Passagens sobre Ritmo

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Frases sobre ritmo, poemas sobre ritmo e outras passagens sobre ritmo para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Ars Poética

Nesse afago do meu fado afogado
as √°guas j√° me sabem nadador.
A rês na travessia marejada
gado da grei de um mar revelador.

Vou e volto lambendo o sal do fardo
língua no labirinto, ardendo em cor
furtiva, enquanto messe temperada,
da tribo das palavras sou cantor.

Procuro em frio exílio tipográfico
o verbo mais sonoro em melodia
o ritmo para a cal de um pasto c√°ustico.

Sou boi e sou vaqueiro dia a dia
no laço entrelaçado fiz-me prático
catador de capins nas pradarias.

O Matrismo

Acho que n√£o vale a pena a mulher libertar-se para imitar os padr√Ķes patristas que nos t√™m regido at√© hoje. Ou valer√° a pena, no aspecto da realiza√ß√£o pessoal, mas n√£o √© isso que vem modificar o mundo, que vem dar um novo rumo √†s sociedades, que vem revitalizar a vida. Ora bem, a mulher deve seguir as suas pr√≥prias tend√™ncias culturais, que est√£o intimamente ligadas ao paradigma da Grande M√£e, que √© a grande reserva, a eterna reserva da Natureza, precisamente para os impor ao mundo ou pelo menos para os introduzir no ritmo das sociedades como uma sa√≠da indispens√°vel para os graves problemas que temos e que foram criados pelas racionalidades masculinas. E no paradigma da Grande M√£e que vejo a fonte cultural da mulher; por isso lhe chamo matrismo e n√£o feminismo.

A Morte que Trazemos no Coração

√Č no cora√ß√£o que morremos. √Č a√≠ que a morte habita.

Nem sempre nos damos conta que a carregamos connosco, mas, desde que somos vida, ela segue-nos de perto. Enquanto n√£o somos tomados pela nossa, vamos assistindo e sentindo, em ritmo crescente ao longo da vida, √†s mortes de quem nos √© querido. A morte de um amigo √© como uma amputa√ß√£o: perdemos uma parte de n√≥s; uma fonte de amor; algu√©m que dava sentido √† nossa exist√™ncia… porque despertava o amor em n√≥s.

Mas não há sabedoria alguma, cultura ou religião, que não parta do princípio de que a realidade é composta por dois mundos: um, a que temos acesso direto e, outro, que não passa pelos sentidos, a ele se chega através do coração. Contudo, o visível e o invisível misturam-se de forma misteriosa, ao ponto de se confundirem e, como alguns chegam a compreender, não serem já dois mundos, mas um só.
Só as pessoas que amamos morrem. Só a sua morte é absoluta separação. Os estranhos, com vidas com as quais não nos cruzamos, não morrem, porque, para nós, de facto, não chegam sequer a ser.

Só as pessoas que amamos não morrem.

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Liberdade e Eternidade

A liberdade que √†s vezes sentia n√£o vinha de reflex√Ķes n√≠tidas, mas de um estado como feito de percep√ß√Ķes por demais org√Ęnicas para serem formuladas em pensamentos. √Äs vezes no fundo da sensa√ß√£o tremulava uma ideia que lhe dava leve consci√™ncia de sua esp√©cie e de sua cor.

O estado para onde deslizava quando murmurava: eternidade. O pr√≥prio pensamento adquiria uma qualidade de eternidade. Aprofundava-se magicamente e alargava-se, sem propriamente um conte√ļdo e uma forma, mas sem dimens√Ķes tamb√©m. A impress√£o de que se conseguisse manter-se na sensa√ß√£o por mais uns instantes teria uma revela√ß√£o ‚ÄĒ facilmente, como enxergar o resto do mundo apenas inclinando-se da terra para o espa√ßo. Eternidade n√£o era s√≥ o tempo, mas algo como a certeza enraizadamente profunda de n√£o poder cont√™-lo no corpo por causa da morte; a impossibilidade de ultrapassar a eternidade era eternidade; e tamb√©m era eterno um sentimento em pureza absoluta, quase abstracto. Sobretudo dava ideia de eternidade a impossibilidade de saber quantos seres humanos se sucederiam ap√≥s seu corpo, que um dia estaria distante do presente com a velocidade de um b√≥lido.

Definia eternidade e as explica√ß√Ķes nasciam fatais como as pancadas do cora√ß√£o. Delas n√£o mudaria um termo sequer,

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Ontologia do Amor

Tua carne é a graça tenra dos pomares
e abre-se teu ventre de uma a outra lua;
de teus próprios seios descem dois luares
e desse luar vestida é que ficas nua.

√ānsia de voo em asas de ficar
de ti mesma sou o mar e o fundo.
Praia dos seres, quem te viajar
só naufragando recupera o mundo.

Ritmo de céu, por quem és pergunta
de uma azul resposta que n√£o trazes junta
vitral de carne em catedral infinda.

Ter-te amor é já rezar-te, prece
de um imenso altar onde acontece
quem no próprio corpo é céu ainda.

N√≥s n√£o falamos em prosa. Falamos em verso. Falamos em verso sem rima nem ritmo. Fazemos pausas na conversa que na leitura da prosa se n√£o podem fazer. Falamos, sim, em verso, em verso natural – isto √©, em verso sem rima nem ritmo, com as pausas do nosso f√īlego e sentimento. Os meus versos s√£o naturais porque s√£o feitos assim.

H√° Mais de Meia Hora

H√° mais de meia hora
Que estou sentado à secretária
Com o √ļnico intuito
De olhar para ela.
(Estes versos est√£o fora do meu ritmo.
Eu também estou fora do meu ritmo.)
Tinteiro grande à frente.
Canetas com aparos novos à frente.
Mais para c√° papel muito limpo.
Ao lado esquerdo um volume da “Enciclop√©dia Brit√Ęnica”.
Ao lado direito ‚ÄĒ
Ah, ao lado direito
A faca de papel com que ontem
Não tive paciência para abrir completamente
O livro que me interessava e n√£o lerei.

Quem pudesse sintonizar tudo isto!

Século XXI

Falam de tudo como se a raz√£o
lhes ensinasse desesperadamente
a mentir, a lançar
sem remorso nem asco um novo isco
à espera que alguém morda
e acredite nessa liturgia
cujos deuses s√£o f√°ceis de adorar
e obedecem às leis do mercado.

Falam desse ludíbrio a que chamam
o futuro
como se ele existisse
e as suas palavras ecoam
em flatulentas frases
sempre a favor do vento que as agita
ao ritmo dos sorrisos ou das entrevistas
em que tudo se vende
por um pre√ßo acess√≠vel: emo√ß√Ķes
& sexo & fama & outros prometidos
paraísos terrestres em horário nobre
Рmatéria reciclável
alimentando o altar do esquecimento.

O poder n√£o existe, como sabes
demasiado bem – apenas uma
in√ļtil recidiva biol√≥gica
de hormonas apressadas que procuram
ser fiéis aos comércio
dos sonhos sempre iguais, reproduzindo
sedutoras met√°stases do nada
nos códigos de barras ou nos cromossomas
de quem j√° pouco espera dos seus genes.

Devo-te

Devo-te tanto como um p√°ssaro
deve o seu voo à lavada
planície do céu.

Devo-te a forma
novíssima de olhar
teu corpo onde às vezes
desce o pudor o silêncio
de uma p√°lpebra mais nada.

Devo-te o ritmo
de peixe na palavra,
a genesíaca, doce
violência dos sentidos;
esta tinta de sol
sobre o papel de silêncio
das coisas – estes versos
doces, curtos, de abelhas
transportando o pólen
levíssimo do dia;
estas formigas na sombra
da própria pressa e entrando
todas em fila no tempo:
com uma pergunta fr√°gil
nas antenas, um recado invisível, o peso
que as deixa ser e esquece;
e a tua voz que compunha
uma casa, uma rosa
a toda a volta Рó meu amor vieste
rasgar um sol das minhas m√£os!

H√° que P√īr Pedra sobre Pedra

Nunca pensei em ser governo, nunca o quis mesmo, mas interessei-me sempre muito pelos neg√≥cios p√ļblicos, pelos neg√≥cios do Pa√≠s. E a√≠ tem um exemplo, anterior √† minha entrada no Governo, que lhe pode dar uma ideia do ritmo da minha ac√ß√£o, da tal marcha vagarosa de que me acusam…
(…) √Č que me fui habilitando, lentamente, sem precipita√ß√Ķes, quase sem dar por isso, liberto de qualquer ambi√ß√£o de ordem pessoal. E assim, quando a minha interven√ß√£o na m√°quina do Estado p√īde ser √ļtil, ela foi aproveitada, talvez, como n√£o seria se eu tivesse improvisado uma cultura. Pois com a marcha do Pa√≠s o mesmo acontece. H√° que p√īr pedra sobre pedra, mas desinteressadamente, sem pensar na gl√≥ria pr√≥pria e sem pensar at√©, excessivamente, na ab√≥bada, na finalidade. A √Ęnsia de chegar ao fim, de fazer muitas coisas ao mesmo tempo leva, √†s vezes, ao fim, mas ao fim de tudo…

O Meu Amor

O meu amor, que livre anda de engano,
ambiente natural
encontra nestes campos, onde a relva,
levemente movida pela brisa,
ao contacto é macia,
e o boi rumina, sem espanto, a sua
doçura de vagar,
olhos postos nas coisas, distraído;
um cavalo anda longe,
e a crina se desfralda como um leque,
aberto por um vento muito brando.

Meu amor se acomoda entre estas pedras
como a seu leito o rio,
a asa do insecto ao corpo delicado,
ao morno ventre o bicho n√£o nascido.
Como fronde se inclina
aos meus suspiros, que deitando vou
aos transparentes ares,
quando o arvoredo a fina brisa agita.
Ah deleitosa vida,
pelo arado do sonho sou levada,
e o que fazes de mim é o que me fica.

Sem qualquer pensamento ou sentimento
que de leve me afaste,
mergulho na secura do que vejo.
Cada coisa est√° viva em seu lugar,
cada coisa est√° certa:
o inverno seca apenas o exterior,
deixa a humidade interna.
Que sei de olmos e faias e olorosas
ervas?

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Espera…

Não me digas adeus, ó sombra amiga,
Abranda mais o ritmo dos teus passos;
Sente o perfume da paix√£o antiga,
Dos nossos bons e c√Ęndidos abra√ßos!

Sou a dona dos místicos cansaços,
A fant√°stica e estranha rapariga
Que um dia ficou presa nos teus bra√ßos…
Não vás ainda embora, ó sombra amiga!

Teu amor fez de mim um lago triste:
Quantas ondas a rir que n√£o lhe ouviste,
Quanta canção de ondinas lá no fundo!

Espera… espera… √≥ minha sombra amada…
Vê que pra além de mim já não há nada
E nunca mais me encontras neste mundo!…

Aproveitar o Tempo

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha…
O trabalho honesto e superior…
O trabalho √† Virg√≠lio, √† M√≠lton…
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
√Č t√£o pouco prov√°vel ser Milton ou ser Virg√≠lio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos – nem mais nem menos –
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E est√£o certas tamb√©m do lado de baixo que se n√£o v√™)…
P√īr as sensa√ß√Ķes em castelo de cartas, pobre China dos ser√Ķes,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paci√™ncias ou de passatempos –
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo…
Sim, verbalismo…
Aproveitar o tempo!
N√£o ter um minuto que o exame de consci√™ncia desconhe√ßa…
N√£o ter um acto indefinido nem fact√≠cio…
N√£o ter um movimento desconforme com prop√≥sitos…
Boas maneiras da alma…
Eleg√Ęncia de persistir…

Aproveitar o tempo!

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O Acto de Criação é de Natureza Obscura

O acto de cria√ß√£o √© de natureza obscura; nele √© imposs√≠vel destrin√ßar o que √© da raz√£o e o que √© do instinto, o que √© do mundo e o que √© da terra. Nunca nenhum dualismo serviu bem o poeta. Esse ¬ępastor do Ser¬Ľ, na t√£o bela express√£o de Heidegger, √©, como nenhum outro homem, nost√°lgico de uma antiga unidade. As mil e uma antinomias, t√£o escolarmente elaboradas, quando n√£o pervertem a primordial fonte do desejo, pecam sempre por cindir a inteireza que √© todo um homem. N√£o h√° vit√≥ria definitiva sem a reconcilia√ß√£o dos contr√°rios. √Č no mar crepuscular e materno da mem√≥ria, onde as √°guas ¬ęsuperiores¬Ľ n√£o foram ainda separadas das ¬ęinferiores¬Ľ, que as imagens do poeta sonham pela primeira vez com a prec√°ria e fugidia luz da terra.
Diante do papel, que ¬ęla blancheur d√©fend¬Ľ, o poeta √© uma longa e s√≥ hesita√ß√£o. Que Ifig√©nia ter√° de sacrificar para que o vento prop√≠cio se levante e as suas naves possam avistar os muros de Tr√≥ia? Que aug√ļrios escuta, que enigmas decifra naquele rumor de sangue em que se debru√ßa cheio de afli√ß√£o? Porque ao princ√≠pio √© o ritmo; um ritmo surdo, espesso, do cora√ß√£o ou do cosmos ‚ÄĒ quem sabe onde um come√ßa e o outro acaba?

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N√£o h√° caminho que resista sem momentos de celebra√ß√£o. S√£o eles o t√≥nico para mantermos um ritmo consistente de passada e o foco onde queremos chegar. (…) Celebrar √© caminhar.

O processo de criação não é transparente. Em determinados momentos qualquer coisa em mim Рum ritmo, um marulhar de sílabas, imagens Рme leva a procurar o papel. De que parte de mim isto vem não sei, é uma necessidade do espírito que subitamente procura tomar expressão.

Onde o Homem n√£o Chega

Onde o Homem não chega tudo é puro,
dessa pureza da primeira inf√Ęncia.
Tudo √© medida, ritmo, concord√Ęncia,
tudo é claro e auroral: a noite, o escuro.

E nem o vendaval √© disson√Ęncia
mas promessa de sol e de futuro.
Quem levantou esse primeiro Muro
que do perto fez longe, ergueu dist√Ęncia?

Foi o Homem, com suas m√£os de barro,
com suas m√£os perjuras, fel e sarro
de in√ļtil sofrimento e vil prazer.

Não é tarde, porém: sacode a lama,
ergue o facho, levanta a Deus a chama
e recomeça: acabas de nascer.

Encaminhamo-nos para uma Grave Crise

A situa√ß√£o econ√≥mica tem-se agravado e tender√° a agravar-se. Tendo causas estruturais, as dificuldades da economia n√£o podem ser vencidas por medidas atrav√©s das quais o governo procura fazer face aos mais agudos problemas de conjuntura. O afrouxamento do ritmo de desenvolvimento, a baixa da produ√ß√£o agr√≠cola, os d√©fices sempre crescentes, do com√©rcio externo, a inflac√ß√£o, a acentua√ß√£o do atraso relativo da economia portuguesa em rela√ß√£o √†s economias dos outros pa√≠ses europeus, mostram a incapacidade do regime para promover o aproveitamento dos recursos nacionais, o fracasso da ¬ęreconvers√£o agr√≠cola¬Ľ e a asfixia da economia portuguesa pela domina√ß√£o monopolista, pelas limita√ß√Ķes do mercado interno provocadas pela pol√≠tica de explora√ß√£o e mis√©ria das massas e pela subjuga√ß√£o ao imperialismo estrangeiro. (…) O processo de integra√ß√£o europeia, dado o atraso da economia portuguesa, agravar√° a situa√ß√£o.

Os monop√≥lios dominantes e o seu governo procuram sair das contradi√ß√Ķes e dificuldades, assegurar altos lucros, apressar a acumula√ß√£o, conseguir uma capacidade competitiva no mercado internacional: 1) intensificando ainda mais a explora√ß√£o da classe oper√°ria e das massas trabalhadoras; 2) aumentando os impostos; 3) dando curso √† subida dos pre√ßos; 4) apressando a centraliza√ß√£o e a concentra√ß√£o; 5) pondo de forma crescente os recursos do Estado ao servi√ßo dos monop√≥lios;

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A vida √† beira-mar, para um escritor, tem a desvantagem de o fazer esquecer o mundo. √Č t√£o absorvente e t√£o embalador este ritmo cont√≠nuo das ondas, que se perde a mem√≥ria do resto.

Vida Incipiente

O facto real da vida √© que estamos de novo todos juntos sem se saber como nem porqu√™, √© o imponder√°vel que liga os seres e os deixa andar √° deriva como peda√ßo de corti√ßa em praia batida pelo norte – o resto, se se quiser analisar, √© uma babugem de rela√ß√Ķes sem eira nem beira ao deslizar da corrente que tanto vem dos outros lados do Atl√Ęntico como da disposi√ß√£o em cada um de n√≥s. Os dias foram andando dentro de cada um de n√≥s e na marcha de pormenores dom√©sticos gast√°mos horas preciosas de n√≥s mesmos. Acerca de com√©dias fizemos considera√ß√Ķes pessoais e quando se tratava de analisar uma trag√©dia usufru√≠amos um gozo espiritual de dever cumprido sexualmente.
Passaram-se anos, também não sei quantos. Houve uns que casaram, outros que ficaram para ornamento ímpar de jantares familiares e ainda outros que se ambulanteiam pelas esquinas do vício à procura de óleo para uma máquina donde se desprendeu já a mola real do entendimento.
Afinal também não importa que o ritmo das coisas tenha sido o mesmo, se todas as coisas existem para um ritmo que lhes é íntimo à sua própria expressão de coisas. Houve sábados e domingos sextas e quintas segundas e terças e sempre uma quarta-feira a comandar no equilíbrio do princípio e do fim.

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