Sonetos sobre Jardim

36 resultados
Sonetos de jardim escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Beija-Flor

Acostumei-me a vê-lo todo o dia
De manh√£zinha, alegre e prazenteiro,
Beijando as brancas flores de um canteiro
No meu jardim – a p√°tria da ambrosia.

Pequeno e lindo, só me parecia
Que era da noite o sonho derradeiro…
Vinha trazer às rosas o primeiro
Beijo do Sol, n’essa manh√£ t√£o fria!

Um dia, foi-se e n√£o voltou… Mas, quando
A suspirar, me ponho contemplando,
Sombria e triste, o meu jardim risonho…

Digo, a pensar no tempo j√° passado;
Talvez, ó coração amargurado,
Aquele beija-flor fosse o teu sonho!

Teus Olhos

Olhos do meu Amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
Meus anéis, minhas rendas, meus brocados.

Neles ficaram meus pal√°cios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d’Al√©m-Mundos ignorados!

Olhos do meu Amor! Fontes… cisternas..
Enigm√°ticas campas medievais…
Jardins de Espanha… catedrais eternas…

Ber√ßo vinde do c√©u √† minha porta…
√ď meu leite de n√ļpcias irreais!…
Meu sumptuoso t√ļmulo de morta!…

Soneto Da Hora Final

Ser√° assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente,
O beijo leve de uma aragem fria.

Tu me olhar√°s silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de trevas, aberta em frente.

Ao transpor as fronteiras do segredo
Eu, calmo, te direi: – N√£o tenhas medo
E tu, tranq√ľila, me dir√°s: – S√™ forte.

E como dois antigos namorados
Noturnamente tristes e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.

XIX

Sai a passeio, mal o dia nasce,
Bela, nas simples roupas vaporosas;
E mostra às rosas do jardim as rosas
Frescas e puras que possui na face.

Passa. E todo o jardim, por que ela passe,
Atavia-se. H√° falas misteriosas
Pelas moitas, saudando-a respeitosas…
√Č como se uma s√≠lfide passasse!

E a luz cerca-a, beijando-a. O vento é um choro
Curvam-se as flores tr√™mulas … O bando
Das aves todas vem saud√°-la em coro …

E ela vai, dando ao sol o rosto brendo.
Às aves dando o olhar, ao vento o louro
Cabelo, e √†s flores os sorrisos dando…

A Noite Branca

Uma fonte clara e musical
canta na noite branca de Roma
e dos jardins pag√£os vem o aroma
que embalsama as camas dos amantes.

A √°gua de si mesma enamorada
cinge a fronte fria das est√°tuas
de dia feridas pelas f√°tuas
vozes dos turistas sucessivos.

A memória oculta das cloacas
narra o seu trajeto de √°gua e f√°bula
pela boca dos trit√Ķes e m√°scaras.

No brancor da praça adormecida
Aparece um travesti aidético
E ouve a fonte, a eterna voz da vida.

Ideal Comum

(Soneto escrito em colaboração com Oscar Rosas).

Dos cheirosos, silvestres ananases
De casca rubra e polpa acidulosa,
Tens na carne fremente, volutuosa,
Os aromas rec√īnditos, vivazes.

Lembras lírios, papoulas e lilazes;
A tua boca exala a trevo e a rosa,
Resplande essa cabeça primorosa
E o dia e a noite nos teus olhos trazes.

Astros, jardins, rel√Ęmpagos e luares
Inundam-te os fant√°sticos cismares,
Cheios de amor e estranhos calafrios;

E teus seios, olímpicos, morenos,
Propinando-me tr√°gicos venenos,
S√£o como em brumas, solit√°rios rios.

Vendo A Anarda Dep√Ķe O Sentimento

A serpe, que adornando v√°rias cores,
com passos mais oblíquos, que serenos,
entre belos jardins, prados amenos,
é maio errante de torcidas flores;

se quer matar da sede os desfavores,
Os cristais bebe com a peçonha menos,
por que n√£o morra com os mortais venenos,
se acaso gosta dos vitais licores.

Assim também meu coração queixoso,
na sede ardente do feliz cuidado
bebe cos olhos teu cristal formoso;

Pois para n√£o morrer no gosto amado,
dep√Ķe logo o tormento venenoso,
se acaso gosta o cristalino agrado.

Soneto Da Enseada

Sou sempre o que está além de mim
como a ponte de Brooklyn ao p√īr-do-sol.
Sou o peixe buscado pelo anzol
e o caracol imóvel no jardim.

De mim mesmo me parto, qual navio,
e sou tudo o que vive além de mim:
o barulho da noite e o cheiro de jasmim
que corre entre as estrelas como um rio.

Quem atravessa a ponte logo aprende
que a vida é simplesmente a travessia
entre um aquém e um além que são dois nadas.

Na madrugada escura a luz se acende.
Que luz? De que vigília ou de que dia?
De que barco ancorado na enseada?

Num Jardim Adornado De Verdura

Num jardim adornado de verdura,
a que esmaltam por cima v√°rias flores,
entrou um dia a deusa dos amores,
com a deusa da caça e da espessura.

Diana tomou logo √ľa rosa pura,
Vénus um roxo lírio, dos milhores;
mas excediam muito às outras flores
as violas, na graça e fermosura.

Perguntam a Cupido, que ali estava,
qual daquelas três flores tomaria,
por mais suave, pura e mais fermosa?

Sorrindo se, o Minino lhe tornava:
todas fermosas s√£o, mas eu queria
V i o l ‘a n t e s que l√≠rio, nem que rosa.

Último Vestígio

Tu deves te lembrar: aquela casa antiga
entre o verde bambual e a frondosa mangueira,
– a varanda, a esconder-se sob a trepadeira,
e o riacho a marulhar sua velha cantiga…

As flores… o jardim… a estrada, uma alva esteira
onde nós a sonhar andamos sem fadiga
olhando para o céu Рtudo isto, minha amiga,
mudou… A nossa vida √© mesmo passageira…

As paisagens de outrora, estranhos transformaram:
– o jardim… o bambual… a estrada, e at√© nem sei
se as √°guas do regato os anos n√£o pararam…

Uma cousa, porém, existe, eu vi depois:
Рé aquele coração com os nomes que gravei
no tronco da mangueira a relembrar n√≥s dois!…

A Nossa Casa

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde est√° ela, Amor, que n√£o a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde est√° ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Ser√° mais puro e doce que uma asa?

Sonho… que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de m√£os dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num pa√≠s de ilus√£o que nunca vi…
E que eu moro – t√£o bom! – dentro de ti
E tu, √≥ meu Amor, dentro de mim…

Pela P√°tria

Ouve, meu Filho: cheio de carinho,
Ama as √Ārvores, ama. E, se puderes,
(E poder√°s: tu podes quanto queres!)
Vai-as plantando à beira do caminho.

Hoje uma, outra amanh√£, devagarinho.
Ser√£o em fruto e em flor, quando cresceres.
Façam os outros como tu fizeres:
Aves de Abril que v√£o compondo o ninho.

Torne fecunda e bela cada qual,
a terra em que nascer: e Portugal
Ser√° fecundo e belo, e o mundo inteiro.

Fortes e unidos, trabalhai assim…
РA Pátria não é mais do que um jardim
Onde nós todos temos um canteiro.

O Inimigo

A mocidade foi-me um temporal bem triste,
Onde raro brilhou a luz d’um claro dia;
Tanta chuva caiu, que quase n√£o existe
Uma flor no jardim da minha fantasia.

E agora, que alcancei o outono, alquebrantado,
Que paciente labor n√£o preciso ‚ÄĒ ai de mim! ‚ÄĒ
Se quiser renovar o terreno encharcado,
Cheio de boqueir√Ķes, que √© hoje o meu jardim!

E quem sabe se as flor’s ideais que ora cobi√ßo
Iriam encontrar no chão alagadiço
O preciso alimento ao seu desabrochar?

Corre o tempo veloz, num galope desfeito,
E a Dor, a ingente Dor, que nos corrói o peito,
Com nosso próprio sangue, a crescer, a medrar!

Tradução de Delfim Guimarães

Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer, meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou no caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear, d t√°bua tosca de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
– Da minha vinha o vinho acidulado e fresco…

√ď minha pobre m√£e!… N√£o te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ru√≠na a casa nova…
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

N√£o venhas mais ao lar. N√£o vagabundes mais,
Alma da minha m√£e… N√£o andes mais √† neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.

O Chalé

√Č um chal√© luzido e aristocr√°tico,
De fulgurantes, ricos arabescos,
Janelas livres para os ares frescos,
Galante, raro, encantador, simp√°tico.

O sol que vibra em rubro tom prism√°tico,
No resplendor dos luxos principescos,
D√°-lhe uns alegres tiques romanescos,
Um colorido ideal silforim√°tico.

H√° um jardim de rosas singulares,
Lírios joviais e rosas não vulgares,
Brancas e azuis e roxas purp√ļreas.

E a luz do luar caindo em brilhos vagos,
Na placidez de adormecidos lagos
Abre esquisitas radia√ß√Ķes sulf√ļreas.

O Relógio

Eb√ļrneo √© o mostrador: as horas s√£o de prata
Lê-se a firma Breguet por baixo do gracioso
Rendilhado ponteiro; a tampa é enorme e chata:
Nela o esmalte produz um quadro delicioso.

Repara: eis um sal√£o: casquilho malicioso
Das festas cortes√£s o mimo, a flor, a nata,
Junto a um cravo sonoro a alegre voz desata.
Uma fidalga o escuta ébria de amor e gozo.

Rasga-se ampla a janela; ao longe o olhar descobre
O correto jardim e o parque extenso e nobre.
As nuvens no alto céu flutuam como espumas.

Da paisagem no fundo, em lago transparente,
Onde se espelha o azul e o laranjal frondente,
Um cisne à luz do sol estende as níveas plumas.

Para Atravessar Contigo o Deserto do Mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

N. H.

Tu não és de Romeu a doce amante,
A triste Julieta, que suspira,
Solto o cabelo aos ventos ondeante,
Inquietas cordas de suspensa lira.

Não és Ofélia, a virgem lacrimante,
Que ao luar nos jardins vaga e delira,
E é levada nas águas flutuante,
Como em sonho de amor que cedo expira.

√Čs a est√°tua de m√°rmore de rosa;
Galatéia acordando voluptuosa
Do grego artista ao fogo de mil beijos…

√Čs a l√Ęnguida J√ļlia que desmaia,
√Čs Haid√©ia nos c√īncavos da praia;
Fosse eu o Dom Jo√£o dos teus desejos!…

Não és os Outros

N√£o h√°-de te salvar o que deixaram
Escrito aqueles que o teu medo implora;
Não és os outros e encontras-te agora
No meio do labirinto que tramaram

Teus passos. N√£o te salva a agonia
De Jesus ou de Sócrates ou o forte
Siddharta de ouro que aceitou a morte
Naquele jardim, ao declinar o dia.

Também é pó cada palavra escrita
Por tua m√£o ou o verbo pronunciado
Pela boca. N√£o h√° pena no Fado

E a noite de Deus é infinita.
Tua matéria é o tempo, o incessante
Tempo. E és cada solitário instante.

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Sonho Oriental

Sonho-me √†s vezes rei, n’alguma ilha,
Muito longe, nos mares do Oriente,
Onde a noite √© bals√Ęmica e fulgente
E a lua cheia sobre as √°guas brilha…

O aroma da magnólia e da baunilha
Paira no ar di√°fano e dormente…
Lambe a orla dos bosques, vagamente,
O mar com finas ondas de escumilha…

E enquanto eu na varanda de marfim
Me encosto, absorto n’um cismar sem fim,
Tu, meu amor, divagas ao luar,

Do profundo jardim pelas clareiras,
Ou descanças debaixo das palmeiras,
Tendo aos pés um leão familiar.