Sonetos sobre Infinito

91 resultados
Sonetos de infinito escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Mendiga

Na vida nada tenho e nada sou;
Eu ando a mendigar pelas estradas…
No silêncio das noites estreladas
Caminho, sem saber para onde vou!

Tinha o manto do sol… quem mo roubou?!
Quem pisou minhas rosas desfolhadas?!
Quem foi que sobre as ondas revoltadas
A minha taça de oiro espedaçou?!

Agora vou andando e mendigando,
Sem que um olhar dos mundos infinitos
Veja passar o verme, rastejando…

Ah, quem me dera ser como os chacais
Uivando os brados, rouquejando os gritos
Na solid√£o dos ermos matagais!…

I

Talvez sonhasse, quando a vi. Mas via
Que, aos raios do luar iluminada
Entre as estrelas trêmulas subia
Uma infinita e cintilante escada.

E eu olhava-a de baixo, olhava-a… Em cada
Degrau, que o ouro mais límpido vestia,
Mudo e sereno, um anjo a harpa doirada,
Ressoante de s√ļplicas, feria…

Tu, mãe sagrada! vós também, formosas
Ilus√Ķes! sonhos meus! √≠eis por ela
Como um bando de sombras vaporosas.

E, ó meu amor! eu te buscava, quando
Vi que no alto surgias, calma e bela,
O olhar celeste para o meu baixando…

LXXV

Clara fonte, teu passo lisonjeiro
P√°ra, e ouve-me agora um breve instante;
Que em paga da piedade o peito amante
Te ser√° no teu curso companheiro.

Eu o primeiro fui, fui o primeiro,
Que nos braços da ninfa mais constante
Pude ver da fortuna a face errante
Jazer por glória de um triunfo inteiro.

Dura mão, inflexível crueldade
Divide o laço, com que a glória, a dita
Atara o gosto ao carro da vaidade:

E para sempre a dor ter n’alma escrita,
De um breve bem nasce imortal saudade,
De um caduco prazer m√°goa infinita.

Vis√£o Da Morte

Olhos voltados para mim e abertos
Os braços brancos, os nervosos braços,
Vens d’espa√ßos estranhos, dos espa√ßos
Infinitos, int√©rminos, desertos…

Do teu perfil os tímidos, incertos
Traços indefinidos, vagos traços
Deixam, da luz nos ouros e nos aços,
Outra luz de que os céus ficam cobertos.

Deixam nos céus uma outra luz mortuária,
Uma outra luz de lívidos martírios,
De agonies, de m√°goa funer√°ria…

E causas febre e horror, frio, delírios,
√ď Noiva do Sepulcro, solit√°ria,
Branca e sinistra no clarão dos círios!

Sonho De Um Monista

Eu e o esqueleto esqu√°lido de Esquilo
Viaj√°vamos, com urna √Ęnsia sibarita,
Por toda a pr√≥-din√Ęmica infinita,
Na inconsci√™ncia de um zo√≥fito tranq√ľilo.

A verdade espantosa do Protilo
Me aterrava, mas dentro da alma aflita
Via Deus – essa m√īnada esquisita –
Coordenando e animando tudo aquilo!

E eu bendizia, com o esqueleto ao lado,
Na guturalidade do meu brado,
Alheio ao velho c√°lculo dos dias,

Como um pag√£o no altar de Proserpina,
A energia intracósmica divina
Que é o pai e é a mãe das outras energias!

Spleen

Fora, na vasta noute, um vento de procela
Erra, aos saltos, uivando, em rajadas e em f√ļria;
E num rumor de choro, uma voz de lam√ļria,
Ouço a chuva a escorrer nos vidros da janela.

No desconforto do meu quarto de estudante,
Velo. Sinto-me como insulado da vida.
Eu imagino a morte assim, aborrecida
Solid√£o numa sombra infinita e constante…

Tu, que √©s forte, rebrame em f√ļria, natureza!
Eu, caído num fundo abismo de tristeza,
Invejo-te a expans√£o livre do temporal;

E, no tédio feroz que me assalta e me toma,
Sinto ansiarem-me n’alma instintos de chacal…
E compreendo Nero incendiando Roma.

No Seio Da Terra

Do pélago dos pélagos sombrios,
C√° do seio da Terra, olhando as vidas,
Escuto o murmurar de almas perdidas,
Como o secreto murmurar dos rios.

Trazem-me os ventos negros calafrios
E os loluços das almas doloridas
Que têm sede das terras prometidas
E morrem como abutres erradios.

As √Ęnsias sobem, as tremendas √Ęnsias!
Velhices, mocidades e as inf√Ęncias
Humansa entre a Dor se despeda√ßam…

Mas, sobre tantos convulsivos gritos,
Passam horas, espaços, infinitos,
Esferas, gera√ß√Ķes, sonhando, passam!

Inania Verba

Ah! quem h√° de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca n√£o diz, o que a m√£o n√£o escreve?
– Ardes, sangras, pregada a’ tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava…

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, √© um sepulcro de neve…
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e dano, refulgia e voava.

Quem o molde achar√° para a express√£o de tudo?
Ai! quem h√° de dizer as √Ęnsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?

E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confiss√Ķes de amor que morrem na garganta?!

Doce Certeza

Por essa vida fora h√°s-de adorar
Lindas mulheres, talvez; em √Ęnsia louca,
Em infinito anseio h√°s de beijar
Estrelas d¬īouro fulgindo em muita boca!

H√°s de guardar em cofre perfumado
Cabelos d¬īouro e risos de mulher,
Muito beijo d¬īamor apaixonado;
E n√£o te lembrar√°s de mim sequer…

H√°s de tecer uns sonhos delicados…
H√£o de por muitos olhos magoados,
Os teus olhos de luz andar imersos!…

Mas nunca encontrar√°s p¬īla vida fora,
Amor assim como este amor que chora
Neste beijo d¬īamor que s√£o meus versos!…

Ao Luar

Quando, à noite, o Infinito se levanta
A luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tactil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha m√£o, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinit√©simo e o Indeterminado…

Transponho ousadamente o √°tomo rude
E, transmudado em rutil√Ęncia fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!

Sidera√ß√Ķes

Para as Estrelas de cristais gelados
As √Ęnsias e os desejos v√£o subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplid√£o vestindo…

Num cortejo de c√Ęnticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo…

Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de Vis√Ķes levanta…

E as √Ęnsias e os desejos infinitos
V√£o com os arcanjos formulando ritos
Da Eternidade que nos Astros canta…

Ansiedade

Esta ansiedade que nos enche o peito
Enche o céu, enche o mar, fecunda a terra.
Ela os germens puríssimos encerra
Do Sentimento límpido, perfeito.

Em jorros cristalinos o direito,
A paz vencendo as convuls√Ķes da guerra,
A liberdade que abre as asas e erra
Pelos caminhos do Infinito eleito.

Tudo na mesma ansiedade gira,
Rola no Espaço, dentre a luz suspira
E chora, chora, amargamente chora…

Tudo nos turbilh√Ķes da Imensidade
Se confunde na tr√°gica ansiedade
Que almas, estrelas, amplid√Ķes devora.

XXIX

Por tanto tempo, desvairado e aflito,
Fitei naquela noite o firmamento,
Que inda hoje mesmo, quando acaso o fito,
Tudo aquilo me vem ao pensamento.

Sal, no peito o derradeiro grito
Calcando a custo, sem chorar, violento…
E o céu fulgia plácido e infinito,
E havia um choro no rumor do vento…

Piedoso céu, que a minha dor sentiste!
A √°urea esfera da lua o ocaso entrava.
Rompendo as leves nuvens transparentes;

E sobre mim, silenciosa e triste,
A via-l√°ctea se desenrolava
Como um jorro de l√°grimas ardentes.

Ocasos

Morrem no Azul saudades infinitas
Mist√©rios e segredos inef√°veis…
Ah! Vagas ilus√Ķes imponder√°veis,
Esperanças acerbas e benditas.

√ānsias das horas m√≠sticas e aflitas,
De horas amargas das intermin√°veis
Cogita√ß√Ķes e agruras insond√°veis
De febres tredas, tr√°gicas, malditas.

Cogita√ß√Ķes de horas de assombro e espanto
Quando das almas num relevo santo
Fulgem de outrora os sonhos apagados.

E os bracos brancos e tentaculosos
Da Morte, frios, √°lgidos, nervosos,
Abrem-se pare mim torporizados.

O Corpo Os Corpos

O teu corpo O meu corpo E em vez dos corpos
que somados seriam nossos corpos
implantam-se no espaço novos corpos
ora mais ora menos que dois corpos

Que escorpi√£o de s√ļbito estes corpos
quando um espelho reflecte os nossos corpos
e num só corpo feitos os dois corpos
ao mesmo tempo somos quatro corpos

N√£o indagues agora se o meu corpo
se contenta só corpo no teu corpo
ou se busca atingir todos os corpos

que no fundo residem num só corpo
Mas indaga sem pausa além do corpo
o finito infinito destes corpos

Fado de contas

Eu n√£o quero chegar em casa nunca,
a caminho, no abrigo do teu colo,
sonhando… no balan√ßo do autom√≥vel,
que nos leva a um destino inalcançável.

O tempo pára, o espaço cristaliza-se,
e o carro √© lar, e leito, e colo, e beijo…
No ocaso de teu beijo, eu me infinito
e esqueço da procura em que me perco.

De encontro aos vidros, saltam fachos v√°rios,
como se objetos de desejos vastos,
onde meus gestos não se satisfaçam.

Aproxima-se o instante em que me apeio,
vai a carruagem, dobra a esquina, e sigo
noctívago das horas Рa teus passos.

Aconteceu-Me Do Alto Do Infinito

Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e través estranhos ritos

De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito…

Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma cousa de alma do que é meu.

Narrei-me à sombra e não me achei sentido.
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido…

Trocou Finita Vida por Divina, Infinita e Clara Fama

‚ąí N√£o passes, caminhante! ‚ąí Quem me chama?
‚ąí Uma mem√≥ria nova e nunca ouvida,
De um que trocou finita e humana vida
Por divina, infinita e clara fama.

‚ąí Quem √© que t√£o gentil louvor derrama?
‚ąí Quem derramar seu sangue n√£o duvida
Por seguir a bandeira esclarecida
De um capit√£o de Cristo, que mais ama.

‚ąí Ditoso fim, ditoso sacrif√≠cio,
Que a Deus se fez e ao mundo juntamente!
Apregoando direi t√£o alta sorte.

‚ąí Mais poder√°s contar a toda a gente
Que sempre deu na vida claro indício
De vir a merecer t√£o santa morte.

Quatro Sonetos De Meditação РI

Mas o instante passou. A carne nova
Sente a primeira fibra enrijecer
E o seu sonho infinito de morrer
Passa a caber no berço de uma cova.

Outra carne vir√°. A primavera
√Č carne, o amor √© seiva eterna e forte
Quando o ser que viveu unir-se à morte
No mundo uma criança nascerá.

Importará jamais por quê? Adiante
O poema √© transl√ļcido, e distante
A palavra que vem do pensamento

Sem saudade. N√£o ter contentamento.
Ser simples como o gr√£o de poesia
E íntimo como a melancolia.

Idéia-Mãe

Ergueis ousadamente o templo das idéias
Assim como uns heróis, por sobre os vossos ombros
E ides atrav√©s de um negro mar d’escombros,
Traçando pelo ar as loiras epopéias.

A luz tem para vós os filtros magnéticos
Que andam pela flor e brincam pela estrela.
E vós amais a luz, gostais sempre de vê-la
Em amplo cintilar — nuns √™xtases pat√©ticos.

√Č esse o aspirar do s√©c’lo que deslumbra,
Que rasga da ciência a tétrica penumbra
E gera Vítor Hugo, Haeckel e Littré.

√Č esse o grande — Fiat — que rola no infinito!…
√Č esse o palpitar, hom√©rico e bendito,
De todo o ser que vive, estuda, pensa e l√™!!…