Sonetos sobre Portas

59 resultados
Sonetos de portas escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Prende o Teu Coração ao Meu

De noite, amada, prende o teu coração ao meu
e que no sono eles dissipem as trevas
como um duplo tambor combatendo no bosque
contra o espesso muro das folhas molhadas.

Nocturna travessia, brasa negra do sono
interceptando o fio das uvas terrestres
com a pontualidade dum comboio desvairado
que sombra e pedras frias sem cessar arrastasse.

Por isso, amor, prende-me ao movimento puro,
à tenacidade que em teu peito bate
com as asas dum cisne submerso,

para que às perguntas estreladas do céu
responda o nosso sono com uma √ļnica chave,
com uma √ļnica porta fechada pela sombra.

Ah, Mas Aqui, Onde Irreais Erramos

Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.

Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com m√£os de sombra, Sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.

Quem desta Alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
De ser: mas como, aqui, a porta aberta?

Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Roseacruz conhece e cala.

Na Roça

Cercada de mestiças, no terreiro,
Cisma a Senhora Moça; vem descendo
A noite, e pouco e pouco escurecendo
O vale umbroso e o monte sobranceiro.

Brilham insetos no capim rasteiro,
Vêm das matas os negros recolhendo;
Na longa estrada ecoa esmorecendo
O monótono canto de um tropeiro.

Atr√°s das grandes, pardas borboletas,
Crianças nuas lá se vão inquietas
Na varanda correndo ladrilhada.

Desponta a lua; o sabi√° gorjeia;
Enquanto às portas do curral ondeia
A mugidora fila da boiada…

Supremo Enleio

Quanta mulher no teu passado, quanta!
Tanta sombra em redor! Mas que me importa?
Se delas veio o sonho que conforta,
A sua vinda foi três vezes santa!

Erva do ch√£o que a m√£o de Deus levanta,
Folhas murchas de rojo √† tua porta…
Quando eu for uma pobre coisa morta,
Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!

Mas eu sou a manh√£: apago estrelas!
H√°s de ver-me, beijar-me em todas elas,
Mesmo na boca da que for mais linda!

E quando a derradeira, enfim, vier,
Nesse corpo vibrante de mulher
Ser√° o meu que h√°s de encontrar ainda…

O Avarento

No meio de seus cofres, desvelado,
Co’as tampas levantadas, rasas de ouro,
Cevando a vista est√° no metal louro
Dele o cioso Avarento namorado.

Temendo que lhe venha a ser roubado,
Emprega alma e vida em seu tesouro,
Girando com os olhos, qual besouro,
Zumbindo sem cessar, afervorado.

Fechado nele est√°, com sete portas,
Com temor de algum fero arrombamento
De astutas inven√ß√Ķes, de ideias tortas.

N√£o emprega em mais nada o pensamento.
Cega ambição de vãs riquezas mortas!
Quão infeliz não és, louco avarento!

Teus Olhos

Olhos do meu Amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
Meus anéis, minhas rendas, meus brocados.

Neles ficaram meus pal√°cios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d’Al√©m-Mundos ignorados!

Olhos do meu Amor! Fontes… cisternas..
Enigm√°ticas campas medievais…
Jardins de Espanha… catedrais eternas…

Ber√ßo vinde do c√©u √† minha porta…
√ď meu leite de n√ļpcias irreais!…
Meu sumptuoso t√ļmulo de morta!…

Lembrança

Fui Essa que nas ruas esmolou
E fui a que habitou Paços Reais;
No m√°rmore de curvas ogivais
Fui Essa que as m√£os p√°lidas poisou…

Tanto poeta em versos me cantou!
Fiei o linho √† porta dos casais…
Fui descobrir a √ćndia e nunca mais
Voltei! Fui essa nau que n√£o voltou…

Tenho o perfil moreno, lusitano,
E os olhos verdes, cor do verde Oceano,
Sereia que nasceu de navegantes…

Tudo em cinzentas brumas se dilui…
Ah, quem me dera ser Essas que eu fui,
As que me lembro de ter sido… dantes!…

O Pal√°cio da Ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busca anelante
O pal√°cio encantado da Ventura!

Mas j√° desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada j√°, rota a armadura…
E eis que s√ļbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formusura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro, com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão Рe nada mais!

Flor Nirvanizadas

√ď cegos cora√ß√Ķes, surdos ouvidos,
Bocas in√ļteis, sem clamor, fechadas,
Almas para os mistérios apagadas,
Sem segredos, sem eco e sem gemidos.

Consciências hirsutas de bandidos,
Vesgas, nefandas e desmanteladas,
Portas de ferro, com furor trancadas,
Dos ócios maus histéricos Vencidos.

Desenterrai-vos das sangrentas furnas
Sinistras, cabalísticas, noturnas
Onde ruge o Pecado caudaloso…

Fazei da Dor, do triste Gozo humano,
A Flor do Sentimento soberano,
A Flor nirvanizada de outro Gozo!

Casou-Se Nesta Terra Esta E Aquele

Casou-se nesta terra esta e aquele.
Aquele um gozo filho de cadela,
Esta uma donzelíssima donzela,
Que muito antes do parto o sabia ele.

Casaram por unir pele com pele;
E tanto se uniram, que ele com ela
Com seu mau parecer ganha para ela,
com seu bom parecer ganha para ele.

Deram-lhe em dote muitos mil cruzados,
Excelentes alfaias, bons adornos,
De que est√£o os seus quartos bem ornados:

Por sinal que na porta e seus contornos
Um dia amanheceram, bem contados,
Três bacias de trampa e doze cornos.

O Grande Momento

Inicia-te, enfim, Alma imprevista,
Entra no seio dos Iniciados.
Esperam-te de luz maravilhados
Os Dons que v√£o te consagrar Artista.

Toda uma Esfera te deslumbra a vista,
Os ativos sentidos requintados.
Céus e mais céus e céus transfigurados
Abrem-te as portas da imortal Conquista.

Eis o grande Momento prodigioso
Para entrares sereno e majestoso
Num mundo estranho d’esplendor sid√©reo.

Borboleta de sol, surge da lesma…
Oh! vai, entra na posse de ti mesma,
Quebra os selos augustos do Mistério!

LXIV

Que tarde nasce o Sol, que vagaroso!
Parece, que se cansa, de que a um triste
Haja de aparecer: quanto resiste
A seu raio este sítio tenebroso!

N√£o pode ser, que o giro luminoso
Tanto tempo detenha: se persiste
Acaso o meu delírio! se me assiste
Ainda aquele humor t√£o venenoso!

Aquela porta ali se est√° cerrando;
Dela sai um pastor: outro assobia,
E o gado para o monte vai chamando.

Ora n√£o h√° mais louca fantasia!
Mas quem anda, como eu, assim penando,
Não sabe, quando é noite, ou quando é dia.

Deixai Entrar A Morte

Deixai entrar a Morte, a Iluminada,
A que vem pra mim, pra me levar.
Abri todas as portas par em par
Como asas a bater em revoada.

Quem sou eu neste mundo?A deserdada,
A que prendeu nas m√£os todo o luar,
A vida inteira, o sonho, a terra, o mar,
E que, ao abri-las, n√£o encontrou nada!

√ď M√£e! √ď minha M√£e, pra que nasceste?
Entre agonias e em dores tamanhas
Pra que foi, dize l√°, que me trouxeste

Pra que eu tivesse sido
Somente o fruto amargo das entranhas
Dum l√≠rio que em m√° hora foi nascido!…

Soneto Da Hora Final

Ser√° assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente,
O beijo leve de uma aragem fria.

Tu me olhar√°s silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de trevas, aberta em frente.

Ao transpor as fronteiras do segredo
Eu, calmo, te direi: – N√£o tenhas medo
E tu, tranq√ľila, me dir√°s: – S√™ forte.

E como dois antigos namorados
Noturnamente tristes e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.

Soneto 573 Barbarizado

Já se disse: sete é conta de mentira e lenda.
Também dizem que de azar o treze é cifra certa.
Isso explica a redondilha como porta aberta
no cantar dos repentistas, na feroz contenda,

à bazófia descarada, onde é melhor a emenda
que o soneto decassílabo, no qual se enxerta
entre termos eruditos a fal√°cia esperta,
lei de todo bom poeta que seu peixe venda.

Outrossim, também se explica por que nunca é visto
um soneto alexandrino, mas de pé quebrado:
este, a cuja tentação do treze não resisto.

Vou cham√°-lo “aleijadinho”, pois, em vez de errado,
tem car√°ter de obra-prima, pelo menos nisto:
completar catorze versos sem ficar quadrado!

Pouso

Pervaguei muito tempo a procura de um pouso
como alguém que batesse em vão de porta em porta
– meu olhar, parecia perguntar ansioso:
quem me d√° sua m√£o?… quem minha alma conforta!

Caminheiro sem rumo, a alma j√° quase morta,
via ao longe o caminho int√©rmino e sinuoso…
– (quanta coisa afinal na vida se suporta
antes de conseguir-se um pouco de repouso!)

Minha vida era assim… – uma estrada vazia…
E eu caminhava a olhar buscando o que surgisse
a frente, – e ao meu redor tudo aos poucos fugia…

At√© que te encontrei! … E se n√£o te encontrasse,
– talvez ha muito tempo eu j√° n√£o existisse!
– talvez que ha muito tempo eu j√° n√£o caminhasse!

Conselhos A Qualquer Tolo Para Parecer Fidalgo, Rico E Discreto

Bote a sua casaca de veludo,
E seja capit√£o sequer dois dias,
Converse à porta de Domingos Dias,
Que pega fidalguia mais que tudo.

Seja um magano, um pícaro, um cornudo,
Vá a palácio, e após das cortesias
Perca quanto ganhar nas mercancias,
E em que perca o alheio, esteja mudo.

Sempre se ande na caça e montaria,
Dê nova solução, novo epíteto,
E diga-o, sem propósito, à porfia;

Quem em dizendo: “fac√ß√£o, pretexto, efecto”.
Ser√° no entendimento da Bahia
Mui fidalgo, mui rico, e mui discreto.

A Luz

Ela veio…( E a minha alma tinha a porta
aberta, e ela entrou…Casa vazia
e estranha, esta que em plena luz do dia
lembrava a tumba de uma noite morta…)

Que ela havia chegado, eu nem sabia…
Mas, pouco a pouco, e a data n√£o importa,
minha alma, por encanto, se conforta,
e h√° risos pela casa…E h√° alegria…

Quem abrira as janelas? Quem levara
o fantasma da dor sempre ao meu lado?
Os antigos retratos, quem rasgara?

E acabei por fazer a descoberta:
– ela espantara as sombras do passado
e a luz entrara pela porta aberta!

Princesa Desalento

Minh’alma √© a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
√Č revoltada, tr√°gica, sombria,
Como galopes infernais de vento!

√Č fr√°gil como o sonho dum momento,
Soturna como preces de agonia,
Vive do riso duma boca fria!
Minh’alma √© a Princesa Desalento…

Altas horas da noite ela vagueia…
E ao luar suavíssimo, que anseia,
P√Ķe-se a falar de tanta coisa morta!

O luar ouve a minh’alma, ajoelhado,
E vai traçar, fantástico e gelado,
A sombra duma cruz √† tua porta…

Sonho Africano

Ei-lo em sua choupana. A l√Ęmpada, suspensa
Ao teto, oscila; a um canto, um velho e ervado fimbo;
Entrando, porta dentro, o sol forma-lhe um nimbo
Cor de cinábrio em torno à carapinha densa.

Estira-se no ch√£o… Tanta fadiga e doen√ßa!
Espregui√ßa, boceja… O apagado cachimbo
Na boca, nessa meia escurid√£o de limbo,
Mole, semicerrando os d√ļbios olhos, pensa…

Pensa na p√°tria, al√©m… As florestas gigantes
Se estendem sob o azul, onde, cheios de m√°goa,
Vivem negros reptis e enormes elefantes…

Calma em tudo. Dardeja o sol raios tranquilos…
Desce um rio, a cantar… Coalham-se √† tona d’√°gua
Em compacto apert√£o, os velhos crocodilos…