Passagens sobre Paisagem

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Frases sobre paisagem, poemas sobre paisagem e outras passagens sobre paisagem para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O concreto √© o que √© interessante. A descri√ß√£o dos objectos, paisagens, personagens ou ac√ß√Ķes; fora disso, nada importa.

Paisagem √önica

Olhas-me tu: e nos teus olhos vejo
Que eu sou apenas quem se vê: assim
Tu tanto me entregaste ao teu desejo
Que é nos teus olhos que eu me vejo a mim.

Em ti, que bem meu corpo se acomoda!
Ah! quanto amor por os teus olhos arde!
Contigo sou? ‚ÄĒ perco a paisagem toda…
Longe de ti? ‚ÄĒ sou como um dobre √† tarde…

Adeuses aos casais dessas Marias
Em cuja graça o meu olhar flutua,
Tudo o que amei ao teu amor o entrego.

Choupos com ar de velhas Senhorias,
Castelo moiro donde nasce a Lua,
E apenas tu, a tudo o mais sou cego.

Visita-me Enquanto não Envelheço

visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulc√£o a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infind√°vel √°gua

com teu sabor de a√ß√ļcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

Prova Documental

J√° assumi a solid√£o dos outros
j√° provei do enigma insol√ļvel
j√° calcei as botas do morto
j√° tive segredo e foi de √°gua abaixo.

J√° fugi ao encontro marcado
j√° fui banido, j√° disse adeus
j√° fui soldado, j√° fui rapsodo
já tive inocência e foi de água abaixo.

J√° fui esperto, j√° fui afoito
já puxei faca, já toquei pífaro
j√° fui vaiado depois da briga
j√° tive saudade e foi de √°gua abaixo.

J√° fui √°rcade, j√° fui arcaico
já fui pateta, já fui patético
j√° perdi no jogo e na vida
j√° tive amor e foi de √°gua abaixo.

Já tive pressa, já sentei praça
j√° tive ouro, j√° tive prata
j√° tive lenda, j√° tive fazenda
j√° tive paz e foi de √°gua abaixo.

J√° tive herdade, j√° fui deserdado
já tive episódio, já tive epitáfio
j√° levei o andor de Nosso Senhor
já tive esperança e foi de água abaixo.

J√° tive mando, j√° corri mundo
j√° fui a Roma e n√£o quis ver o Papa
j√° fui pra cama com Ana Bolena
j√° tive inf√Ęncia e foi de √°gua abaixo.

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O Amor

I

Eu nunca naveguei, pieguíssimo argonauta
Dans les fleuves du tendre, onde h√° naufr√°gios bons,
Conduzindo Florian na tolda a tocar frauta,
E cupidinhos d’oiro a tasquinhar bombons.
Nunca ninguém me viu de capa à trovador,
Às horas em que está já Menelau deitado,
A tanger o arrabil sob os balc√Ķes em flor
Dos castelos feudais de papel√£o doirado.
N√£o canto de Anfitrite as vaporosas fraldas,
(Eu não quero com isto, ó Vénus, descompor-te)
Nem costumo almo√ßar c’roado de grinaldas,
Nem nunca pastoreei enfim, vestido à corte,
De bordão de cristal e punhos de Alençon,
Borreguinhos de neve a tosar esmeraldas
Num lameiro qualquer de qualquer Trianon.
Eu não bebo ambrósia em taças cristalinas,
Bebo um vinho qualquer do Douro ou de Bucelas,
Nem vou interrogar as folhas das boninas,
Para saber o amor, o tal amor das Elas.
N√£o visto da poesia a t√ļnica incons√ļtil,
Pela simples raz√£o, sob o pretexto f√ļtil
De ter visto passar na rua uns pés bonitos;
Nem do meu coração eu fiz um paliteiro,
Onde venha o amor cravar os seus palitos.

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Eu Gosto da Paisagem

Eu gosto da paisagem. Mas amo-a duma maneira casta, comovida, sem poder macular a sua intimidade em descri√ß√Ķes a vint√©m por palavra. Chego a uma terra e n√£o resisto: tenho de me meter pelos campos fora, pelas serras, pelos montes, saber das culturas, beber o vinho e provar o p√£o. E quando anoitece volto, como agora, cheio do enigma que fez cada regi√£o do seu feitio, tal e qual como p√īs nas costas do dromed√°rio aquela incr√≠vel marreca, e no pesco√ßo do le√£o aquela fant√°stica juba.

O Espírito em Transe

O prazer profundo, inefável, que é andar por estes campos desertos e varridos pela ventania, subir uma encosta difícil e olhar lá de cima a paisagem negra, escalvada, despir a camisa para sentir directamente na pele a agitação furiosa do ar, e depois compreender que não se pode fazer mais nada, as ervas secas, rente ao chão, estremecem, as nuvens roçam por um instante os cumes dos montes e afastam-se em direcção ao mar, e o espírito entra numa espécie de transe, cresce, dilata-se, não tarda que estale de felicidade.

As paisagens insignificantes existem para os grandes paisagistas; as paisagens raras e not√°veis s√£o para os pequenos.

H√° tantos mundos quantas as maneiras de o olhar e, por consequ√™ncia, de o entender. Isto √© muito evidente quando regresso ao meu quarto de inf√Ęncia e adolesc√™ncia, aquele onde, com catorze anos, me deitava a pensar, a imaginar. Hoje, se me deito nessa cama, n√£o tenho o mesmo tempo. Se me aproximo da janela e olho a paisagem, aquilo que vejo mudou, mudei eu.

Em Portugal, Ter Amor às Nossas Coisas Implica Dizer Mal Delas

Em Portugal, ter amor às nossas coisas implica dizer mal delas, já que a maior parte delas não anda bem. Nem uma coisa nem outra constitui novidade. Nem dizer mal delas, nem o facto de elas não andarem bem. Será que se diz mal na esperança de que elas se ponham boas? Também não. As nossas causas são quase sempre perdidas. Porquê então?

Porque o nosso maior bem, como António Vieira contradizia, é nunca estarmos satisfeitos. Nas nossas cabeças perversas e almas amarguradas, onde se acham todas as coisas portuguesas tal e qual achamos que deviam ser, Portugal é o país mais perfeito do mundo. Já isso é uma espécie de país, melhor do que os países reais onde as pessoas estão realmente convencidas que as coisas correm muito bem. Aprendemos a viver com esse país. E alguns conseguiram mesmo viver nele.

Desdenhar o que se tem e elogiar o que têm os outros, mas sem querer trocar, é a principal característica do aristocrático feitio do povo português. Às vezes penso que dizemos tanto mal de Portugal e dos portugueses para que não sejam os estrangeiros a fazê-lo. Monopolizamos a maledicência para nos defendermos; para evitar a concorrência.

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Ausencia

L√ļgubre solid√£o! √ď noite triste!
Como sinto que falta a tua Imagem
A tudo quanto para mim existe!

Tua bemdita e efémera passagem
No mundo, deu ao mundo em que viveste,
√Ā nossa b√īa e maternal Paisagem,

Um espirito novo mais celeste;
Nova Forma a abra√ßou e nova C√īr
Beijou, sorrindo, o seu perfil agreste!

E ei-la agora t√£o triste e sem verdor!
Depois da tua morte, regressou
Ao seu velhinho estado anterior.

E esta saudosa casa, onde brilhou
Tua voz num instante sempiterno,
Em negra, intima noite se occultou.

Quando chego √° janela, vejo o inverno;
E, √° luz da lua, as sombras do arvoredo
Lembram as sombras p√°lidas do Inferno.

Dos recantos escuros, em segredo,
Nascem Vis√Ķes saudosas, diluidos
Traços da tua Imagem, arremêdo

Que a Sombra faz, em gestos doloridos,
Do teu Vulto de sol a amanhecer…
A Sombra quer mostrar-se aos meus sentidos…

Mas eu que vejo? A luz escurecer;
O imperfeito, o indeciso que, em nós, deixa
A amargura de olhar e de n√£o v√™r…

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O Gosto pela Cultura

√Č mais dif√≠cil encontrar um gentleman que um g√©nio. A marca mais distintiva de um homem culto √© a possibilidade de aceitar um ponto de vista diferente do seu; p√īr-se no lugar de outra pessoa e ver a vida e os seus problemas dessa perspectiva diferente. Estar disposto a experimentar uma ideia nova; poder viver nos limites das diverg√™ncias intelectuais; examinar sem calor os problemas escaldantes do dia; ter simpatia imaginativa, largueza e flexibilidade de esp√≠rito, estabilidade e equil√≠brio de sentimentos, calma ponderada para decidir – √© ter cultura.
(…) A cultura vem da contempla√ß√£o da natureza; do estudo da Literatura, Arte e Arquitectura com letras grandes; e do conhecimento pessoal das realidades emocionais da exist√™ncia. √Č uma escala de valores, ou m√©ritos, diferente da usada nas esferas dominadas pela ci√™ncia e pelo com√©rcio. Vivemos numa cultura onde o sucesso √© medido pelos bens materiais. √Č importante alcan√ßar objectivos materiais, mas ainda √© mais importante ser-se cidad√£o amadurecido, bem equilibrado e culto.

A cultura (…) est√° em n√≥s e n√£o sepultada em estranhas galerias. Significa bondade de esp√≠rito e √© a base de um bom car√°cter. A plenitude da vida n√£o vem das coisas exteriores a n√≥s;

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A Grande Guerra seria apenas a paisagem, apenas o fundo das nossas botinadas. Enquanto morria um mundo e começava outro, eu só via o Fluminense

Poema da Profundidade Horizontal

Pintem uma paisagem dentro de outra
porque nisso est√° a verdade.
Olhem como avançam cautelosamente
pela falésia a pique;
uma curta aprendizagem
na agulha da torre
bastou.
Olho-te como para uma lente de aumentar,
uma luz para mais iluminar,
como se fosses antes de haver luz
uma pedra preciosa,
a causa das guerras:
dorme sobre os joelhos
e sente
revir ao mesmo tempo
automaticamente
os braços superiores laterais
enferrujados,
como a luz do velho farol.
Beija os dez c√£es que h√° dentro de um c√£o vadio,
os cem homens que h√° dentro de um homem,
de tal maneira que
o ar fique em chamas
e seja a √ļnica salva√ß√£o
a m√£o do mar eternamente
na nossa fronte.

Abdicação

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em m√£o viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa ‚ÄĒ eu os deixei
Na antec√Ęmara, feitos em peda√ßos

Minha cota de malha, t√£o in√ļtil,
Minhas esporas de um tinir t√£o f√ļtil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

Se em Nós a Solidão Viver Sozinha

Se em nós a solidão viver sozinha,
sem que nada em nós próprios a perturbe,
cada figura passar√° rainha
na antiguidade s√ļbita da urbe.

Um acento de pena ir√° na linha
vincar a eternidade de figura
a um rosto que quase só caminha
para dentro de o vermos pela pura

subst√Ęncia em si que vive a solid√£o
dentro de nós. E sendo nós só margem
do seu reino de ver por onde v√£o

as figuras passando na paisagem
de um antigo fulgor de coração
aonde passam desde sempre. E agem.

Gritar

Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a paisagem inexplic√°vel da mentira
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e
[escreviam
Demasiado baixo

Fiz retroceder os limites do grito

A acção simplifica-se

Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhe destinava um lugar perante mim

Com um grito

Tantas coisas desapareceram
Que nunca mais voltar√° a desaparecer
Nada do que merece viver

Estou perfeitamente seguro agora que o Ver√£o
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu cora√ß√£o as esta√ß√Ķes
As esta√ß√Ķes dos homens os seus astros
Trémulos de tão semelhantes serem

E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria

E esse fogo nu que me pesa
Torna a minha força suave e dura

Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que p√Ķem o bom tempo nos meus olhos

Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito

Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.

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Segunda Nota Explicativa

Se uma palavra toca noutra ou mesmo sem tocar
lhe queda pr√≥xima, p√Ķem-se as duas
a dedilhar lembranças na ária
da carne azada.

Passa-se isto
na poesia dos poetas e na linguagem
da rua. Os ganhos
s√£o m√ļtuos e ficam mal lembrados

ou julgados inconvenientes se
pouco prosados ultrapassam
a discreta função de fundo
musical na paisagem ambiente.

Ganham em sentidos o que perdem
em concis√£o. Para que servem os muros
que nos cercam sen√£o para dar ganas
de os saldar?

A Arte Est√° em Todo o Lado

N√≥s n√£o nos damos conta de como a arte nos trespassa de todo o lado. Anotar isso aos que vaticinam a morte da arte. Isto ao n√≠vel mais corriqueiro. Dispor os m√≥veis numa sala √© fazer arte. Ou olhar uma paisagem, p√īr uma flor na lapela, ou num vaso. Escolher uma gravata, uns sapatos. Provar um fato. Pentear-se. Fazer a barba ou apar√°-la quando comprida. Todas as coisas de cerim√≥nia t√™m que ver com a arte. E o corte das unhas.
Todo o jogo. Toda a verdade que releva da emo√ß√£o. √Äs vezes mesmo a escolha do papel higi√©nico. Mas mesmo a desordem. Bergson, creio, dizia que se tudo fosse desordenado, n√≥s acabar√≠amos por ler a√≠ uma ordem. E n√£o √© o que fazemos ao inventarmos as constela√ß√Ķes? Admitir a morte da arte √© admitir a morte do homem, que imp√Ķe essa arte a tudo o que v√™. Mas tenho de ir √† casa de banho. A ver se invento arte mesmo a√≠. (Mas quando disse ¬ęcasa de banho¬Ľ e n√£o ¬ęretrete¬Ľ, j√° a inventei.)