Poemas sobre Corpo

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Poemas de corpo escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Amei-te sem Saberes

No avesso das palavras
na contr√°ria face
da minha solid√£o
eu te amei
e acariciei
o teu imperceptível crescer
como carne da lua
nos nocturnos l√°bios entreabertos

E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar

No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crep√ļsculo e alvorada

Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas
a espera do silêncio

Quem Dir√° aos Amantes

Quem dir√° aos amantes
o caminho
pelo qual os corpos v√£o
ao termo do que souberam?
E depois foi noção,
espaço, letra,
e n√£o quiseram o retorno?
Quem os aguardar√° do outro lado
onde o riso,
a aveia, s√£o o pre√Ęmbulo
da carícia no seio?

Quem dir√° aos
amantes que o amor h√°-de despir
o acontecido
e passar√° pela m√£o
como passou o frio
de flor em flor?

O povo manda no rio

Aqui estou, doido de gaivotas, no sítio onde
O povo manda no rio, aqui estou
Com Annie nas margens do bucólico rio Almançor.
Agora conheço, sabemos o peso do trigo,
Somos, n√£o, sou, perd√£o,
N√£o quero ser perito em almas (em ervas),
Seremos somente, n√£o, serei mestre em cores
E venenos.
Annie, não deixes que o tempo envelheça
Sobre os teus l√°bios
Que encobrem o mistério mais audaz da minha vida.

√Č o virar do Ver√£o,
O acrobático cair dos gladíolos.

Todos os venenos est√£o contados,
Menos aqui onde o povo manda no rio Almançor:
Vieram as alfaias, os punhos de terra ocra
E na terra em sangue, entre o basalto que
N√£o h√° e os p√°ssaros, entre as charruas vedras,
O povo mudou o trajecto das √°guas,
E as √°guas, Annie, j√° n√£o s√£o corruptas:
Cheiram a corpo descalço e a mel,
Cheiram a p√£o.

Tu Ensinaste-me a Fazer uma Casa

Tu ensinaste-me a fazer uma casa:
com as m√£os e os beijos.
Eu morei em ti e em ti meus versos procuraram
voz e abrigo.
E em ti guardei meu fogo e meu desejo. Construí
a minha casa.
Porém não sei já das tuas mãos. Os teus lábios perderam-se
entre palavras duras e precisas
que tornaram a tua boca fria
e a minha boca triste como um cemitério de beijos.

Mas recordo a sede unindo as nossas bocas
mordendo o fruto das manh√£s proibidas
quando as nossas m√£os surgiam por detr√°s de tudo
para saudar o vento.

E vejo teu corpo perfumando a erva
e os teus cabelos soltando revoadas de p√°ssaros
que agora se recolhem, quando a noite se move,
nesta casa de versos onde guardo o teu nome.

Ode ao Amor

T√£o lentamente, como alheio, o excesso de desejo,
atento o olhar a outros movimentos,
de contacto a contacto, em sereno anseio, leve toque,
obscuro sexo √° flor da pele sob o entreaberto
de roupas soerguidas, vibração ligeira, sinal puro
e vago ainda, e s√ļbito contrai-se,
mais não é excesso, ondeia em síncopes e golpes
no interior da carne, as pernas se distendem,
dobram-se, o nariz se afila, adeja, as m√£os,
dedos esguios escorrendo trémulos
e um sorriso irónico, violentos gestos,
amor…
ah tu, senhor da sombra e da ilus√£o sombria,
vida sem gosto, corpo sem rosto, amor sem fruto,
imagem sempre morta ao dealbar da aurora
e do abrir dos olhos, do sentir memória, do pensar na vida,
fuga perpétua, demorado espasmo, distração no auge,
cansaço e caridade pelo desejo alheio,
raiva contida, ódio sem sexo, unhas e dentes,
despedaçar, rasgar, tocar na dor ignota,
hesitação, vertigem, pressa arrependida,
insuport√°vel triturar, deslize amargo,
tremor, ranger, arcos, soluços, palpitar e queda.

Distantemente uma alegria foi,
imensa, j√° tranquila, apascentando orvalhos,
de contacto a contacto, ansiosamente serenando,

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O Amor e a Morte

Canção cruel

Corpo de √Ęnsia.
Eu sonhei que te prostrava,
E te enleava
Aos meus m√ļsculos!

Olhos de êxtase,
Eu sonhei que em vós bebia
Melancolia
De há séculos!

Boca s√īfrega,
Rosa brava
Eu sonhei que te esfolhava
Pétala a pétala!

Seios rígidos,
Eu sonhei que vos mordia
Até que sentia
Vómitos!

Ventre de m√°rmore,
Eu sonhei que te sugava,
E esgotava
Como a um c√°lice!

Pernas de est√°tua,
Eu sonhei que vos abria,
Na fantasia,
Como pórticos!

Pés de sílfide,
Eu sonhei que vos queimava
Na lava
Destas m√£os √°vidas!

Corpo de √Ęnsia,
Flor de vol√ļpia sem lei!
N√£o te apagues, sonho! mata-me
Como eu sonhei.

Sonho

Numa casa de vidro te sonhei.
Numa casa de vidro me esperavas.
Num poço ou num cristal me debrucei.
Só no teu rosto a morte me alcançava.

De quem a morte, por terror de mim?
De quem o infinito que faltava?
Numa casa de vidro vi meu fim.
Numa casa de vidro me esperavas.

Numa casa de vidro as persianas
desciam lentamente e em seu lugar
a noite abria o escuro das entranhas
e o teu rosto morria devagar.

Numa casa de vidro te sonhei.
Numa casa de vidro me esperavas.
Fiz do teu corpo sonho e n√£o olhei
nas palavras a morte que guardavas.

Descemos devagar as persianas,
deix√°mos que o amor nos corroesse
o íntimo da casa e as estranhas
cerimónias do dia que adoece.

Numa casa de vidro. Num espelho.
Na memória, por vezes amargura,
por vezes riso falso de t√£o velho,
cantar da sombra sobre a selva escura.

Numa casa de vidro te sonhei.
No vazio dessa casa me esperavas.

Canto Esponjoso

Bela
esta manhã sem carência de mito,
E mel sorvido sem blasfémia.

Bela
esta manhã ou outra possível,
esta vida ou outra invenção,
sem, na sombra, fantasmas.

Umidade de areia adere ao pé.
Engulo o mar, que me engole.
Valvas, curvos pensamentos, matizes da luz
azul
completa
sobre formas constituídas.

Bela
a passagem do corpo, sua fus√£o
no corpo geral do mundo.
Vontade de cantar. Mas t√£o absoluta
que me calo, repleto.

Confiss√£o

Meus l√°bios, meus olhos (a flor e o veludo…)
Minha ideia turva, minha voz sonora,
Meu corpo vestido, meu sonho desnudo…
Senhor confessor! Sabeis tudo ‚ÄĒ tudo!
Quanto o vulgo, ingénuo, ao saudar-me, ignora!

Sabeis que em meus beijos a fome dormira
Antes que da orgia a f√© despertasse…
Sabeis que sem oiro o mundo é mentira
E, como do fruto que Deus proibira,
Um luar tombou, manchando-me a face.

P√°ssaro, cativo da noite infinita!
√Āguia de asa in√ļtil, pela noite presa!
√ď cruz dos poetas! √≥ noite infinita!
√ď palavra eterna! minha √ļnica escrita!
Beleza! Beleza! Beleza! Beleza!

Eis as minhas mãos! Quem pode prendê-las?
S√£o fr√°geis, mas nelas h√° dedos inteiros.
Senhor confessor! Quem n√£o conta estrelas?
Meus dedos, um dia, contaram estrelas…
Quem conta as estrelas n√£o conta dinheiros!

Segredo

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
N√£o ame.

Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
√Č a revolu√ß√£o? o amor?
N√£o diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
H√° homens que andam no mar
como se andassem na rua.
N√£o conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perd√£o.
Não peça.

Mania da Solid√£o

Como um jantar frugal junto à clara janela,
Na sala já está escuro mas ainda se vê o céu.
Se saísse, as ruas tranquilas deixar-me-iam
ao fim de pouco tempo em pleno campo.
Como e observo o c√©u ‚ÄĒ quem sabe quantas mulheres
est√£o a comer a esta hora ‚ÄĒ o meu corpo est√° tranquilo;
o trabalho atordoa o meu corpo e também as mulheres.

L√° fora, depois do jantar, as estrelas vir√£o tocar
a terra na ancha planura. As estrelas s√£o vivas,
mas n√£o valem estas cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sei que entre os tectos de ferrugem
brilha já alguma luz e que, por baixo, há ruídos.
Um grande golo e o meu corpo saboreia a vida
das √°rvores e dos rios e sente-se desprendido de tudo.
Basta um pouco de silêncio e as coisas imobilizam-se
no seu verdadeiro sítio, como o meu corpo imóvel.

Cada coisa est√° isolada ante os meus sentidos,
que a aceita impassível: um cicio de silêncio.
Cada coisa na escuridão posso sabê-la,
como sei que o meu sangue circula nas veias.

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Conhecimento do Amor

Amor, como o compreendo agora, é mais
ren√ļncia que desejo. Outrora hostil,
agressivo, hoje s√ļplica, murm√ļrio
íntimo, cinzas em silêncio, amor,
à morte assemelhando-se, besouro
em agonia, dor da perda, o sonho
estraçalhado, renunciar, renu-
nciar sempre, e sem espera, ao corpo amado.

A vida me consente essa amargura
e é preciso vivê-la sem demora,
abrir os olhos, aceitar a sombra,
meditar sem rancor a decep√ß√£o ‚ÄĒ
instante em que a mulher se distancia
e a voz ao telefone ri tranquila
anunciando a partida: outros braços,
agora, amor, mesclado de impotência
e irris√£o, l√°grimas que n√£o se mostram.

Toda ren√ļncia comp√Ķe jogo amargo
de desespero e morte. Renunciar,
ainda que de joelhos, deitado, o corpo
ansiando pelo teu amor se fira,
e o coração, tumulto, empalideça
e nada reste enfim que a vida mesma,
percorrida com calma e indiferença.

Assim, amor, te compreendo agora:
‚ÄĒ devo√ß√£o malquerida a toda hora.

Ode Triunfal

√Ä dolorosa luz das grandes l√Ęmpadas el√©ctricas da f√°brica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

√ď rodas, √≥ engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em f√ļria!
Em f√ļria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De express√£o de todas as minhas sensa√ß√Ķes,
Com um excesso contempor√Ęneo de v√≥s, √≥ m√°quinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –
Grandes tr√≥picos humanos de ferro e fogo e for√ßa –
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,

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A Minha Saudade Tem o Mar Aprisionado

A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
√Č uma mat√©ria vibr√°til e nost√°lgica
que n√£o consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os l√°bios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque n√£o posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que n√£o prendem p√°ssaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um dist√ļrbio da paix√£o.

Quando Chegar a Hora

Quando eu, feliz! morrer, oiça, Sr. Abbade,
Oiça isto que lhe peço:
Mande-me abrir, alli, uma cova √° vontade,
Olhe: eu mesmo lh’a me√ßo…

O coveiro √© pod√£o, fal-as sempre t√£o baixas…
O c√£o pode l√° ir:
Diga ao moço, que tem a pratica das sachas,
Que m’a venha elle abrir.

E o sineiro que, em vez de dobrar a finados,
Que toque a Alléluia!
N√£o me diga ora√ß√Ķes, que eu n√£o tenho peccados:
A minha alma é dia!

Ser√° meu confessor o vento, e a luz do raio
A minha Extrema-Uncção!
E as carvalhas (chorae o poeta, encommendae-o!)
De padres far√£o.

Mas as aguias, um dia, em bando como astros,
Vir√£o devagarinho,
E h√£o-de exhumar-me o corpo e leval-o-√£o de rastros,
Em tiras, para o ninho!

E ha-de ser um deboche, um pagode, o demonio,
N’aquelle dia, ai!
Aguias! sugae o sangue a vosso filho Antonio,
Sugae! sugae! sugae!

Raro têm de comer. A pobreza consome
As aguias, coitadinhas!
Ao menos, n’esse dia, eu matarei a fome
A essas desgra√ßadinhas…

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Nua

I

Nua
como Eva.
A cabeleira
beija-lhe o rosto oval e flutua;
o corpo
√© √°gua de torrente…

Eva adolescente,
com reflexos de lua
e tons de aurora…!

Roseira que enflora…!

Desflorada por tanta gente…

II

Teu corpo,
mal o toquei…

Só te abracei
de leve…

Foi todo neve
o sonho que alonguei…

Asas em voo,
quem, um dia, as teve?

Os sonhos que eu sonhei!

III

Jeito de ave
e criança,
suave
como a dança
do ramo de √°rvore
que o vento beija e balança!

Nave
de sonho
no temporal medonho
silvando agoiro!

Quem destrançou os teus cabelos de oiro?

IV

Corpo fino,
delicado,
sereno, sem desejos…

T√£o macio,
t√£o modelado…

Beijos… Beijos… Beijos…

V

No meu sono
ela flutua
a cada passo…

Nua,
riscando o espaço
numa n√©voa de outono…

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Gazel do Amor Imprevisto

O perfume ninguém compreendia
da escura magnólia de teu ventre.
Ninguém sabia que martirizavas
entre os dentes um colibri de amor.

Mil pequenos cavalos persas dormem
na praça com luar de tua fronte,
enquanto eu enlaçava quatro noites,
inimiga da neve, a tua cinta.

Entre gesso e jasmins, o teu olhar
era um p√°lido ramo de sementes.
Procurei para dar-te, no meu peito,
as letras de marfim que dizem sempre,

sempre, sempre; jardim em que agonizo,
teu corpo fugitivo para sempre,
teu sangue arterial em minha boca,
tua boca j√° sem luz para esta morte.

Tradução de Oscar Mendes

Gazel do Amor que N√£o se Deixa Ver

Somente por ouvir
o sino da Vela
pus em ti uma coroa de verbena.

Granada era uma lua
afogada entre as heras.

Somente por ouvir
o sino da Vela
destrocei meu jardim de Cartagena.

Granada era uma corça
rosada pelos cataventos.

Somente por ouvir
o sino da Vela
me abrasava em teu corpo
sem saber de quem era.

Tradução de Oscar Mendes

Cerimónia Funesta

O corpo n√£o responde
às vozes de comando,
como um c√£o estropiado
j√° desdenha os apelos
os antigos convites
às funestas moradas,
esqueceu-se do ponto
vai olvidando senhas
os códigos das grutas
acumulando lixos
as servid√Ķes austeras
diluem-se num canto
o corpo n√£o atende chamadas
não estremece ao ruído da chave
n√£o suporta
qualquer intromiss√£o
secou num aterro,
os restos à vista
a memória escava
da lembrança os rastos
avidamente suga
de tal fausto os ossos,
de tão vitais cerimónias
nos t√£o secretos barcos
mesmo o pouco que resta
ainda se mastiga.

Meu corpo, que mais receias?

-Meu corpo, que mais receias?
-Receio quem n√£o escolhi.

-Na treva que as m√£os repelem
os corpos crescem trementes.
Ao toque leve e ligeiro
O corpo torna-se inteiro,
Todos os outros ausentes.

Os olhos no vago
Das luzes brandas e alheias;
Joelhos, dentes e dedos
Se cravam por sobre os medos…
Meu corpo, que mais receias?

-Receio quem n√£o escolhi,
quem pela escolha afastei.
De longe, os corpos que vi
Me lembram quantos perdi
Por este outro que terei.