Sonetos sobre Luz

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Sonetos de luz escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Soneto XXV

O nosso ninho, a nossa casa, aquela
nossa despretensiosa √°gua-furtada,
tinha sempre ger√Ęnios na sacada
e cortinas de tule na janela.

Dentro, rendas, cristais, flores… Em cada
canto, a m√£o da mulher amada e bela
punha um riso de graça. Tagarela,
teu cenário cantava à minha entrada.

Cantava… E eu te entrevia, √† luz incerta,
braços cruzados, muito branca, ao fundo,
no quadro claro da janela aberta.

Vias-me. E ent√£o, num s√ļbito tremor,
fechavas a janela para o mundo
e me abrias os braços para o amor!

A Uma Dama.

Vês esse Sol de luzes coroado,
Em pérolas a Aurora convertida;
Vês a Lua, de estrelas guarnecida;
Vês o Céu, de planetas adornado?

O céu deixemos: vês, naquele prado,
A rosa com raz√£o desvanecida,
A açucena por alva presumida,
O cravo por gal√£ lisonjeado?

Deixa o prado: vem c√°, minha adorada:
Vês desse mar a esfera cristalina
Em sucessivo alj√īfar desatada?

Parece aos olhos ser de prata fina…
Vês tudo isto bem? Pois tudo é nada
À vista do teu rosto, Catarina.

Aspiração Suprema

Como os cegos e os nus pede um abrigo
A alma que vive a tiritar de frio.
Lembra um arbusto fr√°gil e sombrio
Que necessita do bom sol amigo.

Tem ais de dor de trêmulo mendigo
Oscilante, son√Ęmbulo, erradio.
√Č como um t√™nue, cristalino fio
D’estrelas, como et√©reo e louro trigo.

E a alma aspira o celestial orvalho,
Aspira o céu, o límpido agasalho,
sonha, deseja e anseia a luz do Oriente…

Tudo ela inflama de um estranho beijo.
E este Anseio, este Sonho, este Desejo
Enche as Esferas soluçantemente.

XXVII

Apressa se a tocar o caminhante
O pouso, que lhe marca a luz do dia;
E da sua esperança se confia,
Que chegue a entrar no porto o navegante;

Nem aquele sem termo passa avante
Na longa, duvidosa e incerta via;
Nem este atravessando a regi√£o fria
Vai levando sem rumo o curso errante:

Depois que um breve tempo houver passado,
Um se ver√° sobre a segura areia,
Chegará o outro ao sítio desejado:

Eu só, tendo de penas a alma cheia,
N√£o tenho, que esperar; que o meu cuidado
Faz, que gire sem norte a minha idéia.

Poema Final

√ď cores virtuais que jazeis subterr√Ęneas,
_ Fulgura√ß√Ķes azuis, vermelhos de hemoptise,
Represados clar√Ķes, crom√°ticas ves√Ęnias,
No limbo onde esperais a luz que vos batize,

As p√°lpebras cerrai, ansiosas n√£o veleis.
Abortos que pendeis as frontes cor de cidra,
T√£o graves de cismar, nos bocais dos museus,
E escutando o correr da √°gua na clepsidra,

Vagamente sorris, resignados e ateus,
Cessai de cogitar, o abismo n√£o sondeis.
Gemebundo arrulhar dos sonhos n√£o sonhados,

Que toda a noite errais, doces almas penando,
E as asas lacerais na aresta dos telhados,
E no vento expirais em um queixume brando,
Adormecei. N√£o suspireis. N√£o respireis.

Os Brilhantes

N√£o ha mulher mais pallida e mais fria,
E o seu olhar azul vago e sereno
Faz como o effeito d’um luar ameno
Na sua tez que é morbida e macia.

Como Levana … esta mulher sombria
Traz a Morte cruel ao seu aceno,
O Suicidio e a D√īr!… Lembra do Rheno
Um conto, √° luz crepuscular do dia.

Por isso eu nunca invejo os seus amantes!
– E em quanto hontem, gabavam seus brilhantes,
No theatro, com vistas fascinadas…

Tortura das vis√Ķes… incomprehensiveis!
Em vez d’elles, cri ver brilhar – horriveis
E verdadeiras lagrimas geladas!

Flor De Caverna

Fica às vezes em nós um verso a que a ventura
Não é dada jamais de ver a luz do dia;
Fragmento de expressão de idéia fugidia,
Do pélago interior bóia na vaga escura.

Sós o ouvimos conosco; à meia voz murmura,
Vindo-nos da consciência a flux, lá da sombria
Profundeza da mente, onde erra e se enfastia,
Cantando, a distrair os ócios da clausura.

Da alma, qual por janela aberta par e par,
Outros livre se v√£o, voejando cento e cento
Ao sol, à vida, à glória e aplausos. Este não.

Este aí jaz entaipado, este aí jaz a esperar
Morra, volvendo ao nada, – embri√£o de pensamento
Abafado em si mesmo e em sua escurid√£o.

A Grande Dor Das Cousas Que Passaram

A grande dor das cousas que passaram
transmutou-se em finíssimo prazer
quando, entre fotos mil que se esgarçavam,
tive a fortuna e graça de te ver.

Os beijos e amavios que se amavam,
descuidados de teu e meu querer,
outra vez reflorindo, esvoaçaram
em orvalhada luz de amanhecer.

√ď bendito passado que era atroz,
e gozoso hoje terno se apresenta
e faz vibrar de novo minha voz

para exaltar o redivivo amor
que de memória-imagem se alimenta
e em doçura converte o próprio horror!

Anda-Me A Alma

Anda-me a alma inteira de tal sorte,
Meus gozos, meu pesar, nos dela unidos
Que os dela são também os meus sentidos,
Que o meu é também dela o mesmo norte.

Unidos corpo a corpo — um elo forte
Nos prende eternamente — e nos ouvidos
Sentimos sons iguais. Vemos floridos
Os sons do porvir, em azul coorte…

O mesmo diapas√£o musicaliza
Os seres de nos dois — um sol irisa
Os nossos cora√ß√Ķes — d√° luz, constela…

Anda esta vida, espiritualizada
Por este amor — anda-me assim — ligada
A minha sombra com a sombra dela.

Tédio

Sobre minh’alma, como sobre um trono,
Senhor brutal, pesa o aborrecimento.
Como tardas em vir, √ļltimo outono,
Lan√ßar-me as folhas √ļltimas ao vento!

Oh! dormir no silêncio e no abandono,
Só, sem um sonho, sem um pensamento,
E, no letargo do aniquilamento,
Ter, ó pedra, a quietude do teu sono!

Oh! deixar de sonhar o que n√£o vejo!
Ter o sangue gelado, e a carne fria!
E, de uma luz crepuscular velada,

Deixar a alma dormir sem um desejo,
Ampla, f√ļnebre, l√ļgubre, vazia
Como uma catedral abandonada!…

Dueto

Bendita sejas tu, que escancaraste
uma janela em minha solid√£o,
e trouxeste com a luz, esse contraste
de luz e sombra em que meus passos v√£o…

Bendita sejas tu, que me encontraste
como um mendigo a te estender a m√£o,
e que inteira te deste, e assim, tornaste
milion√°rio o meu pobre cora√ß√£o…

Bendita sejas tu, que, de repente
fizeste renascer um sol no poente
reacendendo esse ardor com que arremeto

e com que espero novamente a vida,
e transformaste, sem saber, querida,
a cantiga do s√≥… num canto em dueto!

Homo Infimus

Homem, carne sem luz, criatura cega,
Realidade geogr√°fica infeliz,
O Universo calado te renega
E a tua própria boca te maldiz!

O n√īumeno e o fen√īmeno, o alfa e o omega
Amarguram-te. Hebd√īmadas hostis
Passam… Teu cora√ß√£o se desagrega,
Sangram-te os olhos, e, entretanto, ris!

Fruto injustific√°vel dentre os frutos,
Mont√£o de estercor√°ria argila preta,
Excrescência de terra singular.

Deixa a tua alegria aos seres brutos,
Porque, na superfície do planeta,
Tu só tens um direito: Рo de chorar!

Tese e Antítese

I

Já não sei o que vale a nova idéia,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada,
Torva no aspecto, à luz da barricada,
Como bacchante ap√≥s l√ļbrica ceia…

Sanguinolento o olhar se lhe incendeia;
Respira fumo e fogo embriagada:
A deusa de alma vasta e sossegada
Ei-la presa das f√ļrias de Medeia!

Um século irritado e truculento
Chama à epilepsia pensamento,
Verbo ao estampido de pelouro e obuz…

Mas a idea √© n’um mundo inalter√°vel,
N’um cristalino c√©u, que vive est√°vel…
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!

II

N’um c√©u intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espect√°culo divino.

Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante:
Enche o ar da terra o seu pulm√£o possante…
C√° da terra blasfema ou ergue um hino…

A idéia encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar s√£o chamas que crepitam,
Paix√Ķes ardentes como vivos s√≥is!

Combatei pois na terra √°rida e bruta,

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Longus

√Č de manh√£, no outono. √Ä luz, o orvalho
doira os mirtais de trêmulas capelas.
e, sobre o solo, recobrindo o atalho,
h√° milhares de folhas amarelas…

A Filetas, ao pé de amplo carvalho,
ouvem as narra√ß√Ķes e pastorelas,
um rapaz, aindaingênuo e sem trabalho,
e a mais linda de todas as donzelas…

√Č a narrativa do florir dos prados,
que o mais doce dos velhos barbilongos
conta ao casal de jovens namorados…

Sil√™ncio… Ouvi-lhe o beijo dos ditongos,
os sil√°bicos sons, que musicados,
cantam na am√°vel pastoral de Longus…

XVIII

Dormes… Mas que sussurro a umedecida
Terra desperta? Que rumor enleva
As estrelas, que no alto a Noite leva
Presas, luzindo, √† t√ļnica estendida?

S√£o meus versos! Palpita a minha vida
Neles, falenas que a saudade eleva
De meu seio, e que v√£o, rompendo a treva,
Encher teus sonhos, pomba adormecida!

Dormes, com os seios nus, no travesseiro
Solto o cabelo negro… e ei-los, correndo,
Doudejantes, sutis, teu corpo inteiro

Beijam-te a boca tépida e macia,
Sobem, descem, teu h√°lito sorvendo
Por que surge t√£o cedo a luz do dia?!

Vozinha

Velha, velhinha, da doçura boa
De uma pomba nevada, etérea, mansa.
Alma que se ilumina e se balança
Dentre as redes da Fé que nos perdoa.

Cabeça branca de serena leoa,
Carinho, amor, meiguice que n√£o cansa,
Coração nobre sempre como a lança
Que n√£o vergue, n√£o fira e que n√£o doa.

Olhos e voz de castidades vivas,
P√£o √°zimo das P√°scoas afetivas,
Simples, tranq√ľila, dadivosa, franca.

Morreu tal qual vivera, mansamente,
Na alvura doce de uma luz algente,
Como que morta de uma morte branca.

Diana Prateada, Esclarecia

Diana prateada, esclarecia
com a luz que do claro Febo ardente,
por ser de natureza transparente,
em si, como em espelho, reluzia.

Cem mil milh√Ķes de gra√ßas lhe influ√≠a,
quando me apareceu o excelente
raio de vosso aspecto, diferente
em graça e em amor do que soía.

Eu, vendo-me t√£o cheio de favores,
e tão propínquo a ser de todo vosso,
louvei a hora clara, e a noite escura,

Sois nela destes cor a meus amores;
donde colijo claro que n√£o posso
de dia para vós já ter ventura.

A Aeronave

Cindindo a vastid√£o do Azul profundo,
Sulcando o espaço, devassando a terra,
A aeronave que um mistério encerra
Vai pelo espaço acompanhando o mundo.

E na esteira sem fim da az√ļlea esfera
Ei-la embalada n’amplid√£o dos ares,
Fitando o abismo sepulcral dos mares,
Vencendo o azul que ante si s’erguera.

Voa, se eleva em busca do infinito,
√Č como um despertar de estranho mito,
Auroreando a humana consciência.

Cheia da luz do cintilar de um astro,
Deixa ver na fulgência do seu rastro
A trajetória augusta da Ciência.

Retrato da Beleza Nova e Pura

Retrato da beleza nova e pura
Que com divina m√£o, divino engenho,
Amor retratou na alma, onde vos tenho
Das inj√ļrias do tempo mais segura,

N√£o mostreis aspereza em tal brandura,
Por vos vingar de mim, vendo que venho
a tanta confiança, que detenho
Os olhos em tamanha formosura.

O resplendor do Céu, sem dar mais pena
A quem olha seus raios em direito,
A vista só por breve espaço assombra,

Mas vossa luz mais clara, mais serena,
Juntamente me cega, e abrasa o peito:
Vede o Sol que far√°, de que sois sombra!

A Um Grande Sujeito Invejado E Aplaudido

Temer√°ria, soberba, confiada,
Por altiva, por densa, por lustrosa,
A exalação, a névoa, a mariposa,
Sobe ao sol, cobre o dia, a luz lhe enfada.

Castigada, desfeita, malograda,
Por ousada, por débil, por briosa,
Ao raio, ao resplendor, à luz formosa,
Cai triste, fica v√£, morre abrasada.

Contra vós solicita, empenha, altera,
Vil afeto, ira cega, ação perjura,
Forte ódio, rumor falso, inveja fera.

Esta cai, morre aquele, este n√£o dura,
Que em vós logra, em vós acha, em vós venera,
Claro sol, dia c√Ęndido, luz pura.