Cita√ß√Ķes de Glauco Mattoso

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Glauco Mattoso para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Soneto 253 A Renato Russo

Embora original, gênio, perito,
do nosso rock um raro uirapuru,
vivia ensimesmado e jururu,
talvez por n√£o ser grego nem bonito.

Entendo a sua ang√ļstia e o seu conflito,
meu ídolo, meu mártir, meu guru!
Causou você, primeiro, um sururu;
depois, tristeza, e ent√£o calou seu grito.

Respeito quem é triste, ou aparenta.
Os outros grandes brincam: Raul, Rita,
ou cospem mera raiva barulhenta.

Cazuza também brinca, mas medita.
Arnaldo Antunes testa, experimenta.
Renato faz da dor a dor: maldita!

Soneto 529 Extra-Expresso

Mandou aquele abraço para o Rio.
De Sampa enalteceu a Freguesia.
Levou compasso e régua da Bahia.
Em Londres troca o Trópico por frio.

Com Jorge, Rita e Marley antevi-o.
Com Berry, Cliff ou Wonder bem veria.
Com ele fez escola a ecologia
e a escola fez o samba em que folio.

Veado ou pica-pau, ele os compacta;
met√°fora, se abstrata, ele a concreta;
com síntese a internet ele retrata.

√Č √°gil, presto, esperto, pois poeta;
agílimo, da raça expressa a nata;
agudo, mas dulcíssimo: ultra-esteta!

Soneto 573 Barbarizado

Já se disse: sete é conta de mentira e lenda.
Também dizem que de azar o treze é cifra certa.
Isso explica a redondilha como porta aberta
no cantar dos repentistas, na feroz contenda,

à bazófia descarada, onde é melhor a emenda
que o soneto decassílabo, no qual se enxerta
entre termos eruditos a fal√°cia esperta,
lei de todo bom poeta que seu peixe venda.

Outrossim, também se explica por que nunca é visto
um soneto alexandrino, mas de pé quebrado:
este, a cuja tentação do treze não resisto.

Vou cham√°-lo “aleijadinho”, pois, em vez de errado,
tem car√°ter de obra-prima, pelo menos nisto:
completar catorze versos sem ficar quadrado!

Soneto 251 Quantitativo

Centenas de sonetos s√£o legado
de nomes tidos como monumentos.
Apenas de Cam√Ķes, mais de duzentos,
registro que é por poucos superado.

Não fossem os Lusíadas o dado
que faz dele o primeiro entre os portentos,
ainda assim Cam√Ķes marca outros tentos,
e, entre outros tantos, este é consagrado:

“Sete anos de pastor”, o vinte e nove,
que, se não for mais belo, é o mais perfeito,
a menos que em contrário alguém me prove.

Mas, como dois é dom, três é defeito,
tamb√©m um “Alma minha”, o dezenove,
ocupa igual lugar no meu conceito.

Soneto 434 A Néstor Perlongher

Na frente esteve e est√°, depois ou antes.
Poeta j√° portento de portenho,
em Néstor o barroco ganha engenho
e os verbos reverberam mais brilhantes.

Da Frente mítico entre os militantes,
aqui tem maior campo seu empenho.
Da causa negra um dado a depor tenho:
tratou mais que os tratados dos tratantes.

Aos putos imputou novo valor.
Da língua tinha humor sempre na ponta.
Das classes, luta e amor, é professor.

Mediu o que a estatística não conta.
Territorializou do corpo a cor.
Deu tom de santa a tanta tinta tonta!

Soneto 279 A Leila Míccolis

Que tem de pequenina, tem de terna.
Concentra em si um pouquinho da maneira
de cada mulher brava brasileira:
Pagu, Tarsila, Anita. Ela é moderna.

Por décadas de luta, já governa
o mundo alternativo, farta feira
de arte, em vibra√ß√Ķes de feiticeira:
Assim é Leila Míccolis, eterna.

Respeito a seus direitos ela cobra.
Ao bom comportamento é sempre avessa.
À fácil caretice não se dobra.

A frase lapidar dessa cabeça
é verso que resume grande obra:
“Falo do √≥bvio, antes que me esque√ßa.”

Soneto 255 Recordista

Duzentas e cinq√ľenta e cinco pe√ßas
é produção em série, mas apenas
um “quase”, comparado a tr√™s centenas,
contanto que em soneto, só, me meças.

Refiro-me ao autor do molde dessas
trezentas dedicadas, n√£o a Helenas,
Marílias, Beatrizes ou morenas
an√īnimas, amadas meio √†s pressas;

Por√©m √† tal de Laura! Que fei√ß√Ķes
seriam t√£o divinas, se ela abarca
tamanho patrim√īnio de paix√Ķes?

Persigo, s√≥ no n√ļmero, essa marca.
Depois de superar a de Cam√Ķes,
vou ter que superar a de Petrarca!

Soneto 549 Tematizado

De duas coisas todo bom poeta
dever tem de falar para ser posto
no círculo dos grandes e no gosto
do povo ser mais um que se projeta:

de estrelas e de rosas. Nada veta
que seja seu soneto só composto
de pétalas que espelhem-lhe o desgosto
do amor que feneceu e nos afeta.

Também ninguém proíbe que as estrelas
figurem esperan√ßas ou paix√Ķes
e todos os sonetos tentem lê-las.

N√£o morre um de Bilac ou de Cam√Ķes,
mas falta o que um poeta mede pelas
(dum cego) fantasias e vis√Ķes…

Soneto 399 Pós-Moderno

Cinema Novo, Bossa Nova, tudo
é novo nesta terra! A velharia
nos vem só do estrangeiro. O que seria
do Chaplin sem o velho cine mudo?

Temos tempos modernos! Também mudo
meu modo de pensar a poesia.
Concreto e verso livre contagia,
mas algo mais à frente aguarda estudo:

√Č o raio do soneto, que ora volta
liberto das amarras do conceito
e sem as igrejinhas como escolta.

Depois do modernismo, vem refeito.
Até o vocabulário já se solta:
ao puro é duro, e ao sujo está sujeito.

Soneto 575 Revisitado

Quem disse que o Natal é só mercado?
Por tr√°s do panetone ou da castanha
est√° um publicit√°rio, uma campanha,
o lucro, as estatísticas, o Estado.

√Č certo. Mas o esp√≠rito arraigado
mais dura que o presente que se ganha,
mais lembra que um peru, que uma champanha
a alguém com mais futuro que passado.

Pois ela, a criancinha, é quem segura
o tempo, em seu efêmero momento,
salvando algo de j√ļbilo ou ternura.

Esqueça-se o comércio! Ainda tento
rever cada Natal, cada gravura
em meio a tanto adulto rabugento…

Soneto 252 Qualitativo

Repito que um é dote, dois é dom,
mas três já é defeito, tenha dó!
Cam√Ķes fez “Alma minha” e o do Jac√≥:
Terceiro é mui difícil ser tão bom.

A tanto inda acrescento, alto e bom som:
Falar de sentimento, por si só,
não faz de nenhum verso um pão-de-ló,
nem temas de bom tom são só bombom.

Fazer soneto às pencas, outrossim,
não dá patente máxima a ninguém,
nem livra alguém do nível do ruim.

Fiquemos no bom senso, que mantém
a média de dois bons, até pra mim,
que, perto de Cam√Ķes, sou muito aqu√©m.

Soneto 351 K√°rmico

Quinhentas e cinq√ľenta e cinco pe√ßas
perfazem as sonatas de Scarlatti.
Nivelam-se, em altíssimo quilate,
à Nona, à Mona Lisa, qualquer dessas.

Farei tantos sonetos? Não mo peças!
√Č meta muito herc√ļlea para um vate!
Recorde desse porte n√£o se bate:
no máximo se iguala, e nunca às pressas.

J√° fiz mais que Cam√Ķes, mais que Petrarca:
dois, dois, dois; três, três, três; de pouco em pouco,
que a lira tamb√©m broxa… √Č porca. √Č parca.

Poeta que for cego, mudo ou mouco
compensa a privação com a fuzarca:
diverte-se sofrendo. √Č glauco. √Č louco.

Soneto 568 Nazaretado

Uns dizem que de índia tinha cara;
a outros parecia um rapazelho.
Famoso mesmo foi o seu joelho,
além da voz, que mais se aveludara.

Veludo, mas cortante, coisa rara:
quer fosse a Lindonéia nosso espelho
ou fosse o Carcar√° bord√£o vermelho,
o fato é que, no mapa, a nata é Nara.

Da Bossa Nova é musa mais bem-quista.
Tropicalista diva, brilha quieta.
Rebelde mais serena n√£o se avista.

Foi ídolo, na luta, do poeta,
ao mesmo tempo olímpica e humanista,
pois Nara é nata, é nota, é gata, é neta.

Soneto 345 Caet√Ęnico

Arauto da verdade tropical,
cantou nomes de nomes, como Arrigo,
Jacinto Pinto Aquino Rego, digo,
Mattoso, Matos, Tons, Tins, Bens, e tal.

Prop√īs orientar o carnaval,
e a nave conseguiu singrar consigo.
Tratou de igual pra igual o joio e o trigo.
Juntou sopa com mel, mam√£o com sal.

Aos probos proibiu de proibir.
Aos pobres deu licença de brilhar.
Bebeu da juventude um elixir.

Tem mais caetanidade em caetanar
que aos outros antrop√īnimos ser Sir.
Seu Zé não é Caetano, uns nunca é par.

Soneto 510 Malocat√°rio

Soneto é um apertado apartamento
num vasto condomínio de inquilinos.
A mesma planta e v√°rios seus destinos:
um drama urbano em cada pavimento.

Dois quartos, pouca luz e muito vento,
que podem ser alcovas ou cassinos,
paróquias parcas, clubes clandestinos,
abrigo do autor brega ou do briguento.

Agora virou zona, mas um dia
foi casa de família e regra tinha:
conversa só começa se o pai pia.

Além da comezinha escrivaninha,
só tem privada, cama, mesa e pia.
Sem sala, o papo acaba na cozinha.

Soneto 246 Incontinente

Soneto é o mundo inteiro em pouco espaço,
mas, para os mais lac√īnicos, prolixo.
O gosto é variado, e o metro, fixo,
e amante deste oxímoro me faço.

A prosa pesa, empilha um calhamaço.
Concisas poesias s√£o prefixo.
Somente no soneto gravo e mixo
começo, meio e fim, no exato laço.

Qualquer história, fábula ou idéia
comporta enunciado num soneto,
da simples anedota a uma epopéia.

Apenas dois assuntos, eu prometo,
não cabem no soneto: a diarréia
e o pé, mas porque sobram, não por veto.

Soneto 233 Sonetado

Já li Lope de Vega e li Gregório,
pois ambos sonetaram do soneto,
seara na qual minha foice meto,
tentando fazer algo meritório.

Não quero usar o mesmo palavrório,
mas pilho-me, no meio do quarteto,
montando a anatomia do esqueleto.
No oitavo verso, o alívio é provisório.

Contagem regressiva: faltam cinco.
Mais quatro, e fico livre do problema.
Agora faltam tr√™s… Deus, dai-me afinco!

Com dois acabo a porra do poema.
Caralho! Só mais um! Até já brinco!
Gozei! Matei a pau! Que puta tema!

Soneto 270 A Dercy Gonçalves

Recusa-se a morrer. N√£o morrer√°.
Talvez caricatura, a sua vida,
vestal, velha vedete travestida,
inverte o que o pariu pra puta v√°.

Vai ser a cibernética babá
de toda meninice reprimida.
Ninguém faz saturnal se não convida
a nossa sideral gueixa gag√°.

Mostrou a perereca da vizinha
apenas pra alegrar a garotada.
Com ela é pau no cu da carochinha.

P√īs cada palavr√£o numa piada.
Passou. N√£o passar√°. Brilha sozinha.
Estrela d’Alva, salva da alvorada.

Soneto 272 A Fernanda Montenegro

Mill√īr falava dela com respeito.
Passei a respeit√°-la de antem√£o.
Mill√īr falou, √© lei, preste aten√ß√£o.
Fernanda se supera no perfeito.

Foi, desde “A falecida”, em meu conceito
subindo, polimórfica ascensão.
Até na maquinal televisão
solene e natural, seu próprio jeito.

Fui v√™-la no teatro. √Č verdadeira.
Inspira carinhosa intimidade.
Parece a m√£e, a tia, uma enfermeira,

aquela professora… Que saudade!
A grande dama é nossa, brasileira.
Que bom! Que “Bravo!” seu Brasil lhe brade!

Soneto 278 A Salvador Dali

Pra mim, Picasso perto dele é pinto.
Qual cubo nem Guernica! O catal√£o
p√īs fogo na girafa, e d√° li√ß√£o
de como você pinta como eu pinto.

Relógios derreteu, deu ao recinto
bagunça formidável de ilusão.
Bigodes retorceu, e a posição
do Cristo subverteu: estilo extinto.

Talvez fez na pintura o que Gaudí
ergueu, fenomenal, na arquitetura:
delírio, porém nítido. Não vi

no século atual maior textura
que o fruto da estranheza de Dali,
o gênio do ocular na cor. Loucura!