Poemas sobre Chaves

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Poemas de chaves escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Eu Sou do Tamanho do que Vejo

Da minha aldeia veio quanto da terra se pode ver no Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E n√£o, do tamanho da minha altura…
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa √ļnica riqueza √© ver.

Janela do Sonho

Abri as janelas
que havia dentro de ti
e entrei abandonado
nos teus braços generosos.

Senti dentro de mim
o tempo a criar silêncio
para te beber altiva e plena.

Mil vezes
repeti teu nome,
mil vezes,
de forma aveludada
e era a chave
que se expunha
e fecundava dentro de mim.

J√° n√£o se sonha,
deixei de sonhar,
o sonho é poeira dos tempos
é a voz da extensão
é a voz da pureza
que dardejava na nossa doçura.

Quando abri as tuas janelas
e despi teus braços
perdi a vaidade
e a pressa,
amei a partida
e em silêncio abri,
(sem saber que abria)
uma noite h√ļmida
em combust√£o secreta
desmaiado no teu ombro
de afrodite.

Poema da malta das naus

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
pelote de vagabundo,
rebotalho de gib√£o.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das prais
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me a gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a m√£o esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no ch√£o, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
N√£o se nasce impunemente
nas praias de Portugal.

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Escola

O que significa o rio,
a pedra, os l√°bios da terra
que murmuram, de manh√£,
o acordar da respiração?

O que significa a medida
das margens, a cor que
desaparece das folhas no
lodo de um charco?

O dourado dos ramos na
estação seca, as gotas
de √°gua na ponta dos
cabelos, os muros de hera?

A linha envolve os objectos
com a nitidez abstracta
dos dedos; traça o sentido
que a memória não guardou;

e um fio de versos e verbos
canta, no fundo do p√°tio,
no coro de arbustos que
o vento confunde com crianças.

A chave das coisas est√°
no equívoco da idade,
na sombria abóbada dos meses,
no rosto cego das nuvens.

Canção porque (não) Morres

Este √© o √ļltimo livro, prometia
como alguém que tivesse esquecido
que assim sempre tinha sido – aquele
era o √ļltimo e depois que algu√©m viesse
fechar a porta contra o som do mar.
– Pagava por jogar no escuro
e por aqueles ardis j√° gastos
com que pensava e n√£o pensava
enganar a morte branca e vermelha.
РAh e não esqueças: Рdeitar fora a chave

Canção como não morres
se é a morte que em ti sobe até à fonte
do sangue, até à flor do sal queimando
os dedos; até à boca que por te cantar
se acende negra; até à copa
das √°rvores que distribuem o sol
sobre o corpo morto do amor
amante e desamado?

Ou antes: de que morres, por que morres
tu, canção já sem voz, já
sem o canto,
– j√° sem outro assunto
de momento, me despeço de todos vós-
quem falou agora? – Que importa quem falou?
– Que importa? Nada e nonada. E, sim, tudo
é tudo o que importa, para quem veio
mandado a que chamasses quem
tivesse chamado.

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Viver

Mas era apenas isso,
era isso, mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada?

E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?

Isso, ou menos que isso
uma noção de porta,
o projecto de abri-la
sem haver outro lado?

O projecto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa?

Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança?

An√ļncio no Ar

Céus, nuvens, ondas, ventos,
dai-me notícias do meu amor norueguês.

Elementos da natureza gastos por tantos versos,
ferralha rom√Ęntica, brilhai de novo
e trazei-me notícias do meu amor norueguês.

Aquela que eu amei um ver√£o na praia
Рpérola cuja ostra era um barco de carvão,
matrícula de Bergen, essa mesma, elementos!,
notícias, notícias do meu amor norueguês.

A que veio dos fiordes e vivia num barco
encostado ao cais, junto de um guindaste;
a que me acendeu a manh√£ do amor,
a que abriu a porta às tempestades,
a que me deu a chave da inven√ß√£o…
Existe? Fugiu à ocupação? Morreu prisioneira?

Notícias, notícias do seu rosto que mal lembro,
do seu corpo de caule adolescente…
Notícias do seixo branco que trocámos
com palavras de amor em inglês mal decorado.

Notícias da que foi espiga mal madura,
notícias do meu amor norueguês.

O Infecundo Abismo

De novo traz as aparentes novas
Flores o ver√£o novo, e novamente
Verdesce a cor antiga
Das folhas redivivas.
N√£o mais, n√£o mais dele o infecundo abismo,
Que mudo sorve o que mal somos, torna
À clara luz superna
A presença vivida.
N√£o mais; e a prole a que, pensando, dera
A vida da raz√£o, em v√£o o chama,
Que as nove chaves fecham,
Da Estige irreversível.
O que foi como um deus entre os que cantam,
O que do Olimpo as vozes, que chamavam,
‘Scutando ouviu, e, ouvindo,
Entendeu, hoje é nada.
Tecei embora as, que teceis, Grinaldas.
Quem coroais, n√£o coroando a ele?
Votivas as deponde,
F√ļnebres sem ter culto.
Fique, porém, livre da leiva e do Orco,
A fama; e tu, que Ulisses erigira,
Tu, em teus sete montes,
Orgulha-te materna,
Igual, desde ele às sete que contendem
Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,
Ou hept√°pila Tebas
Ogígia mãe de Píndaro.

O Tumulto

O tumulto concentrado da minha imagina√ß√£o intelectual…
Fazer filhos √† raz√£o pr√°tica, como os crentes en√©rgicos…
Minha juventude perpétua
De viver as coisas pelo lado das sensa√ß√Ķes e n√£o das responsabilidades.
(√Ālvaro de Campos, nascido no Algarve, educado por um tio-av√ī, padre,
que lhe instilou um certo amor √†s coisas cl√°ssicas.) (Veio para Lisboa muito novo …)
A capacidade de pensar o que sinto, que me distingue do homem vulgar
Mais do que ele se distingue do macaco.
(Sim, amanh√£ o homem vulgar talvez me leia e compreenda a subst√Ęncia do meu ser,
Sim, admito-o,
Mas o macaco j√° hoje sabe ler o homem vulgar e lhe compreende a subst√Ęncia do ser.)

Se alguma coisa foi por que é que não é
Ser não é ser?

As flores do campo da minha inf√Ęncia, n√£o as terei eternamente,
Em outra maneira de ser?
Perderei para sempre os afetos que tive, e até os afetos que pensei ter?
H√° algum que tenha a chave da porta do ser, que n√£o tem porta,
E me possa abrir com raz√Ķes a intelig√™ncia do mundo?

Sonhos Meus

Sonhos meus, suaves sonhos,
Sois melhores do que a verdade;
Quando sonho sou ditosa,
Sem o ser na realidade.

Amor, tu vens nos meus sonhos
Acalmar-me o coração;
Mas cruel! Quanto prometes
N√£o passa de uma ilus√£o.

Sonhei, tirano, esta noite,
Sonhei que tu me chamavas,
E que sobre a relva branda
Tu mesmo me acalentavas.

Disseste-me: “Dorme, Alcipe,
Amor sobre ti vigia,
Mal podes temer os fados.‚ÄĚ

Dormi: neste dobre sono
Me achei n’um palacio d’ouro:
Entregaram-me uma chave
Para que abrisse um tesouro.

Р“Chave mágica, sublime,
Que me vais tu descobrir?
Se é menos do que eu desejo
Ser√° melhor n√£o abrir‚Ķ‚ÄĚ

– ‚ÄúAbre, Alcipe‚ÄĚ qual trov√£o
Brada o deus que me vigia:
Acordei sobressaltada,
E abriu-se, mas foi o dia.

Veio Tudo de Longe

Veio tudo de longe para ser
uma só coisa, nupcial e magnífica.
Caminho e tenda. O mar. Livros. A indizível
matéria da dor. Ternura
cercada e repartida, pouco
a pouco, à mesa rápida
dos l√°bios, clandestina voz baixa
das m√£os juntas. Sobreviventes
de invernos, d√ļvidas, den√ļncias.
E o teu sorriso honrado. A oferta
duplicada e vulc√Ęnica
dos seios. Esta noite que nos p√īs
à prova. Sobre o vento e o repouso
do vento. E a m√ļsica ainda cheia
de muitos outros quartos. Sim, a import√Ęncia
do teu rosto: alvo claro deste mês
desmedido que nós somos.

Veio tudo de longe para ser
uma só coisa, sagrada e partilhável.

O banho comum gradual e abundante
dos sentidos. As faces que só tenho
entre o convívio doce dos teus dedos
sempre em férias. E a chave
do desejo. Erecta dureza doadora
do óleo e da viagem
aos lugares da origem
e do êxtase. Resposta
da terra contra a terra.

E a surpresa ensina e desvenda
as partes mais antigas da alegria
dupla,

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A Luz que Vem das Pedras

A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
n√£o s√£o de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
‚ÄĒ a m√£o que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?

Lenta, Descansa a Onda que a Maré Deixa

Lenta, descansa a onda que a maré deixa.
Pesada cede. Tudo é sossegado.
Só o que é de homem se ouve.
Cresce a vinda da lua.

Nesta hora, Lídia ou Neera ou Cloe,
Qualquer de vós me é estranha, que me inclino
Para o segredo dito
Pelo silêncio incerto.

Tomo nas m√£os, como caveira, ou chave
De supérfluo sepulcro, o meu destino,
E ignaro o aborreço
Sem coração que o sinta.

Cantiga de Banheiro

A moça vai tomar banho,
banho domiciliar.
A moça não se dispersa
na piscina nem no mar.
A moça entra no banheiro
e torce a chave e o ferrolho
da porta. (H√° na fechadura
um olho que chama outro olho.)
A moça vai tomar banho.
Deixa os chinelos no canto.
Perdeu os itiner√°rios.
Solta os cabelos castanhos.
Fica nua. Dela saltam
peitos agressivos de
bicos rubros, insinuantes,
de leite e amor para as bocas
dos babies e dos amantes.
A moça morena espia
dentro do espelho da pia
a exclusivamente sua
liberta beleza nua.

Comprime-se o espelho quando
a moça se distancia.
Na solid√£o do banheiro,
vê-se emparedada viva
nas paredes de azulejo
e nua fica debaixo
do chuveiro de onde a √°gua
humaniza-se e, acrobata,
d√° um pulo da cascata
doméstica com a intenção
de levar a moça longe,
de fazer um filho pl√°stico
no ventre virgem lambido
de esponja e de sabonete.

Quando a branca toalha asséptica
abriu-se na f√ļria ambiente,

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Anti-Soneto

Ao M√°rio Saa

O nosso drama de portugueses,
O nosso maior drama entre os maiores
Dos dramas portugueses,
√Č este apego heredit√°rio √† Forma:
Ao modo de dizer, aos pontinhos nos ii,
Às vírgulas certas, às quadras perfeitas,
À estilística, à estética, à bombástica,
À chave de ouro do soneto vazio
– Que p√Ķe molezas de escravatura
Por dentro do que pensamos
Do que sentimos
Do que escrevemos
Do que fazemos
Do que mentimos.

Amor a Amor Nos Convida

Com dura e branda cadeia,
Com facho activo e suave,
De seus mist√©rios co’a chave,
Amor entre nós volteia:
J√° deprime, j√° gloreia,
J√° d√° morte, j√° d√° vida;
E nesta incessante lida,
Que em si traz, que em si contém,
Com o mal, e com o bem,
Amor a amor nos convida.

Cerimónia Funesta

O corpo n√£o responde
às vozes de comando,
como um c√£o estropiado
j√° desdenha os apelos
os antigos convites
às funestas moradas,
esqueceu-se do ponto
vai olvidando senhas
os códigos das grutas
acumulando lixos
as servid√Ķes austeras
diluem-se num canto
o corpo n√£o atende chamadas
não estremece ao ruído da chave
n√£o suporta
qualquer intromiss√£o
secou num aterro,
os restos à vista
a memória escava
da lembrança os rastos
avidamente suga
de tal fausto os ossos,
de tão vitais cerimónias
nos t√£o secretos barcos
mesmo o pouco que resta
ainda se mastiga.