Sonetos sobre Luz

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Sonetos de luz escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Soneto

A Moreira de Vasconcelos

Na luta dos impossíveis,
do espirito e da matéria,
tu és a águia sidérea
dos pensamentos terríveis!
(Do Autor)

√Č um pensar flamejador, dard√Ęnico
Uma explosão de rápidas idéias,
Que como um mar de estranhas odisséias
Saem-lhe do cr√Ęnio escultural, tit√Ęnico!…

Parece haver um cataclismo enorme
L√° dentro, em √Ęnsia, a rebentar, fremente!…
Parece haver a convuls√£o potente,
Dos rubros astros num fragor disforme!…

H√£o de ruir na transfus√£o dos mundos
Os monumentos colossais profundos,
As cousas vãs da brasileira história!

Mas o seu vulto, sobre a luz alçado,
Oh! h√° de erguer-se de arreb√≥is c’roado,
Como Atalaia nos umbrais da gl√≥ria!!…

Manh√£

A manh√£ nasce das muitas janelas
deste sereno corpo fatigado,
sede dos meus caminhos sem cancelas,
na luz de muitos astros albergados.

Casa em que me recolho das mazelas,
dos louros, derroteiros, lado a lado,
para de mim ouvir franca seq√ľela:
Ecce Homo! Eis o triste camuflado.

Essa tristeza antiga em residência,
às vezes se constrói em face alegre,
máscara sem eu mesmo em aparência

num carnaval insólito em seu frege.
O que me salva a cor nessa vivência
é saber que a poesia é quem me rege.

Frutas De Maio

Maio chegou — alegre e transparente
Cheio de brilho e m√ļsica nos ares,
De cristalinos risos salutares,
Frio, porém, ó gota alvinitente.

Corre um fluido suave e odorescente
Das laranjeiras, como dos altares
O incenso — e, como a gaze azul dos mares,
Leve — h√° por tudo um beijo, docemente.

Isto bem cedo, de manh√£ — adiante
Pela tarde um sol calmo, agonizante,
P√Ķe no horizonte resplendentes franjas.

H√° carinhos, da luz em cada raio,
Filha — e eu que adoro este frescor de maio
Muito, mas muito — trago-te laranjas.

Saint-Just

Quando à tribuna ele se ergueu, rugindo,
– Ao forte impulso das paix√Ķes audazes
Ardente o lábio de terríveis frases
E a luz do gênio em seu olhar fulgindo,

A tirania estremeceu nas bases,
De um rei na fronte ressumou, pungindo,
Um suor de morte e um terror infindo
Gelou o seio aos cortes√£os sequazes –

Uma alma nova ergueu-se em cada peito,
Brotou em cada peito uma esperança,
De um sono acordou, firme, o Direito –

E a Europa – o mundo – mais que o mundo, a Fran√ßa –
Sentiu numa hora sob o verbo seu
As como√ß√Ķes que em s√©culos n√£o sofreu!

Vis√£o

Noiva de Satan√°s, Arte maldita,
Mago Fruto letal e proibido,
Son√Ęmbula do Al√©m, do Indefinido
Das profundas paix√Ķes, Dor infinita.

Astro sombrio, luz amarga e aflita,
Das Ilus√Ķes tant√°lico gemido,
Virgem da Noite, do luar dorido,
Com toda a tua Dor oh! sê bendita!

Seja bendito esse clar√£o eterno
De sol, de sangue, de veneno e inferno,
De guerra e amor e ocasos de saudade…

Sejam benditas, imortalizadas
As almas castamente amortalhadas
Na tua estranha e branca Majestade!

Quanto, Quanto me Queres?

Quanto, quanto me queres? – perguntaste
Olhando para mim mas distrahida;
E quando nos meus olhos te encontraste,
Eu vi nos teus a luz da minha vida.

Nas tuas m√£os, as minhas, apertaste.
Olhando para mim como vencida,
¬ę…quanto, quanto…¬Ľ – de novo murmuraste
E a tua boca deu-se-me rendida!

Os nossos beijos longos e anciosos,
Trocavam-se frementes! – Ah! ninguem
Sabe beijar melhor que os amorosos!

Quanto te quero?! – Eu posso l√° dizer!…
– Um grande am√īr s√≥ se avalia bem
Depois de se perder.

Recordação

Foi por aqui, sob estes √°rvoredos,
Sob este doce e pl√°cido horizonte,
Perto da clara e pequenina fonte
Que murmura l√° baixo os seus segredos…

Recordo bem todos os cantos ledos
Da passarada — e lembro-me da ponte
Por sobre a qual via-se além, de fronte,
O mar azul batendo nos penedos.

Sinto a impress√£o ainda da paisagem,
Do tr√™molo (…)* da folhagem,
Das culturas rurais, do sítio agreste.

A luz do dia vinha ent√£o morrendo…
Foi por aqui que eu pude ficar crendo
O quanto pode o teu olhar celeste.

* Rasurado

Falando Ao Céu

Falas ao Céu, Amor! Em vão tu falas!
Mas o céu, esse é velho, esse é velhinho,
Todo ele é branco, faz lembrar o linho
Dos leitos alvos onde tu te embalas.

A alma do céu é como velhas salas
Sem ar, sem luz, como lares sem vinho
Sem √°gua e p√£o, sem fogo e sem carinho,
Sem as mais toscas, as mais simples galas.

Sempre surdo, hoje o c√©u √© mudo, √© cego…
Jamais o coração ao céu entrego,
Eu que t√£o cego vou por entre abrolhos.

Mas se queres tornar jovem e louro
D√°-lhe o bord√£o do teu amor um pouco
Fala e vista, com a vida dos teus olhos…

O Final Do Guarani

(Santos, 15 jul. 1883)

Ceci — √© a virgem loira das brancas harmonias,
A doce-flor-azul dos sonhos cor de rosa,
Peri — o √≠ndio ousado das bruscas fantasias,
O tigre dos sert√Ķes — de alma luminosa.

Amam-se com o amor ind√īmito e latente
Que nunca foi traçado nem pode ser descrito.
Com esse amor selvagem que anda no infinito.
E brinca nos juncais, — ao lado da serpente.

Por√©m… no lance extremo, o lance pavoroso,
Assim por entre a morte e os tons de um puro gozo,
Dos leques da palmeira a note musical…

Vão ambos a sorrir, às águas arrojados,
Mansos como a luz, tranq√ľilos, enla√ßados
E perdem-se na noite serena do ideal!…

Ambos

Vão pela estrada, à margem dos caminhos
Arenosos, compridos, salutares,
Por onde, a noite, os límpidos luares
Dão às verduras leves tons de arminhos.

Nuvens alegres como os alvos linhos
Cortam a doce comprid√£o dos ares,
Dentre as can√ß√Ķes e os tropos singulares
Dos inef√°veis, meigos passarinhos.

Do céu feliz na branda curvidade,
A luz expande a inteira alacridade,
O mais supremo e encantador afago.

E com o olhar vibrante de desejos
Vão decifrando os trêmulos arpejos,
E as reticências que produz o vago.

Plenil√ļnio

Vês este céu tão límpido e constelado
E este luar que em f√ļlgida cascata,
Cai, rola, cai, nuns borbot√Ķes de prata…
V√™s este c√©u de m√°rmore azulado…

Vês este campo intérmino, encharcado
Da luz que a lua aos p√°ramos desata…
Vês este véu que branco se dilata
Pelo verdor do campo iluminado…

Vês estes rios, tão fosforescentes,
Cheios duns tons, duns prismas reluzentes,
V√™s estes rios cheios de ardentias…

V√™s esta mole e transparente gaze…
Pois é, como isso me parecem quase
Iguais, assim, às nossas alegrias!

A umas L√°grimas de uma Despedida

Quando de ambos os céus caindo estava
O rico orvalho, em pérolas formado,
E sobre as frescas rosas derramado,
Igual beleza recebia e dava.

Amor que sempre ali presente estava,
Como competidor de meu cuidado,
Num vaso de cristal de ouro lavrado
As gotas uma a uma entesourava.

Eu, c’os olhos na luz, que aquele dia,
Entre as nuvens do novo sentimento,
Escassamente os raios descobria,

Se me matar (dizia) apartamento,
Ao menos n√£o far√° que esta alegria
N√£o seja paga igual de meu tormento.

Rio Abaixo

Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga…
Quase noite. Ao sabor do curso lento
Da √°gua, que as margens em redor alaga,
Seguimos. Curva os bambuais o vento.

Vivo, h√° pouco, de p√ļrpura, sangrento,
Desmaia agora o Ocaso. A noite apaga
A derradeira luz do firmamento…
Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.

Um silêncio tristíssimo por tudo
Se espalha. Mas a lua lentamente
Surge na fímbria do horizonte mudo:

E o seu reflexo p√°lido, embebido
Como um gl√°dio de prata na corrente,
Rasga o seio do rio adormecido.

À Virgem Santíssima

Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia

N’um sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizível ansiedade,
√Č que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza…

N√£o era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade…
Era outra luz, era outra suavidade,
Que at√© nem sei se as h√° na natureza…

Um m√≠stico sofrer… uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira…

√ď vis√£o, vis√£o triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!

Chorai, Ninfas, Os Fados Poderosos

Chorai, Ninfas, os fados poderosos
daquela soberana fermosura!
Onde foram parar na sepultura
aqueles reais olhos graciosos?

√ď bens do mundo, falsos e enganosos!
Que m√°goas para ouvir! Que tal figura
jaza sem resplandor na terra dura,
com tal rosto e cabelos t√£o fermosos!

Das outras que ser√°, pois poder teve
a morte sobre cousa tanto bela
que ela eclipsava a luz do claro dia?

Mas o mundo n√£o era dino dela,
por isso mais na terra n√£o esteve;
ao Céu subiu, que já *se* lhe devia.

Senhora minha, se de pura inveja

Senhora minha, se de pura inveja
Amor me tolhe a vista delicada,
A cor, de rosa e neve semeada,
E dos olhos a luz que o Sol deseja,

N√£o me pode tolher que vos n√£o veja
Nesta alma, que ele mesmo vos tem dada,
Onde vos terei sempre debuxada,
Por mais cruel inimigo que me seja.

Nela vos vejo, e vejo que n√£o nasce
Em belo e fresco prado deleitoso
Sen√£o flor que d√° cheiro a toda a serra.

Os lírios tendes nu~a e noutra face.
Ditoso quem vos vir, mas mais ditoso
Quem os tiver, se h√° tanto bem na terra!

Eu Como, Eu Bebo, Eu Durmo

Eu como, eu bebo, eu durmo e a vida passo
Ora bem, ora mal, como sucede:
Tomo tabaco, e ch√°; e se mo pede
O génio alguma vez, eu Nize abraço:

As vezes jogo, as vezes versos faço,
Que mais que a arte a natureza mede:
E talvez por saber como procede
Em se mover o Sol círculos traço.

Alguma vez me agrada a soledade,
Outras vezes a nobre companhia;
E desta sorte vou passando a idade:

E espero assim que venha a morte fria
Com o manto da eterna escuridade
Encobrir-me de todo a luz do dia.

Escravocratas

Oh! tr√Ęnsfugas do bem que sob o manto r√©gio
Manhosos, agachados — bem como um crocodilo,
Viveis sensualmente à luz dum privilégio
Na pose bestial dum c√°gado tranq√ľilo.

Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
Ardentes do olhar — formando uma vergasta
Dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
E vibro-vos a espinha — enquanto o grande basta

O basta gigantesco, imenso, extraordin√°rio —
Da branca consci√™ncia — o r√ļtilo sacr√°rio
No t√≠mpano do ouvido — audaz me n√£o soar.

Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
Vermelho, colossal, d’estr√©pito, gong√≥rico,
Castrar-vos como um touro — ouvindo-vos urrar!

O Lamento Das Coisas

Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ou√ßo, em sons subterr√Ęneos, do Orbe oriundos,
O choro da Energia abandonada!

√Č a dor da For√ßa desaproveitada
РO cantochão dos dínamos profundos,
Que, podendo mover milh√Ķes de mundos,
jazem ainda na est√°tica do Nada!

√Č o solu√ßo da forma ainda imprecisa…
Da transcend√™ncia que se n√£o realiza…
Da luz que n√£o chegou a ser lampejo…

E é em suma, o subconsciente ai formidando
Da Natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!

O Amor Confina o Amor

Na branda luz do frio, gravo a ternura
De andar sofrendo, pela vez primeira,
O amor que, por engano, a vida inteira
Transforma numa lenta desventura.

Se no ar desta manh√£ sopra t√£o pura
A obrigação de respirar-me, à beira
De uma esperança enferma e derradeira,
Vou respirando a flor de uma armadura

Imposta pelo amor. Sobre a incerteza
Do noivo abandonado, abre a firmeza
De prosseguir lutando, e ardentemente

Este poder desperta o ardor de um canto
No c√°rcere de vidro onde, inclemente,
O amor confina o amor, como num pranto.