Passagens sobre Dados

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Frases sobre dados, poemas sobre dados e outras passagens sobre dados para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Minha Biblioteca é o Meu Harém

Olho para as centenas de livros no meu gabinete e apercebo-me que n√£o toquei na maior parte deles depois de os ter lido ou dado uma vista de olhos pela primeira vez. Mas nem sequer considero a hip√≥tese de me desfazer deles – ent√£o, e se eu quiser abrir este ou aquele um dia destes? Gastei o meu √ļltimo dinheiro tanto a adquirir novos livros como em prostitutas. Comprar livros novos √© um prazer muito diferente do prazer de ler: examinar, cheirar, folhear um livro novo √© a pr√≥pria felicidade.
Os livros dão-me confiança pela sua disponibilidade, de que posso sempre aproveitar-me se quiser. O mesmo acontece com as mulheres Рpreciso de muitas delas e têm de se abrir à minha fente como os livros. Na verdade, para mim, os livros e as mulheres são semelhantes de muitas formas. Abrir as páginas de um livro é o mesmo que afastar as pernas de uma mulher Рo conhecimento revela-se à nossa vista.
Todos os livros t√™m um odor pr√≥prio: quando abrimos um livro e cheiramos, cheiramos a tinta, e √© diferente em cada livro. Rasgar as p√°ginas de um livro √© um prazer inenarr√°vel. Mesmo um livro est√ļpido me d√° prazer quando o abro pela primeira vez.

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O Absoluto do Ser

РDeus não é bom?
– N√£o, para falar com propriedade, Deus n√£o √© bom: √©. Bom, mau, s√£o pobres palavras que se aplicam a um conjunto de regras respeitantes a alguns pormenores da nossa vida material. Porque √© que Deus seria limitado pelas nossas pobres palavras e valores? N√£o, Deus n√£o √© bom. √Č mais do que isso. √Č a forma mais rica, mais completa, mais poderosa do ser, de qualquer maneira. Torna concreta a abstrac√ß√£o mesmo da forma do ser. E penso que o ¬ęenvisagement¬Ľ do ser n√£o podia ser poss√≠vel se Deus n√£o lhe tivesse dado anteriormente o seu estado. Deus √© a cria√ß√£o. √Č pois um princ√≠pio inextingu√≠vel, n√£o orientado, a pr√≥pria vida. Lembrem-se das palavras: ¬ęEu sou Aquele que sou¬Ľ. Nenhuma outra palavra humana compreendeu e relatou melhor a forma divina. Intemporal, n√£o, nem sequer intemporal e infinita. O princ√≠pio. O facto de que h√° qualquer coisa no lugar onde n√£o havia nada.
– Mas ent√£o, Deus n√£o tem necessidade…
– E at√© mesmo para l√° de toda a express√£o. Se quiser, eu sou Deus. N√£o h√° d√ļvida a sustentar, pergunta a fazer. Voc√™ existe. Portanto √© Deus. Voc√™ n√£o pode existir de outro modo.

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O Sentimento dum Ocidental

I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
H√° tal soturnidade, h√° tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O g√°s extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposi√ß√Ķes, pa√≠ses:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edifica√ß√Ķes somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquet√£o ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueir√Ķes, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Cam√Ķes no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu n√£o verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

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Infinitude dos Amantes

Se até agora ainda não possuo todo o teu amor,
Querida, nunca o terei de todo.
N√£o posso soltar mais um suspiro, comover-me,
Nem suplicar a mais outra l√°grima que corra;
E todo o meu tesouro, que deveria comprar-te ‚ÄĒ
Suspiros, l√°grimas, juras e cartas ‚ÄĒ j√° gastei.
Porém, nada mais me poderá ser devido,
Além do proposto no negócio acordado:
Se ent√£o a tua d√°diva de amor foi parcial,
Que parte a mim, parte a outros, caberia,
Querida, nunca te possuirei totalmente.

Mas, se ent√£o me deste tudo,
Tudo seria apenas o tudo que ao tempo tinhas;
E se em teu coração, desde então, existe ou venha
A existir novo amor gerado por outros homens,
Cujos haveres estejam intactos e possam, em l√°grimas,
Em suspiros, em juras e cartas, exceder a minha oferta,
Este novo amor pode suscitar novos receios,
Dado que um tal amor n√£o foi jurado por ti.
Mas se foi, sendo as tuas d√°divas gerais,
O terreno ‚ÄĒ o teu cora√ß√£o ‚ÄĒ, √© meu, e o que quer
Que nele cresça, querida, pertence-me totalmente.

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Nunca amamos ningu√©m. Amamos, t√£o-somente, a ideia que fazemos de algu√©m. √Č a um conceito nosso – em suma, √© a n√≥s mesmos – que amamos. Isso √© verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por interm√©dio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por interm√©dio de uma ideia nossa.

Como Vemos os Outros

N√≥s temos em toda a vida, especialmente na esfera da comunica√ß√£o espiritual, o h√°bito errado de emprestarmos √†s outras pessoas muito daquilo que nos √© pr√≥prio, como se tivesse de ser mesmo assim. Mas como elas, al√©m disso, nos mostram tamb√©m o que t√™m de si pr√≥prias, da√≠ resultam, dado que n√≥s procuramos criar uma unidade com as duas partes, aut√™nticos monstros, semelhantes √†queles que, numa casa com muitos cantos, a luz de uma lanterna produz com uma parte de sombras e uma parte de objectos reais. N√£o h√° nenhuma opera√ß√£o mais √ļtil mas, ao mesmo tempo, mais dif√≠cil que deduzir da imagem do outro aquilo que inconscientemente lhe foi emprestado. No entanto, s√≥ assim fazemos dos outros verdadeiras pessoas – ou, dito de uma forma mais breve: o homem julga compreender os homens quando acrescenta a uma suposta e ilimitada analogia com o seu pr√≥prio eu ainda alguma coisa que √© contr√°ria a esse eu. √Č a experi√™ncia que leva cada um a poder lidar com pessoas que tem de imaginar, na sua ess√™ncia, diferentes de si mesmo.

A Melhor Maneira de Viajar é Sentir

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas s√£o, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a f√ļria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que s√£o as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como v√°rias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais an√°logo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d’Ele h√° s√≥ Ele, e Tudo para Ele √© pouco.

Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.

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Maus Tratos

Por v√°rias vezes nos chegaram aos ouvidos as not√≠cias de maus tratos. Resolvemo-nos, um dia, a tirar o caso a limpo e a fazer observar por m√©dicos de confian√ßa aqueles que se queixavam desses maus tratos. Devo dizer-lhe que se chegou √† conclus√£o de que os presos mentiam, para tirar efeitos pol√≠ticos, na maioria dos casos, mas quero dizer-lhe, tamb√©m, realmente, que algumas vezes falavam verdade. √Č claro que eram tomadas sempre, em casos desses, imediatas provid√™ncias, e foi essa a raz√£o de se terem dado algumas altera√ß√Ķes nos quadros da Pol√≠cia. Atribuir a responsabilidade, portanto, ao Governo desses maus tratos √© prova de ignor√Ęncia ou de m√°-f√©.
(…) No entanto, chegou-se √† conclus√£o de que os presos maltratados eram sempre, ou quase sempre, tem√≠veis bombistas que se recusavam a confessar, apesar de todas as habilidades da Pol√≠cia, onde tinham escondidas as suas armas criminosas e mortais. S√≥ depois de empregar esses meios violentos √© que eles se decidiam a dizer a verdade. E eu pergunto a mim pr√≥prio, continuando a reprimir tais abusos, se a vida de algumas crian√ßas e de algumas pessoas indefesas n√£o vale bem, n√£o justifica largamente, meia d√ļzia de safan√Ķes a tempo nessas criaturas sinistras…

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A Base e o Progresso da Civilização

Os homens mais felizes e mais √ļteis s√£o feitos de um conjunto harmonioso de actividades intelectuais e morais. E √© a qualidade destas actividades e a igualdade do seu desenvolvimento que que conferem a este tipo a sua superioridade sobre os outros. Mas a sua intensidade determina o n√≠vel social de um dado indiv√≠duo e faz dele um comerciante ou um director de banco, um pequeno m√©dico ou um professor c√©lebre, um presidente de uma junta de freguesia ou um presidente dos Estados Unidos. O desenvolvimento de seres humanos completos dever ser o objectivo dos nossos esfor√ßos. S√≥ neles pode assentar uma civiliza√ß√£o s√≥lida.
Existe ainda uma classe de homens que, apesar de tão desarmónicos como os criminosos e os loucos, são indispensáveis à sociedade moderna. São os génios. Estes indivíduos caracterizam-se pelo crescimento monstruoso de uma das actividades psicológicas. Um grande artista, um grande cientista, um grande filósofo é geralmente um homem comum em que uma função se hipertrofiou. Pode também ser comparado a um tumor que se tivesse desenvolvido num organismo normal. Estes seres não equilibrados são, em geral, infelizes. Mas produzem grandes obras, das quais toda a sociedade beneficia. A sua desarmonia gera o progresso da civilização.

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Presença Bela, Angélica Figura

Presença bela, angélica figura,
em quem, quanto o Céu tinha, nos tem dado;
gesto alegre, de rosas semeado,
entre as quais se est√° rindo a Fermosura;

olhos, onde tem feito tal mistura
em cristal branco o preto marchetado,
que vemos j√° no verde delicado
não esperança, mas enveja escura;

brandura, aviso e graça, que aumentando
a natural beleza cum desprezo,
com que, mais desprezada, mais se aumenta;

s√£o as pris√Ķes de um cora√ß√£o que, preso,
seu mal ao som dos ferros vai cantando,
como faz a sereia na tormenta.

Amo-te, Portugal

Portugal,

Estou há que séculos para te escrever. A primeira vez que dei por ti foi quando dei pela tua falta. Tinha 19 anos e estava na Inglaterra. De repente, deixei de me sentir um homem do mundo e percebi, com tristeza, que era apenas mais um dos teus desesperados pretendentes.

Apaixonaste-me sem que eu desse por isso. Deve ter sido durante os meus primeiros 18 anos de vida, quando estava em Portugal e só queria sair de ti. Insinuaste-te. Não fui eu que te escolhi. Quando descobri que te amava, já era tarde de mais.

Eu n√£o queria ficar preso a ti; queria correr mundo. Passei a querer correr para ti – e foi para ti que corri, mal pude.

Teria preferido chegar √† conclus√£o que te amava por uma lenta acumula√ß√£o de raz√Ķes, emo√ß√Ķes e vantagens. Mas foi ao contr√°rio. Apaixonei-me de um dia para o outro, sem qualquer esp√©cie de aviso, e desde esse dia, que rem√©dio, l√° fui acumulando, lentamente, as raz√Ķes por que te amo, retirando-as uma a uma dentre todas as outras raz√Ķes, para n√£o te amar, ou n√£o querer saber de ti.

Custou-me justificar o meu amor por ti.

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Soneto V РÀ Sra. Marieta Landa

Disseste a nota amena d’alegria,
E, arrebatado ent√£o nesse momento
De um doce, divinal contentamento,
Eu senti que minh’alma aos c√©us subia.

Disseste a nota da melancolia,
Negra nuvem toldou-me o pensamento;
Senti que agudo espinho virulento
Do coração as fibras me rompia.

√Čs anjo ou nume, tu que desta sorte
Trazes o peito humano arrebatado
Em sucessivo e r√°pido transporte?!

Anjo ou nume não és; mas, se te é dado
No canto dar a vida, ou dar a morte,
Tens nas m√£os teu Porvir, teu bem, teu fado.