≠rito de rosas. Confessa que tudo isto o maior mal que pode fazer √† tua mulher √© adormec√™-la. O tolo n√£o √© assim. Como ignora e desdenha a ci√™ncia, dispara √† queima roupa na tua pobre mulher quantos galanteios importou de Paris, que s√£o originais em Portugal, porque s√£o ditos num idioma que n√£o √© franc√™s nem portugu√™s.

Tua mulher, se tem a infelicidade de não ter em ti um marido doce e meigo, começa a comparar-te com o tolo, que a lisonjeia, e acha que o tolo tem muito juízo. Concedido juízo ao tolo, concede-se-lhe razão; concedida a razão, concede-se-lhe tudo. Ora aí tens porque eu antes queria ao pé de minha mulher o padre José Agostinho de Macedo,

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A Hist√≥ria do Romance n√£o √© ¬ęapenas¬Ľ a hist√≥ria do romance

A discuss√£o sobre um romance √© arriscada e limitada quando parte de um can√īne puramente est√©tico. Porque n√£o √© um can√īne est√©tico a ter em conta: √© um can√īne de vida. Uma obra de arte julga-se em fun√ß√£o do que o autor oretende – n√£o do que pretendemos n√≥s. Se queremos p√ī-la em causa, discutamos a pretens√£o antes do que ela realizou. Assim √© pouco eficaz a discuss√£o do ¬ęnovo romance¬Ľ franc√™s antes de nos perguntarmos porque √© que tomou tal caminho. Porque tal caminho implica uma nega√ß√£o radical (em alguns escritores, pelo menos) dos valores da inteligibilidade, da coer√™ncia, do pr√≥prio homem enfim. A hist√≥ria da ¬ępersonagem¬Ľ, como certos cr√≠ticos, ali√°s, j√° frisaram, tem agora o seu tr√°gico remate na destrui√ß√£o dessa mesma personagem. Mas que a nega√ß√£o de um significado para a presen√ßa do homem no mundo que o rodeia √© uma nega√ß√£o paradoxal, prova-o n√£o apenas o facto de o romancista ordenar a vis√£o do mundo ¬ęnessa¬Ľ perspectiva (e essa √© uma contradi√ß√£o, como o √© o cepticismo absoluto) como o prova ainda a obra de certos romancistas (digamos a de um Butor, na anota√ß√£o de um Merleau-Ponty) para quem o ¬ęobjecto¬Ľ se impregna da presen√ßa do homem.

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O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

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Vaidade e Vanglória

Era uma linda inven√ß√£o de Esopo a do moscardo que, sentado no eixo da roda, dizia: ¬ęQuanta poeira fa√ßo levantar!¬Ľ Assim h√° muitas pessoas v√£s que quando um neg√≥cio marcha por si ou vai sendo movido por agentes mais importantes, desde que estejam relacionados com ele por um s√≥ pormenor, imaginam que s√£o eles quem conduz tudo: os que t√™m que ser facciosos, porque toda a vaidade assenta em compara√ß√Ķes. T√™m de ser necessariamente violentos, para fazerem valer as suas jact√Ęncias. N√£o podem guardar segredo, e por isso n√£o s√£o √ļteis para ningu√©m, mas confirmam o prov√©rbio franc√™s: Beaucoup de bruit, peu de fruit.
Este defeito não é, porém, sem utilidade para os negócios políticos: onde houver uma opinião ou uma fama a propagar, seja de virtude seja de grandeza, esses homens são óptimos trombeteiros.
(…) A vaidade ajuda a perpetuar a mem√≥ria dos homens, e a virtude nunca foi considerada pela natureza humana como digna de receber mais do que um pr√©mio de segunda m√£o. A gl√Ķria de C√≠cero, de S√©neca, de Pl√≠nio o Mo√ßo, n√£o teria durado tanto tempo se eles n√£o fossem de algum modo vaidosos; a vaidade √© como o verniz, que n√£o s√≥ faz brilhar,

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O Cidad√£o L√ļcido em Vez do Consumidor Irracional

J√° se sabe que n√£o somos um povo alegre (um franc√™s aproveitador de rimas f√°ceis √© que inventou aquela de que ¬ęles portugais sont toujours gais¬Ľ), mas a tristeza de agora, a que o Cam√Ķes, para n√£o ter de procurar novas palavras, talvez chamasse simplesmente ¬ęapagada e vil¬Ľ, √© a de quem se v√™ sem horizontes, de quem vai suspeitando que a prosperidade prometida foi um logro e que as apar√™ncias dela ser√£o pagas bem caras num futuro que n√£o vem longe. E as alternativas, onde est√£o, em que consistem? Olhando a cara fingidamente satisfeita dos europeus, julgo n√£o serem previs√≠veis, t√£o cedo, alternativas nacionais pr√≥prias (torno a dizer: nacionais, n√£o nacionalistas), e que da crise profunda, crise econ√≥mica, mas tamb√©m crise √©tica, em que patinhamos, √© que poder√£o, talvez ‚ÄĒ contentemo-nos com um talvez ‚ÄĒ, vir a nascer as necess√°rias ideias novas, capazes de retomar e integrar a parte melhor de algumas das antigas, principiando, sem pr√©via defini√ß√£o condicional de antiguidade ou modernidade, por recolocar o cidad√£o, um cidad√£o enfim l√ļcido e respons√°vel, no lugar que hoje est√° ocupado pelo animal irracional que responde ao nome de consumidor.

Ode Marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manh√£ de Ver√£o,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atr√°s de si a orla v√£ do seu fumo.
Vem entrando, e a manh√£ entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de tr√°s dos navios que est√£o no porto.
H√° uma vaga brisa.
Mas a minh’alma est√° com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele est√° com a Dist√Ęncia, com a Manh√£,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manh√£ na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.

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O apetite do privil√©gio e o gosto da igualdade, eis as paix√Ķes dominantes e contradit√≥rias dos Franceses em todas as √©pocas.

O Nosso C√≥digo √Čtico e Moral Desculpabiliza-nos Perante a Recusa de Aliviarmos o Sofrimento Alheio

Eu não desviava os olhos de minha mãe, sabia que, quando estivessem à mesa, não me seria permitido ficar até ao fim da refeição, e que, para não contrariar meu pai, a mamã não me deixaria beijá-la várias vezes diante dos outros, como se fosse no meu quarto.
(…) antes de tocarem a sineta para o jantar, meu av√ī teve a ferocidade inconsciente de dizer: ¬ęO pequeno parece cansado; deveria ir deitar-se. E depois, jantamos tarde hoje.¬Ľ E meu pai,(…) disse: ¬ęSim. Anda, vai deitar-te.¬Ľ Eu quis beijar a mam√£; nesse instante ouviu-se a sineta do jantar. ¬ęN√£o, n√£o, deixa a tua m√£e em paz, voc√™s j√° se despediram bastante, essas demonstra√ß√Ķes s√£o rid√≠culas. Anda, sobe!¬Ľ E eu tive de partir sem vi√°tico; tive de subir cada degrau ¬ęcontra o cora√ß√£o¬Ľ, subindo contra o meu cora√ß√£o, que desejava voltar para junto de minha m√£e porque ela n√£o lhe havia dado, com um beijo, licen√ßa de me acompanhar.
(…) J√° no meu quarto, tive de (…) cerrar os postigos, cavar o meu pr√≥prio t√ļmulo enquanto virava as cobertas, vestir o sud√°rio da minha camisa de dormir. Mas antes de sepultar-me no leito de ferro (…), veio-me um impulso de revolta e resolvi tentar um ardil de condenado.

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Pensar o Meu País

Pensar o meu pa√≠s. De repente toda a gente se p√īs a um canto a meditar o pa√≠s. Nunca o t√≠nhamos pensado, pens√°ramos apenas os que o governavam sem pensar. E de s√ļbito foi isto. Mas para se chegar ao pa√≠s tem de se atravessar o espesso nevoeiro da mediocralhada que o infestou. Ser√° que a democracia exige a mediocridade? Mas os povos civilizados dizem que n√£o. N√≥s √© que temos um estilo de ser med√≠ocres. N√£o √© quest√£o de se ser ignorante, incompetente e tudo o mais que se pode acrescentar ao estado em bruto. N√£o √© quest√£o de se ser est√ļpido. Temos saber, temos intelig√™ncia. A quest√£o √© s√≥ a do equil√≠brio e harmonia, a quest√£o √© a do bom senso. H√° um modo profundo de se ser que fica vivo por baixo de todas as cataplasmas de verniz que se lhe aplicarem. H√° um modo de se ser grosseiro, sem ao menos se ter o rasgo de assumir a grosseria. E o resultado √© o rid√≠culo, a f√≠fia, a ¬ęfuga do p√© para o chinelo¬Ľ. O Espanhol √© um ¬ęb√°rbaro¬Ľ, mas assume a barbaridade. N√≥s somos uns camp√≥nios com a obsess√£o de parecermos civilizados. O Franc√™s √© um ser artificioso,

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O Provincianismo Português (I)

Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir num síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro.
O provincianismo consiste em pertencer a uma civiliza√ß√£o sem tomar parte no desenvolvimento superior dela ‚ÄĒ em segui-la pois mimeticamente, com uma subordina√ß√£o inconsciente e feliz. O s√≠ndroma provinciano compreende, pelo menos, tr√™s sintomas flagrantes: o entusiasmo e admira√ß√£o pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admira√ß√£o pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.
Se h√° caracter√≠stico que imediatamente distinga o provinciano, √© a admira√ß√£o pelos grandes meios. Um parisiense n√£o admira Paris; gosta de Paris. Como h√°-de admirar aquilo que √© parte dele? Ningu√©m se admira a si mesmo, salvo um paran√≥ico com o del√≠rio das grandezas. Recordo-me de que uma vez, nos tempos do “Orpheu”, disse a M√°rio de S√°-Carneiro: “V. √© europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa V. √© v√≠tima da educa√ß√£o portuguesa. V. admira Paris,

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Com a mania francesa e burguesa de reduzir todas as regi√Ķes e todas as ra√ßas ao mesmo tipo de civiliza√ß√£o, o mundo ia tornar-se numa monotonia abomin√°vel. Dentro em breve um touriste faria enormes sacrif√≠cios, despesas sem fim, para ir a Tumbuctu – para qu√™? Para encontrar l√° pretos de chap√©u alto, a ler o Jornal dos Debates.

√ď Minha Felicidade

Revejo os pombos de S√£o Marcos:
A praça está silenciosa; ali se repousa a manhã.
Indolentemente envio os meus cantos para o seio da suave
frescura,
Como enxames de pombos para o azul
Depois torno a cham√°-los
Para prender mais uma rima às suas penas.
‚ÄĒ √ď minha felicidade! √ď minha felicidade!

Calmo céu, céu azul-claro, céu de seda,
Planas, protector, sobre o edifício multicor
De que gosto, que digo eu?… Que receio, que invejo…
Como seria feliz bebendo-lhe a alma!
Alguma vez lha devolveria?
Não, não falemos disso, ó maravilha dos olhos!
‚ÄĒ √ď minha felicidade! √ď minha felicidade!

Severa torre, que impulso leonino
Te levantou ali, triunfante e sem custo!
Dominas a pra√ßa com o som profundo dos teus sinos…
Serias, em franc√™s, o seu ¬ęaccent aigu¬Ľ!
Se, como tu, eu ficasse aqui,
Saberia a seda que me prende…
‚ÄĒ √ď minha felicidade! √ď minha felicidade!

Afasta-te, m√ļsica. Deixa primeiro as sombras engrossar
E crescer até à noite escura e tépida.
√Č ainda muito cedo para ti, os teus arabescos de ouro
Ainda n√£o cintilam no seu esplendor de rosa;

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