Sonetos sobre Luz

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Sonetos de luz escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Amor

Nas largas muta√ß√Ķes perp√©tuas do universo
O amor √© sempre o vinho en√©rgico, irritante…
Um lago de luar nervoso e palpitante…
Um sol dentro de tudo altivamente imerso.

N√£o h√° para o amor rid√≠culos pre√Ęmbulos,
Nem mesmo as conven√ß√Ķes as mais superiores;
E vamos pela vida assim como os noct√Ęmbulos
√† fresca exala√ß√£o sal√ļbrica das flores…

E somos uns completos, célebres artistas
Na obra racional do amor — na heroicidade,
Com essa intrepidez dos s√°bios transformistas.

Cumprimos uma lei que a seiva nos dirige
E amamos com vigor e com vitalidade,
A cor, os tons, a luz que a natureza exige!…

LXVIII

Apenas rebentava no oriente
A clara luz da aurora, quando Fido,
O repouso deixando aborrecido,
Se punha a contemplar no mal, que sente.

Vê a nuvem, que foge ao transparente
An√ļncio do crep√ļsculo luzido;
E vê de todo em riso convertido
O horror, que dissipara o raio ardente.

Por que (diz) esta sorte, que se alcança
Entre a sombra, e a luz, n√£o sinto agora
No mal, que me atormenta, e que me cansa?

Aqui toda a tristeza se melhora:
Mas eu sem o prazer de uma esperança
Passo o ano, e o mês, o dia, a hora.

Ecos D’alma

Oh! madrugada de ilus√Ķes, sant√≠ssima,
Sombra perdida l√° do meu Passado,
Vinde entornar a cl√Ęmide pur√≠ssima
Da luz que fulge no ideal sagrado!

Longe das tristes noutes tumulares
Quem me dera viver entre quimeras,
Por entre o resplandor das Primaveras
Oh! madrugada azul dos meus sonhares;

Mas quando vibrar a √ļltima balada
Da tarde e se calar a passarada
Na bruma sepulcral que o céu embaça,

Quem me dera morrer ent√£o risonho,
Fitando a nebulosa do meu Sonho
E a Via-L√°ctea da Ilus√£o que passa!

Um Dia Guttemberg

Um dia Guttemberg c’o a alma aos c√©us suspensa,
Pegou do escopro ingente e p√īs-se a trabalhar!
E fez do velho mundo um r√ļtilo alcan√ßar
Ao mágico clangor de sua idéia imensa!

Rolou por todo o globo a luz da sacra imprensa!
Ruiu o despotismo no p√≥, a esbravejar…
Uniram-se n’um lago, o c√©u, a terra, o mar…
Rasgou-se o manto atroz da horr√≠vel treva densa!…

Ergueram-se mil povos ao som das melopéias,
Das grandes cavatinas olímpicas da arte!
Raiou o novo sol das f√ļlgidas id√©ias!…

Porém, quem lance luz maior por toda a parte
√Čs tu, sublime atriz, √≥ misto de epop√©ias
Que sabes no tablado subir, endeusar-te!…

Versos

Versos! Versos! Sei l√° o que s√£o versos…
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou p√©talas que caem uma a uma…

Versos!… Sei l√°! Um verso √© o teu olhar,
Um verso é o teu sorriso e os de Dante
Eram o teu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!

Meus versos!… Sei eu l√° tamb√©m que s√£o…
Sei l√°! Sei l√°!… Meu pobre cora√ß√£o
Partido em mil peda√ßos s√£o talvez…

Versos! Versos! Sei l√° o que s√£o versos…
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que n√£o cr√™s…

Canto De Onipotência

Cloto, √Ātropos, Tifon, Laquesis, Siva…
E acima deles, como um astro, a arder,
Na hiperculminação definitiva
O meu supremo e extraordin√°rio Ser!

Em minha sobre-humana retentiva
Brilhavam, como a luz do amanhecer,
A perfeição virtual tornada viva
E o embri√£o do que podia acontecer!

Por antecipação divinatória,
Eu, projetado muito além da História,
Sentia dos fen√īmenos o fim.. .

A coisa em si movia-se aos meus brados
E os acontecimentos subjugados
Olhavam como escravos para mim!

Desejos V√£os

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastid√£o imensa!
Eu queria ser a Pedra que n√£o pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a √°rvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar tamb√©m chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem l√°grimas de sangue na agonia!
E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

Benditas Cadeias!

Quando vou pela Luz arrebatado,
Escravo dos mais puros sentimentos
Levo secretos estremecimentos
Como quem entra em m√°gico Noivado.

Cerca-me o mundo mais transfigurado
Nesses sutis e c√Ęndidos momentos…
Meus olhos, minha boca v√£o sedentos
De luz, todo o meu ser iluminado.

Fico feliz por me sentir escravo
De um Encanto maior entre os Encantos,
Livre, na culpa, do mais leve travo.

De ver minh’alma com tais sonhos, tantos,
E que por fim me purifico e lavo
Na √°gua do mais consolador dos prantos

Está Cheio De Ti Meu Coração

Está cheio de ti meu coração
como a noite de estrelas est√° cheia,
t√£o cheia, que ao se olhar para a amplid√£o
o olhar de luz se inunda e se incendeia…

Está cheio de ti meu coração
como de ondas o mar que o dorso alteia,
como a praia que estende sobre o ch√£o
milh√Ķes de gr√£os do seu len√ßol de areia…

Está cheio de ti meu coração,
como uma taça, erguida, transbordante,
num momento de amor e de emoção,

– como o meu canto enquanto eu viva e eu cante
como o meu pensamento a todo instante
está cheio de ti meu coração!

Amoroso Desdém num Belo Agrado

Amoroso desdém num belo agrado,
No mais duro ferir um doce jeito,
Tirania suave em brando aspeito,
Olhos de fogo em coração nevado,

No vestir um asseio descuidado,
Ingratid√£o am√°vel no respeito,
O brio, a graça, o riso em um sujeito,
Variamente com o grave misturado.

Animado primor da formosura,
Luzido discursar de engenho agudo,
Custosa luz, incêndio pretendido,

Alma no talhe, garbo na postura,
Capricho no cuidado, ar no descuido,
Armas s√£o com que amor me tem rendido.

Conto de Fadas

Eu trago-te nas m√£os o esquecimento
Das horas m√°s que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o unguento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos s√£o ondas de Sorrento…
Trago no nome as letras de uma flor…
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento…

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crep√ļsculos da tarde,
O sol que √© d’oiro, a onda que palpita.

Dou-te comigo o mundo que Deus fez!
– Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A Princesa do conto: ‚ÄúEra uma vez…‚ÄĚ

Metamorfose

A Carlos Ferreira

O sol em fogo pelo ocaso explode
Nesse estertor, que os cr√Ęnios assoberba.
Vivo, o clar√£o, nuns frocos exacerba
Dos ideais a original nevrose.

Da natureza os anafis mouriscos
Ante o cariz da atmosfera muda,
Soam queixosos, numa nota aguda,
Da luz que esvai-se aos derradeiros discos.

O pensamento que flameja e luta
Nos ares rasga aprofundado sulco…
A sombra desce nos lisins da gruta;

E a lua nova — a peregrina Onfale,
Como em um plaustro luminoso, hiulco,
Surge através dos pinheirais do vale.

Hoje

Fiz anos hoje… Quero ver agora
Se este sofrer que me atormenta tanto
Me n√£o deixa lembrar a paz, o encanto,
A doce luz de meu viver de outr’ora.

Tão moça e mártir! Não conheço aurora,
Foge-me a vida no correr do pranto,
Bem como a nota de choroso canto
Que a noite leva pelo espaço em fora.

Minh’alma voa aos sonhos do passado,
Em busca sempre d’esse ninho amado
Onde pousava cheia de alegria.

Mas, de repente, num pavor de morte,
Sente cortar-lhe o v√īo a m√£o da sorte…
Minha ventura só durou um dia.

Essa Que Eu Hei De Amar…

Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
ser√° t√£o loura, e clara, e vagarosa, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer luz e calor a essa alma escura e fria.

E quando ela passar, tudo o que eu n√£o sentia
da vida há de acordar no coração, que vela…
E ela ir√° como o sol, e eu irei atr√°s dela
como sombra feliz‚Ķ ‚ÄĒ Tudo isso eu me dizia,

quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste…

E falou-me de longe: “Eu passei a teu lado,
mas ias t√£o perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!”

Vis√£o Da Morte

Olhos voltados para mim e abertos
Os braços brancos, os nervosos braços,
Vens d’espa√ßos estranhos, dos espa√ßos
Infinitos, int√©rminos, desertos…

Do teu perfil os tímidos, incertos
Traços indefinidos, vagos traços
Deixam, da luz nos ouros e nos aços,
Outra luz de que os céus ficam cobertos.

Deixam nos céus uma outra luz mortuária,
Uma outra luz de lívidos martírios,
De agonies, de m√°goa funer√°ria…

E causas febre e horror, frio, delírios,
√ď Noiva do Sepulcro, solit√°ria,
Branca e sinistra no clarão dos círios!

Rompeu-Se O Denso Véu Do Atroz Marasmo

Rompeu-se o denso véu do atroz marasmo
E como por fatal, negro hebetismo
De antro sepulcral, de fundo abismo
O povo ressurgiu com entusiasmo!

O Zoilo mazorral se queda pasmo
Sup√Ķe quimera ser, ser cataclismo
Roga, j√° por dobrez, por ceticismo
De néscio, vil truão solta o sarcasmo.

Perd√£o, Filho da Luz, minh’alma exora,
Porém, a pátria diz, somente agora
Os grilh√Ķes biparti de atroz moleza!

E ele, o nosso herói já redivivo
De pé, sem se curvar, sereno, altivo
Co’as raias do porvir mede a grandeza!

Deus Do Mal

Espírito do Mal, ó deus perverso
Que tantas almas d√ļbias acalentas,
Veneno tentador na luz disperso
Que a própria luz e a própria sombra tentas.

Símbolo atroz das culpas do Universo,
Espelho fiel das convuls√Ķes violentas
Do gasto coração no lodo imerso
Das tormentas vulc√Ęnicas, sangrentas.

Toda a tua sinistra trajetória
Tem um brilho de lágrima ilusória,
As melodias m√≥rbidas do Inferno…

√Čs Mal, mas sendo Mal √©s solu√ßante,
Sem a graça divina e consolante,
Réprobo estranho do Perdão eterno!

Solemnia Verba

Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos v√£os and√°mos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos…

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E a noite, onde foi luz a Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se isto é vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.

O Grande Sonho

Sonho profundo, ó Sonho doloroso,
Doloroso e profundo Sentimento!
Vai, vai nas harpas trêmula do vento
Chorar o teu mistério tenebroso.

Sobe dos astros ao clar√£o radioso,
Aos leves fluidos do luar nevoento,
Às urnas de cristal do firmamento,
√ď velho Sonho amargo e majestoso!

Sobe √†s estrelas r√ļtilas e frias,
Brancas e virginais eucaristias
De onde uma luz de eterna paz escorre.

Nessa Amplid√£o das Amplid√Ķes austeras
Chora o Sonho profundo das Esferas
Que nas azuis Melancolias morre…

Enlevo

Da doçura da Noite, da doçura
De um tenro coração que vem sorrindo,
Seus segredos rec√īnditos abrindo
Pela primeira vez, a luz mais pura.

Da doçura celeste, da ternura
De um Bem consolador que vai fugindo
Pelos extremos do horizonte infindo,
Deixando-nos somente a Desventura.

Da doçura inocente, imaculada
De uma car√≠cia virginal da Inf√Ęncia,
Nessa de rosas fresca madrugada.

Era assim tua c√Ęndida fragr√Ęncia,
Arcanjo ideal de auréola delicada,
Vis√£o consoladora da Dist√Ęncia…