Sonetos sobre Vida

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Sonetos de vida escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Metempsicose

Ausentes filhas do prazer: dizei-me!
Vossos sonhos quais s√£o, depois da orgia?
Acaso nunca a imagem fugidia
Do que fostes, em vós se agita e freme?

N’outra vida e outra esfera, aonde geme
Outro vento, e se acende um outro dia,
Que corpo tinheis? que matéria fria
Vossa alma incendiou, com fogo estreme?

Vós fostes nas florestas bravas feras,
Arrastando, le√īas ou pantheras,
De dentadas de amor um corpo exangue…

Mordei pois esta carne palpitante,
Feras feitas de gaze flutuante…
Lobas! le√īas! sim, bebei meu sangue!

Never More – II

Ah! se eu pudesse nunca ver teu rosto!
E nem sequer o som de tua fala
Ouvir de manso à hora do Sol posto
Quando a Tristeza já do Céu resvala!

Talvez assim o f√ļnebre desgosto
Que eternamente a alma me avassala
Se transformasse n’um luar de Agosto,
Sonho perene que a Ventura embala.

Talvez o riso me voltasse à boca
E se extinguisse essa amargura louca
De tanta dor que a minha vida junca…

E, ent√£o, os dias de prazer voltassem
E nunca mais os olhos meus chorassem…
Ah! se eu pudesse nunca ver-te, nunca!

Lirial

Por que choras assim, tristonho lírio,
Se eu sou o orvalho eterno que te chora,
P’ra que pendes o c√°lice que enflora
Teu seio branco do palor do círio?!

Baixa a mim, irm√£ p√°lida da Aurora,
Estrela esmaecida do Martírio;
Envolto da tristeza no delírio,
Deixa beijar-te a face que descora!

Fosses antes a rosa purpurina
E eu beijaria a pétala divina
Da rosa, onde n√£o pousa a desventura.

Ai! que ao menos talvez na vida escassa
Não chorasses à sombra da desgraça,
Para eu sorrir à sombra da ventura!

Viver é Caminhar Breve Jornada

DESPREOCUPA√á√ÉO DO VIVER DISTRA√ćDO A QUEM A MORTE CHEGA INESPERADA

Viver é caminhar breve jornada,
e morte viva é, Lico, a nossa vida,
ontem p’ra o fr√°gil corpo amanhecida,
cada instante, no corpo sepultada.

Nada que, ao ser, é pouco, e será nada
em pouco tempo, que ambiciosa olvida;
pois, da vaidade mal persuadida,
deseja duração, terra animada.

Levada por um falso pensamento,
por esperança enganadora e cega,
tropeçará no próprio monumento.

Como o que, distraído, o mar navega,
e, sem se mover, voa com o vento,
e, antes que pense em abeirar-se, chega.

Tradução de José Bento

Soneto 270 A Dercy Gonçalves

Recusa-se a morrer. N√£o morrer√°.
Talvez caricatura, a sua vida,
vestal, velha vedete travestida,
inverte o que o pariu pra puta v√°.

Vai ser a cibernética babá
de toda meninice reprimida.
Ninguém faz saturnal se não convida
a nossa sideral gueixa gag√°.

Mostrou a perereca da vizinha
apenas pra alegrar a garotada.
Com ela é pau no cu da carochinha.

P√īs cada palavr√£o numa piada.
Passou. N√£o passar√°. Brilha sozinha.
Estrela d’Alva, salva da alvorada.

Tal Mostra D√° De Si Vossa Figura

Tal mostra d√° de si vossa figura,
Sibela, clara luz da redondeza,
que as forças e o poder da natureza
com sua claridade mais apura.

Quem viu √ľa confian√ßa t√£o segura,
t√£o singular esmalte da beleza,
que não padeça mais, se ter defesa
contra vossa gentil vista procura?

Eu, pois, por escusar essa esquivança,
a raz√£o sujeitei ao pensamento,
que, rendida, os sentidos lhe entregaram.

Se vos ofende o meu atrevimento,
inda podeis tomar nova vingança
nas relíquias da vida, que escaparam.

Ouvi, Senhora, O C√Ęntico Sentido

Ouvi, senhora, o c√Ęntico sentido
Do cora√ß√£o que geme e s’estertora
N’√Ęnsia letal que o mata e que o devora,
E que tornou-o assim, triste e descrido.

Ouvi, senhora, amei; de amor ferido,
As minhas crenças que alentei outrora
Rolam dispersas, p√°lidas agora,
Desfeitas todas num guaiar dorido.

E como a luz do sol vai-se apagando!
E eu triste, triste pela vida afora,
Eterno pegureiro caminhando,

Revolvo as cinzas de passadas eras,
Sombrio e mudo e glacial, senhora,
Como um coveiro a sepultar quimeras!

Em Busca Da Beleza II

Nem defini-la, nem ach√°-la, a ela –
A Beleza. No mundo n√£o existe.
Ai de quem coma alma inda mais triste
Nos seres transitórios quer colhê-la!

Acanhe-se a alma porque n√£o conquiste
Mais que o banal de cada cousa bela,
Ou saiba que ao ardor de querer hav√™-la –
À Perfeição Рsó a desgraça assiste.

Só quem da vida bebeu todo o vinho,
Dum trago ou não, mas sendo até o fundo,
Sabe (mas sem remédio) o bom caminho;

Conhece o tédio extremo da desgraça
Que olha estupidamente o nauseabundo
Cristal in√ļtil da vazia ta√ßa.

Natal d’um Poeta

Em certo reino, √° esquina do planeta,
Onde nasceram meus Avós, meus Paes,
Ha quatro lustres, viu a luz um poeta
Que melhor f√īra n√£o a ver jamais.

Mal despontava para a vida inquieta,
Logo ao nascer, mataram-lhe os ideaes,
A falsa-f√©, n’uma trai√ß√£o abjecta,
Como os bandidos nas estradas reaes!

E, embora eu seja descendente, um ramo
D’essa arvore de Heroes que, entre perigos
E guerras, se esforçaram pelo ideal:

Nada me importas, Paiz! seja meu amo
O Carlos ou o Z√© da Th’reza… Amigos,
Que desgraça nascer em Portugal!

Mater Originalis

Forma vermicular desconhecida
Que estacionaste, mísera e mofina,
Como quase impalp√°vel gelatina,
Nos estados prodr√īmicos da vida;

O hierofante que leu a minha sina
Ignorante é de que és, talvez, nascida
Dessa homogeneidade indefinida
Que o insigne Herbert Spencer nos ensina.

Nenhuma ignota uni√£o ou nenhum nexo
A conting√™ncia org√Ęnica do sexo
A tua estacion√°ria alma prendeu…

Ah! de ti foi que, aut√īnoma e sem normas,
Oh! M√£e original das outras formas,
A minha forma l√ļgubre nasceu!

O Remorso

Cometi o pior desses pecados
Que podem cometer-se. N√£o fui sendo
Feliz. Que os glaciares do esquecimento
Me arrastem e me percam, despiedados.

Plos meus pais fui gerado para o jogo
Arriscado e tão belo que é a vida,
Para a terra e a √°gua, o ar, o fogo.
Defraudei-os. N√£o fui feliz. Cumprida

N√£o foi sua vontade. A minha mente
Aplicou-se às simétricas porfias
Da arte, que entretece ninharias.

Valentia eu herdei. N√£o fui valente.
N√£o me abandona. Est√° sempre ao meu lado
A sombra de ter sido um desgraçado.

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Amor é um Arder

Amor é um arder que se não sente;
√Č ferida que d√≥i, e n√£o tem cura;
√Č febre, que no peito faz secura;
√Č mal, que as for√ßas tira de repente.

√Č fogo, que consome ocultamente;
√Č dor, que mortifica a Criatura;
√Č √Ęnsia, a mais cruel e a mais impura;
√Č fr√°goa, que devora o fogo ardente.

√Č um triste penar entre lamentos;
√Č um n√£o acabar sempre penando;
√Č um andar metido em mil tormentos.

√Č suspiros lan√ßar de quando em quando;
√Č quem me causa eternos sentimentos.
√Č quem me mata e vida me est√° dando.

[Imitando Cam√Ķes]

Lamento do Poeta Objectivo

Anda-me o amor tomando a própria vida,
como se, amando, eu existisse mais.
E leva-me o Destino em voz traída,
como se houvera encontros desiguais.

A multid√£o me cerca, e, renascida,
j√° dela terei fome de sinais.
E, mal a noite se demora ardida,
o medo e a solid√£o me esfriam tais

as cinzas desse amor que sacrifico.
Não é futura a só miséria. A queixa
também não é: e apenas acontece

no v√°cuo imenso que este amor me deixa,
quando maior, quando de si mais rico,
se d√° de mundo em mundo, e l√° me esquece.

A Vida

“A Vida”
IV
“…A vida √© assim, uma √Ęnsia… feito a vaga
que se ergue e rola a espumejar na areia,
– apor esse bem que a tua m√£o semeia
espera o mal que ainda ter√°s por paga!

A essa hora boa que te agrada e enleia
sucede uma outra torturante e aziaga,
– a vida √© assim… um canto de sereia
que √† morte nos convida, e nos afaga…

O teu sonho melhor bem pouco dura,
e h√° sempre”um amanh√£”cheio de dor
para”um hoje”nem sempre de ventura…

Toma entre as m√£os o b√ļzio da alegria
e surpreso ver√°s que no interior
canta profunda e imensa nostalgia!…”

Manh√£

Alta alvorada. — Os √ļltimos nevoeiros
A luz que nasce levemente espalha;
Move-se o bosque, a selva que farfalha
Cheia da vida dos clar√Ķes primeiros.

Da passarada os v√īos condoreiros,
Os cantos e o ar que as √°rvores ramalha
Lembram combate, estrídula batalha
De elementos contr√°rios e altaneiros.

Vozes, trinados, vibra√ß√Ķes, rumores
Crescem, v√£o se fundindo aos esplendores
Da luz que jorra de invisível taça.

E como um rei num gale√£o do Oriente
O sol p√Ķe-se a tocar bizarramente
Fanfarras marciais, trompas de caça.

Um P√°ssaro a Morrer

Não é vida nem morte, é uma passagem,
nem antes nem depois: somente agora,
um minuto nos tantos duma hora.
Uma pausa. Um intervalo. Uma viragem.

Prisioneira de mim, onde a coragem
de quebrar as algemas, ir-me embora,
se tudo o que em mim ria agora chora,
se j√° n√£o me seduz outra viagem?

E nada disto é céu nem é inferno.
Tristeza, só tristeza. Sol de Inverno,
sem uma flor a abrir na minha m√£o,

sem um b√ļzio a cantar ao meu ouvido.
Só tristeza, um silêncio desmedido
e um pássaro a morrer: meu coração.

Alma Serena

Alma serena, a consciência pura,
assim eu quero a vida que me resta.
Saudade não é dor nem amargura,
dilui-se ao longe a derradeira festa.

N√£o me tentam as rotas da aventura,
agora sei que a minha estrada é esta:
difícil de subir, áspera e dura,
mas branca a urze, de oiro puro a giesta.

Assim meu canto f√°cil de entender,
como chuva a cair, planta a nascer,
como raiz na terra, √°gua corrente.

Tão fácil o difícil verso obscuro!
Eu não canto, porém, atrás dum muro,
eu canto ao sol e para toda a gente.

A Vida

“A Vida”
III
“… A vida √© assim, segue e ver√°s, – a vida
é um dia de esperança, um longo poente
de incertezas cruéis, e finalmente
a grande noite estranha e dolorida…

Hoje o sol, hoje a luz, hoje contente
a estrada a percorrer suave e florida…
– amanh√£, pela sombra, inutilmente
outra sombra a vagar, triste e perdida…

A vida é assim, é um dia de esperança
uma réstia de luz entre dois ramos
que a noite envolve cedo, sem tardan√ßa…

E enquanto as sombras chegam, nós, ao vê-las,
ainda somos felizes e encontramos
a saudade infinita das estrelas!…”

XIV

Viver n√£o pude sem que o fel provasse
Desse outro amor que nos perverte e engana:
Porque homem sou, e homem n√£o h√° que passe
Virgem de todo pela vida humana.

Por que tanta serpente atra e profana
Dentro d’alma deixei que se aninhasse?
Por que, abrasado de uma sede insana,
A impuros l√°bios entreguei a face?

Depois dos l√°bios s√īfregos e ardentes,
Senti duro castigo aos meus desejos
O gume fino de perversos dentes…

E não posso das faces poluídas
Apagar os vestígios desses beijos
E os sangrentos sinais dessas feridas!

Soneto VIII

Da virtude que move os Céus depende
Todo o bem, toda a glória e ser da terra,
E se u’hora faltasse, o vale, a serra,
A flor, o fruito, a fonte, o rio ofende.

Esse braço que amor de longe estende
Para esta alma, meu ser e vida encerra,
E se algu’hora Amor dela o desterra,
Que glória mais que vida ou ser pretende.

Mas nem h√°-de faltar essa virtude
Se n√£o c’o mundo, nem faltar-me agora;
Vosso Amor até morte me assigura.

Ent√£o para que nunca mais se mude,
Se mudar√°, e mudar-se Amor nessa hora,
Ser√° para outro Amor que sempre dura.