Sonetos sobre Homens

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Sonetos de homens escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Epit√°fio

Caminhante que vais t√£o de corrida.
Pois em nada reparas na jornada.
Repara por tua vida no meu nada.
Que foi toda uma morte a minha vida.

Tamb√©m do mundo andei muito partida,¬ī
Posto que em diligência mal parada,
E por n√£o ser verdade incorporada
Uma mentira sou desvanecida.

Eu tive ocupação sem exercício,
Eu fui mui conhecido sem ter nome,
Eu, ingrato, morri sem benefício.

Exemplo toma de mim, ó pobre homem,
Que se tratares mal, vives de vício,
E se viveres bem, morres de fome

Cam√Ķes III

Quando, torcendo a chave misteriosa
Que os cancelos fechava do Oriente,
O Gama abriu a nova terra ardente
Aos olhos da companha valorosa,

Talvez uma vis√£o resplandecente
Lhe amostrou no futuro a sonorosa
Tuba. que cantaria a ação famosa
Aos ouvidos da própria e estranha gente.

E disse: “Se j√° noutra, antiga idade,
Tróia bastou aos homens, ora quero
Mostrar que é mais humana a humanidade.

Pois não serás herói de um canto fero,
Mas vencer√°s o tempo e a imensidade
Na voz de outro moderno e brando Homero”.

Asa De Corvo

Asa de corvos carniceiros, asa
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
O telhado de nossa pr√≥pria casa…

Perseguido por todos os reveses,
√Č meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irm√£os siameses!

√Č com essa asa que eu fa√ßo este soneto
E a ind√ļstria humana faz o pano preto
Que as fam√≠lias de luto martiriza…

√Č ainda com essa asa extraordin√°ria
Que a Morte – a costureira funer√°ria –
Cose para o homem a √ļltima camisa!

Arda De Raiva Contra Mim A Intriga

Arda de raiva contra mim a intriga,
Morra de dor a inveja insaci√°vel;
Destile seu veneno detest√°vel
A vil cal√ļnia, p√©rfida inimiga.

Una-se todo, em traiçoeira liga,
Contra mim só, o mundo miserável.
Alimente por mim ódio entranhável
O coração da terra que me abriga.

Sei rir-me da vaidade dos humanos;
Sei desprezar um nome n√£o preciso;
Sei insultar uns c√°lculos insanos.

Durmo feliz sobre o suave riso
De uns l√°bios de mulher gentis, ufanos;
E o mais que os homens s√£o, desprezo e piso.

Os Enganos do Viver

REPETE A FRAGILIDADE DA VIDA E APONTA OS SEUS ENGANOS E OS SEUS INIMIGOS

Que outra verdade hav’r√° sen√£o pobreza
nesta vida t√£o fr√°gil, leviana?
Os dois embustes s√£o da vida humana,
no berço começando, honra e riqueza.

O tempo, que não volta nem tropeça,
em horas fugitivas só a engana;
em errado ansiar, sempre tirana,
Fortuna faz cansar sua fraqueza.

Vive morte calada e divertida
a pr√≥pria vida; a sa√ļde √© guerra
por seu próprio alimento combatida.

Oh, quanto, distraído, o homem erra:
que em terra teme ver tombar a vida
e não vê que, ao viver, caiu por terra!

Tradução de José Bento

A Meu Pai Depois De Morto

Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.
Em seus l√°bios que os meus l√°bios osculam
Micro-organismos f√ļnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.

Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!…

Podre meu Pai! E a m√£o que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de org√≠acos festins!…

Amo meu Pai na at√īmica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!

A Vida

“A Vida”
I
“…Mudar√°s, todos mudam, e os espinhos
com surpresa ver√°s por todo lado,
– s√£o assim nesta vida os seus caminhos
desde que o homem no mundo tem andado…

N√£o h√°s de ser o eterno namorado
com as m√£os e os l√°bios cheios de carinho,
– hoje, juntos os dois… tudo encantado!
– amanh√£, tudo triste… os dois sozinhos!…

E sentindo o teu braço então vazio,
abatido ver√°s que n√£o resistes
√† inclem√™ncia do tempo √ļmido e frio!

Rolar√°s por escarpas e barrancos:
sobre o epit√°fio dos teus olhos tristes
trazendo a campa dos cabelos brancos!”

Nona Sinfonia

√Č por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.

Num pal√°cio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que s√£o ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.

Para o alto se voltam as volutas
hieráticas    sagradas    impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.

Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus n√£o basta. √Č mais preciso o Homem.

√öltimo Sonho De “soror Saudade

√Äquele que se perdera no caminho…

Soror Saudade abriu a sua cela…
E, num encanto que ninguém traduz,
Despiu o manto negro que era dela,
Seu vestido de noiva de Jesus.

E a noite escura, extasiada, ao vê-la,
As brancas m√£os no peito quase em cruz,
Teve um brilhar feérico de estrela
Que se esfolhasse em pétalas de luz!

Soror Saudade olhou…Que olhar profundo
Que sonha e espera?…Ah! como √© feio o mundo,
E os homens v√£os! — Ent√£o, devagarinho,

Soror Saudade entrou no seu convento…
E, até morrer, rezou, sem um lamento,
Por Um que se perdera no caminho!…

Depois Da Orgia

O prazer que na orgia a hetaíra goza
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma t√ļnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!

Troveja! E anelo ter, s√īfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.

Apraz-me, enfim, despindo a √ļltima alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,

Semelhante a um cachorro de atalaia
√Äs decomposi√ß√Ķes da Natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!

A Ang√ļstia

Nada em ti me comove, Natureza, nem
Faustos das madrugadas, nem campos fecundos,
Nem pastorais do Sul, com o seu eco t√£o rubro,
A solene dolência dos poentes, além.

Eu rio-me da Arte, do Homem, das can√ß√Ķes,
Da poesia, dos templos e das espirais
Lançadas para o céu vazio plas catedrais.
Vejo com os mesmos olhos os maus e os bons.

N√£o creio em Deus, abjuro e renego qualquer
Pensamento, e nem posso ouvir sequer falar
Dessa velha ironia a que chamam Amor.

J√° farta de existir, com medo de morrer,
Como um brigue perdido entre as ondas do mar,
A minha alma persegue um naufr√°gio maior.

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

O Lupanar

Ali! Por que monstruosíssimo motivo
Prenderam para sempre, nesta rede,
Dentro do √Ęngulo diedro da parede,
A alma do homem polígamo e lascivo?!

Este logar, moços do mundo, vêde:
√Č o grande bebedouro coletivo,
Onde os bandalhos, como um gado vivo,
Todas as noites, vêm matar a sede!

√Č o afrodis√≠aco leito do hetairismo,
A antec√Ęmara l√ļbrica do abismo,
Em que é mister que o gênero humano entre,

Quando a promiscuidade aterradora
Matar a √ļltima for√ßa geradora
E comer o √ļltimo √≥vulo do ventre!

Noli Me Tangere

A exaltação emocional do Gozo,
O Amor, a Glória, a Ciência, a Arte e a Beleza
Servem de combustíveis à ira acesa
Das tempestades do meu ser nervoso!

Eu sou, por conseq√ľ√™ncia um ser monstruoso!
Em minha arca encef√°lica indefesa
Choram as forças más da Natureza
Sem possibilidades de repouso!

Agregados an√īmalos malditos
Despedaçam-se, mordem-se, dão gritos
Nas minhas camas cerebrais fun√©reas…

Ai! N√£o toqueis em minhas faces verdes,
Sob pena, homens felizes, de sofrerdes
A sensação de todas as misérias!

√Āguas Da Saudade Para Dirson Costa Que O Musicou

Sou apenas um homem na paisagem
na tarde de silêncio e de mormaço.
Só o vento me anima na passagem
deixando no seu rosto o seu compasso.

Sou apenas um poeta na viagem
olhando pelo olhar dos olhos baços
a dist√Ęncia que abriga vaga margem
das √°guas da saudade nos meus passos.

Bem me quis esta vila que me habita,
e bem me dei de encantos nos seus becos.
Contudo, n√£o cantei sua desdita.

Dessa Manaus distante, restam crespas
pegadas, ch√£o de rugas; minha pista
banhada em banzeiros do Rio Negro.

Cam√Ķes I

Tu quem és? Sou O século que passa.
Quem somos nós? A multidão fremente.
Que cantamos? A glória resplendente.
De quem? De quem mais soube a força e a graça.

Que cantou ele? A vossa mesma raça.
De que modo? Na lira alta e potente.
A quem amou? A sua forte gente.
Que lhe deram? Pen√ļria, ermo, desgra√ßa.

Nobremente sofreu? Como homem forte.
Esta imensa obla√ß√£o?… √Č-lhe devida.
Paga?… Paga-lhe toda a adversa sorte.

Chama-se a isto? A glória apetecida.
N√≥s, que o cantamos?… Volvereis √† morte.
Ele, que √© morto?… Vive a eterna vida.

Maes, Vinde Ouvir!

Longe de ti, na cella do meu quarto,
Meu copo cheio de agoirentas fezes,
Sinto que rezas do Outro-mundo, harto,
Pelo teu filho. Minha M√£e, n√£o rezes!

Para fallar, assim, ve tu! j√° farto,
Para me ouvires blasphemar, √°s vezes,
Soffres por mim as dores crueis do parto
E trazes-me no ventre nove mezes!

Nunca me houvesses dado √° luz, Senhora!
Nunca eu mamasse o leite aureolado
Que me fez homem, magica bebida!

F√īra melhor n√£o ter nascido, f√īra,
Do que andar, como eu ando, degredado
Por esta Costa d’Africa da Vida…

Versos √ćntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua √ļltima quimera.
S√≥mente a Ingratid√£o – esta pantera –
Foi tua companheira insepar√°vel!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miser√°vel,
Mora, entre feras, sente inevit√°vel
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa m√£o vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Idealização Da Humanidade Futura

Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
РHomens que a herança de ímpetos impuros
Tornara √©tnicamente irracionais! –

N√£o sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No h√ļmus dos monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!

Como quem esmigalha protozo√°rios
Meti todos os dedos mercen√°rios
Na consci√™ncia daquela multid√£o…

E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!

Supreme Convulsion

O equilíbrio do humano pensamento
Sofre tamb√©m a s√ļbita ruptura,
Que produz muita vez, na noite escura,
A convulsão meteórica do vento.

E a alma o obnóxio quietismo sonolento
Rasga; e, opondo-se à Inércia, é a essência pura,
√Č a s√≠ntese, √© o transunto, √© a abreviatura
Do todo o ubiq√ľit√°rio Movimento!

Sonho, – liberta√ß√£o do homem cativo –
Ruptura do equilíbrio subjetivo,
Ah! foi teu beijo convulsionador

Que produziu este contraste fundo
Entre a abund√Ęncia do que eu sou, no Mundo,
E o nada do meu homem interior!

O Desfecho

Prometeu sacudiu os braços manietados
E s√ļplice pediu a eterna compaix√£o,
Ao ver o desfilar dos séculos que vão
Pausadamente, como um dobre de finados.

Mais dez, mais cem, mais mil e mais um bili√£o,
Uns cingidos de luz, outros ensang√ľentados…
S√ļbito, sacudindo as asas de tuf√£o,
Fita-lhe a √°gua em cima os olhos espantados.

Pela primeira vez a víscera do herói,
Que a imensa ave do céu perpetuamente rói,
Deixou de renascer às raivas que a consomem.

Uma invisível mão as cadeias dilui;
Frio, inerte, ao abismo um corpo morto rui;
Acabara o suplício e acabara o homem.