Sonetos sobre Luta

37 resultados
Sonetos de luta escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Espiritualismo

I

Como um vento de morte e de ruína,
A D√ļvida soprou sobre o Universo.
Fez-se noite de s√ļbito, imerso
O mundo em densa e algida neblina.

Nem astro j√° reluz, nem ave trina,
Nem flor sorri no seu aéreo berço.
Um veneno subtil, vago, disperso,
Empeçonhou a criação divina.

E, no meio da noite monstruosa,
Do silêncio glacial, que paira e estende
O seu sud√°rio, d’onde a morte pende,

Só uma flor humilde, misteriosa,
Como um vago protesto da existência,
Desabroxa no fundo da Consciência.

II

Dorme entre os gelos, flor imaculada!
Luta, pedindo um ultimo clar√£o
Aos sóis que ruem pela imensidão,
Arrastando uma aur√©ola apagada…

Em v√£o! Do abismo a boca escancarada
Chama por ti na g√©lida amplid√£o…
Sobe do poço eterno, em turbilhão,
A treva primitiva conglobada…

Tu morrerás também. Um ai supremo,
Na noite universal que envolve o mundo,
Ha-de ecoar, e teu perfume extremo

No v√°cuo eterno se esvair√° disperso,
Como o alento final d’um moribundo,
Como o √ļltimo suspiro do Universo.

Continue lendo…

A um Poeta

Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.

Acorda! √Č tempo! O sol, j√° alto e pleno
Afugentou as larvas tumulares…
Para surgir do seio desses mares
Um mundo novo espera s√≥ um aceno…

Escuta! √Č a grande voz das multid√Ķes!
S√£o teus irm√£os, que se erguem! S√£o can√ß√Ķes…
Mas de guerra… e s√£o vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

Di√°logo

A cruz dizia à terra onde assentava,
Ao vale obscuro, ao monte √°spero e mudo:
‚ÄĒ Que √©s tu, abismo e jaula, aonde tudo
Vive na dor e em luta cega e brava?

Sempre em trabalho, condenada escrava.
Que fazes tu de grande e bom, contudo?
Resignada, és só lodo informe e rudo;
Revoltosa, √©s s√≥ fogo e horrida lava…

Mas a mim n√£o h√° alta e livre serra
Que me possa igualar!.. amor, firmeza,
Sou eu só: sou a paz, tu és a guerra!

Sou o espírito, a luz!.. tu és tristeza,
Oh lodo escuro e vil! ‚ÄĒ Por√©m a terra
Respondeu: Cruz, eu sou a Natureza!

Torre De Ouro

Desta torre desfraldam-se altaneiras,
Por sóis de céus imensos broqueladas,
Bandeiras reais, do azul das madrugadas
E do íris flamejante das poncheiras.

As torres de outras regi√Ķes primeiras
No Amor, nas Glórias vãs arrebatadas
N√£o elevam mais alto, desfraldadas,
Bravas, triunfantes, imortais bandeiras.

S√£o pavilh√Ķes das hostes fugitivas,
Das guerras acres, sanguin√°rias, vivas,
Da luta que os Espíritos ufana.

Estandartes heróicos, palpitantes,
Vendo em marcha passe aniquilantes
As torvas catapultas do Nirvana!

Soneto 434 A Néstor Perlongher

Na frente esteve e est√°, depois ou antes.
Poeta j√° portento de portenho,
em Néstor o barroco ganha engenho
e os verbos reverberam mais brilhantes.

Da Frente mítico entre os militantes,
aqui tem maior campo seu empenho.
Da causa negra um dado a depor tenho:
tratou mais que os tratados dos tratantes.

Aos putos imputou novo valor.
Da língua tinha humor sempre na ponta.
Das classes, luta e amor, é professor.

Mediu o que a estatística não conta.
Territorializou do corpo a cor.
Deu tom de santa a tanta tinta tonta!

As Montanhas

II

Agora, oh! deslumbrada alma perscruta
O puerpério geológico interior,
De onde rebenta, em contra√ß√Ķes de dor,
Toda a sublevação da crusta hirsuta!

No curso inquieto da terr√°quea luta
Quantos desejos férvidos de amor
N√£o dormem, recalcados, sob o horror
Dessas agrega√ß√Ķes de pedra bruta?!

Como nesses relevos orográfícos,
Inacessíveis aos humanos tráficos
Onde sóis, em semente, amam jazer,

Quem sabe, alma, se o que ainda n√£o existe
Não vive em gérmen no agregado triste
Da síntese sombria do meu Ser?!

Soneto 279 A Leila Míccolis

Que tem de pequenina, tem de terna.
Concentra em si um pouquinho da maneira
de cada mulher brava brasileira:
Pagu, Tarsila, Anita. Ela é moderna.

Por décadas de luta, já governa
o mundo alternativo, farta feira
de arte, em vibra√ß√Ķes de feiticeira:
Assim é Leila Míccolis, eterna.

Respeito a seus direitos ela cobra.
Ao bom comportamento é sempre avessa.
À fácil caretice não se dobra.

A frase lapidar dessa cabeça
é verso que resume grande obra:
“Falo do √≥bvio, antes que me esque√ßa.”

No Meu Peito Arde Em Chamas Abrasada

No meu peito arde em chamas abrasada
A pira da vingança reprimida,
E em centelhas de raiva ensurdecida
A vingança suprema e concentrada.

E espuma e ruge a cólera entranhada,
Como no mar a vaga embravecida
Vai bater-se na rocha empedernida,
Espumando e rugindo em marulhada.

Mas se das minhas dores ao calv√°rio,
Eu subo na atitude dolorida
De um Cristo a redimir um mundo v√°rio,

Em luta co’a natura sempiterna,
J√° que do mundo n√£o vinguei-me em vida,
A morte me será vingança eterna.

No Circo

(A Jo√£o de Deus)

Muito longe d’aqui, nem eu sei quando,
Nem onde era esse mundo, em que eu vivia…
Mas t√£o longe… que at√© dizer podia
Que enquanto l√° andei, andei sonhando…

Porque era tudo ali aéreo e brando,
E l√ļcida a exist√™ncia amanhecia…
E eu… leve como a luz… at√© que um dia
Um vento me tomou, e vim rolando…

Caí e achei-me, de repente, involto
Em luta bestial, na arena fera,
Onde um bruto furor bramia solto.

Senti um monstro em mim nascer n’essa hora,
E achei-me de improviso feito fera…
‚ÄĒ √Č assim que rujo entre le√Ķes agora!

√ď M√°quinas Febris

√ď m√°quinas febris! eu sinto a cada passo,
nos silvos que soltais, aquele canto imenso,
que a nova geração nos lábios traz suspenso
como a est√Ęncia viril duma epopeia d’a√ßo!

Enquanto o velho mundo arfando de cansaço
prostrado cai na luta; em fumo negro e denso
levanta-se a espiral desse moderno incenso
que ofusca os deuses vãos, anuviando o espaço!

V√≥s sois as cria√ß√Ķes fulgentes, fabulosas,
que, vibrantes, cruéis, de lavas sequiosas,
mordeis o pedestal da velha Majestade!

E as grandes combust√Ķes que sempre vos consomem
começam, num cadinho, a refundir o homem
fazendo ressurgir mais larga a Humanidade!

Acusam-me de M√°goa e Desalento

Acusam-me de m√°goa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
n√£o fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que n√£o nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me n√£o cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Sepultura Rom√Ęntica

Ali, onde o mar quebra, n’um cach√£o
Rugidor e monótono, e os ventos
Erguem pelo areal os seus lamentos,
Ali se há-de enterrar meu coração.

Queimem-no os sóis da adusta solidão
Na fornalha do estio, em dias lentos;
Depois, no inverno, os sopros violentos
Lhe revolvam em torno o √°rido ch√£o…

Até que se desfaça e, já tornado
Em impalpavel pó, seja levado
Nos turbilh√Ķes que o vento levantar…

Com suas lutas, seu cansado anseio,
Seu louco amor, dissolva-se no seio
D’esse infecundo, d’esse amargo mar!

M√°scara Mortu√°ria De Graciliano Ramos

Feito só, sua máscara paterna
Sua m√°scara tosca de acridoce
Feição, sua máscara austerizou-se
Numa preclara decis√£o eterna.

Feito só, feito pó, desencantou-se
Nele o intimo arcanjo, a chama interna
Da paix√£o em que sempre se queimou
Seu duro corpo que ora longe inverna.

Feito pó, feito pólem, feito fibra
Feito pedra, feito o que é morto e vibra
Sua m√°cara enxuta de homem forte

Isto revela em seu silêncio à escuta:
Numa severa afirmação da luta
Uma impassível negação da morte.

Ver√īnica

N√£o a face do Cristo, a macilenta
Face do Cristo, a dolorosa face…
O martírio da Cruz passou fugace
E este Martírio, esta Paixão é lenta.

Um vivo sangue a face te ensang√ľenta,
Mais vivo que se o Deus o derramasse;
Porque esta v√£ paix√£o, para que passe,
√Č mister dos Tit√£s a luta incruenta.

Se tu, Vis√£o da Luz, Vis√£o sagrada
Queres ser a Ver√īnica sonhada,
Consoladora dessa dor sombria

Impressa ficara no teu sud√°rio
N√£o a face do Cristo do Calv√°rio
Mas a face convulsa da Agonia!

Divina Comédia

Erguendo os braços para o céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam: ‚ÄĒ ¬ęDeuses impass√≠veis,
A quem serve o destino triunfante,

Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inestinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
N’um turbilh√£o cruel e delirante…

Pois n√£o era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda n√£o existe,
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque √© que para a dor nos evocastes?¬Ľ
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem: ‚ÄĒ ¬ęHomens! por que √© que nos criastes?¬Ľ

A Idéia

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegra√ß√Ķes maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
T√≠sica, t√™nue, m√≠nima, raqu√≠tica …

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica

Fetichismo

Homem, da vida as sombras inclementes
Interrogas em vão: РQue céus habita
Deus? Onde essa regi√£o de luz bendita,
Para√≠so dos justos e dos crentes?…

Em v√£o tateiam tuas m√£os trementes
As entranhas da noite erma, infinita,
Onde a d√ļvida atroz blasfema e grita,
E onde h√° s√≥ queixas e ranger de dentes…

A essa abóbada escura, em vão elevas
Os braços para o Deus sonhado, e lutas
Por abarc√°-lo; √© tudo em torno trevas…

Somente o vácuo estreitas em teus braços;
E apenas, pávido, um ruído escutas,
Que √© o ru√≠do dos teus pr√≥prios passos!…

Meu Ser Evaporei na Luta Insana

Meu ser evaporei na luta insana
Do tropel de paix√Ķes que me arrastava:
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quasi imortal a essência humana!

De que in√ļmeros s√≥is a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si n√£o coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos

Deus, √≥ Deus!… quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver n√£o soube.

Sempre a Raz√£o vencida foi de Amor

Sempre a Raz√£o vencida foi de Amor;
Mas, porque assim o pedia o coração,
Quis Amor ser vencido da Raz√£o.
Ora que caso pode haver maior!

Novo modo de morte e nova dor!
Estranheza de grande admiração,
Que perde suas forças a afeição,
Por que n√£o perca a pena o seu rigor.

Pois nunca houve fraqueza no querer,
Mas antes muito mais se esforça assim
Um contr√°rio com outro por vencer.

Mas a Raz√£o, que a luta vence, enfim,
Não creio que é Razão; mas há-de ser
Inclinação que eu tenho contra mim.

Transcedentalismo

J√° sossega, depois de tanta luta,
Já me descansa em paz o coração.
Caí na conta, enfim, de quanto é vão
O bem que ao Mundo e à Sorte se disputa.

Penetrando, com fronte n√£o enxuta,
No sacr√°rio do templo da Ilus√£o,
Só encontrei, com dor e confusão,
Trevas e p√≥, uma mat√©ria bruta…

Não é no vasto Mundo Рpor imenso
Que ele pare√ßa √† nossa mocidade –
Que a alma sacia o seu desejo intenso…

Na esfera do invisível, do intangível,
Sobre desertos, v√°cuo, soledade,
Voa e paira o espírito impassível!