Sonetos sobre Velhos

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Sonetos de velhos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Soneto Do Amigo

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retalia√ß√Ķes, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

√Č bom sent√°-lo novamente ao lado
Com os olhos que contem o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual à mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida n√£o explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica…

Continua a Tempestade

Aqui, sobre estas aguas cor de azeite,
Scismo em meu lar, na paz que l√° havia:
Carlota, √° noite, ia ver se eu dormia
E vinha, de manh√£, trazer-me o leite…

Aqui, n√£o tenho um unico deleite!
Talvez… baixando, em breve, √° Agoa fria,
Sem um beijo, sem uma Ave-Maria,
Sem uma flor, sem o menor enfeite…

Ah! podesse eu voltar √° minha infancia!
Lar adorado, em fumos, a distancia,
Ao p√© de minha Irm√£, vendo-a bordar…

Minha velha aia! conta-me essa historia
Que principiava, tenho-a na memoria,
¬ęEra uma vez…¬Ľ
Ah deixem-me chorar!

Um Dia Guttemberg

Um dia Guttemberg c’o a alma aos c√©us suspensa,
Pegou do escopro ingente e p√īs-se a trabalhar!
E fez do velho mundo um r√ļtilo alcan√ßar
Ao mágico clangor de sua idéia imensa!

Rolou por todo o globo a luz da sacra imprensa!
Ruiu o despotismo no p√≥, a esbravejar…
Uniram-se n’um lago, o c√©u, a terra, o mar…
Rasgou-se o manto atroz da horr√≠vel treva densa!…

Ergueram-se mil povos ao som das melopéias,
Das grandes cavatinas olímpicas da arte!
Raiou o novo sol das f√ļlgidas id√©ias!…

Porém, quem lance luz maior por toda a parte
√Čs tu, sublime atriz, √≥ misto de epop√©ias
Que sabes no tablado subir, endeusar-te!…

Quatro Sonetos De Meditação РII

Uma mulher me ama. Se eu me fosse
Talvez ela sentisse o desalento
Da √°rvore jovem que n√£o ouve o vento
Inconstante e fiel, tardio e doce

Na sua tarde em flor. Uma mulher
Me ama como a chama ama o silêncio
E o seu amor vitorioso vence
O desejo da morte que me quer.

Uma mulher me ama. Quando o escuro
Do crep√ļsculo m√≥rbido e maduro
Me leva a face ao gênio dos espelhos

E eu, moço, busco em vão meus olhos velhos
Vindos de ver a morte em mim divina:
Uma mulher me ama e me ilumina.

Sonho De Um Monista

Eu e o esqueleto esqu√°lido de Esquilo
Viaj√°vamos, com urna √Ęnsia sibarita,
Por toda a pr√≥-din√Ęmica infinita,
Na inconsci√™ncia de um zo√≥fito tranq√ľilo.

A verdade espantosa do Protilo
Me aterrava, mas dentro da alma aflita
Via Deus – essa m√īnada esquisita –
Coordenando e animando tudo aquilo!

E eu bendizia, com o esqueleto ao lado,
Na guturalidade do meu brado,
Alheio ao velho c√°lculo dos dias,

Como um pag√£o no altar de Proserpina,
A energia intracósmica divina
Que é o pai e é a mãe das outras energias!

O Grande Sonho

Sonho profundo, ó Sonho doloroso,
Doloroso e profundo Sentimento!
Vai, vai nas harpas trêmula do vento
Chorar o teu mistério tenebroso.

Sobe dos astros ao clar√£o radioso,
Aos leves fluidos do luar nevoento,
Às urnas de cristal do firmamento,
√ď velho Sonho amargo e majestoso!

Sobe √†s estrelas r√ļtilas e frias,
Brancas e virginais eucaristias
De onde uma luz de eterna paz escorre.

Nessa Amplid√£o das Amplid√Ķes austeras
Chora o Sonho profundo das Esferas
Que nas azuis Melancolias morre…

Soneto De Luz E Treva

Ela tem uma graça de pantera
no andar bem comportado de menina
no molejo em que vem sempre se espera
que de repente ela lhe salte em cima

Mas s√ļbito renega a bela e a fera
prendeo cabelo, vai para a cozinha
e de um ovo estrelado na panela
ela com clara e gema faz o dia

Ela é de Capricórnio, eu sou de Libra
eu sou o Oxalá velho, ela é Inhansã
a mim me enerva o ardor com que ela vibra

E que a motiva desde de manh√£.
— Como √© que pode, digo-me com espanto
a luz e a treva se quererem tanto…

San Gabriel II

Vem conduzir as naus, as caravelas,
Outra vez, pela noite, na ardentia,
Avivada das quilhas. Dir-se-ia
Irmos arando em um mont√£o de estrelas.

Outra vez vamos! C√īncavas as velas,
Cuja brancura, r√ļtila de dia,
O luar dulcifica. Feeria
Do luar não mais deixes de envolvê-las!

Vem guiar-nos, Arcanjo, à nebulosa
Que do além mar vapora, luminosa,
E à noite lactescendo, onde, quietas,

Fulgem as velhas almas namoradas…
– Almas tristes, severas, resignadas,
De guerreiros, de santos, de poetas.

Ai de Mim!

Venho, torna-me velho esta lembrança!
D’um enterro d’anjinho, nobre e puro:
Infancia, era este o nome da criança
Que, hoje, dorme entre os bichos, l√° no escuro…

Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
Acompanharam-n’o ao jazigo obscuro,
E recebeu, segundo a velha usança,
A chave do caix√£o o meu Futuro.

Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
Leva-me o fado, √° bruta, aos empurr√Ķes,
V√° para a frente! Marcha! √Ā Vida! √Ā Vida!

Que hei-de fazer, Senhor! o qu’√© que espera
Um bacharel formado em illuz√Ķes
Pela Universidade da Chymera?

Tempestade!

O meu beliche é tal qual o bercinho,
Onde dormi horas que não vêm mais.
Dos seus embalos j√° estou cheiinho:
Minha velha ama s√£o os vendavaes!

Uivam os ventos! Fumo, bebo vinho.
O vapor treme! Abra√ßo a Biblia, aos ais…
Covarde! Que dir√° teu Av√īzinho,
Que foi moreante? Que dir√£o teus Paes?

Coragem! Considera o que has soffrido,
O que soffres e o que ainda soffrer√°s,
E ve, depois, se accaso é permittido

Tal medo √° Morte, tanto apego ao mundo:
Ah! f√īra bem melhor, v√°s onde v√°s,
Antonio, que o paquete fosse ao fundo!

Manias

O mundo é velha cena ensanguentada.
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, – hoje uma ossada -,
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jact√Ęncia, quixotesca.

Aos domingos a déia, já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente m√£o nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!

Fumo

Longe de ti s√£o ermos os caminhos,
Longe de ti n√£o h√° luar nem rosas,
Longe de ti h√° noites silenciosas,
H√° dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos s√£o dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas…
Abertos, sonham m√£os cariciosas,
Tuas m√£os doces, plenas de carinhos!

Os dias s√£o Outonos: choram… choram…
H√° cris√Ęntemos roxos que descoram…
H√° murm√ļrios dolentes de segredos…

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!…

X

Eu ponho esta sanfona, tu, Palemo,
Por√°s a ovelha branca, e o cajado;
E ambos ao som da flauta magoado
Podemos competir de extremo a extremo.

Principia, pastor; que eu te n√£o temo;
Inda que sejas t√£o avantajado
No c√Ęntico amebeu: para louvado
Escolhamos embora o velho Alcemo.

Que esperas? Toma a flauta, principia;
Eu quero acompanhar te; os horizontes
J√° se enchem de prazer, e de alegria:

Parece, que estes prados, e estas fontes
Já sabem, que é o assunto da porfia
Nise, a melhor pastora destes montes.

Junquilhos

Nessa tarde mimosa de saudade
Em que eu te vi partir, ó meu amor,
Levaste-me a minh’alma apaixonada
Nas folhas perfumadas duma flor.

E como a alma, dessa florzita,
Que é minha, por ti palpita amante!
Oh alma doce, pequenina e branca,
Conserva o teu perfume estonteante!

Quando fores velha, emurchecida e triste,
Recorda ao meu amor, com teu perfume
A paix√£o que deixou e qu’inda existe…

Ai, dize-lhe que se lembre dessa tarde,
Que venha aquecer-se ao brando lume
Dos meus olhos que morrem de saudade!

Velhas Tristezas

Diluências de luz, velhas tristezas
Das almas que morreram para a lute!
Sois as sombras amadas de belezas
Hoje mais frias do que a pedra bruta.

Murm√ļrios inc√≥gnitos de gruta
Onde o Mar canta os salmos e as rudezas
De obscuras religi√Ķes — voz impoluta
De sodas as tit√Ęnicas grandezas.

Passai, lembrando as sensa√ß√Ķes antigas,
Paix√Ķes que foram j√° d√≥ceis amigas,
Na luz de eternos sóis glorificadas.

Alegrias de h√° tempos! E hoje e agora,
Velhas tristezas que se v√£o embora
No poente da Saudade amortalhadas!…

A Ang√ļstia

Nada em ti me comove, Natureza, nem
Faustos das madrugadas, nem campos fecundos,
Nem pastorais do Sul, com o seu eco t√£o rubro,
A solene dolência dos poentes, além.

Eu rio-me da Arte, do Homem, das can√ß√Ķes,
Da poesia, dos templos e das espirais
Lançadas para o céu vazio plas catedrais.
Vejo com os mesmos olhos os maus e os bons.

N√£o creio em Deus, abjuro e renego qualquer
Pensamento, e nem posso ouvir sequer falar
Dessa velha ironia a que chamam Amor.

J√° farta de existir, com medo de morrer,
Como um brigue perdido entre as ondas do mar,
A minha alma persegue um naufr√°gio maior.

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Anima Mea

√ď minh’alma, √≥ minh’alma, √≥ meu Abrigo,
Meu sol e minha sombra peregrina,
Luz imortal que os mundos ilumina
Do velho Sonho, meu fiel Amigo!

Estrada ideal de S√£o Tiago, antigo
Templo da minha fé casta e divina,
De onde é que vem toda esta mágoa fina
Que é, no entanto, consolo e que eu bendigo?

De onde é que vem tanta esperança vaga,
De onde vem tanto anseio que me alaga,
Tanta diluída e sempiterna mágoa?

Ah! de onde vem toda essa estranha essência
De tanta misteriosa Transcendência
Que estes olhos me dixam rasos de √°gua?!

O Mar

Que nostalgia vem das tuas vagas,
√ď velho mar, √≥ lutador Oceano!
Tu de saudades íntimas alagas
O mais profundo coração humano.

Sim! Do teu choro enorme e soberano,
Do teu gemer nas desoladas plagas
Sai o quer que é, rude sultão ufano,
Que abre nos peitos verdadeiras chagas.

√ď mar! √≥ mar! embora esse eletrismo,
Tu tens em ti o gérmen do lirismo,
√Čs um poeta l√≠rico demais.

E eu para rir com humor das tuas
Nevroses colossais, bastam-me as luas
Quando fazem luzir os seus metais…

Deixa-me em Paz

Nize, deixa-me em paz; porque j√° agora
No mar de Amor, por mais que √° vela saia,
Carcaça velha sou, que junto á praia,
Por n√£o poder surgir se desarvora.

Adeus, que quem me vir da barra fora,
√Č capaz de me dar alguma vaia:
E ao menos quero, antes que ao fundo caia,
Inda salvar-me: adeus; fica-te embora.

Bem sei que pouco é já; mas por vanglória
(Porque às vezes se faz do próprio dano)
A mesma falta hei-de fazer notória.

E no p√ļblico altar do Desengano,
Deixarei dos estragos por memória
O destroçado leme, e o roto pano.

Retrato das Mulheres em Todas as Idades

Mulher, de quinze a vinte é fresca rosa;
De vinte, a vinte e cinco √© de exp’rimenta.
De vinte cinco a trinta, a graça aumenta:
Ditoso nesta idade quem a goza!

De trinta a trinta e cinco é mal gostosa
Porém, pode passar, com sal, pimenta,
Mas j√° dos trinta e cinco aos quarenta
Vai-se tornando assaz fastidiosa.

De quarenta e cinco ela é bachareleira,
Fala fanhoso e é já de pouco gabo.
De cinquenta cerrados é santeira!

Aos sessenta este seu retrato acabo:
Menina, moça, velha benzedeira,
Bruxa gogosa, ent√£o, leve-a o diabo!