Passagens sobre Paus

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Frases sobre paus, poemas sobre paus e outras passagens sobre paus para ler e compartilhar. Leia as melhores citações em Poetris.

Ballada do CaixĂŁo

O meu vizinho Ă© carpinteiro,
Algibebe de Dona Morte:
Ponteia e coze, o dia inteiro,
Fatos de pau de toda a sorte:
Mogno, debruados de velludo
Flandres gentil, pinho do Norte…
Ora eu que trago um sobretudo
Que já me vae a aborrecer,
Fui-me lá, hontem: (era Entrudo,
Havia immenso que fazer!…)
– Olá, bom homem! quero um fato,
Tem que me sirva? – Vamos ver…
Olhou, mexeu na caza toda…
– Eis aqui um e bem barato.

– Está na moda? – Está na moda.
(Gostei e nem quiz apreçal-o:
Muito justinho, pouca roda…)
– Quando posso mandar buscal-o?
– Ao por-do-sol. Vou dal-o a ferro:
(Poz-se o bom homem a aplainal-o…)

Ă“ meus amigos! salvo-erro,
Juro-o pela alma, pelo céu!
Nenhum de vĂłs, ao meu enterro,
Irá mais dandy, olhae! do que eu!

Balada do Amor através das Idades

Eu te gosto, vocĂŞ me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, vocĂŞ troiana,
troiana mas nĂŁo Helena.
SaĂ­ do cavalo de pau
para matar seu irmĂŁo.
Matei, brigámos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de cristĂŁos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi vocĂŞ nua
caĂ­da na areia do circo
e o leĂŁo que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leĂŁo comeu nĂłs dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde vocĂŞ se escondia
da fĂşria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
vocĂŞ fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal…
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesĂŁo de Versailles,
espirituoso e devasso.
VocĂŞ cismou de ser freira…
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram Ă  guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.

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Os novos amigos que criamos, depois de certa idade, e pelos quais procuramos substituir aqueles que perdemos, estão para os nossos velhos amigos, como os olhos de vidro, os dentes postiços e as pernas de pau estão para os verdadeiros olhos, para os dentes naturais e para as pernas de carne e osso.

Não sei como será a terceira Guerra Mundial, mas posso te dizer como será a Quarta: Com paus e pedras.

Todo o Presente Espera pelo Passado para nos Comover

Há vária gente que nĂŁo gosta de evocar o passado. Uns por energia, disciplina prática e arremesso. Outros por ideologia progressista, visto que todo o passado Ă© reaccionário. Outros por superficialidade ou secura de pau. Outros por falta de tempo, que todo ele Ă© preciso para acudir ao presente e o que sobra, ao futuro. Como eu tenho pena deles todos. Porque o passado Ă© a ternura e a legenda, o absoluto e a mĂşsica, a irrealidade sem nada a acotovelar-nos. E um aceno doce de melancolia a fazer-nos sinais por sobre tudo. Tanta hora tenho gasto na simples evocação. Todo o presente espera pelo passado para nos comover. Há a filtragem do tempo para purificar esse presente atĂ© Ă  fluidez impossĂ­vel, Ă  sublimação do encantamento, Ă  incorruptĂ­vel verdade que nele se oculta e Ă© a sua Ăşnica razĂŁo de ser. O presente Ă© cheio de urgĂŞncias mas ele que espere. Ha tanto que ser feliz na impossibilidade de ser feliz. Sobretudo quando ao futuro já se lhe toca com a mĂŁo. Há tanto que ter vida ainda, quando já se a nĂŁo tem…

No Mundo nĂŁo Tem Boa Sorte SenĂŁo quem Tem por Boa a que Tem

Uma cousa sabei de mim: que queria antes o bem do mal, que o mal do bem; porque muito mais se sente o porvir, que o passado; e a morte, até matar, mata. Não sei se sereis marca de voar tão alto; porque, para tomar a palha a esta matéria, são necessárias asas de nebri. Mas vós sois homem de prol, e desculpa-me a conta em que vos tenho. E a que de mim vos sei dar, é que:

Esperança me despede,
tristeza nĂŁo me falece,
e tudo o mais m’aborrece.
Já que mais não mereceu
minha estrela,
só a tristeza conheço,
pois que para mim nasceu
e eu para ela.

No mundo nĂŁo tem boa sorte senĂŁo quem tem por boa a que tem. E daqui me vem contentar-me, de triste. Mas olhai de que maneira:

Vivo assi ao revés,
tomando por certa vida
certa morte,
com que folgo, em que me pĂŞs,
pois minha sorte Ă© servida
de tal sorte.

Uma cousa sabei: que o mal, ainda que às vezes o vejais louvar, não há quem o louve com a boca que o não taxe com o coração:

Ajudai-me a sofrer
vida tĂŁo sem sofrimento,

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Maio de Minha MĂŁe

O primeiro de Maio de minha MĂŁe
NĂŁo era social, mas de favas e giestas.
Uma cadeira de pau, flor dos dedos do AvĂ´
— Polimento, esquadria, engrade, olhá-la ao longe —
Dava assento a Florália, o meu primeiro amor.

Já não se usa poesia descritiva,
Mas como hei-de falar da Maromba de Maio
Ou, se era macho, do litro de vinho na sua mĂŁo?
O primeiro de Maio nas Ilhas, morno como uma rosa,
Algodoado de cĂşmulos, lento no mar e rapioqueiro
Como Baco em Camões,
LĂ­mpido de azeviche
E, afinal de contas, do ponto de vista proletário,
Mais de mĂŁos na algibeira do que Lenine em Zurich.
(Porque foi por esta Ă©poca: eu Ă© que nĂŁo sabia!)

A minha Maromba tinha barriga de palha como as massas
E a foice roçadoira da erva das cabras do Ribeiro
Que se pegou, esquecida, no banco do martelo de meu AvĂ´
Cujas quedas iguais, gravĂ­ficas, profundas

Muito prego em cunhal deixaram,
Muita madeira emalhetaram,
Muita estrela atraĂ­ram ao bico da foice do Ribeiro
Nas noites de luar em que roçava erva às cabras.

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Algumas Proposições com Crianças

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
Ă© o elemento prĂłprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz