Sonetos sobre Crença

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Sonetos de crença escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Ouvi, Senhora, O CĂąntico Sentido

Ouvi, senhora, o cĂąntico sentido
Do coração que geme e s’estertora
N’Ăąnsia letal que o mata e que o devora,
E que tornou-o assim, triste e descrido.

Ouvi, senhora, amei; de amor ferido,
As minhas crenças que alentei outrora
Rolam dispersas, pĂĄlidas agora,
Desfeitas todas num guaiar dorido.

E como a luz do sol vai-se apagando!
E eu triste, triste pela vida afora,
Eterno pegureiro caminhando,

Revolvo as cinzas de passadas eras,
Sombrio e mudo e glacial, senhora,
Como um coveiro a sepultar quimeras!

Última Deusa

Foram-se os deuses, foram-se, eu verdade;
Mas das deusas alguma existe, alguma
Que tem teu ar, a tua majestade,
Teu porte e aspecto, que Ă©s tu mesma, em suma.

Ao ver-te com esse andar de divindade,
Como cercada de invisĂ­vel bruma,
A gente à crença antiga se acostuma
E do Olimpo se lembra com saudade.

De lå trouxeste o olhar sereno e garço,
O alvo colo onde, em quedas de ouro tinto,
RĂștilo rola o teu cabelo esparto…

Pisas alheia terra… Essa tristeza
Que possuis Ă© de estĂĄtua que ora extinto
Sente o culto da forma e da beleza.

Diz-me, Amor, como Te Sou Querida

Diz-me, amor, como te sou querida,
Conta-me a glĂłria do teu sonho eleito,
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
Arranca-me dos pĂąntanos da vida.

Embriagada numa estranha lida,
Trago nas mãos o coração desfeito,
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
Que me salve e levante redimida!

Nesta negra cisterna em que me afundo,
Sem quimeras, sem crenças, sem turnura,
Agonia sem fé dum moribundo,

Grito o teu nome numa sede estranha,
Como se fosse, amor, toda a frescura
Das cristalinas ĂĄguas da montanha!

Campesinas VIII

Orgulho das raparigas,
Encanto ideal dos rapazes,
Acendes crenças vivazes
Com tuas belas cantigas.

No louro ondear das espigas,
Boca cheirosa a lilazes,
Carne em polpa de ananases
Lembras baladas antigas.

Tens uns tons enevoados
De castelos apagados
Nas eras medievais.

Falta-te o pajem na ameia
Dedilhando, a lua cheia,
O bandolim dos seus ais!

Vandalismo

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longĂ­nquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fĂșlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiaçÔes intensas
CintilaçÔes de lùmpadas suspensas
E as ametistas e os florÔes e as pratas.

Como os velhos TemplĂĄrios medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos …

E erguendo os glĂĄdios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus prĂłprios sonhos!

Tempos Idos

NĂŁo enterres, coveiro, o meu Passado,
Tem pena dessas cinzas que ficaram;
Eu vivo dessas crenças que passaram,
e quero sempre tĂȘ-las ao meu lado!

NĂŁo, nĂŁo quero o meu sonho sepultado
No cemitério da Desilusão,
Que nĂŁo se enterra assim sem compaixĂŁo
Os escombros benditos de um Passado!

Ai! NĂŁo me arranques d’alma este conforto!
– Quero abraçar o meu passado morto,
– Dizer adeus aos sonhos meus perdidos!

Deixa ao menos que eu suba Ă  Eternidade
Velado pelo cĂ­rio da Saudade,
Ao dobre funeral dos tempos idos!

Um Soneto

A vez primeira que eu te vi, em meio
Das harmonias de uma valsa, elado
O lĂĄbio trĂȘmulo, esplĂȘndido, rosado,
Num riso, um riso de alvoradas cheio.

Cheio de febres, em febril anseio
O meu olhar fervente, desvairado
Como um condor de flamas emplumado
Vingou-se a espĂĄdua e devorou-te o seio.

Depois, delĂ­rio atroz, loucura imensa!
A alma, o bem, a consciĂȘncia, a crença
Lancei no incĂȘndio dos olhares teus…

Hoje estou pronto Ă  lĂ­vida jornada
Da descrença sem luz, da dor do nada…
JĂĄ disse ontem Ă  noite, adeus, a Deus!

Mocidade

Ah! esta mocidade! — Quem Ă© moço
Sente vibrar a febre enlouquecida
Das ilusÔes, da crença mais florida
Na muscular artĂ©ria de Colosso…

Das incertezas nunca mede o poço…
Asas abertas — na amplidĂŁo da vida,
PĂĄramo a dentro — de cabeça erguida,
VĂȘ do futuro o mais alegre esboço…

Chega a velhice, a neve das idades
E quem foi moço, volve, com saudades,
Do azul passado, o fulgido compĂȘndio…

Ai! esta mocidade palpitante,
Lembra um inseto de ouro, rutilante,
Em derredor das chamas de um incĂȘndio!

Ave Dolorosa

Ave perdida para sempre – crença
Perdida – segue a trilha que te traça
O Destino, ave negra da Desgraça,
GĂȘmea da MĂĄgoa e nĂșncia da Descrença!

Dos sonhos meus na Catedral imensa
Que nunca pouses. Lå, na névoa baça
Onde o teu vulto lĂșrido esvoaça,
Seja-te a vida uma agonia intensa!

Vives de crenças mortas e te nutres,
Empenhada na sanha dos abutres,
Num desespero rĂĄbido, assassino…

E hĂĄs de tombar um dia em mĂĄgoas lentas,
Negrejadas das asas lutulentas
Que te emprestar o corvo do Destino!

Amor E ReligiĂŁo

Conheci-o: era um padre, um desses santos
Sacerdotes da Fé de crença pura,
Da sua fala na eternal doçura
Falava o coração. Quantos, oh! Quantos

Ouviram dele frases de candura
Que d’infelizes enxugavam prantos!
E como alegres nĂŁo ficaram tantos
CoraçÔes sem prazer e sem ventura!

No entanto dizem que este padre amara.
Morrera um dia desvairado, estulto,
Su’alma livre para o CĂ©u se alara.

E Deus lhe disse: “És duas vezes santo,
Pois se da ReligiĂŁo fizeste culto,
Foste do amor o mĂĄrtir sacrossanto.”

Crença

Filha do céu, a pura crença é isto
Que eu vejo em ti, na vastidĂŁo das cousas,
Nessa mudez castĂ­ssima das lousas,
No belo rosto sonhador do Cristo.

A crença é tudo quanto tenho visto
Nos olhos teus, quando a cabeça pousas
Sobre o meu colo e que dizer nĂŁo ousas
Todo esse amor que eu venço e que conquisto.

A crença é ter os peregrinos olhos
Abertos sempre aos rĂ­spidos escolhos;
TĂȘ-los Ă  frente de qualquer farol

E conservĂĄ-los, simplesmente acesos
Como dois fachos — engastados, presos
Nas radiaçÔes prismåticas do sol!

Aos Olhos Dele

Não acredito em nada. As minhas crenças
Voaram como voa a pomba mansa,
Pelo azul do ar. E assim fugiram o
As minhas doces crenças de criança.

Fiquei então sem fé; e a toda gente
Eu digo sempre, embora magoada:
NĂŁo acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma ilusão apenas e mais nada!

Mas avisto os teus olhos, meu amor,
Duma luz suavĂ­ssima de dor…
E grito então ao ver esses dois céus:

Eu creio, sim, eu creio na Virgem Santa
Que criou esse brilho que m’encanta!
Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!

Ó Páginas Da Vida Que Eu Amava

Ó páginas da vida que eu amava,
Rompei-vos! nunca mais! tĂŁo desgraçado!…
Ardei, lembranças doces do passado!
Quero rir-me de tudo que eu amava!

E que doido que eu fui! como eu pensava
Em mĂŁo, amor de irmĂŁ! em sossegado
Adormecer na vida acalentado
Pelos lĂĄbios que eu tĂ­mido beijava!

Embora – Ă© meu destino. Em treva densa
Dentro do peito a existĂȘncia finda…
Pressinto a morte na fatal doença!…

A mim a solidĂŁo da noite infinda!
Possa dormir o trovador sem crença…
Perdoa, minha mĂŁo – eu te amo ainda!

Noiva E Triste

Rola da luz do céu, solta e desfralda
Sobre ti mesma o pavilhão das crenças,
Constele o teu olhar essas imensas
Vagas do amor que no teu peito escalda.

A primorosa e lĂ­mpida grinalda
Hå de enflorar-te as amplidÔes extensas
Do teu pesar — hĂĄ de rasgar-te as densas
Sombras — o vĂ©u sobre a luzente espalda…

Inda nĂŁo ri esse teu lĂĄbio rubro
Hoje — inda n’alma, nesse azul delubro
Não fulge o brilho que as paixÔes enastra;

Mas, amanhĂŁ, no sorridor noivado,
A vida triste por que tens passado,
De madressilvas e jasmins se alastra.

CrĂȘ!

VĂȘ como a Dor te transcendentaliza!
Mas no fundo da Dor crĂȘ nobremente.
Transfigura o teu ser na força crente
Que tudo torna belo e diviniza.

Que seja a Crença uma celeste brisa
Inflando as velas dos batéis do Oriente
Do teu Sonho supremo, onipotente,
Que nos astros do céu se cristaliza.

Tua alma e coração fiquem mais graves,
Iluminados por carinhos suaves,
Na doçura imortal sorrindo e crendo…

Oh! CrĂȘ! Toda a alma humana necessita
De uma Esfera de cĂąnticos, bendita,
Para andar crendo e para andar gemendo!

A Esperança

A Esperança não murcha, ela não cansa,
Também como ela não sucumbe a Crença.
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança.

Muita gente infeliz assim nĂŁo pensa;
No entanto o mundo Ă© uma ilusĂŁo completa,
E não é a Esperança por sentença
Este laço que ao mundo nos manieta?

Mocidade, portanto, ergue o teu grito,
Sirva-te a crença de fanal bendito,
Salve-te a glĂłria no futuro – avança!

E eu, que vivo atrelado ao desalento,
Também espero o fim do meu tormento,
Na voz da morte a me bradar: descansa!

Sonetos Para Maria Helena

Tu que por crenças vãs a Vida arrasas
e ante o espelho nĂŁo queres ver que Ă©s,
que imagina viver abrindo as asas
e te esqueces de andar com os prĂłprios pĂ©s…

Que transforma o Sonho num revés
mesmo a acender o fogo em que abrasas,
e te algema as mĂŁos, – as mĂŁos escravas
como as do prisioneiro das galés.

Tu que te enganas a falar de alturas
com as palavras mais belas e mais puras
e te imolas num gesto superior,

nĂŁo percebes nessa Ăąnsia de suicida
que nada hĂĄ enfim mais alto do que a Vida
quando a erguemos num brinde – Ă©brios de amor!

É Assim A Vida

Poderias ter sido tudo em minha vida
se ao menos tu tivesses desejado ser…
Dei-te a minha emoção mais profunda e sentida
e o mais profundo amor que concebeu meu Ser!

Por esse amor que em vĂŁo tentei te oferecer
eu fui poeta, eu fui criança… e tive a alma iludida!
TraĂ­ meu ceticismo, e sonhei… e quis crer…
– hoje… volto ao que fui, – a crença perdida…

Poderias ter sido tudo em meu destino:
– o meu lar, o meu filho, o meu rumo, o meu hino,
o meu prĂłprio futuro… a obra que ainda nĂŁo fiz…

Tudo terias sido… E nĂŁo quiseste nada…
No entanto, ( a vida Ă© assim), – sei de uma outra, coitada,
que se um olhar dou… Ă© a mulher mais feliz!

Soneto

N’augusta solidĂŁo dos cemitĂ©rios,
Resvalando nas sombras dos ciprestes,
Passam meus sonhos sepultados nestes
Brancos sepulcros, pålidos, funéreos.

São minhas crenças divinais, ardentes
– Alvos fantasmas pelos merencĂłrios
TĂșmulos tristes, soturnais, silentes,
Hoje rolando nos umbrais marmĂłreos.

Quando da vida, no eternal soluço,
Eu choro e gemo e triste me debruço
Na lĂĄjea fria dos meus sonhos pulcros.

Desliza entĂŁo a lĂșgubre coorte,
E rompe a orquestra sepulcral da morte,
Quebrando a paz suprema dos sepulcros.

RuĂ­nas

I

E Ă© triste ver assim ir desfolhando,
VĂȘ-las levadas na amplidĂŁo do ar,
As ilusÔes que andåmos levantando
Sobre o peito das mĂŁes, o eterno altar.

Nem sabe a gente jĂĄ como, nem quando,
HĂĄ-de a nossa alma um dia descansar!
Que as almas vĂŁo perdidas, vĂŁo boiando
Nesta corrente elĂ©ctrica do mar!…

Ó ciĂȘncia, minha amante, Ăł sonho belo!
És fria como a folha dum cutelo…
Nunca o teu lĂĄbio conheceu piedade!

Mas caia embora o velho paraĂ­so,
Caia a fé, caia Deus! sendo preciso,
Em nome do Direito e da Verdade.

II

Morreu-me a luz da crença — alva cecĂ©m,
Pålida virgem de luzentas tranças
Dorme agora na campa das crianças,
Onde eu quisera repousar também.

A graça, as ilusÔes, o amor, a unção,
Doiradas catedrais do meu passado,
Tudo caiu desfeito, escalavrado
Nos tremendos combates da razĂŁo.

Perdida a fé, esse imortal abrigo,
Fiquei sozinho como herĂłi antigo
Batalhando sem elmo e sem escudo.

A implacĂĄvel, a rĂ­gida ciĂȘncia
Deixou-me unicamente a ProvidĂȘncia,

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