Passagens sobre Paisagem

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Frases sobre paisagem, poemas sobre paisagem e outras passagens sobre paisagem para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Pequenos Poemas Mentais

Mental: nada, ou quase nada sentimental.

I

Quem n√£o sai de sua casa,
n√£o atravessa montes nem vales,
não vê eiras
nem mulheres de infusa,
nem homens de mangual em riste, suados,
quem vive como a aranha no seu redondel
cria mil olhos para nada.
Mil olhos!
Implac√°veis.
E hoje diz: odeio.
Ontem diria: amo.
Mas odeia, odeia com ind√īmitos √≥dios.
E se se aplaca, como acha o tempo pobre!
E a liberdade in√ļtil,
in√ļtil e v√£,
riqueza de miser√°veis.

II

Como sempres, h√°-de-chegar, desde os tempos!
Vozes, cumprimentos, ofegantes entradas.
Mas que vos reunir√°, pensamentos?
Chegais a existir, pensamentos?
√Č prov√°vel, mas desconfiados e inv√°lidos,
Rosnando est√ļpidos, com c√£es.

√ď in√ļteis, aquietai-vos!
Voltai como os c√£es das quintas
ao ponto da partida, decepcionados.
E enrolai-vos tristonhos, rabugentos, desinteressados.

III

Esse gesto…
Esse des√Ęnimo e essa vaidade…
A vaidade ferida comove-me,
comove-me o ser ferido!

A vaidade não é generosa, é egoísta,
Mas chega a ser bela,

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Exilada

Bela viajante dos países frios
N√£o te seduzam nunca estes aspectos
Destas paisagens tropicais — secretos,
— Os teus receios devem ser sombrios.

√Čs branca e √©s loura e tens os amavios
Os incógnitos filtros prediletos
Que podem produzir ondas de afetos
Nos mais sens√≠veis cora√ß√Ķes doentios.

Loura Visão, Ofélia desmaiada,
Deixa esta febre de ouro, a febre ansiada
Que nos venenos deste sol consiste.

Emigra destes cálidos países,
Foge de amargas, fundas cicatrizes,
Das alucina√ß√Ķes de um vinho triste…

Os outros não são para nós mais que paisagem, e, quase sempre, paisagem invisível de rua desconhecida.

Amo-te, Portugal

Portugal,

Estou há que séculos para te escrever. A primeira vez que dei por ti foi quando dei pela tua falta. Tinha 19 anos e estava na Inglaterra. De repente, deixei de me sentir um homem do mundo e percebi, com tristeza, que era apenas mais um dos teus desesperados pretendentes.

Apaixonaste-me sem que eu desse por isso. Deve ter sido durante os meus primeiros 18 anos de vida, quando estava em Portugal e só queria sair de ti. Insinuaste-te. Não fui eu que te escolhi. Quando descobri que te amava, já era tarde de mais.

Eu n√£o queria ficar preso a ti; queria correr mundo. Passei a querer correr para ti – e foi para ti que corri, mal pude.

Teria preferido chegar √† conclus√£o que te amava por uma lenta acumula√ß√£o de raz√Ķes, emo√ß√Ķes e vantagens. Mas foi ao contr√°rio. Apaixonei-me de um dia para o outro, sem qualquer esp√©cie de aviso, e desde esse dia, que rem√©dio, l√° fui acumulando, lentamente, as raz√Ķes por que te amo, retirando-as uma a uma dentre todas as outras raz√Ķes, para n√£o te amar, ou n√£o querer saber de ti.

Custou-me justificar o meu amor por ti.

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Nocturno

Uma casa navega no tempo
como um barco subindo o rio
Por fim sem marinhagem por fim sem mastreação.
Por fim ancorada nas janelas exorbitadas
onde as luzes s√£o paisagens lunares
e o silêncio tem um perfil negro.
Por fim ancorada nas abordagens sem presas.

Ancorada a vedes: abrigo de c√£es.

Memória Intrusiva

A tua mem√≥ria passa atrav√©s dos factos como de uma fila de vidra√ßas, ou de esta√ß√Ķes, ou de folhas de √°lbum. √Äs vezes, por√©m, paras numa, e √© como se toda a vida se fixasse a√≠. E giras em torno, numa obsess√£o. Somente √†s vezes tamb√©m, em vez de te fixares realmente, quando menos o julgas est√°s parado noutra folha, noutra janela, noutra paisagem.

Recordação

Foi por aqui, sob estes √°rvoredos,
Sob este doce e pl√°cido horizonte,
Perto da clara e pequenina fonte
Que murmura l√° baixo os seus segredos…

Recordo bem todos os cantos ledos
Da passarada — e lembro-me da ponte
Por sobre a qual via-se além, de fronte,
O mar azul batendo nos penedos.

Sinto a impress√£o ainda da paisagem,
Do tr√™molo (…)* da folhagem,
Das culturas rurais, do sítio agreste.

A luz do dia vinha ent√£o morrendo…
Foi por aqui que eu pude ficar crendo
O quanto pode o teu olhar celeste.

* Rasurado

Aqui Louvo os Animais

S√ļbdito s√≥ de quem n√£o reina,
aqui louvo os animais.
H√°, entre mim e eles, uma funda
relação de videntes:
as paisagens que fendem
e a minha, sepulta,
perfazem um mesmo habitat.
Desde que os n√£o sondo,
fez-se luz em nosso convívio.
O ar inicial
que ensaiava, ic√°rico,
nas bolas de sab√£o,
mas n√£o atina com o v√°cuo
da cidade, vem-me
dos seus pulm√Ķes arborescentes.
Alheios à sua pele
na osmose dos textos,
ignoram que nas √°guas
por correr, desta p√°gina,
cruzam, saudando-se,
o ¬ęBeagle¬Ľ e a Arca de No√©.

Estou só e sonho saudade. E como é branca de graça A paisagem que não sei, Vista de trás da vidraça Do lar que nunca terei!

Presença

Só saberei de ti pelos teus olhos,
que falam mais que a tua fala pouca.
Doce memória (irei buscar-te sempre)
encilhada a essa égua dos minutos,

onde os ponteiros trotam meus desejos,
avivando a paisagem na lembrança
vinda de ti, e em mim reconstruída.
Essa presença, em passos e pegadas,

passeia no meu corpo, agora estrada,
caminho teu; submisso, eis meu segredo.
Que abrigar teus pés, possa, novamente,

o meu sereno peito fatigado.
Este que anseia teu corpo presente
olho no olho na véspera do gozo.

Chegada a Hora o Sonho Ser√° Terra

Chegada a hora o sonho ser√° terra,
o medo dar√° seu √ļltimo vint√©m,
e o passado e o futuro ser√£o guerra
do não-ser sobre terras de ninguém
√Ārvore g√©mea √† que em dor se enterra,
o céu descerá em busca de outro além,
e unidos ambos, corpo e céu, a alma er-
rará distante, mas morta, também.
Será possível mesmo o fim de tudo,
tudo t√£o r√°pido? √ď p√°ssaro ao vento,
ó ave sombria: cantai num templo mudo,
a atroz saudade da alma nunca vista,
passo perdido em negro firmamento,
paisagem morta ‚ÄĒ que a terra conquista!

Uma Palavra

Meu canto busca sempre uma palavra
que seja companheira na canção
da minha voz que canta e se declara:
viver a vida inteira de emoção.

Uma palavra só não se prepara
puxando outra palavra sem raz√£o
na vida que se encanta e se dispara
no claro tiro cego de paix√£o.

Viver a arte que procura ver
os l√°bios desbotados da linguagem
deixando a claridade me envolver

no sopro que me leva na paisagem
amaciando a pena ao escrever
teu nome, meu amor, minha viagem

Esfinge

Sou filha da charneca erma e selvagem.
Os giestais, por entre os rosmaninhos,
Abrindo os olhos d’oiro, p’los caminhos,
Desta minh’alma ardente s√£o a imagem.

Embalo em mim um sonho v√£o, miragem:
Que tu e eu, em beijos e carinhos,
Eu a Charneca e tu o Sol, sozinhos,
F√īssemos um peda√ßo de paisagem!

E à noite, à hora doce da ansiedade
Ouviria da boca do luar
O De Profundis triste da saudade…

E à tua espera, enquanto o mundo dorme,
Ficaria, olhos quietos, a cismar…
Esfinge olhando a plan√≠cie enorme…

Prel√ļdio de Natal

Tudo principiava
pela c√ļmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas.

Nasceu-te um Filho

Nasceu-te um filho. N√£o conhecer√°s,
jamais, a extrema solid√£o da vida.
Se a n√£o chegaste a conhecer, se a vida
ta n√£o mostrou – j√° n√£o conhecer√°s

a dor terrível de a saber escondida
até no puro amor. E esquecerás,
se alguma vez adivinhaste a paz
traiçoeira de estar só, a pressentida,

leve e distante imagem que ilumina
uma paisagem mais distante ainda.
J√° nenhum astro te ser√° fatal.

E quando a Sorte julgue que domina,
ou mesmo a Morte, se a alegria finda
Рri-te de ambas, que um filho é imortal.

Se Eu Nunca Disse

Se eu nunca disse que os teus dentes
São pérolas,
√Č porque s√£o dentes.
Se eu nunca disse que os teus l√°bios
S√£o corais,
√Č porque s√£o l√°bios.
Se eu nunca disse que os teus olhos
S√£o d’√≥nix, ou esmeralda, ou safira,
√Č porque s√£o olhos.
Pérolas e ónix e corais são coisas,
E coisas n√£o sublimam coisas.
Eu, se algum dia com lugares-comuns
Houvesse de louvar-te,
Decerto que buscava na poesia,
Na paisagem, na m√ļsica,
Imagens transcendentes
Dos olhos e dos l√°bios e dos dentes.
Mas crê, sinceramente crê,
Que todas as met√°foras s√£o pouco
Para dizer o que eu vejo.
E vejo l√°bios, olhos, dentes.

As ideias são como as plantas: têm o seu clima e a sua terra. Por mais que se diga, o eucalipto será sempre exótico na paisagem portuguesa.

N√£o sei quantas almas tenho

N√£o sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma n√£o tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e n√£o eu.
Cada meu sonho ou desejo
√Č do que nasce e n√£o meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
N√£o sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como p√°ginas, meu ser.
O que segue n√£o prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.

Soneto Para Eugênia

O tempo que te alonga todo dia
é duração que colhes na paisagem,
t√£o distante e t√£o perto em ventania,
sitiando limites na viagem.

Desse mar que se afasta em maresia
o vago em teu olhar se faz aragem
nas vagas que se v√£o em vaga via
vigia de teus pés no vão das margens.

E o fio da teia vai fugindo fosco,
irreparável névoa pressentida
nos livros que n√£o leste, nesses poucos

momentos que sobravam da medida.
Ang√ļstia de ponteiros, sol deposto,
no tédio das desoras foge a vida.

Vida que bem mereces por inteiro,
e é pouca a que te dou de companheiro.