Sonetos sobre Heróis

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Sonetos de heróis escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

LXXXIII

Polir na guerra o b√°rbaro gentio,
Que as leis quase ignorou da natureza,
Romper de altos penhascos a rudeza,
Desentranhar o monte, abrir o rio;

Esta a virtude, a glória, o esforço, o brio
Do Russiano Herói, esta a grandeza,
Que igualou de Alexandre a fortaleza,
Que venceu as desgraças de Dario:

Mas se a lei do heroísmo se procura,
Se da virtude o espírito se atende,
Outra idéia, outra máxima o segura:

L√° vive, onde no ferro n√£o se acende;
Vive na paz dos povos, na brandura:
Vós a ensinais, ó Rei; em vós se aprende.

Tese e Antítese

I

Já não sei o que vale a nova idéia,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada,
Torva no aspecto, à luz da barricada,
Como bacchante ap√≥s l√ļbrica ceia…

Sanguinolento o olhar se lhe incendeia;
Respira fumo e fogo embriagada:
A deusa de alma vasta e sossegada
Ei-la presa das f√ļrias de Medeia!

Um século irritado e truculento
Chama à epilepsia pensamento,
Verbo ao estampido de pelouro e obuz…

Mas a idea √© n’um mundo inalter√°vel,
N’um cristalino c√©u, que vive est√°vel…
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!

II

N’um c√©u intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espect√°culo divino.

Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante:
Enche o ar da terra o seu pulm√£o possante…
C√° da terra blasfema ou ergue um hino…

A idéia encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar s√£o chamas que crepitam,
Paix√Ķes ardentes como vivos s√≥is!

Combatei pois na terra √°rida e bruta,

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Prece A Anchieta

Santo: erguesses a cruz na selva escura;
Herói: plantasses nossa velha aldeia;
Mestre: ensinasses a doutrina pura;
Poeta: escrevesses versos sobre a areia!

Golpeia a cruz a foice inculta e dura;
Invade a vila multid√£o alheia;
Morre a voz santa entre a dist√Ęncia e a altura;
Apaga o poema a onda espumejante e cheia…

Santo, her√≥i, mestre e poeta: ‚ÄĒ Pela gl√≥ria
que destes a esta Terra e a sua História,
Pela dor que sofremos sempre nós.

Pelo bem que quisesses a este povo,
O novo Cristo deste Mundo Novo,
Padre José de Anchieta, orai por nós!

Musa Impassível II

√ď Musa, cujo olhar de pedra, que n√£o chora,
Gela o sorriso ao l√°bio e as l√°grimas estanca!
D√°-me que eu v√° contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o impassível mora.

Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O √°ureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.

Transporta-me de vez, numa ascens√£o ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares
Onde os deuses pag√£os vivem eternamente,

E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.

O Teu Olhar

Passam no teu olhar nobres cortejos,
Frotas, pend√Ķes ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos,

Mares onde n√£o cabem teus desejos;
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lan√ßas nuas em r√ļtilos lampejos;

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a √ćndia, a vis√£o do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-te t√£o grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!

De Mayseder Gentil O Vulto Ingente

De Mayseder gentil o vulto ingente
De Corelli, de Spohr e de Nardini,
De Ole Bull supernal, de Veracini
Inspirados por Deus c’o plectro ardente;

Dessa lira febril, √°urea, potente
Do artista sem par, de Paganini;
De Viotti dinal, do herói Tardini,
De Lafont, de Baillot, Eck e Laurenti:

Sois rival feliz! e nesse cr√Ęnio
Há em jorros, oh céus! extravasando
O ardor musical, o ardor tit√Ęneo…

J√° bem cedo, veloz, ides galgando
L√° da gl√≥ria os degraus, o suped√Ęneo
Sobre um trono de luz rindo e cantando.

Cam√Ķes III

Quando, torcendo a chave misteriosa
Que os cancelos fechava do Oriente,
O Gama abriu a nova terra ardente
Aos olhos da companha valorosa,

Talvez uma vis√£o resplandecente
Lhe amostrou no futuro a sonorosa
Tuba. que cantaria a ação famosa
Aos ouvidos da própria e estranha gente.

E disse: “Se j√° noutra, antiga idade,
Tróia bastou aos homens, ora quero
Mostrar que é mais humana a humanidade.

Pois não serás herói de um canto fero,
Mas vencer√°s o tempo e a imensidade
Na voz de outro moderno e brando Homero”.

Rompeu-Se O Denso Véu Do Atroz Marasmo

Rompeu-se o denso véu do atroz marasmo
E como por fatal, negro hebetismo
De antro sepulcral, de fundo abismo
O povo ressurgiu com entusiasmo!

O Zoilo mazorral se queda pasmo
Sup√Ķe quimera ser, ser cataclismo
Roga, j√° por dobrez, por ceticismo
De néscio, vil truão solta o sarcasmo.

Perd√£o, Filho da Luz, minh’alma exora,
Porém, a pátria diz, somente agora
Os grilh√Ķes biparti de atroz moleza!

E ele, o nosso herói já redivivo
De pé, sem se curvar, sereno, altivo
Co’as raias do porvir mede a grandeza!

XLIX

Os olhos tendo posto, e o pensamento
No rumo, que demanda, mais distante;
As ondas bate o Grego Navegante,
Entregue o leme ao mar, a vela ao vento

Em vão se esforça o harmonioso acento
Da sereia, que habita o golfo errante;
Que resistindo o espírito constante,
Vence as lisonjas do enganoso intento.

Se pois, ninfas gentis, rompe a Cupido
O arco, a flecha, o dardo, a chama acesa
De um peito entre os heróis esclarecido;

Que vem buscar comigo a néscia empresa,
Se inda mais, do que Ulisses atrevido,
Sei vencer os encantos da beleza!

Marília De Dirceu

Soneto 7

O nume tutelar da Monarquia,
Que fez do grande Henrique a invicta espada,
Procurou dos Destinos a morada,
Por consultar a idade que viria.

A mil e mil heróis descrito via,
Que exaltam de furtado a estirpe honrada,
E na série, que adora, dilatada,
O nome de Francisco descobria.

Contempla uma por uma as letras d’ouro;
Este penhor, que o tempo n√£o consome,
Promete ao reino seu maior tesouro.

Prostra-se o gênio; e sem que a empresa tome
De lhe buscar sequer mais outro agouro,
O sítio beija, e lhe mostra o nome.

O Desfecho

Prometeu sacudiu os braços manietados
E s√ļplice pediu a eterna compaix√£o,
Ao ver o desfilar dos séculos que vão
Pausadamente, como um dobre de finados.

Mais dez, mais cem, mais mil e mais um bili√£o,
Uns cingidos de luz, outros ensang√ľentados…
S√ļbito, sacudindo as asas de tuf√£o,
Fita-lhe a √°gua em cima os olhos espantados.

Pela primeira vez a víscera do herói,
Que a imensa ave do céu perpetuamente rói,
Deixou de renascer às raivas que a consomem.

Uma invisível mão as cadeias dilui;
Frio, inerte, ao abismo um corpo morto rui;
Acabara o suplício e acabara o homem.

Idéia-Mãe

Ergueis ousadamente o templo das idéias
Assim como uns heróis, por sobre os vossos ombros
E ides atrav√©s de um negro mar d’escombros,
Traçando pelo ar as loiras epopéias.

A luz tem para vós os filtros magnéticos
Que andam pela flor e brincam pela estrela.
E vós amais a luz, gostais sempre de vê-la
Em amplo cintilar — nuns √™xtases pat√©ticos.

√Č esse o aspirar do s√©c’lo que deslumbra,
Que rasga da ciência a tétrica penumbra
E gera Vítor Hugo, Haeckel e Littré.

√Č esse o grande — Fiat — que rola no infinito!…
√Č esse o palpitar, hom√©rico e bendito,
De todo o ser que vive, estuda, pensa e l√™!!…

Retrato do Herói

Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar    de morte certa.

Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome    fechado o corpo ao breve
instante em que a den√ļncia fica alerta.

Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo    nem mártir    nem soldado
Mas apenas¬†¬†¬† por √ļltimo¬†¬†¬† indefeso.

Homem é quem tombando apavorado
d√° o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.

Senhor Ant√£o De Sousa De Menezes

Senhor Ant√£o de Sousa de Menezes,
Quem sobe ao alto lugar, que n√£o merece,
Homem sobe, asno vai, burro parece,
Que o subir é desgraça muitas vezes.

A fortunilha, autora de entremezes
Transp√Ķe em burro o her√≥i que indigno cresce:
Desanda a roda, e logo homem parece,
Que é discreta a fortuna em seus reveses.

Homem sei eu que foi vossenhoria,
Quando o pisava da fortuna a roda,
Burro foi ao subir t√£o alto clima.

Pois, alto! V√° descendo onde jazia,
Ver√° quanto melhor se lhe acomoda
Ser homem embaixo do que burro em cima.

25 De Março

25 DE MARÇO
(Recife, 1885)
Em Pernambuco para o Cear√°

Bem como uma cabeça inteiramente nua
De sonhos e pensar, de arroubos e de luzes,
O sol de surpreso esconde-se, recua,
Na √≥rbita tra√ßada — de fogo dos obuses.

Da enérgica batalha estóica do Direito
Desaba a escravatura — a lei cujos fossos
Se ergue a consci√™ncia — e a onda em mil destro√ßos
Resvala e tomba e cai o branco preconceito.

E o Novo Continente, ao largo e grande esforço
De gera√ß√Ķes de her√≥is — presentes pelo dorso
√Ä rubra luz da gl√≥ria — enquanto voa e zumbe.

O inseto do terror, a treva que amortalha,
As l√°grimas do Rei e os bravos da canalha,
O velho escravagismo estéril que sucumbe.

Lusos Heróis, Cadáveres Cediços

Lusos heróis, cadáveres cediços,
Erguei-vos dentre o pó, sombras honradas,
Surgi, vinde exercer as m√£os mirradas
Nestes vis, nestes cães, nestes mestiços.

Vinde salvar destes pardais castiços
As searas de arroz, por vós ganhadas;
Mas ah! Poupai-lhe as filhas delicadas,
Que. Elas culpa não têm, têm mil feitiços.

De pavor ante vós no chão se deite
Tanto fusco raj√°, tanto nababo,
E as vossas ordens, trémulo, respeite.

V√£o para as v√°rzeas, leve-os o Diabo;
Andem como os avós, sem mais enfeite
Que o langotim, di√°metro do rabo.

Pensas Tu, Bela Anarda, Que Os Poetas

Pensas tu, bela Anarda, que os poetas
Vivem d’ar, de perfumes, d’ambrosia?
Que vagando por mares d’harmonia
São melhores que as próprias borboletas?

N√£o creias que eles sejam t√£o patetas.
Isso é bom, muito bom mas em poesia,
S√£o contos com que a velha o sono cria
No menino que engorda a comer petas!

Talvez mesmo que algum desses brejeiros
Te diga que assim é, que os dessa gente
Não são lá dos heróis mais verdadeiros.

Eu que sou pecador, – que indiferente
N√£o me julgo ao que toca aos meus parceiros,
Julgo um beijo sem fim cousa excelente.

Alçando O Livro Colossal Ardente

Alçando o livro colossal ardente
Tra√ßas no cr√Ęnio um sulco luminoso,
E vais seguindo o remontar garboso
Do sol fagueiro lá no espaço ingente!

Ergues a fronte juvenil potente
Já como herói ou lutador famoso
E c’uma forma de pensar honroso
Fazes-te esperança da brasílea gente!

Seis vezes astro de maior grandeza
Enfim l√° surges nos exames belos
Enfim triunfas na brilhante empresa!

Seis vezes quebras da ignor√Ęncia os elos,
Seis vezes vives com mais s√£ firmeza,
Gemem seis vezes a louvar-te os prelos!…

Divina

Eu n√£o busco saber o inevit√°vel
Das espirais da tua vi matéria.
Não quero cogitar da paz funérea
Que envolve todo o ser inconsol√°vel.

Bem sei que no teu circulo male√°vel
De vida transitória e mágoa seria
H√° manchas dessa org√Ęnica mis√©ria
Do mundo contingente , imponder√°vel .

Mas o que eu amo no teu ser obscuro
E o evangélico mistério puro
Do sacrifício que te torna heroína.

S√£o certos raios da tu’alma ansiosa
E certa luz misericordiosa,
E certa auréola que te fez divina!

Ruínas

I

E é triste ver assim ir desfolhando,
Vê-las levadas na amplidão do ar,
As ilus√Ķes que and√°mos levantando
Sobre o peito das m√£es, o eterno altar.

Nem sabe a gente j√° como, nem quando,
H√°-de a nossa alma um dia descansar!
Que as almas v√£o perdidas, v√£o boiando
Nesta corrente el√©ctrica do mar!…

√ď ci√™ncia, minha amante, √≥ sonho belo!
√Čs fria como a folha dum cutelo…
Nunca o teu l√°bio conheceu piedade!

Mas caia embora o velho paraíso,
Caia a fé, caia Deus! sendo preciso,
Em nome do Direito e da Verdade.

II

Morreu-me a luz da cren√ßa ‚ÄĒ alva cec√©m,
Pálida virgem de luzentas tranças
Dorme agora na campa das crianças,
Onde eu quisera repousar também.

A gra√ßa, as ilus√Ķes, o amor, a un√ß√£o,
Doiradas catedrais do meu passado,
Tudo caiu desfeito, escalavrado
Nos tremendos combates da raz√£o.

Perdida a fé, esse imortal abrigo,
Fiquei sozinho como herói antigo
Batalhando sem elmo e sem escudo.

A implacável, a rígida ciência
Deixou-me unicamente a Providência,

Continue lendo…