Textos sobre Vez

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Textos de vez escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Homem Que Confessa os Seus Pecados Nunca é o Mesmo Que os Cometeu

Monstro, robot, escravo, ser maldito – pouco importa o termo utilizado para transmitir a imagem da nossa condi√ß√£o desumanizada. Nunca a condi√ß√£o da humanidade no seu conjunto foi t√£o ign√≥bil como hoje. Estamos todos ligados uns aos outros por uma igniminiosa rela√ß√£o de senhor e servo; todos presos no mesmo c√≠rculo vicioso entre julgar e ser julgado; todos empenhados em destruir-nos mutuamente quando n√£o conseguimos impor a nossa vontade. Em vez de sentirmos respeito, toler√Ęncia, bondade e considera√ß√£o, para j√° n√£o falar em amor, uns pelos outros, olhamo-nos com medo, suspeita, √≥dio, inveja, rivalidade e malevol√™ncia. O nosso mundo assenta na falsidade. Seja qual for a direc√ß√£o em que nos aventuremos, a esfera de actividade humana em que nos embrenhemos, n√£o encontramos sen√£o enganos, fraudes, dissimula√ß√£o e hipocrisia.
Conhecer do facto de que, por muito alto que estejam colocados, os homens n√£o conseguem, n√£o ousam, pensar livremente, independentemente, quase desespero de me fazer ouvir. E se falo ainda, se me arrisco a exprimir os meus pontos de vista sobre certas quest√Ķes fundamentais, √© porque estou convencido de que, por muito negro que seja o panorama, uma mudan√ßa dr√°stica √©, n√£o s√≥ poss√≠vel, mas at√© inevit√°vel. Sinto que √© meu direito e meu dever de ser humano promover essa mudan√ßa.

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A Duração da Vida em Perspectiva

A nossa religião não teve fundamento humano mais seguro do que o desprezo pela vida. Não somente o exercício da razão nos convida a isso, pois por que temeríamos perder uma coisa que perdida não pode ser lamentada; e, já que somos ameaçados por tantas formas de morte, não haverá maior mal em temê-las todas do que em suportar uma?
Que importa quando ela ser√°, pois que √© inevit√°vel? A algu√©m que dizia a S√≥crates: ¬ęOs trinta tiranos condenaram-te √† morte¬Ľ, respondeu ele: ¬ęE a natureza a eles¬Ľ. Que tolice nos atormentarmos sobre o momento da passagem para a isen√ß√£o de todo o tormento!
Assim como o nosso nascimento nos trouxe o nascimento de todas as coisas, assim a nossa morte trará a morte de todas as coisas. Por isso, chorar porque daqui a cem anos não estaremos a viver é loucura igual a chorar porque há cem anos atrás não vivíamos. A morte é origem de uma outra vida. Assim choramos nós; assim nos custou entrar nesta aqui; assim nos despojamos do nosso antigo véu quando entramos naquela.
Não pode ser penoso algo que o é apenas uma vez. Será certo temer por tão longo tempo uma coisa de tão breve duração?

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Compreender e Unir

J√° s√£o em n√ļmero demasiado os que vieram ao mundo para combater e separar; o progresso e valor de cada seita e de cada grupo dependeram talvez desta atitude descriminadora e intransigente; aceitemos como o melhor que foi poss√≠vel tudo o que nos apresenta o passado; mas procuremos que seja outra a atitude que tomarmos; lancemos sobre a terra uma semente de renova√ß√£o e de √≠ntimo aperfei√ßoamento.
Reservemos para n√≥s a tarefa de compreender e unir; busquemos em cada homem e em cada povo e em cada cren√ßa n√£o o que nela existe de adverso, para que se levantem as barreiras, mas o que existe de comum e de abord√°vel, para que se lancem as estradas da paz; empreguemos toda a nossa energia em estabelecer um m√ļtuo entendimento; ponhamos de lado todo o instinto de particularismo e de luta, alarguemos a todos a nossa simpatia.
Reflitamos em que são diferentes os caminhos que toma cada um para seguir em busca da verdade, em que muitas vezes só um antagonismo de nomes esconde um acordo real. Surja à luz a íntima corrente tanta vez soterrada e nela nos banhemos. Aprendamos a chamar irmão ao nosso irmão e façamos apelo ao nosso maior esforço para que se não quebre a atitude fraternal,

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A Vantagem dum Longo Treino

A vantagem de um longo treino e duma escrupulosa concentra√ß√£o no futuro: na hora das realiza√ß√Ķes estabelece-se um estado sonamb√ļlico intermedi√°rio entre o fazer e o deixar fazer, entre o agir e o ser objecto de ac√ß√£o. Isso requer tanto menos aten√ß√£o quanto √© certo que, a maior parte das vezes, a realidade exige de n√≥s muito menos do que imaginamos e, assim, encontramo-nos um pouco na situa√ß√£o do homem que, armado at√© aos dentes, ao travar uma luta, n√£o tem necessidade, para vencer, sen√£o de manejar ligeiramente uma √ļnica pe√ßa do seu arsenal. Com efeito, quem liga import√Ęncia a si mesmo exercita-se no que √© mais dif√≠cil para se tornar cada vez mais destro no que √© f√°cil e poder ter a satisfa√ß√£o de triunfar, usando dos meios mais delicados e discretos. Ele repele, ali√°s, os expedientes grosseiros e selvagens, n√£o se resolvendo a us√°-los sen√£o em casos de for√ßa maior.

Amor Desmistificado

O sentimento de um homem apaixonado produz por vezes efeitos c√≥micos ou tr√°gicos, porque em ambos os casos, √© dominado pelo esp√≠rito da esp√©cie que o domina ao ponto de o arrancar a si pr√≥prio; os seus actos n√£o correspondem √† sua individualidade. Isto explica, nos n√≠veis superiores do amor, essa natureza t√£o po√©tica e sublimadora que caracteriza os seus pensamentos, essa eleva√ß√£o transcendente e hiperf√≠sica, que parece faz√™-lo afastar da finalidade meramente f√≠sica do seu amor. √Č porque o impelem ent√£o o g√©nio da esp√©cie e os seus interesses superiores.
Recebeu a miss√£o de iniciar uma s√©rie indefinida de gera√ß√Ķes dotadas de determinadas caracter√≠sticas e constitu√≠das por certos elementos que s√≥ se podem encontrar num √ļnico pai e numa √ļnica m√£e; s√≥ essa uni√£o pode dar exist√™ncia √† gera√ß√£o determinada que a objectiva√ß√£o da vontade expressamente exige. O sentimento que o amante tem de agir em circunst√Ęncias de semelhantes transcend√™ncia, eleva-o de tal modo sobre as coisas terrestres e mesmo acima de si pr√≥prio, e tranforma-lhe os desejos f√≠sicos numa apar√™ncia de tal modo suprasens√≠vel, que o amor √© um acontecimento po√©tico, mesmo na exist√™ncia do homem mais prosaico, o que o faz cair por vezes em rid√≠culo.

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As Vantagens de se Ser um Pobre-Diabo

Para aquele que n√£o √© nobre, mas dotado de algum talento, ser um pobre-diabo √© uma verdadeira vantagem e uma recomenda√ß√£o. Pois o que cada um mais procura e aprecia, n√£o apenas na simples conversa√ß√£o, mas sobretudo no servi√ßo p√ļblico, √© a inferioridade do outro. Ora, s√≥ um pobre-diabo est√° convencido e compenetrado em grau suficiente da sua completa, profunda, decisiva, total inferioridade e da sua plena insignific√Ęncia e aus√™ncia de valor, tal como exige o caso. Apenas ele, portanto, inclina-se ami√ļde e por bastante tempo, e apenas a sua rever√™ncia atinge plenos noventa graus; apenas ele suporta tudo e ainda sorri; apenas ele conhece como obras-primas, em p√ļblico, em voz alta ou em grandes caracteres, as in√©pcias liter√°rias dos seus superiores ou dos homens influentes em geral; apenas ele sabe como mendigar; por conseguinte, apenas ele se pode tornar um iniciado, a tempo, portanto, na juventude, naquela verdade oculta que Goethe nos revelou nos seguintes termos:

Sobre a baixeza

Que ninguém se lamente:

Pois ela é a potência,

N√£o importa o que te digam.
Em contrapartida, quem já nasceu com uma fortuna que lhe garanta a existência irá posicionar-se, na maioria das vezes,

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Tremo Sempre Diante do Amor

Nadia, deves ter visto a falta de jeito com que no √ļltimo momento te pedi o n√ļmero do telefone e este endere√ßo de correio eletr√≥nico para onde te escrevo, e deves ter-te apercebido tamb√©m da peregrina desculpa: os dois sabemos que podes conseguir de mil outras maneiras diferentes 05 livros que fiquei de te emprestar. H√°-os em muitos lados. Toda a gente os tem. Pode at√© acontecer que j√° fa√ßam parte da tua biblioteca h√° anos e que neste momento estejas a olhar as suas lombadas da cadeira onde est√°s sentada enquanto me l√™s; e tamb√©m pode acontecer, na realidade n√£o me admiraria nada, que seja eu quem n√£o os tem nem os teve nunca. Durante o jantar n√£o conseguia tirar os olhos de ti, mas isso j√° tu sabes. Perante isso, apenas posso esperar que o resto dos comensais, especialmente os teus amigos, n√£o se tenham apercebido de at√© que ponto me eram indiferentes as restantes pessoas e conversas. Como viste, tenho j√° um longo caminho percorrido. Sou um homem com passado, como se costuma dizer, embora isso n√£o fa√ßa com que seja mais f√°cil para mim escrever uma carta como esta. Porque isto √© uma carta, n√£o √© verdade?

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A Boa Consciência, e a Vantagem na Limitação

Reflectir ponderadamente sobre alguma coisa antes de realiz√°-la; por√©m, uma vez realizada, e sendo previs√≠veis os seus resultados, n√£o se angustiar com reflex√Ķes cont√≠nuas a respeito dos seus poss√≠veis perigos. Em vez disso, libertar-se completamente do assunto, manter fechada a gaveta que o cont√©m, tranquilizando-se com a certeza de que tudo foi devidamente analisado a seu tempo. Se, ainda assim, o resultado √© negativo, √© porque todas as coisas est√£o submetidas ao acaso e ao equ√≠voco.

Limitar o próprio campo de acção; dessa maneira, cerceia-se a infelicidade; a limitação proporciona a felicidade etc.

A Consciência é um Produto Social

S√£o os homens os produtores das suas representa√ß√Ķes, das suas ideias, etc.; mas os homens reais agentes, tais como s√£o condicionados por um desenvolvimento determinado das suas for√ßas produtivas e das rela√ß√Ķes que lhes correspondem. (…) A consci√™ncia n√£o pode ser coisa diversa do ser consciente e o ser dos homens √© o seu processo de vida real.
(…) Desde o in√≠cio que pesa uma maldi√ß√£o sobre ¬ęo esp√≠rito¬Ľ, a de estar ¬ęmanchado¬Ľ por uma mat√©ria que se apresenta aqui sob a forma de camadas de ar agitadas, de sons, de linguagem em suma. A linguagem √© t√£o velha quanto a consci√™ncia – a linguagem √© a consci√™ncia real, pr√°tica, existente tamb√©m para outros homens, existente tamb√©m igualmente para mim mesmo pela primeira vez, e, tal como a consci√™ncia, a linguagem s√≥ aparece com a necessidade, a necessidade de comunica√ß√£o com os outros homens. (‚Ķ) A consci√™ncia √© portanto, desde in√≠cio, um produto social, e assim suceder√° enquanto existirem homens em geral.

A Falta de Cultura √Čtica da Nossa Civiliza√ß√£o

Creio que o exagero da atitude puramente intelectual, orientando, muitas vezes, a nossa educa√ß√£o, em ordem exclusiva ao real e √† pr√°tica, contribuiu para p√īr em perigo os valores √©ticos. N√£o penso propriamente nos perigos que o progresso t√©cnico trouxe directamente aos homens, mas antes no excesso e confus√£o de considera√ß√Ķes humanas rec√≠procas, assentes num pensamento essencialmente orientado pelos interesses pr√°ticos que vem embotando as rela√ß√Ķes humanas.
O aperfei√ßoamento moral e est√©tico √© um objectivo a que a arte, mais do que a ci√™ncia, deve dedicar os seus esfor√ßos. √Č certo que a compreens√£o do pr√≥ximo √© de grande import√Ęncia. Essa compreens√£o, por√©m, s√≥ pode ser fecunda quando acompanhada do sentimento de que √© preciso saber compartilhar a alegria e a dor. Cultivar estes importantes motores de ac√ß√£o √© o que compete √† religi√£o, depois de libertada da supersti√ß√£o. Nesse sentido, a religi√£o toma um papel importante na educa√ß√£o, papel este que s√≥ em casos raros e pouco sistematicamente se tem tomado em considera√ß√£o.
O terr√≠vel problema magno da situa√ß√£o pol√≠tica mundial √© devido em grande parte √†quela falta da nossa civiliza√ß√£o. Sem ¬ęcultura √©tica¬Ľ , n√£o h√° salva√ß√£o para os homens.

O Dom de Deixar Ir

√Č preciso aprender a viver. A qualidade da nossa exist√™ncia depende de um equil√≠brio fundamental na nossa rela√ß√£o com o mundo: apego e desapego. Nesta vida, a pondera√ß√£o, a propor√ß√£o e a subtileza s√£o sempre melhores que qualquer arrebatamento. Mas o essencial √© aprender que a exist√™ncia √© feita de d√°divas e perdas.

Eis porque quem reza deve pedir e agradecer: tudo √©, na verdade, um dom. Tudo passa… importa pois prepararmo-nos para a perda, ainda que tantas vezes n√£o seja sen√£o tempor√°ria… Alegrias e dores. S√≥ h√° felicidade num cora√ß√£o onde habita a sabedoria e paci√™ncia dos tempos e dos momentos, a paz de quem sabe que s√£o muitos os porqu√™s e para qu√™s que ultrapassam a capacidade humana de compreender.

Na vida, tudo se recebe e tudo se perde.
Amar é um apego natural mas também obriga a que deixemos o outro ser quem é, abrindo mão e permitindo-lhe que parta, ou que fique, sem desejar outra coisa senão que seja radicalmente livre. Aprendendo que há muito mais valor no ato de quem decide ficar do que naquele de quem só está por não poder partir.

Nada verdadeiramente nos pertence. O sublime do amor está aí,

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O Mal Saltitante

A morte √© apenas uma consequ√™ncia da nossa maneira de viver. Vivemos de pensamento em pensamento, de sensa√ß√£o em sensa√ß√£o. Os nossos pensamentos e as nossas sensa√ß√Ķes n√£o correm tranquilamente como um rio, ¬ęocorrem-nos¬Ľ, caem em n√≥s como pedras. Se te observares bem, sentir√°s que a alma n√£o √© algo que vai mudando de cor em grada√ß√Ķes progressivas, mas que os pensamentos saltam dela como algarismos saindo de um buraco negro. Neste momento tens um pensamento ou uma sensa√ß√£o, e no seguinte aparece outro, diferente, como que sa√≠do do nada. Se deres aten√ß√£o, at√© podes sentir o instante entre dois pensamentos, quando tudo se torna negro. Esse instante, uma vez apreendido, √© para n√≥s o mesmo que a morte.
Pois a nossa vida resume-se a definir marcos e a saltar de um para o outro, diariamente, passando por milhares de instantes de morte. De certo modo, vivemos apenas nos pontos de repouso. √Č por isso que temos esse medo rid√≠culo da morte irrevers√≠vel, porque ela √©, em absoluto, o lugar sem marcos, o abismo insond√°vel em que ca√≠mos. Na verdade, ela √© a nega√ß√£o absoluta daquela maneira de viver.
Mas isto só é assim quando visto da perspectiva desta vida,

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Carta

(digo dos que se ditam:
a minha defesa
s√£o os vossos punhais)

Quando me disseram ¬ęn√£o se vem √† vida para sonhar¬Ľ passei a odiar-vos. Para vos matar escolhi materiais inacess√≠veis ao meu √≥dio. Em mim fizestes despertar a irrepar√°vel urg√™ncia de ferir.

Descobri a vossa intenção: decepar as minhas raízes mais profundas, obrigar-me à cerimónia das palavras mortas. Preferi reiniciar-me: na solidão me apaguei. Estava só para me encher de gente, para me povoar de ternura. Eu queria simplesmente olhar de frente a verdade das pequenas coisas: esta água vem de onde, quem teceu este linho, que mãos fizeram este pão?

Desloquei-me para tudo ver de um outro lado: levei o meu olhar, o desejo de um princípio infinitamente retomado. Ganhei sonoridade nas vozes que me habitavam silenciosamente. Entre mar e terra eu preferia ser espuma, ter raiz e poente entre oceano e continente.

O tempo, por vezes, morria de o n√£o semear. Terras que golpeava com ternura eram feridas que em mim se abriam para me curar. Eram terras suspeitas, acusadas de futuro. Outras vezes eram m√£os de um corpo que ainda me n√£o nascera. Surgiam da obscuridade para afastar a √°gua e nela me deixar tombar.

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De Que Vale a Sabedoria ?

Os homens que se entregam à sabedoria são de longe os mais infelizes. Duplamente loucos, esquecem que nasceram homens e querem imitar os deuses poderosos, e a exemplo dos Titãs, armados com as ciências e as artes, declaram guerra à Natureza. Ora, os menos infelizes são aqueles que mais se aproximam da animalidade e da estupidez.
Tentarei fazer-vos entender isto, usando, em vez dos argumentos dos est√≥icos, um exemplo crasso. Haver√°, pelos deuses imortais, esp√©cie mais feliz que os homens a quem o vulgo chama loucos, parvos, imbecis, cognomes bel√≠ssimos, na minha opini√£o? Esta afirma√ß√£o poder√° a princ√≠pio parecer insensata e absurda e, no entanto, nada h√° de mais verdadeiro. Tais homens n√£o receiam a morte, e, por J√ļpiter! isso j√° n√£o representa pequena vantagem! A sua consci√™ncia n√£o os incomoda. As hist√≥rias de fantasmas n√£o os aterrorizam, nem os afecta o medo das apari√ß√Ķes e espectros, nem os males que os amea√ßam ou a esperan√ßa dos bens que poder√£o vir a receber. Nada, em resumo, os atormenta, isentos dos mil cuidadeos de que a vida √© feita. Ignoram a vergonha, o medo, a ambi√ß√£o, a inveja e chegam mesmo, se s√£o suficientemente est√ļpidos, a gozar o privil√©gio, segundo os te√≥logos,

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A Imagem é Sempre Fruto da Vaidade

O aplauso √© o √≠dolo da vaidade, por isso as ac√ß√Ķes her√≥icas n√£o se fazem em segredo, e por meio delas procuramos que os homens formem de n√≥s o mesmo conceito, que n√≥s temos de n√≥s mesmos. Raras vezes somos generosos, s√≥ pela generosidade, nem valerosos s√≥ pelo valor. A vaidade nos prop√Ķe, que o mundo todo se aplica em registar os nossos passos; para este mundo √© que obramos; por isso h√° muita diferen√ßa de um homem, a ele mesmo: posto no retiro √© um homem comum, e muitas vezes ainda com menos talento que o comum dos homens; por√©m posto em parte donde o vejam, todo √© ac√ß√£o, movimento, esfor√ßo.
Nunca mostramos o que somos, senão quando entendemos que ninguém nos vê, e isto porque não exercitamos as virtudes pela excelência delas, mas pela honra do exercício, nem deixamos de ser maus por aversão ao mal, mas pelo que se segue de o ser. O vício pratica-se ocultamente, porque cremos que a ignomínia só consiste em se saber; de sorte que se somos bons, é por causa dos mais homens, e não por nossa causa; haja quem nos assegure, que não há-de saber-se um desacerto, e logo nos tem certo,

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O Ideal da Amizade

A camaradagem, o companheirismo, √†s vezes, parecem amizade. Os interesses comuns por vezes criam situa√ß√Ķes humanas que s√£o semelhantes √† amizade. E as pessoas tamb√©m fogem da solid√£o, entrando em todo o tipo de intimidades de que, a maior parte das vezes, se arrependem, mas durante algum tempo podem estar convencidas de que essa intimidade √© uma esp√©cie de amizade. Naturalmente, nesses casos n√£o se trata de verdadeira amizade. Uma pessoa imagina que a amizade √© um servi√ßo. O amigo, assim como o namorado, n√£o espera recompensa pelos seus sentimentos. N√£o quer contrapartidas, n√£o considera a pessoa que escolheu para ser seu amigo como uma criatura irreal, conhece os seus defeitos e assim o aceita, com todas as suas consequ√™ncias. Isso seria o ideal.

Liberdade e Eternidade

A liberdade que √†s vezes sentia n√£o vinha de reflex√Ķes n√≠tidas, mas de um estado como feito de percep√ß√Ķes por demais org√Ęnicas para serem formuladas em pensamentos. √Äs vezes no fundo da sensa√ß√£o tremulava uma ideia que lhe dava leve consci√™ncia de sua esp√©cie e de sua cor.

O estado para onde deslizava quando murmurava: eternidade. O pr√≥prio pensamento adquiria uma qualidade de eternidade. Aprofundava-se magicamente e alargava-se, sem propriamente um conte√ļdo e uma forma, mas sem dimens√Ķes tamb√©m. A impress√£o de que se conseguisse manter-se na sensa√ß√£o por mais uns instantes teria uma revela√ß√£o ‚ÄĒ facilmente, como enxergar o resto do mundo apenas inclinando-se da terra para o espa√ßo. Eternidade n√£o era s√≥ o tempo, mas algo como a certeza enraizadamente profunda de n√£o poder cont√™-lo no corpo por causa da morte; a impossibilidade de ultrapassar a eternidade era eternidade; e tamb√©m era eterno um sentimento em pureza absoluta, quase abstracto. Sobretudo dava ideia de eternidade a impossibilidade de saber quantos seres humanos se sucederiam ap√≥s seu corpo, que um dia estaria distante do presente com a velocidade de um b√≥lido.

Definia eternidade e as explica√ß√Ķes nasciam fatais como as pancadas do cora√ß√£o. Delas n√£o mudaria um termo sequer,

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Somos aquilo que Pensamos

Os nossos pensamentos determinam aquilo que somos. A nossa atitude mental √© o factor X que determina o nosso destino. Emerson disse: ¬ęUm homem √© aquilo em que pensa o dia inteiro¬Ľ. Como poderia ser outra coisa qualquer? Estou convencido, sem qualquer sombra de d√ļvida, que o maior problema que temos de enfrentar – na realidade, trata-se praticamente do √ļnico problema que temos de enfrentar – √© a escolha dos pensamentos certos. Se conseguirmos, estaremos no caminho certo para resolver todos os nossos problemas. Marco Aur√©lio, o grande fil√≥sofo que governou o Imp√©rio Romano, resumiu esta quest√£o em onze palavras ‚ÄĒ onze palavras que podem determinar o seu destino: ¬ęA nossa vida √© aquilo que os nossos pensamentos fazem dela¬Ľ.

√Č verdade, se pensarmos em coisas felizes, seremos felizes. Se pensarmos em desgra√ßas, seremos uns desgra√ßados. Se pensarmos em coisas assustadoras, viveremos com medo. Se pensarmos em doen√ßas, ficaremos provavelmente doentes. Se pensarmos em falhar, √© certo que falhamos. Se ficarmos mergulhados em autocomisera√ß√£o, v√£o todos afastar-se de n√≥s e evitar-nos. Norman Vincent Peale afirmou: ¬ęTu n√£o √©s o que pensas que √©s; tu √©s o que tu pensas¬Ľ.

Estarei eu a defender uma típica atitude de Pollyanna (clássico de Eleane H.

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A Intimidade na Amizade

Ele encontrou alguém com quem pode falar, pensei. E eu também, pensei a seguir. No momento em que um homem começa a falar de sexo a outro, está a dizer alguma coisa acerca de ambos. Noventa por cento das vezes isso não acontece, e talvez seja melhor que não aconteça, mas se não conseguirmos alcançar um certo grau de franqueza no que respeita a sexo e optamos por proceder como se nem sequer pensássemos nisso, então a amizade masculina é incompleta. A maioria dos homens nunca encontra um amigo assim. Não é comum. Mas quando acontece, quando dois homens se descobrem de acordo sobre esta parte essencial de ser um homem, sem medo de serem julgados, aviltados, invejados ou dominados, seguros de que a sua confiança não será traída, a sua relação humana pode tornar-se muito forte e nascer uma intimidade inesperada.

Perdoar e Esquecer

Perdoar e esquecer equivale a jogar pela janela experi√™ncias adquiridas com muito custo. Se uma pessoa com quem temos liga√ß√£o ou conv√≠vio nos faz algo de desagrad√°vel ou irritante, temos apenas de nos perguntar se ela nos √© ou n√£o valiosa o suficiente para aceitarmos que repita segunda vez e com frequ√™ncia semelhante tratamento, e at√© de maneira mais grave. Em caso afirmativo, n√£o h√° muito a dizer, porque falar ajuda pouco. Temos, portanto, de deixar passar essa ofensa, com ou sem reprimenda; todavia, devemos saber que agindo assim estaremos a expor-nos √† sua repeti√ß√£o. Em caso negativo, temos de romper de modo imediato e definitivo com o valioso amigo ou, se for um servente, dispens√°-lo. Pois, quando a situa√ß√£o se repetir, ser√° inevit√°vel que ele fa√ßa exactamente a mesma coisa, ou algo inteiramente an√°logo, apesar de, nesse momento, nos assegurar o contr√°rio de modo profundo e sincero. Pode-se esquecer tudo, tudo, menos a si mesmo, menos o pr√≥prio ser, pois o car√°cter √© absolutamente incorrig√≠vel e todas as ac√ß√Ķes humanas brotam de um princ√≠pio √≠ntimo, em virtude do qual, o homem, em circunst√Ęncias iguais, tem sempre de fazer o mesmo, e n√£o o que √© diferente. (…) Por conseguinte,

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