Sonetos sobre L√°bios

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Sonetos de lábios escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

V – A Vida E O Barco

Andar e mais andar é a vida a bordo;
Mal estudo, e apenas eu vou lendo;
A noite com a m√ļsica entretendo;
Deito-me cedo, e mais cedo acordo.

Saudosíssimo a pátria eu recordo,
E, pra consolo versos lhe fazendo,
Desenho terras só aquela vendo,
E para n√£o chorar os l√°bios mordo.

Enfim h√° de chegar, eu bem o sei,
Que o Brasil eu reveja jubiloso;
E, se outrora eu servi-lo só pensei,

Muito mais forte e muito mais zeloso,
Para ainda mais servi-lo, voltarei
T√© que nele encontre o √ļltimo repouso.

Passei Ontem A Noite Junto Dela.

Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divis√£o se erguia
Apenas entre nós Рe eu vivia
No doce alento dessa virgem bela…

Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! Só a via!
M√ļsica mais do c√©u, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!

Como era doce aquele seio arfando!
Nos l√°bios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!

Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
√Č sentir todo o seio palpitando…
Cheio de amores! E dormir solteiro!

A Esmola De Dulce

Ao Alfredo A.

E todo o dia eu vou como um perdido
De dor, por entre a dolorosa estrada,
Pedir a Dulce, a minha bem amada,
A esmola dum carinho apetecido.

E ela fita-me, o olhar enlanguescido,
E eu balbucio trêmula balada:
– Senhora, dai-me u’a esmola – e estertorada
A minha voz soluça num gemido.

Morre-me a voz, e eu gemo o √ļltimo harpejo,
Estendo à Dulce a mão, a fé perdida,
E dos l√°bios de Dulce cai um beijo.

Depois, como este beijo me consola!
Bendita seja a Dulce! A minha vida
Estava unicamente nessa esmola.

Arda De Raiva Contra Mim A Intriga

Arda de raiva contra mim a intriga,
Morra de dor a inveja insaci√°vel;
Destile seu veneno detest√°vel
A vil cal√ļnia, p√©rfida inimiga.

Una-se todo, em traiçoeira liga,
Contra mim só, o mundo miserável.
Alimente por mim ódio entranhável
O coração da terra que me abriga.

Sei rir-me da vaidade dos humanos;
Sei desprezar um nome n√£o preciso;
Sei insultar uns c√°lculos insanos.

Durmo feliz sobre o suave riso
De uns l√°bios de mulher gentis, ufanos;
E o mais que os homens s√£o, desprezo e piso.

A Meu Pai Depois De Morto

Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.
Em seus l√°bios que os meus l√°bios osculam
Micro-organismos f√ļnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.

Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!…

Podre meu Pai! E a m√£o que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de org√≠acos festins!…

Amo meu Pai na at√īmica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!

A Vida

“A Vida”
I
“…Mudar√°s, todos mudam, e os espinhos
com surpresa ver√°s por todo lado,
– s√£o assim nesta vida os seus caminhos
desde que o homem no mundo tem andado…

N√£o h√°s de ser o eterno namorado
com as m√£os e os l√°bios cheios de carinho,
– hoje, juntos os dois… tudo encantado!
– amanh√£, tudo triste… os dois sozinhos!…

E sentindo o teu braço então vazio,
abatido ver√°s que n√£o resistes
√† inclem√™ncia do tempo √ļmido e frio!

Rolar√°s por escarpas e barrancos:
sobre o epit√°fio dos teus olhos tristes
trazendo a campa dos cabelos brancos!”

A Tua Voz de Primavera

Manto de seda azul, o céu reflete
Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus l√°bios √ļmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!

Sinfonia de luz meu corpo n√£o repete
O ritmo e a cor dum mesmo desejo… olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a vis√£o dos poentes se complete!

Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
T√™m a firmeza el√°stica dos gamos…

Para os teus beijos, sensual, flori!
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!

√ď P√°ginas Da Vida Que Eu Amava

√ď p√°ginas da vida que eu amava,
Rompei-vos! nunca mais! t√£o desgra√ßado!…
Ardei, lembranças doces do passado!
Quero rir-me de tudo que eu amava!

E que doido que eu fui! como eu pensava
Em m√£o, amor de irm√£! em sossegado
Adormecer na vida acalentado
Pelos lábios que eu tímido beijava!

Embora Рé meu destino. Em treva densa
Dentro do peito a exist√™ncia finda…
Pressinto a morte na fatal doen√ßa!…

A mim a solid√£o da noite infinda!
Possa dormir o trovador sem cren√ßa…
Perdoa, minha m√£o – eu te amo ainda!

Conchita

Adeus aos filtros da mulher bonita;
A esse rosto espanhol, pulcro e moreno;
Ao p√© que no bolero… ao p√© pequeno;
P√© que, al√≠gero e c√©lere, saltita…

Lira do amor, que o amor n√£o mais excita,
A um silêncio de morte eu te condeno;
Despede-te; e um adeus, no √ļltimo treno,
Soluça às graças da gentil Conchita:

A esses, que em ondas se levantam, seios
Do mais cheiroso jambo; a esses quebrados
Olhos meridionais de ardência cheios;

A esses l√°bios, enfim, de n√°car vivo,
Virgens dos l√°bios de outrem, mas corados
Pelos beijos de um sol quente e lascivo.

Soneto da Nudez

H√° um misto de azul e trevas agitadas
Nesse felino olhar de l√ļbrica bacante.
Quando lhe cai aos pés a roupa flutuante,
Contemplo, mudo e absorto, as formas recatadas.

Nessa mulher esplende um poema deslumbrante
De vol√ļpia e langor; em noites tresloucadas
Que suave não é nas rosas perfumadas
De seus l√°bios beber o aroma inebriante!

Fascina, quando a vejo à noite seminua,
Postas as m√£os no seio, onde o desejo estua,
A boca descerrada, amortecido o olhar…

Fascina, mas sua alma é lodo, onde não pousa
Um raio dessa aurora, o amor, sublime cousa!
Raio de luz perdido em tormentoso mar!

Noiva E Triste

Rola da luz do céu, solta e desfralda
Sobre ti mesma o pavilhão das crenças,
Constele o teu olhar essas imensas
Vagas do amor que no teu peito escalda.

A primorosa e límpida grinalda
H√° de enflorar-te as amplid√Ķes extensas
Do teu pesar — h√° de rasgar-te as densas
Sombras — o v√©u sobre a luzente espalda…

Inda n√£o ri esse teu l√°bio rubro
Hoje — inda n’alma, nesse azul delubro
N√£o fulge o brilho que as paix√Ķes enastra;

Mas, amanh√£, no sorridor noivado,
A vida triste por que tens passado,
De madressilvas e jasmins se alastra.

Perdi os Meus Fant√°sticos Castelos

Perdi meus fant√°sticos castelos
Como n√©voa distante que se esfuma…
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma…
– Tantos escolhos! Quem podia v√™-los? ‚Äď
Deitei-me ao mar e n√£o salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias…

Sobem-me aos l√°bios s√ļplicas estranhas…
Sobre o meu cora√ß√£o pesam montanhas…
Olho assombrada as minhas m√£os vazias…

XV

Inda hoje, o livro do passado abrindo,
Lembro-as e punge-me a lembrança delas;
Lembro-as, e vejo-as, como as vi partindo,
Estas cantando, soluçando aquelas.

Umas, de meigo olhar piedoso e lindo,
Sob as rosas de neve das capelas;
Outras, de l√°bios de coral, sorrindo,
Desnudo o seio, l√ļbricas e belas…

Todas, formosas como tu, chegaram,
Partiram… e, ao partir, dentro em meu seio
Todo o veneno da paix√£o deixaram.

Mas, ah! nenhuma teve o teu encanto,
Nem teve olhar como esse olhar, t√£o cheio
De luz t√£o viva, que abrasasse tanto.

2A Sombra – B√°rbara

Erguendo o c√°lix que o Xerez perfuma.
Loura a trança alastrando-lhe os joelhos,
Dentes níveos em lábios tão vermelhos,
Como boiando em purpurina escuma;

Um dorso de Valqu√≠ria… alvo de bruma,
Pequenos pés sob infantis artelhos,
Olhos vivos, t√£o vivos, como espelhos,
Mas como eles também sem chama alguma;

Garganta de um palor alabastrino,
Que harmonias e m√ļsicas respira…
No l√°bio – um beijo… no beijar – um hino;

Harpa eólia a esperar que o vento a fira,
– Um peda√ßo de m√°rmore divino…
– √Č o retrato de B√°rbara – a Hetaira.

3A Sombra – Ester

Vem! no teu peito c√°lido e brilhante
O nardo oriental melhor transpira!
Enrola-te na longa cachemira,
Como as judias moles do Levante,

Alva a cl√Ęmide aos ventos – ro√ßagante…
T√ļmido o l√°bio, onde o salt√©rio gira…
√ď musa de Israel! pega da lira…
Canta os martírios de teu povo errante!

Mas n√£o… brisa da p√°tria al√©m revoa,
E ao delamber-lhe o braço de alabastro,
Falou-lhe de partir… e parte… e voa. . .

Qual nas algas marinhas desce um astro…
Linda Ester! teu perfil se esvai… s’escoa…
S√≥ me resta um perfume… um canto… um rastro…

A Flor Do C√°rcere

Nascera ali – no limo viridente
Dos muros da pris√£o – como uma esmola
Da natureza a um cora√ß√£o que estiola –
Aquela flor imaculada e olente…

E ele que f√īra um bruto, e vil descrente,
Quanta vez, numa prece, ungido, cola
O l√°bio seco, na √ļmida corola
Daquela flor alv√≠ssima e silente!…

E – ele – que sofre e para a dor existe –
Quantas vezes no peito o pranto estanca!..
Quantas vezes na veia a febre acalma,

Fitando aquela flor t√£o pura e triste!…
– Aquela estrela perfumada e branca,
Que cintila na noite de sua alma…

A Minha Tragédia

Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!

√ď minha v√£, in√ļtil mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida! …
Duns beijos que me deste noutra vida,
Trago em meus l√°bios roxos, a saudade! …

Eu n√£o gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim! …

Gloriosa

A Ara√ļjo Figueredo

Pomba! dos céus me dizes que vieste,
Toda c’roada de astros e de rosas,
Mas h√° regi√Ķes mais que essas luminosas.
N√£o, tu n√£o vens da regi√£o celeste

H√° um outro esplendor em tua veste,
Uma outra luz nas tranças primorosas,
Outra harmonia em teu olhar — maviosas
Cousas em ti que tu nunca tiveste.

Não, tu não vens das célicas planuras,
Do √Čden que ri e canta nas alturas
Como essa voz que dos teus l√°bios tomba.

Vens de mais longe, vens doutras paragens,
Vens doutros céus de místicas celagens,
Sim, vens de sóis e das auroras, pomba.

√Č Delicada, Suave, Vaporosa

√Č delicada, suave, vaporosa,
A grande atriz, a singular feitura…
√Č linda e alva como a neve pura,
D√©bil, franzina, divinal, nervosa!…

E d’entre os l√°bios setinais, de rosa
Libram-se p√©rolas de nitente alvura…
E doce aroma de sutil frescura
Sai-lhe da leve complei√ß√£o mimosa!…

Quando aparece no febril proscênio
Bem como os mitos do passado, ingentes,
Bem como um astro majestoso, hel√™nio…

Sente-se n’alma as atra√ß√Ķes potentes
Que só se operam ao fulgor do gênio,
As rubras chispas ideais, ferventes!…

Desespero

N√£o eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os l√°bios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

N√£o eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que n√£o vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

N√£o fui eu que te quis. E n√£o sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu

A grande solid√£o que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o espermen que te dou, o desespero.