Sonetos sobre L√°grimas

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Sonetos de lágrimas escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

LXVI

Não te assuste o prodígio: eu, caminhante,
Sou uma voz, que nesta selva habito;
Chamei-me o pastor Fido; de um delito
Me veio o meu estrago; eu fui amante.

Uma ninfa perjura, uma inconstante
Neste estado me p√īs: do peito aflito,
Por eterno castigo, arranco um grito,
Que desengane o peregrino errante.

Se em ti se dá piedade, ó passageiro,
(Que assim o pede a minha sorte escura)
Atende ao meu aviso derradeiro:

Lágrimas não te peço, nem ternura:
Por voto um desengano, te requeiro
Que consagres à minha sepultura.

Cegueira de Amor

Fiei-me nas promessas que afectavas
Nas l√°grimas fingidas que vertias,
Nas ternas express√Ķes que me fazias,
Nessas m√£os que as minhas apertavas.

Talvez, cruel, que, quando as animavas,
Que eram doutrem na ideia fingirias,
E que os olhos banhados mostrarias
De pranto, que por outrem derramavas.

Mas eu sou tal, ingrata, que, inda vendo
Os meus tristes amores mal seguros,
De amar-te nunca, nunca me arrependo.

Ainda adoro os olhos teus perjuros,
Ainda amo a quem me mata, ainda acendo
Em aras falsas, holocaustos puros.

O Coração

O coração é a sagrada pira
Onde o mistério do sentir flameja.
A vida da emoção ele a deseja
como a harmonia as cordas de uma lira.

Um anjo meigo e c√Ęndido suspira
No cora√ß√£o e o purifica e beija…
E o que ele, o coração, aspira, almeja
√Č o sonho que de l√°grimas delira.

√Č sempre sonho e tamb√©m √© piedade,
Doçura, compaizão e suavidade
E graça e bem, misericórdia pura.

Uma harmonia que dos anjos desce,
Que como estrela e flor e som floresce
Maravilhando toda criatura!

Soneto VII

No Rio Eufrate[s], ua erva, ou flor se cria
Que c’o Sol sobre as √°guas aparece,
E dentro se recolhe e se entristece
Quando no largo mar se esconde o dia.

À vista de meu Sol ledo me via
Fora do rio, que dos olhos crece;
Agora que meu Sol n√£o me amanhece,
Entre l√°grimas vivo em noite fria.

Mas desta flor o triste estado é breve,
Tr√°s noite manh√£ tem; ai de quem chora
Contando noites, sem que um dia conte.

O Sol j√° por milagre quedo esteve:
Também parou meu Sol, mas parou fora,
Para noite sem fim de meu Horizonte.

LXXX

Quando cheios de gosto, e de alegria
Estes campos diviso florescentes,
Então me vêm as lágrimas ardentes
Com mais √Ęnsia, mais dor, mais agonia.

Aquele mesmo objeto, que desvia
Do humano peito as m√°goas inclementes,
Esse mesmo em imagens diferentes
Toda a minha tristeza desafia.

Se das flores a bela contextura
Esmalta o campo na melhor fragr√Ęncia,
Para dar uma idéia da ventura;

Como, √≥ C√©us, para os ver terei const√Ęncia,
Se cada flor me lembra a formosura
Da bela causadora de minha √Ęnsia?

XI

Todos esses louvores, bem o viste,
N√£o conseguiram demudar-me o aspecto:
Só me turbou esse louvor discreto
Que no volver dos olhos traduziste…

Inda bem que entendeste o meu afeto
E, através destas rimas, pressentiste
Meu coração que palpitava, triste,
E o mal que havia dentro em mim secreto.

Ai de mim, se de l√°grimas in√ļteis
Estes versos banhasse, ambicionando
Das n√©scias turbas os aplausos f√ļteis!

Dou-me por pago, se um olhar lhes deres:
Fi-los pensando em ti, fi-los pensando
Na mais pura de todas as mulheres.

Os Dias Conto, e cada Hora, e Momento

Os dias conto, e cada hora, e momento
qu’ alongando-me vou dos meus amores.
Nas √°rvores, nas pedras, ervas, flores,
parece que acho m√°goa, e sentimento.

As aves que no ar voam, o sol, e o vento,
montes, rios, e gados, e pastores,
as estradas, e os campos, mostram as dores
da minha saudade, e apartamento.

E quanto m’era l√° doce, e suave,
mais triste, e duro Amor c√° mo apresenta,
a que entreguei da minha vida a chave.

Em l√°grimas for√ßa √© qu’ as faces lave,
ou que n√£o sinta a dor que na tormenta
memória da bonança faz mais grave.

XXII

Neste √°lamo sombrio, aonde a escura
Noite produz a imagem do segredo;
Em que apenas distingue o próprio medo
Do feio assombro a hórrida figura;

Aqui, onde n√£o geme, nem murmura
Z√©firo brando em f√ļnebre arvoredo,
Sentado sabre o tosco de um penedo
Chorava Fido a sua desventura.

As l√°grimas a penha enternecida
Um rio fecundou, donde manava
D’√Ęnsia mortal a c√≥pia derretida:

A natureza em ambos se mudava;
Abalava-se a penha comovida;
Fido, est√°tua da dor, se congelava.

Ciclo

Manhã. Sangue em delírio, verde gomo,
Promessa ardente, berço e liminar:
A √°rvore pulsa, no primeiro assomo
Da vida, inchando a seiva ao sol… Sonhar!

Dia. A flor – o noivado e o beijo, como
Em perfumes um t√°lamo e um altar:
A √°rvore abre-se em riso, espera o pomo,
E canta √† voz dos p√°ssaros… Amar!

Tarde. Messe e esplendor, glória e tributo;
A √°rvore maternal levanta o fruto,
A h√≥stia da id√©ia em perfei√ß√£o… Pensar!

Noite. Oh! Saudade!… A dolorosa rama
Da √°rvore aflita pelo ch√£o derrama
As folhas, como l√°grimas… Lembrar!

Aquela Triste E Leda Madrugada

Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de m√°goa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade
quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar se de ua outra vontade,
que nunca poder√° ver se apartada.

Ela só, viu as lágrimas em fio,
que, de uns e d’outros olhos derivadas,
s’acrescentaram em grande e largo rio.

Ela viu as palavras magoadas
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso às almas condenadas.

Horas de Saudade

Vou de luar em rosto, descontente:
Meus olhos choram l√°grimas de sal.
‚ÄĒ Adeus, terras e mo√ßas do casal,
‚ÄĒ Adeus, √≥ cora√ß√£o da minha gente.

A hora da saudade é uma serpente:
Quero falar, n√£o posso, e antes que fale
Ela enlaça-me a voz tão cordial
Que as coisas mais me lembram fielmente.

Olhos de amora, e uma ave na garganta
Para enfeitiçar a alma quando canta,
Moças com sua parra de avental;

Graça, Beleza, um verso sem medida,
A Saudade desterrou-me a vida …
Sou um eco perdido noutro vale.

Eu Cantei J√°, E Agora Vou Chorando

Eu cantei j√°, e agora vou chorando
o tempo que cantei t√£o confiado;
parece que no canto j√° passado
se estavam minhas l√°grimas criando.

Cantei; mas se me alguém pergunta: -Quando?
-Não sei; que também fui nisso enganado.
√Č t√£o triste este meu presente estado
que o passado, por ledo, estou julgando.

Fizeram-me cantar, manhosamente,
contentamentos não, mas confianças;
cantava, mas j√° era ao som dos ferros.

De quem me queixarei, que tudo mente?
Mas eu que culpa ponho às esperanças
onde a Fortuna injusta é mais que os erros?

Abnegação

Chovam lírios e rosas no teu colo!
Chovam hinos de glória na tua alma!
Hinos de glória e adoração e calma,
Meu amor, minha pomba e meu consolo!

Dê-te estrelas o céu, flores o solo,
Cantos e aroma o ar e sombra a palmar.
E quando surge a lua e o mar se acalma,
Sonhos sem fim seu preguiçoso rolo!

E nem sequer te lembres de que eu choro…
Esquece at√©, esquece, que te adoro…
E ao passares por mim, sem que me olhes,

Possam das minhas lágrimas cruéis
Nascer sob os teus pés flores fiéis,
Que pises distraída ou rindo esfolhes!

Meu Mal

A meu irm√£o

Eu tenho lido em mim, sei-me de cor,
Eu sei o nome ao meu estranho mal:
Eu sei que fui a renda dum vitral,
Que fui cipreste, caravela, dor!

Fui tudo que no mundo h√° de maior:
Fui cisne, e lírio, e águia, e catedral!
E fui, talvez, um verso de Nerval,
Ou, um c√≠nico riso de Chamfort…

Fui a her√°ldica flor de agrestes cardos,
Deram as minhas m√£os aroma aos nardos…
Deu cor ao eloendro a minha boca…

Ah! de Boabdil fui l√°grima na Espanha!
E foi de l√° que eu trouxe esta √Ęnsia estranha,
Mágoa não sei de quê! Saudade louca!

Que Amor Fez sem Remédio, o Tempo, os Fados?

Depois de tantos dias mal gastados,
Depois de tantas noites mal dormidas,
Depois de tantas l√°grimas vertidas,
Tantos suspiros v√£os v√£mente dados,

Como não sois vós já desenganados,
Desejos, que de cousas esquecidas
Quereis remediar mortais feridas,
Que amor fez sem remédio, o tempo, os Fados?

Se n√£o tiv√©reis j√° longa exp’ri√™ncia
Das sem-raz√Ķes de Amor a quem servistes,
Fraqueza fora em vós a resistência.

Mas pois por vosso mal seus males vistes,
Que o tempo não curou, nem larga ausência,
Qual bem dele esperais, desejos tristes?

Soneto XXXXVI

Tanto que sente enfraquecer o alento,
Quebrado o brio e j√° menos ligeira
Co’ a longa idade e vida derradeira,
[A] √Āguia a presa siguir cortar o vento.

Levanta o mais que pode o v√īo isento
E, firida do Sol desta maneira
Dá no mar, recobrando a força inteira
E, com novo vigor, novo ornamento.

Quem não vê figurada a grande glória
De ua alma, cuja vida mal gastada
Com nova penitência se melhora.

Ao alto se levanta co’a mem√≥ria,
E no divino amor toda abrasada
Cai no mar das l√°grimas que chora.

Apartava-Se Nise De Montano

Apartava-se Nise de Montano,
em cuja alma partindo-se ficava;
que o pastor na memória a debuxava,
por poder sustentar-se deste engano.

Pelas praias do √ćndico Oceano
sobre o curvo cajado s’encostava,
e os olhos pelas √°guas alongava,
que pouco se doíam de seu dano.

Pois com tamanha m√°goa e saudade
(dezia) quis deixar-me a que eu adoro,
por testemunhas tomo Céu e estrelas.

Mas se em vós, ondas, mora piedade,
levai também as lágrimas que choro,
pois assi me levais a causa delas!

Vatícinio

H√°s-de beber as l√°grimas sombrias
que nesta hora eu bebo soluçando!,
e o veneno das minhas ironias
há-de rasgar-te os tímpanos cantando!

Hás-de esgotar a taça de agonias
neste sabor a √≥dio… e, estertorando
h√°s-de crispar as tuas m√£os vazias
de amor, como eu agora estou crispando!

E h√°s-de encontrar-me em teu surpreso olhar
com o mesmo sorriso singular
que a minha boca em certas horas tem.

E eu hei-de ver o teu olhar incerto
vagueando no intérmino deserto
dos teus braços tombados sem ninguém!

Vou de Suspiros Todo este Ar Enchendo

Vou de suspiros todo est’ ar enchendo,
vou a terra de l√°grimas regando,
mais água aos rios, mais às fontes dando,
e com meu fogo em tudo fogo acendo.

E quando os olhos meus, senhora, estendo
para onde o Amor e v√≥s m’estais chamando,
as altas serras em qu’ os vou quebrando
da vista me tolher s’ est√£o doendo.

Mas nisto acode Amor, que sempre voa;
eu pelas asas, eu pelo arco o tenho,
té me levar consigo onde desejo.

E jurarei, senhora, que vos vejo,
jurarei qu’ essa doce voz me soa.
Nesta imaginação só me sostenho.

L√°grimas Da Aurora, Poemas Cristalinos

L√°grimas da aurora, poemas cristalinos
Que rebentais das cobras do mistério!
Aves azuis do manto auri-sid√©rio…
Raios de luz, fant√°sticos, divinos!…

Astros di√°fanos, brandos, opalmos,
Brancas cecens do Paraíso etéreo,
Canto da tarde, límpido, aéreo,
Harpa ideal, dos encantados hinos!…

Brisas suaves, vira√ß√Ķes amenas,
Lírios do vale, roseirais do lago,
Bandos errantes de sutis falenas!…

Vinde do arcano n’um potente afago
Louvar o G√™nio das mans√Ķes serenas,
Esse Prod√≠gio singular e mago!!…