Sonetos sobre Maior

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Sonetos de maior escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Marília De Dirceu

Soneto 1

√Č gentil, √© prendada a minha Alt√©ia;
As graças, a modéstia de seu rosto
Inspiram no meu peito maior gosto
Que ver o próprio trigo quando ondeia.

Mas, vendo o lindo gesto de Dircéia
A nova sujeição me vejo exposto;
Ah! que é mais engraçado, mais composto
Que a pura esfera, de mil astros cheia!

Prender as duas com grilh√Ķes estritos
√Č uma a√ß√£o, √≥ deuses, inconstante,
Indigna de sinceros, nobres peitos.

Cupido, se tens dó de um triste amante,
Ou forma de Lorino dois sujeitos,
Ou forma desses dois um só semblante.

Ci√ļme

Encontro em ti tudo o que imaginara
na mulher, para ser o meu ideal;
Рnão é só teu olhar, tua voz clara,
e essa express√£o que tens, sentimental!…

Nem essa graça ingênua, hoje tão rara,
de quem n√£o sabe onde se encontra o mal,
ou teu riso feliz, que se compara
ao tinir de uma ta√ßa de cristal…

√Č tudo em ti, tra√ßo por tra√ßo, tudo!
As tuas m√£os s√£o rendas de ternura;
teus carinhos, macios, de veludo.

Por isso mesmo é que é maior a dor,
quando amargo a mais íntima tortura
por n√£o ter sido o teu primeiro amor…

Benditas Cadeias!

Quando vou pela Luz arrebatado,
Escravo dos mais puros sentimentos
Levo secretos estremecimentos
Como quem entra em m√°gico Noivado.

Cerca-me o mundo mais transfigurado
Nesses sutis e c√Ęndidos momentos…
Meus olhos, minha boca v√£o sedentos
De luz, todo o meu ser iluminado.

Fico feliz por me sentir escravo
De um Encanto maior entre os Encantos,
Livre, na culpa, do mais leve travo.

De ver minh’alma com tais sonhos, tantos,
E que por fim me purifico e lavo
Na √°gua do mais consolador dos prantos

Soneto XXV

Do bravo mar onde às voltas ando
Ora temendo as ondas, ora o vento,
Na esperança maior de salvamento,
A minha barca vai à costa dando.

Pus os olhos na costa, imaginando
Achar remanso de pirigo isento,
Vendo, porém, frustrado o pensamento,
Louvo o mar j√° demais seguro e brando.

Ai fementido amor, amor tirano,
Que onde minha esperança tinha posta
Me trouxeste a fazer naufr√°gio amargo.

Porém ainda comigo foste humano,
Que mais quero perder-me dando à costa,
Que andar com mil temores em mar largo.

XXXIX

Breves horas, Amor, h√°, que eu gozava
A glória, que minha alma apetecia;
E sem desconfiar da aleivosia,
Teu lisonjeiro obséquio acreditava.

Eu só à minha dita me igualava;
Pois assim avultava, assim crescia,
Que nas cenas, que ent√£o me oferecia,
O maior gosto, o maior bem lograva;

Fugiu, faltou-me o bem: j√° descomposta
Da vaidade a brilhante arquitetura,
Vê-se a ruína ao desengano exposta:

Que ligeira acabou, que mal segura!
Mas que venho a estranhar, se estava posta
Minha esperança em mãos da formosura!

Barco Perdido

Oh! a vida √© uma grande ren√ļncia, partida
em pequenos fragmentos, todo dia, toda hora…
E a ironia maior, é que às vezes, a vida
de ren√ļncia em ren√ļncia aos poucos vai embora…

Tu voltaste de novo… e o doce amor de outrora
trouxeste ainda no olhar, na express√£o comovida.
e eis que o meu coração no reencontro de agora
transforma em labareda a chama adormecida…

No entanto, que fazer? H√° uma √Ęncora no fundo…
Hoje, sou como um barco sobre o mar do mundo,
barco esquife, onde jaz um marinheiro morto…

Velas r√ītas ao vento… os mastros aos peda√ßos…
E te vejo seguir, e a acenar-me teus braços,
e me deixo ficar, sem destino, nem porto…

A Dor Maior

N√£o quis julgar-te f√ļtil nem banal
e chamei-te de criança tão-somente,
Рreconheço, no entanto, infelizmente,
que, porque te quis bem, julguei-te mal.

Pensei at√©, ( e o fiz ingenuamente…)
ter encontrado a companheira ideal…
Quis julgar-te das outras diferente,
e √©s como as outras todas afinal…

Hoje, uma dor estranha me consome
e um sentimento a que n√£o sei dar nome
faz-me sofrer, se lembro o amor perdido…

A dor maior… A maior dor, no entanto,
vem de pensar de Ter-te amado tanto
sem que ao menos tivesses merecido!…

Ela no meu Olhar

Os meus olhos s√£o √ćndias de segredos.
√Č Portugal seu Corpo esguio e brando.
E as cinco quinas, seus compridos dedos
Em suas m√£os, bandeiras tremulando.

Seus gestos lembram lan√ßas. E ela passa…
Seu perfil de princesa faz lembrar
Batalhas que travaram ao luar,
Epopeia-marfim da minha Raça.

O seu olhar é tão doente e triste
Que me parece bem que n√£o existe
Maior mistério do que o de prendê-lo.

Nos meus sentidos vive o seu sentir
E, √†s vezes, quando chora, p√Ķe-se a ouvir
Seu coração, velhinho do Restelo.

LXXVII

Não há no mundo fé, não há lealdade;
Tudo é, ó Fábio, torpe hipocrisia;
Fingido trato, infame aleivosia
Rodeiam sempre a c√Ęndida amizade.

Veste o engano o aspecto da verdade;
Porque melhor o vício se avalia:
Porém do tempo a mísera porfia,
Duro fiscal, lhe mostra a falsidade.

Se talvez descobrir-se se procura
Esta de amor fantástica aparência,
√Č como √† luz do Sol a sombra escura:

Mas que muito, se mostra a experiência,
Que da amizade a torre mais segura
Tem a base maior na dependência!

A Ang√ļstia

Nada em ti me comove, Natureza, nem
Faustos das madrugadas, nem campos fecundos,
Nem pastorais do Sul, com o seu eco t√£o rubro,
A solene dolência dos poentes, além.

Eu rio-me da Arte, do Homem, das can√ß√Ķes,
Da poesia, dos templos e das espirais
Lançadas para o céu vazio plas catedrais.
Vejo com os mesmos olhos os maus e os bons.

N√£o creio em Deus, abjuro e renego qualquer
Pensamento, e nem posso ouvir sequer falar
Dessa velha ironia a que chamam Amor.

J√° farta de existir, com medo de morrer,
Como um brigue perdido entre as ondas do mar,
A minha alma persegue um naufr√°gio maior.

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

XVI

Toda a mortal fadiga adormecia
No silêncio, que a noite convidava;
Nada o sono suavíssimo alterava
Na muda confus√£o da sombra fria:

Só Fido, que de amor por Lise ardia,
No sossego maior n√£o repousava;
Sentindo o mal, com l√°grimas culpava
A sorte; porque dela se partia.

Vê Fido, que o seu bem lhe nega a sorte;
Querer enternec√™-na √© in√ļtil arte;
Fazer o que ela quer, é rigor forte:

Mas de modo entre as penas se reparte;
Que à Lise rende a alma, a vida à morte:
Por que uma parte alente a outra parte.

Marília De Dirceu

Soneto 7

O nume tutelar da Monarquia,
Que fez do grande Henrique a invicta espada,
Procurou dos Destinos a morada,
Por consultar a idade que viria.

A mil e mil heróis descrito via,
Que exaltam de furtado a estirpe honrada,
E na série, que adora, dilatada,
O nome de Francisco descobria.

Contempla uma por uma as letras d’ouro;
Este penhor, que o tempo n√£o consome,
Promete ao reino seu maior tesouro.

Prostra-se o gênio; e sem que a empresa tome
De lhe buscar sequer mais outro agouro,
O sítio beija, e lhe mostra o nome.

Qual tem a borboleta por costume

Qual tem a borboleta por costume,
Que, enlevada na luz da acesa vela,
Dando vai voltas mil, até que nela
Se queima agora, agore se consume,

Tal eu correndo vou ao vivo lume
Desses olhos gentis, Aónia bela;
E abraso-me por mais que com cautela
Livrar-me a parte racional presume.

Conheço o muito a que se atreve a vista,
O quanto se levanta o pensamento,
O como vou morrendo claramente;

Porém, não quer Amor que lhe resista,
Nem a minha alma o quer; que em tal tormento,
Qual em glória maior, está contente.

Que Pode J√° Fazer Minha Ventura

Que pode j√° fazer minha ventura
que seja para meu contentamento.,
Ou como fazer devo fundamento
de cousa que o não tem, nem é segura?

Que pena pode ser t√£o certa e dura
que possa ser maior que meu tormento?
Ou como recear√° meu pensamento
os males, se com eles mais se apura?

Como quem se costuma de pequeno
com peçonha criar por mão ciente,
da qual o uso j√° o tem seguro;

assi de acostumado co veneno,
o uso de sofrer meu mal presente
me faz n√£o sentir j√° nada o futuro.

Ajuste De Contas

Esta manh√£ me acorda para a vida
vinda com luz amena no meu rosto.
Pela janela os raios em descida
s√£o aspas de uma lauda sem desgosto.

Das queixas n√£o me queixo na acolhida
pois somam menos que o maior imposto.
Vale essa vida até aqui vivida
no tom alegre em que me trago exposto.

Mas n√£o me escoro no dever cumprido
porque de ver em muito haver implica
por este olhar ainda n√£o vencido.

Quisera essa alegria que me fica
chegar ao ch√£o de muito irm√£o ferido
de vida desigual que n√£o se explica.

Um Dia Guttemberg

Um dia Guttemberg c’o a alma aos c√©us suspensa,
Pegou do escopro ingente e p√īs-se a trabalhar!
E fez do velho mundo um r√ļtilo alcan√ßar
Ao mágico clangor de sua idéia imensa!

Rolou por todo o globo a luz da sacra imprensa!
Ruiu o despotismo no p√≥, a esbravejar…
Uniram-se n’um lago, o c√©u, a terra, o mar…
Rasgou-se o manto atroz da horr√≠vel treva densa!…

Ergueram-se mil povos ao som das melopéias,
Das grandes cavatinas olímpicas da arte!
Raiou o novo sol das f√ļlgidas id√©ias!…

Porém, quem lance luz maior por toda a parte
√Čs tu, sublime atriz, √≥ misto de epop√©ias
Que sabes no tablado subir, endeusar-te!…

E o Amor…

E o amor é então todo o longínquo
ardor? O à espera eterno e a solidão
que nele nasce e dele vai até
mais n√£o ser que o relembrar anterior?

Ah, mas se o amor fosse tudo em si…
A l√°grima e o riso, o verbo e a carne,
se o amor sonhasse na claridade
e sem ela n√£o fosse um maior sonho…

Aí vem a névoa, aí vem o sopro
da vida a levantar o dolorido
princ√≠pio sem fim do talvez, do quase…

E o amor é então todo o longínquo
ardor, o eterno à espera e a solidão
que nele nasce e morre, nasce e morre.

Soneto

Se eu fosse Deus seria a vida um sonho,
Nossa exist√™ncia um j√ļbilo perene!
Nenhum pesar que o espírito envenene
Empanaria a luz do céu risonho!

N√£o haveria mais: o adeus solene,
A vingança, a maldade, o ódio medonho,
E o maior mal, que a todos anteponho,
A sede, a fome da cobiça infrene!

Eu exterminaria a enfermidade,
Todas as dores da senilidade,
E os pecados mortais seriam dez…

A criação inteira alteraria,
Porém, se eu fosse Deus, te deixaria
Exatamente a mesma que tu és!

Minha Finalidade

Turbilhão teleológico incoercível,
Que força alguma inibitória acalma,
Levou-me o cr√Ęnio e p√īs-lhe dentro a palma
Dos que amam apreender o Inapreensível!

Predeterminação imprescriptível
Oriunda da infra-astral Subst√Ęncia calma
Plasmou, aparelhou, talhou minha alma
Para cantar de preferência o Horrível!

Na canonização emocionante,
Da dor humana, sou maior que Dante,
– A √°guia dos latif√ļndios florentinos!

Sistematizo, solu√ßando, o Inferno…
E trago em mim, num sincronismo eterno
A fórmula de todos os destinos!

Seguia Aquele Fogo, Que O Guiava

Seguia aquele fogo, que o guiava,
Leandro, contra o mar e contra o vento;
as forças lhe faltavam já e o alento,
Amor lhas refazia e renovava.

Despois que viu que a alma lhe faltava,
n√£o esmorece; mas, no pensamento,
(que a língua já não pode) seu intento
ao mar que lho cumprisse, encomendava.

√ď mar (dezia o mo√ßo s√≥ consigo),
já te não peço a vida; só queria
que a de Hero me salves; n√£o me veja…

Este meu corpo morto, l√° o desvia
daquela torre. Sê me nisto amigo,
pois no meu maior bem me houveste enveja!