Sonetos sobre Medo

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Sonetos de medo escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Ceticismo

Desci um dia ao tenebroso abismo,
Onde a d√ļvida ergueu altar profano;
Cansado de lutar no mundo insano,
Fraco que sou, volvi ao ceticismo.

Da Igreja – a Grande M√£e – o exorcismo
Terrível me feriu, e então sereno,
De joelhos aos pés do Nazareno
Baixo rezei, em fundo misticismo:

– Oh! Deus, eu creio em ti, mas me perdoa!
Se esta d√ļvida cruel qual me magoa
Me torna ínfimo, desgraçado réu.

Ah, entre o medo que o meu Ser aterra,
N√£o sei se viva p’ra morrer na terra,
N√£o sei se morra p’ra viver no C√©u!

Vossos Olhos, Senhora, Que Competem

Vossos olhos, Senhora, que competem
co Sol em fermosura e claridade,
enchem os meus de tal suavidade
que em lágrimas, de vê-los, se derretem.

Meus sentidos vencidos se sometem
assi cegos a tanta majestade;
e da triste pris√£o, da escuridade,
cheios de medo, por fugir remetem.

Mas se nisto me vedes por acerto,
o √°spero desprezo com que olhais
torna a espertar a alma enfraquecida.

√ď gentil cura e estranho desconcerto!
Que fará o favor que vós não dais,
quando o vosso desprezo torna a vida?

Primeiro Round

Caminho o transit√≥rio bem tranq√ľilo
por que me soube, desde muito cedo,
flecha veloz, arco e alvo, num estilo
de quem despe o taxímetro do enredo

numa velocidade sem sigilo.
Nunca o subterf√ļgio. Nunca o medo.
Pelo menos aquele com vacilo
de transgredir. N√£o. Nem me sei rochedo.

Meu corpo alberga o fr√°gil nesse asilo
em que só vencedores têm lugar.
Sou campe√£o de perdas. Foi cochilo,

creio, me ter um sócio do bazar
de Fernando Pessoa. Sim, pugilo
pelos ringues, no entanto, sem ganhar.

Equu (Para O Poeta Rafael Courtoisie)

Nos astros me perdia logo cedo
enquanto a luz vestia-me de noites.
Ent√£o chorava no meu ombro o enredo
grave galope breve com seus coices.

As éguas do destino cospem medos
sabendo-me alaz√£o de muitas foices,
ou pangaré lunar dos meus degredos.
Por isso perseguiam-me nas noites

àquelas mais escuras sem estrelas
nas quais sou presa f√°cil sem que fosse
porque flechando verbos sei contê-las.

Não eram éguas mouras dos desertos
senão potrancas férteis com seus roces
estas que vinham mansas muito perto.

Tempestade!

O meu beliche é tal qual o bercinho,
Onde dormi horas que não vêm mais.
Dos seus embalos j√° estou cheiinho:
Minha velha ama s√£o os vendavaes!

Uivam os ventos! Fumo, bebo vinho.
O vapor treme! Abra√ßo a Biblia, aos ais…
Covarde! Que dir√° teu Av√īzinho,
Que foi moreante? Que dir√£o teus Paes?

Coragem! Considera o que has soffrido,
O que soffres e o que ainda soffrer√°s,
E ve, depois, se accaso é permittido

Tal medo √° Morte, tanto apego ao mundo:
Ah! f√īra bem melhor, v√°s onde v√°s,
Antonio, que o paquete fosse ao fundo!

Esperança Amorosa

Grato silêncio, trémulo arvoredo,
Sombra propícia aos crimes e aos amores,
Hoje serei feliz! – Longe, temores,
Longe, fantasmas, ilus√Ķes do medo.

Sabei, amigos Zéfiros, que cedo
Entre os braços de Nise, entre estas flores,
Furtivas glórias, tácitos favores,
Hei-de enfim possuir: porém segredo!

Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
Não leveis, não façais isto patente,
Quem nem quero que o saiba o pai dos numes:

Cale-se o caso a Jove omnipotente,
Porque, se ele o souber, ter√° ci√ļmes,
Vibrar√° contra mim seu raio ardente.

Benoit

Acende no meu peito o sério lume
Aceso no teu peito porco e bento,
E sê no medo meu, no meu tormento,
O mestre predileto, o amado nume

Capaz de iluminar, sob o cardume
De estrelas, uma estrada que, por dentro,
Percorre o meu país de amor, detento
De tudo que te fez, no mundo, estrume.

Vem dar-me o braço e me levar até
Por onde andaste, noivo e peregrino,
Da Pátria que se esconde atrás da Fé.

Ensina-me a viver o Amor Divino,
E quando o meu cajado florescer,
D√°-me o teu santo modo de morrer.

Por Cima Destas √Āguas, Forte E Firme

Por cima destas √°guas, forte e firme,
irei por onde as sortes ordenaram,
pois, por cima de quantas me choraram
aqueles claros olhos, pude vir me.

J√° chegado era o fim de despedir me,
j√° mil impedimentos se acabaram,
quando rios de amor se atravessaram
a me impedir o passo de partir me.

Passei os eu com √Ęnimo obstinado,
com que a morte forçada e gloriosa
faz o vencido j√° desesperado.

Em que figura, ou gesto desusado,
pode j√° fazer medo a morte irosa,
a quem tem a seus pés rendido e atado?

Alucinação À Beira-Mar

Um medo de morrer meus pés esfriava.
Noite alta. Ante o tel√ļrico recorte,
Na diuturna discórdia, a equórea coorte
Atordoadoramente ribombava!

Eu, ególatra céptico, cismava
Em meu destino!… O vento estava forte
E aquela matem√°tica da Morte
Com os seus n√ļmeros negros me assombrava!

Mas a alga usufructu√°ria dos oceanos
E os malacopterígios subraquianos
Que um castigo de espécie emudeceu,

No eterno horror das convuls√Ķes mar√≠timas
Pareciam também corpos de vítimas
Condenadas à Morte, assim como eu!

A Ang√ļstia

Nada em ti me comove, Natureza, nem
Faustos das madrugadas, nem campos fecundos,
Nem pastorais do Sul, com o seu eco t√£o rubro,
A solene dolência dos poentes, além.

Eu rio-me da Arte, do Homem, das can√ß√Ķes,
Da poesia, dos templos e das espirais
Lançadas para o céu vazio plas catedrais.
Vejo com os mesmos olhos os maus e os bons.

N√£o creio em Deus, abjuro e renego qualquer
Pensamento, e nem posso ouvir sequer falar
Dessa velha ironia a que chamam Amor.

J√° farta de existir, com medo de morrer,
Como um brigue perdido entre as ondas do mar,
A minha alma persegue um naufr√°gio maior.

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

XXXVI

Estes braços, Amor, com quanta glória
Foram trono feliz na formosura!
Mas este coração com que ternura
Hoje chora infeliz esta memória!

Quanto vês, é troféu de uma vitória,
Que o destino em seu templo dependura:
De uma dor esta estampa é só figura,
Na fé oculta, no pesar notória.

Saiba o mundo de teu funesto enredo;
Por que desde hoje um coração amante
De adorar teus altares tenha medo:

Mas que empreendo, se ao passo, que constante
Vou a romper a fé do meu segredo,
N√£o h√°, quem acredite um delirante!

Soneto Da Hora Final

Ser√° assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente,
O beijo leve de uma aragem fria.

Tu me olhar√°s silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de trevas, aberta em frente.

Ao transpor as fronteiras do segredo
Eu, calmo, te direi: – N√£o tenhas medo
E tu, tranq√ľila, me dir√°s: – S√™ forte.

E como dois antigos namorados
Noturnamente tristes e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.

As Tuas M√£os Terminam Em Segredo

As tuas m√£os terminam em segredo.
Os teus olhos s√£o negros e macios
Cristo na cruz os teus seios (?) esguios
E o teu perfil princesas no degredo…

Entre buxos e ao pé de bancos frios
Nas entrevistas alamedas, quedo
O vendo p√Ķe o seu arrastado medo
Saudoso o longes velas de navios.

Mas quando o mar subir na praia e for
Arrasar os castelos que na areia
As crianças deixaram, meu amor,

Ser√° o haver cais num mar distante…
Pobre do rei pai das princesas feias
No seu castelo à rosa do Levante !

A Minha Tragédia

Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!

√ď minha v√£, in√ļtil mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida! …
Duns beijos que me deste noutra vida,
Trago em meus l√°bios roxos, a saudade! …

Eu n√£o gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim! …

Aspiração

Quisera ser a serpe astuciosa
Que te d√° medo e faz-te pesadelos
Para esconder-me, ó flor luxuriosa,
Na floresta ideal dos teus cabelos.

Quisera ser a serpe venenosa
Para enroscar-me em m√ļltiplos novelos,
Para saltar-te aos seios cor-de-rosa.
E bajulá-los e depois mordê-los.

Talvez que o sangue impuro e rutilante
Do teu divino corpo de bacante,
Sangue febril como um licor do Reno

Completamente se purificasse
Pois que um veneno org√Ęnico e vorace
Para ser morto é bom outro veneno.

Do Meu Tempo

Quando eu era menino e tinha cheia
A alma de sonhos bons e, fugidio,
Como a abelha que voa da colmeia,
Andava a errar do canavial bravio;

Quando em noites de junho o luar macio
Punha um lençol de rendas sobre a areia,
Tiritava de medo ouvindo o pio
Da coruja mais l√ļgubre da aldeia.

Feliz! Bendita essa primeira idade!
Andava como quem anda sonhando
De olhos abertos, com a felicidade.

Dormia tarde e enquanto eu n√£o dormia,
Mam√£e rezava o padre-nosso e quando
Me mandava rezar, eu n√£o sabia.

O Futuro Perfeito

À minha neta Anica

A neta explora-me os dentes,
Penteia-me como quem carda.
Terra da sua experiência,
Meu rosto diverte-a, parda
Imagem dada à inocência.

Finjo que lhe como os dedos,
Fura-me os olhos cansados,
Intima aos meus próprios medos
Deixa-mos sossegados.

E tira, tira puxando
Coisas de mim, divertida.
Assim me vai transformando
Em tempo da sua vida.

Tempestade Amaz√īnica

O calor asfixia e o ar escurece. O rio,
Quieto, n√£o tem uma onda. Os insetos na mata
Zumbem tontos de medo. E o p√°ssaro, o sombrio
Da floresta procura, onde a chuva n√£o bata.

S√ļbito, o raio estala. O vento zune. Um frio
De terror tudo invade… E o temporal desata
As peias pelo espaço e, bufando, bravio,
O arvoredo retorce e as folhas arrebata.

O anoso buriti curva a copa, e farfalha.
Aves rodam no céu, num estéril esforço,
Entre nuvens de folha e fragmentos de palha.

No alto o trov√£o repousa e em baixo a mata brama.
Ruge em meio a amplid√£o. Das nuvens pelo dorso
Correm serpes de fogo. E a chuva se derrama…

Aos Vindouros, se os Houver…

Vós, que trabalhais só duas horas
a ver trabalhar a cibernética,
que n√£o deixais o √°tomo a desoras
na gandaia, pois tendes uma ética;

que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres de medo,
sem peçários, calendários, Pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo;

computai, computai a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pràqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;

que nós fomos (fatal necessidade!)
quadr√ļmanos da vossa humanidade.

Vossos Olhos, Senhora, que Competem

Vossos olhos, Senhora, que competem
Com o Sol em beleza e claridade,
Enchem os meus de tal suavidade,
Que em lágrimas de vê-los se derretem.

Meus sentidos prostrados se submetem
Assim cegos a tanta majestade;
E da triste pris√£o, da escuridade,
Cheios de medo, por fugir remetem.

Porém se então me vedes por acerto,
Esse √°spero desprezo com que olhais
Me torna a animar a alma enfraquecida.

Oh gentil cura! Oh estranho desconcerto!
Que dareis c’ um favor que v√≥s n√£o dais,
Quando com um desprezo me dais vida?