Textos sobre Talento

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Textos de talento escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Vento que Decidirmos Ser

Uma das mais importantes escolhas que cada um de nós deve fazer é a de escolhermos qual o foco prin-cipal da nossa atenção e cuidado. Se o mundo à nossa volta, a fim de o mudar, ou se o interior de nós mesmos.

Quase todos os bens e males da nossa existência partem do nosso interior, pelo que será aí que importa aperfeiçoar, de forma profunda, tudo o que existe no nosso íntimo.

Um dos trabalhos mais importantes de cada um de nós será o de saber bem o que queremos. O segredo da felicidade pode estar aí: alterar em nós o que nos possa estar a causar desnecessárias ansiedades. Quantas vezes desejamos algo que está fora da nosso controlo?
Existem três tipos de coisas: as que dependem apenas de nós; as que escapam por completo à nossa decisão; e, aquelas sobre as quais temos algum controlo, mas não total.

Se fizermos a nossa alegria depender de algo que não está na nossa mão, então será fácil que nos sinta-mos roubados de algo que, na verdade, nunca foi nosso. Mesmo nos casos em que o conseguimos obter, a ansiedade associada à posse, até pela iminência de o perder da mesma forma que o ganhámos,

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Não há Descoberta sem Violência

Devemos a quase totalidade das nossas descobertas às nossas violências, à exacerbação do nosso desequilíbrio. Mesmo Deus, na medida em que nos intriga, não é no mais íntimo de nós que o discernimos, mas antes no limite exterior da nossa febre, no ponto preciso em que, confrontando-se a nossa ira com a sua, se produz um choque, um encontro tão ruinoso para Ele como para nós. Ferido pela maldição que se liga aos actos, o violento só força a sua natureza, só se ultrapassa a si próprio, para a ela regressar, furioso e agressor, seguido pelas suas empresas, que o punem por as ter feito nascer. Não há obra que não se volte contra o seu autor: o poema esmagará o poeta, o sistema o filósofo, o acontecimento o homem de acção. Destrói-se quem, respondendo à sua vocação e cumprindo-a, se agita no interior da história; apenas se salva aquele que sacrifica dons e talentos para, desprendido da sua qualidade de homem, poder repousar no ser. Se aspiro a uma carreira metafísica, não posso por preço algum conservar a minha identidade: terei de liquidar o menor resíduo que dela possa guardar; se, pelo contrário, escolho a aventura de um papel histórico,

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O Triunfo dos Imbecis

N√£o nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes t√™m por vezes de lutar contra si pr√≥prios e, como se isso n√£o bastasse, contra todos os med√≠ocres que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil, onde quer que v√°, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irm√£os e √©, por esp√≠rito de corpo instintivo, ajudado e protegido. O est√ļpido s√≥ profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo que √© imediatamente entendido e aprovado por todos, ao passo que o g√©nio tem o v√≠cio ter√≠vel de se contrapor √†s opini√Ķes dominantes e querer subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria dos outros.
Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis s√£o t√£o abundante e solicitamente louvadas – os ju√≠zes s√£o, quase na totalidade, do mesmo n√≠vel e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com entusiasmo as ideias e paix√Ķes med√≠ocres, expressas por algu√©m um pouco menos med√≠ocre do que eles.
Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares,

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Sucesso sem Riqueza

Muita gente confunde sucesso com amealhar dinheiro. Embora o sucesso acabe por levar √† riqueza, √© muito mais que isso. √Č uma atitude mental e espiritual – um estado de consci√™ncia – de que o dinheiro √© um sub-produto acidental. Sucesso √© um modo de viver. Estamos neste mundo para ter sucesso como seres humanos. Uma pessoa bem sucedida tem paz de esp√≠rito, est√° satisfeita com os talentos que Deus lhe deu, e sente-se feliz em us√°-los e aplic√°-los para seu benef√≠cio. A procura de uma vida melhor, e a realiza√ß√£o de um objectivo digno, √© a mais satisfat√≥ria das actividades humanas.
(…) Uma vida bem sucedida n√£o √© f√°cil. √Č constru√≠da sobre qualidades fortes – sacrif√≠cio, dilig√™ncia, lealdade e integridade. A corrida nem sempre √© ganha pelo mais r√°pido nem a batalha pelo mais forte; a vit√≥ria vai muitas vezes para o mais temer√°rio e o mais persistente. O maior obst√°culo no caminho do sucesso n√£o √© a falta de intelig√™ncia, de car√°cter ou de for√ßa de vontade. √Č a incapacidade para levar o trabalho at√© ao fim.

A Poesia

… Quantas obras de arte… J√° n√£o cabem no mundo… Temos de as pendurar fora dos quartos… Quantos livros… Quantos livrecos… Quem ser√° capaz de os ler?… Se fossem comest√≠veis… Se numa panela de grande calado os fiz√©ssemos em salada, os pic√°ssemos, os alinh√°ssemos… J√° n√£o se pode mais… Estamos at√© ao pesco√ßo… O mundo afoga-se na mar√©… Reverdy dizia-me: ¬ęAvisei o correio para que n√£o me trouxesse mais livros… N√£o poderia abri-los. N√£o tenho espa√ßo. Trepam pelas paredes, temi uma cat√°strofe, ruiriam em cima da minha cabe√ßa¬Ľ… Todos conhecem Eliot… Antes de ser pintor, de dirigir teatros, de escrever luminosas cr√≠ticas, lia os meus versos… Sentia-me lisonjeado… Ningu√©m os compreendia melhor… At√© que um dia come√ßou a ler-me os seus e eu, egoisticamente, corri a protestar: ¬ęN√£o mos leia, n√£o mos leia¬Ľ… Fechei-me no quarto de banho, mas Eliot, atrav√©s da porta, lia-mos… Fiquei muito triste… O poeta Frazer, da Esc√≥cia, estava presente… Increpou-me: ¬ęPorque tratas assim Eliot?¬Ľ… Respondi: ¬ęN√£o quero perder o meu leitor. Cultivei-o. Conhece at√© as rugas da minha poesia… Tem tanto talento… Pode fazer quadros… Pode escrever ensaios… Mas eu quero manter este leitor, conserv√°-lo, reg√°-lo como planta ex√≥tica… Compreendes-me, Frazer?¬Ľ… Porque a verdade, se isto continua,

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N√£o Queira Ser Especial

Se uma pessoa se aceitar tal como √© e usar as suas capacidades para desenvolver a criatividade – e todas as pessoas nascem com certas capacidades, determinados talentos e alguma criatividade ser√° imensamente feliz apesar de n√£o ser ningu√©m. Um indiv√≠duo n√£o tem de ser for√ßosamente feliz s√≥ porque se converteu no homem mais rico ou no homem mais poderoso do mundo. Estas s√£o as no√ß√Ķes infantis do homem primitivo, um fardo que temos carregado at√© aos dias de hoje.
Eu gostava de lhe pedir: abandone as palavras ¬ęaceita√ß√£o total¬Ľ. Substitua-as por palavras simples e sinta-se alegre interiormente. No momento em que se alegrar em si mesmo, toda a exist√™ncia se alegra em si. Ter√°, ent√£o, alcan√ßado a sintonia com a dan√ßa harmoniosa que acontece ao seu redor.
Só o homem se desfez em pedaços, e o motivo por que se desfez tem que ver com o facto de querer ser especial. Se quiser ser especial, terá de aceitar algum tipo de loucura.

A Certeza na Vitória

Ningu√©m pode ir para a batalha a menos que esteja plenamente convencido da vit√≥ria em antem√£o. Se come√ßarmos sem confian√ßa, j√° perdemos metade da batalha e enterramos os nossos talentos. Enquanto dolorosamente conscientes das nossas pr√≥prias fraquezas, temos que marchar sem ceder, tendo em mente o que o Senhor disse a S√£o Paulo: ¬ęA minha gra√ßa te basta, porque o poder se aperfei√ßoa na fraqueza¬Ľ (2 Cor 12: 9). O triunfo crist√£o √© sempre uma cruz, mas uma cruz que √© ao mesmo tempo uma bandeira vitoriosa suportada com ternura agressiva contra os assaltos do mal. O esp√≠rito maligno de derrotismo √© irm√£o da tenta√ß√£o de se separar, antes do tempo, o trigo do joio; √© o fruto de uma ansiosa e auto-centrada falta de confian√ßa.

Somos Cidadãos Sem Laços de Cidadania

√Č escusado. Em nenhuma √°rea do comportamento social conseguimos encontrar um denominador comum que nos torne a conviv√™ncia harmoniosa. Procedemos em todos os planos da vida colectiva como figadais advers√°rios. Guerreamo-nos na pol√≠tica, na literatura, no com√©rcio e na ind√ļstria. Onde est√£o dois portugueses est√£o dois concorrentes hostis √† Presid√™ncia da Rep√ļblica, √† chefia dum partido, √† ger√™ncia dum banco, ao comando de uma corpora√ß√£o de bombeiros. N√£o somos capazes de reconhecer no vizinho o talento que nos falta, as virtudes de que carecemos. Diante de cada sucesso alheio ficamos transtornados. E vingamo-nos na s√°tira, na mordacidade, na maledic√™ncia. Nas cidades ou nas aldeias, por f√°s e por nefas, n√£o h√° ningu√©m sem alcunha, a todos √© colado um rabo-leva pejorativo. Quem quiser conhecer a natureza do nosso relacionamento, leia as pol√©micas que trav√°mos ao longo dos tempos. S√£o reveladoras. A celebrada carta de E√ßa a Camilo ou a tamb√©m conhecida deste ao conselheiro Forjaz de Sampaio d√£o a medida exacta da verrina em que nos comprazemos no trato di√°rio. Gregariamente, somos um somat√≥rio de cidad√£os sem la√ßos de cidadania.

O Homem é o Animal Menos Preparado

A capacidade do homem para o pensamento abstracto, que parece faltar √† maioria dos outros mam√≠feros, conferiu-lhe sem d√ļvida o seu actual dom√≠nio sobre a superf√≠cie da Terra ‚Äď um dom√≠nio disputado apenas por centenas de milhares de tipos de insectos e organismos microsc√≥picos. Este pensamento abstracto √© o respons√°vel pela sua sensa√ß√£o de superioridade e pelo que, sob esta sensa√ß√£o, corresponde a uma certa medida de realidade, pelo menos dentro de estreitos limites. Mas o que √© frequentemente subestimado √© o facto de que a capacidade de desempenhar um acto n√£o √©, de forma alguma, sin√≥nima de seu exerc√≠cio salubre. √Č f√°cil observar que a maior parte do pensamento do homem √© est√ļpida, sem sentido e injuriosa para ele. Na realidade, de todos os animais, ele parece o menos preparado para tirar conclus√Ķes apropriadas nas quest√Ķes que afectam mais desesperadamente o seu bem-estar.
Tente imaginar um rato, no universo das ideias dos ratos, chegando a no√ß√Ķes t√£o ocas de plausibilidade como, por exemplo, o Swedenborgianismo, a homeopatia ou a telepatia mental. O instinto natural do homem, de facto, nunca se dirige para o que √© s√≥lido e verdadeiro; prefere tudo que √© especioso e falso. Se uma grande na√ß√£o moderna se confrontar com dois problemas antag√≥nicos ‚Äď um deles baseado em argumentos prov√°veis e racionais,

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Tende Piedade de Mim

Tende piedade de mim, pequei at√© ao mais √≠ntimo do meu ser. Mas os meus projectos n√£o eram para desprezar inteiramente; at√© tinha alguns pequenos talentos, dissipei-os, criatura louca que fui, estou agora perto do fim precisamente quando tudo exteriormente pode acabar por ser em meu favor. N√£o me deitem fora entre os perdidos. Sei que √© o meu rid√≠culo amor-pr√≥prio que est√° a falar, rid√≠culo, quer seja visto √† dist√Ęncia, quer de bem perto; mas, como estou vivo, tamb√©m tenho o amor da vida pela vida, e se a vida n√£o √© rid√≠cula, as suas manifesta√ß√Ķes inevit√°veis n√£o o podem ser tamb√©m.

O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

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Mais Vale Mostrar Talento que Bom Humor

O talento de um indivíduo reconcilia-nos muitas vezes com aquilo que pode haver de discutível no seu carácter, quando não temos de lhe suportar pessoalmente os efeitos. Mas nunca o humor agradável de alguém nos tornará indulgentes para com a sua falta de talento.

Desaprender

H√° uma altura em que, depois de se saber tudo, tem de se desaprender. Sucede assim com o escrever. Com o escrever do escritor, entenda-se. Eu, provavelmente poeta, estou a aprender a… desaprender. E para qu√™ e como se desaprende? Para deixar de ronronar, para que o leitor, quando o nosso produto lhe chega √†s m√£os, n√£o exclame, satisfeito ou enfastiado: ¬ę- C√° est√° ele!¬Ľ.
Na verdura dos seus anos, a preocupação do escritor parece ser a da originalidade. Ser-se original é mostrar-se que se é diferente. E as pessoas gostam das primeiras piruetas que um sujeito dá. E o sujeito gosta de que as pessoas vejam nele um talento.
Aten√ß√£o, v√™m a√≠ as receitas, as ideias feitas, os passes de m√£o, os clich√©s, os lugares selectos ou, mais comezinhamente, os lugares comuns. O escritor est√° instalado. Rev√™-se na sua obra. Come√ßa a abalan√ßar-se a voos mais altos, a mergulhos mais fundos. √Č a intelectualidade que o chama ao seu seio, o p√ļblico que o p√Ķe, vertical, nas suas prateleiras. Arrumado.
Quase sem dar por isso, o escritor acomodou-se e tornou-se c√≥modo, quando propendia, nos seus verdes anos, a incomodar-se e a tornar-se inc√≥modo. Organiza ¬ędossiers¬Ľ com os recortes das cr√≠ticas que lhe fizeram ao longo da sua carreira (nome,

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Todos os Homens S√£o Propriet√°rios

Todos os homens s√£o propriet√°rios, mas na realidade nenhum possui. N√£o s√£o propriet√°rios apenas porque at√© o √ļltimo dos pedintes tem sempre alguma coisa al√©m do que traz em cima, mas porque cada um de n√≥s √©, a seu modo, um capitalista.
Al√©m dos propriet√°rios de terras, de mercadorias, de m√°quinas e de dinheiro, existem, ainda mais numerosos, os propriet√°rios de capitais pessoais, que se podem alugar, vender ou fazer frutificar como os outros. S√£o os propriet√°rios e locadores de for√ßa f√≠sica – camponeses, oper√°rios, soldados – e propriet√°rios e prestadores de for√ßas intelectuais – m√©dicos, engenheiros, professores, escritores, burocratas, artistas, cientistas. Quem aluga os seus m√ļsculos, o seu saber ou o seu engenho obt√©m um rendimento, que pressup√Ķe um patrim√≥nio.
Um demagogo ou um dirigente de partido pode viver pobremente, mas se milh√Ķes de homens est√£o dispostos a obedecer a uma palavra sua, √©, na realidade, um capitalista, que, em vez de possuir milh√Ķes de liras, possui milh√Ķes de vontades. O talento visual de um pintor, a eloqu√™ncia de um advogado, o esp√≠rito inventivo de um mec√Ęnico s√£o verdadeiros capitais e medem-se pelo pre√ßo que deve pagar, para obter os seus produtos, quem n√£o os possui e carece deles.

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O Ofuscante Poder da Escrita

O sentido da literatura, no meio dos muitos que tenha ou n√£o tenha, √© que ela mant√©m, purificadas das amea√ßas da confus√£o, as linhas de for√ßa que configuram a equa√ß√£o da consci√™ncia e do acto, com suas tens√Ķes e fracturas, suas ambival√™ncias e ambiguidades, suas rudes traject√≥rias de choque e fuga. O autor √© o criador de um s√≠mbolo her√≥ico: a sua pr√≥pria vida.

Mas, quando cria esse s√≠mbolo, est√° a elaborar um sistema sens√≠vel e sensibilizador, convicto e convincente, de sinais e apelos destinados a colocar o s√≠mbolo √† altura de uma presen√ßa ainda mais viva que aquela mat√©ria desordenada onde teve origem. O valor da escrita reside no facto de, em si mesma, tecer-se ela como s√≠mbolo, urdir ela pr√≥pria a sua dignidade de s√≠mbolo. A escrita representa-se a si, e a sua raz√£o est√° em que d√° raz√£o √†s inspira√ß√Ķes reais que evoca.

E produz uma tens√£o muito mais fundamental do que a realidade. √Č nessa tens√£o real criada em escrita que a realidade se faz. O ofuscante poder da escrita √© que ela possui uma capacidade de persuas√£o e violenta√ß√£o de que a coisa real se encontra subtra√≠da.
O talento de saber tornar verdadeira a verdade.

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Um Único Estilo de Vida não é Viver, é Ser

N√£o nos devemos apegar assim t√£o fortemente √†s nossas tend√™ncias e temperamento. O nosso talento principal √© sabermos aplicar-nos a pr√°ticas diversas. O estar vinculado, e necessariamente obrigado, a um √ļnico estilo de vida n√£o √© viver, √© ser. As almas mais belas s√£o as que t√™m mais variedade e flexibilidade.
Se me fosse poss√≠vel constituir-me a meu modo, n√£o haveria nenhuma forma, por melhor que fosse, na qual eu me quisesse fixar de sorte que n√£o fosse capaz de dela me apartar. A vida √© um movimento desigual, irregular e multiforme. N√£o √© ser amigo, e muito menos senhor, de si mesmo, deixar-se incessantemente conduzir por si e estar preso √†s pr√≥prias inclina√ß√Ķes que n√£o possa desviar-se delas nem torc√™-las – √© ser escravo de si pr√≥prio.
Digo-o neste momento por não me poder facilmente desembaraçar da importunidade da minha alma que consiste em ela normalmente não saber ocupar-se senão do que a absorve, nem aplicar-se senão por inteiro e de forma tensa. Por mais trivial que seja o assunto que se lhe dê, ela logo o aumenta e estica a ponto de ter de se empenhar nele com todas as forças. A sua ociosidade é-me, por esta causa,

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Sobre o Falso

Somos falsos de maneiras diferentes. Há homens falsos que querem parecer sempre o que não são. Outros há de melhor fé, que nasceram falsos, se enganam a si próprios o nunca vêem as coisas tal como são. Há alguns cujo espírito é estreito e o gosto falso. Outros têm o espírito falso, mas alguma correcção no gosto. E ainda há outros que não têm nada de falso, nem no gosto nem no espírito. Estes são muito raros, já que, em geral, não há quase ninguém que não tenha alguma falsidade algures, no espírito ou no gosto.
O que torna essa falsidade t√£o universal, √© que as nossas qualidades s√£o incertas e confusas e a nossa vis√£o tamb√©m: n√£o vemos as coisas tal como s√£o, avaliamo-las aqu√©m ou al√©m do que elas valem e n√£o as relacionamos connosco da forma que lhes conv√©m e que conv√©m ao nosso estado e √†s nossas qualidades. Esse erro de c√°lculo traz consigo um n√ļmero infinito de falsidades no gosto e no esp√≠rito: o nosso amor-pr√≥prio lisonjeia-se como tudo que se nos apresenta sob a apar√™ncia de bem; mas como h√° v√°rias formas de bem que sensibilizam a nossa vaidade ou o nosso temperamento,

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A Difícil Escada do Mérito

Que terrível trabalho tem um homem, sem padrinhos e sem cabala, sem estar escrito em nenhuma corporação, sendo sozinho e só tendo por recomendação um grande mérito, para fazer luz sobre a obscuridade em que se encontra, e chegar ao nível de um tolo bem cotado! Quase ninguém percebe por si mesmo o mérito dos outros. Os homens esão demasiado ocupado consigo mesmos para ter tempo de compreender e discernir os outros: daí o facto de que com grande mérito e modéstia ainda maior poder-se ficar muito tempo ignorado.
O g√©nio e os grandes talentos muitas vezes faltam, √†s vezes tamb√©m faltam apenas as ocasi√Ķes: alguns podem ser louvado pelo que fizeram, outros pelo que teriam feito. √Č menos raro encontrar esp√≠rito, do que pessoas que se sirvam do seu, ou fa√ßam valer o dos outros e o utilizem em alguma coisa.
H√° mais ferramentas do que oper√°rios, e entre estes, h√° mais maus que excelentes: que pensar de quem queira serrar com uma plaina e tome o serrote para aplainar?
Não há no mundo trabalho mais penoso que o de fazer nome ilustre: a vida acaba quando apenas se esboçou a obra.

Receita para o Sucesso e Boa Fama

Nunca te lances em v√°rias empresas ao mesmo tempo: n√£o ser√°s admirado por te dispersares. Mais vale ser bem sucedido numa √ļnica, mas brilhante. Falo por experi√™ncia.
No início da tua carreira, não te poupes nem a longas horas de reflexão nem aos mais rudes esforços. Também não tomes iniciativas, se não tiveres a certeza de ter bom êxito. Tão brilhante quando te estreias como em qualquer outra coisa: uma vez conquistada a fama, mesmo os teus erros serão títulos de glória.
Quando estiveres assoberbado por um assunto que te compete, recusa completamente tudo o que possa distrair a tua aten√ß√£o. De facto, se se perceber que faltaste – ainda que minimamente – aos deveres do teu cargo, imediatamente isso te ser√° apontado. E, n√£o obstante tudo o mais que possas ter feito, n√£o obstante o fardo das preocupa√ß√Ķes que te oprimiam, a tua falha ser√° imputada a essa tarefa suplementar.
Quando te lan√ßas numa empresa, nunca te associes a uma pessoa mais competente ou mais experiente que tu. De igual modo, quando visitas algu√©m, n√£o te fa√ßas acompanhar por um terceiro que tenha melhores rela√ß√Ķes com o anfitri√£o que tu.
Se tiveres de deixar um cargo,

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Génio, Talento e Celebridade

Pode-se supor que a presen√ßa no mesmo homem de mais de um elemento intelectual facilitaria a sua imediata celebridade. At√© certo limite √© assim, mas o √© at√© um limite menor do que se poderia conjecturar na ociosidade da hip√≥tese. Um homem dotado ao mesmo tempo de grande g√©nio e de grande intelig√™ncia (como Shakespeare), ou de grande g√©nio e grande talento (como Milton), n√£o acumula na sua √©poca ou na seguinte os resultados do g√©nio e os resultados de outra qualidade. √Č que estes diferentes elementos intelectuais est√£o misturados por coexistirem no homem, e derrama-se na subst√Ęncia da intelig√™ncia ou do talento o sagrado veneno do g√©nio; a bebida √© amarga, embora retenha algo do seu gosto comum. Os antigos misturavam mel com vinho e achavam isso gostoso; mas o n√©ctar n√£o pode fazer qualquer vinho gostoso ao paladar da gente comum.
Um homem que pudesse ter em si pr√≥prio, em certo grau, g√©nio, talento e intelig√™ncia, estaria preparado para produzir impacto no seu tempo pela sua intelig√™ncia, na sua √©poca pelo seu talento e na generalidade dos futuros tempos e √©pocas pelo seu g√©nio. Mas como o seu g√©nio afectaria o seu talento e o seu talento e o seu g√©nio a sua intelig√™ncia –

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