Textos sobre Mortos

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Textos de mortos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Os Deuses Reclinados

… Por todos os lados as est√°tuas de Buda, de Lorde Buda… As severas, verticais, carcomidas est√°tuas, com um dourado de resplendor animal, com uma dissolu√ß√£o como se o ar as desgastasse… Crescem-lhes nas faces, nas pregas das t√ļnicas, nos cotovelos, nos umbigos, na boca e no sorriso pequenas m√°culas: fungos, porosidades, vest√≠gios excrement√≠cios da selva… Ou ent√£o as jacentes, as imensas jacentes, as est√°tuas de quarenta metros de pedra, de granito areento, p√°lidas, estendidas entre as sussurrantes frondes, inesperadas, surgindo de qualquer canto da selva, de qualquer plataforma circundante… Adormecidas ou n√£o adormecidas, est√£o ali h√° cem anos, mil anos, mil vezes mil anos… Mas s√£o suaves, com uma conhecida ambiguidade ultraterrena, aspirando a ficar e a ir-se embora… E aquele sorriso de suav√≠ssima pedra, aquela majestade imponder√°vel, mas feita de pedra dura, perp√©tua, para quem sorriem, para quem, sobre a terra sangrenta?… Passaram as camponesas que fugiam, os homens do inc√™ndio, os guerreiros mascarados, os falsos sacerdotes, os turistas devoradores…

E manteve-se no seu lugar a est√°tua, a imensa pedra com joelhos, com pregas na t√ļnica de pedra, com o olhar perdido e n√£o obstante existente, inteiramente inumana e de alguma forma tamb√©m humana, de alguma forma ou de alguma contradi√ß√£o estatu√°ria,

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Vivemos de Matar

Os vivos alimentam-se e engordam √†s custas dos mortos. √Č a ess√™ncia da natureza. Basta ver os document√°rios sobre a vida selvagem na televis√£o, aves corpulentas arrancando com o bico as tripas das v√≠timas, disputando-as entre si; a leoa de focinho enterrado na carne ensanguentada da zebra. Mas nem √© preciso ir t√£o longe: as prateleiras dos supermercados s√£o deprimentes cemit√©rios: paletes de cordeiro morto, ossos e costeletas de boi esfaqueado, v√≠sceras de vaca sacrificada, lombo de porco eletrocutado, tudo isso em embalagens fabricadas com restos de √°rvores abatidas. Vivemos do que matamos. Vivemos de matar, ou do que nos √© servido morto: os herdeiros consomem os despojos do predecessor, e isso nutre-os, fortalece-os no momento de levantar voo. Quanto maior a quantidade de carne consumida, mais alto e majestoso o voo. E mais elegante, claro. Nada que seja alheio √†s regras da natureza.

Miser√°veis Macabros

√Č que n√£o foram t√£o poucas como isso as vezes que vi a piedade enganar-se. N√≥s, que governamos os homens, aprendemos a sondar-lhes os cora√ß√Ķes, para s√≥ ao objecto digno de estima dispensarmos a nossa solicitude. Mais n√£o fa√ßo do que negar essa piedade √†s feridas de exibi√ß√£o que comovem o cora√ß√£o das mulheres. Assim como tamb√©m a nego aos moribundos, e al√©m disso aos mortos. E sei bem porqu√™.
Houve uma altura da minha mocidade em que senti piedade pelos mendigos e pelas suas √ļlceras. At√© chegava a apalavrar curandeiros e a comprar b√°lsamos por causa deles. As caravanas traziam-me de uma ilha long√≠nqua unguentos derivados do ouro, que t√™m a virtude de voltar a compor a pele ao cimo da carne. Procedi assim at√© descobrir que eles tinham como artigo de luxo aquele insuport√°vel fedor. Surpreendi-os a co√ßar e a regar com bosta aquelas p√ļstulas, como quem estruma uma terra para dela extrair a flor cor de p√ļrpura. Mostravam orgulhosamente uns aos outros a sua podrid√£o e gabavam-se das esmolas recebidas.
Aquele que mais ganhara comparava-se a si pr√≥prio ao sumo sacerdote que exp√Ķe o √≠dolo mais prendado. Se consentiam em consultar o meu m√©dico, era na esperan√ßa de que o cancro deles o surpreendesse pela pestil√™ncia e pelas propor√ß√Ķes.

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Neruda e García Lorca em Homenagem a Rubén Dario

Eis o texto do discurso:

Neruda: Senhoras…

Lorca: …e senhores. Existe na lide dos touros uma sorte chamada ¬ętoreio dei alim√≥n¬Ľ, em que dois toureiros furtam o corpo ao touro protegidos pela mesma capa.

Neruda: Federico e eu, ligados por um fio eléctrico, vamos emparelhar e responder a esta recepção tão significativa.

Lorca: √Č costume nestas reuni√Ķes que os poetas mostrem a sua palavra viva, prata ou madeira, e sa√ļdem com a sua voz pr√≥pria os companheiros e amigos.

Neruda: Mas n√≥s vamos colocar entre v√≥s um morto, um comensal vi√ļvo, escuro nas trevas de uma morte maior que as outras mortes, vi√ļvo da vida, da qual foi na sua hora um marido deslumbrante. Vamos esconder-nos sob a sua sombra ardente, vamos repetir-lhe o nome at√© que a sua grande for√ßa salte do esquecimento.

Lorca: N√≥s, depois de enviarmos o nosso abra√ßo com ternura de pinguim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lan√ßar um grande nome sobre a toalha, na certeza de que v√£o estalar as ta√ßas, saltar os garfos, buscando o olhar que todos anseiam, e que um golpe de mar h√°-de manchar as toalhas. N√≥s vamos evocar o poeta da Am√©rica e da Espanha: Rub√©n…

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Emoção e Poesia

Quem quer que seja de algum modo um poeta sabe muito bem qu√£o mais f√°cil √© escrever um bom poema (se os bons poemas se acham ao alcance do homem) a respeito de uma mulher que lhe interessa muito do que a respeito de uma mulher pela qual est√° profundamente apaixonado. A melhor esp√©cie de poema de amor √©, em geral, escrita a respeito de uma mulher abstracta. Uma grande emo√ß√£o √© por demais ego√≠sta; absorve em si pr√≥pria todo o sangue do esp√≠rito, e a congest√£o deixa as m√£os demasiado frias para escrever. Tr√™s esp√©cies de emo√ß√Ķes produzem grande poesia – emo√ß√Ķes fortes, por√©m r√°pidas, captadas para a arte t√£o logo passaram; emo√ß√Ķes fortes e profundas ao serem lembradas muito tempo depois; e emo√ß√Ķes falsas, isto √©, emo√ß√Ķes sentidas no intelecto. N√£o a insinceridade, mas sim, uma sinceridade traduzida, √© a base de toda a arte.
O grande general que pretende ganhar uma batalha para o império do seu país e para a história do seu povo não deseja Рnão pode desejar ter muitos dos seus soldados assassinados (mortos). Contudo, uma vez que tenha penetrado na contemplação da sua estratégia, escolherá (sem um pensamento para os seus homens) o golpe melhor,

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Arrumar os Mortos

√Č preciso que compreendam: n√≥s n√£o temos compet√™ncia para arrumarmos os mortos no lugar do eterno.
Os nossos defuntos desconhecem a sua condição definitiva: desobedientes, invadem-nos o quotidiano, imiscuem-se do território onde a vida deveria ditar sua exclusiva lei.
A mais séria consequência desta promiscuidade é que a própria morte, assim desrespeitada pelos seus inquilinos, perde o fascínio da ausência total.
A morte deixa de ser a mais incurável e absoluta diferença entre os seres.

A Sabedoria do Homem Comum

Os ignorantes e o homem comum n√£o t√™m problemas. Para eles na Natureza tudo est√° como deve estar. Eles compreendem as coisas pela simples raz√£o delas existirem. E, na realidade, n√£o d√£o eles provas de mais raz√£o do que todos os sonhadores, que chegam a duvidar do seu pr√≥prio pensamento? Morre um dos seus amigos, e como julgam saber o que √© a morte √† dor que sentem por o perderem n√£o acrescentam a cruel ansiedade que resulta da impossibilidade de aceitar um acontecimento t√£o natural… Estava vivo, e agora encontra-se morto; falava-me, o seu esp√≠rito prestava aten√ß√£o ao que eu lhe dizia, mas hoje j√° nada disso existe: resta apenas aquele t√ļmulo – mas repousa ele nesse t√ļmulo, t√£o frio como a pr√≥pria sepultura? Erra a sua alma em redor desse monumento? Quando eu penso nele √© a sua alma que vem assolar a minha mem√≥ria? O h√°bito traz-nos de novo, contudo, ao n√≠vel do homem comum.
Quando o seu rasto se tiver apagado – n√£o h√° d√ļvidas de que ele morreu! – ent√£o a coisa deixar√° de nos incomodar. Os s√°bios e os pensadores parecem portanto menos avan√ßados que o homem comum, j√° que eles pr√≥prios n√£o t√™m a certeza,

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Originalidade Verdadeira e Originalidade Falseada

Em Arte, √© vivo tudo o que √© original. √Č original tudo o que prov√©m da parte mais virgem, mais verdadeira e mais √≠ntima duma personalidade art√≠stica. A primeira condi√ß√£o duma obra viva √© pois ter uma personalidade e obedecer-lhe. Ora como o que personaliza um artista √©, ao menos superficialmente, o que o diferencia dos demais, (artistas ou n√£o) certa sinon√≠mia nasceu entre o adjectivo original e muitos outros, ao menos superficialmente aparentados; por exemplo: o adjectivo exc√™ntrico, estranho, extravagante, bizarro… Eis como √© falsa toda a originalidade calculada e astuciosa.
Eis como tamb√©m pertence √† literatura morta aquela em que um autor pretende ser original sem personalidade pr√≥pria. A excentricidade, a extravag√Ęncia e a bizarria podem ser poderosas – mas s√≥ quando naturais a um dado temperamento art√≠stico. Sobre outras qualidades, o produto desses temperamentos ter√° o encanto do raro e do imprevisto. Afectadas, semelhantes qualidades n√£o passar√£o dum truque liter√°rio.

Entender, mais pelo Sentir que pela Raz√£o

Uma verdade só o é quando sentida Рnão quando apenas entendida. Ficamos gratos a quem no-la demonstra para nos justificarmos como humanos perante os outros homens e entre eles nós mesmos. Mas a força dessa verdade está na força irrecusável com que nos afirmamos quem somos antes de sabermos porquê.
Assim nos é necessário estabelecer a diferença entre o que em nós é centrífugo e o que apenas é centrípeto. Nós somos centrifugamente pela irrupção inexorável de nós com tudo o que reconhecido ou não Рe de que serve reconhecê-lo ou não? Рcomo centripetamente provindo de fora, se nos recriou dentro no modo absoluto e original de se ser.
S√≥ assim entenderemos que da ¬ędiscuss√£o¬Ľ quase nunca nas√ßa a ¬ęluz¬Ľ, porque a luz que nascer √© normalmente a de duas pedras que se chocam. Da discuss√£o n√£o nasce a luz, porque a luz a nascer seria a que iluminasse a obscuridade de n√≥s, a profundeza das nossas sombras profundas.
Decerto uma ideia que nos semeiem pode germinar e por isso as ideias √© necess√°rio que no-las semeiem. Mas a sua fertilidade n√£o est√° na nossa m√£o ou na estrita qualidade da ideia semeada, porque o que somos profundamente s√≥ se altera quando isso que somos o quer –

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O Segredo de Salvar-me Pelo Amor

Quem há aí que possa o cálix
De meus l√°bios apartar?
Quem, nesta vida de penas,
Poder√° mudar as cenas
Que ningu√©m p√īde mudar ?

Quem possui na alma o segredo
De salvar-me pelo amor?
Quem me dar√° gota de √°gua
Nesta angustiosa fr√°gua
De um deserto abrasador?

Se alguém existe na terra
Que tanto possa, és tu só!
Tu só, mulher, que eu adoro,
Quando a Deus piedade imploro,
E a ti peço amor e dó.

Se soubesses que tristeza
Enluta meu coração,
Terias nobre vaidade
Em me dar felicidade,
Que eu busquei no mundo em v√£o.

Busquei-a em tudo na terra,
Tudo na terra mentiu!
Essa estrela carinhosa
Que luz √† inf√Ęncia ditosa
Para mim nunca luziu.

Infeliz desde criança
Nem me foi risonha a fé;
Quando a terra nos maltrata,
Caprichosa, acerba e ingrata,
Céu e esperança nada é.

Pois a ventura busquei-a
No vivo anseio do amor,
Era ardente a minha alma;
Conquistei mais de uma palma
À custa de muita dor.

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Aprender a Escrita pela Leitura

Ao lermos um autor, não temos a capacidade de adquirir as suas eventuais qualidades, como o poder de convencimento, a riqueza de imagens, o dom da comparação, a ousadia, ou o amargor, ou a concisão, ou a graça, ou a leveza da expressão, ou o espírito arguto, contrastes surpreendentes, laconismo, ingenuidade e outras semelhantes. No entanto, podemos evocar em nós mesmos tais qualidades, tornarmo-nos conscientes da sua existência, caso já tenhamos alguma predisposição para elas, ou seja, caso as tenhamos potentia; podemos ver o que é possível fazer com elas, podemos sentir-nos confirmados na nossa tendência, ou melhor, encorajados a empregar tais qualidades; com base em exemplos, podemos julgar o efeito da sua aplicação e assim aprender o seu uso correcto; somente então as possuímos também actu.
Esta √©, portanto, a √ļnica maneira na qual a leitura nos torna aptos para escrever, na medida em que nos ensina o uso que podemos fazer dos nossos pr√≥prios dons naturais; portanto, pressupondo sempre a exist√™ncia destes. Por outro lado, sem esses dons, n√£o aprendemos nada com a leitura, excepto a maneira fria e morta, e tornamo-nos imitadores banais.

O País é Pequeno e a Gente que nele Vive também não é Grande

Em tempos disse que Portugal estava culturalmente morto. Talvez o tenha dito em determinado momento, mas tamb√©m o diria hoje porque Portugal n√£o tem ideias de futuro, nenhuma ideia do futuro portugu√™s, nem uma ideia que seja sua, e vai navegando ao sabor da corrente. A cultura, apesar de tudo, tem sobrevivido e √© aquilo que pode dar do pa√≠s uma imagem aberta e positiva em todos os aspectos, seja no cinema, na literatura ou na arte – temos grandes pintores que andam espalhados pelo mundo. Mas o Almeida Garrett definiu-nos de uma vez para sempre e de uma maneira que se tem de reconhecer que √© uma radiografia de corpo inteiro: ¬ęO pa√≠s √© pequeno e a gente que nele vive tamb√©m n√£o √© grande.¬Ľ √Č tremenda esta defini√ß√£o, mas se tivermos ocasi√£o de verificar, desde o tempo do Almeida Garrett e, projectando para tr√°s, efectivamente o pa√≠s √© pequeno (…), mas o que est√° em causa n√£o √© o tamanho f√≠sico do pa√≠s mas a dimens√£o espiritual e mental dos seus habitantes.

Tirar Proveito da Vida

Tudo o que viveis, estais roubando à vida, e à custa dela. O trabalho contínuo da vossa vida é construir a morte. Estais na morte enquanto estais em vida, pois estais após a morte quando já não estais em vida. Ou, se assim preferis, estais morto após a vida; mas durante a vida estais moribundo, e a morte toca bem mais rudemente o moribundo que o morto, e mais vivamente e essencialmente.
Se tiraste proveito da vida, estais saciado; podeis sair dela satisfeito, Por que n√£o sair da vida como conviva saciado? (Lucr√©cio), se n√£o soubeste fazer uso dela, se ela vos era in√ļtil, que vos importa t√™-la perdido, para que a quereis ainda? Por que desejar multiplicar dias que do mesmo jeito deixarias perder miseravelmente e que desapareceriam totalmente sem proveito? (Lucr√©cio). A vida por si s√≥ n√£o √© nem bem nem mal: √© o lugar do bem e do mal conforme a fazeis para eles.

O Inferno de Ser Eu

Ficarei o Inferno de ser Eu, a Limita√ß√£o Absoluta, Expuls√£o-Ser do Universo long√≠nquo! Ficarei nem Deus, nem homem, nem mundo, mero v√°cuo-pessoa, infinito de Nada consciente, pavor sem nome, exilado do pr√≥prio mist√©rio, da pr√≥pria Vida. Habitarei eternamente o deserto morto de mim, erro abstracto da cria√ß√£o que me deixou atr√°s. Arder√° em mim eternamente, inutilmente, a √Ęnsia (est√©ril) do regresso a ser.
N√£o poderei sentir porque n√£o terei mat√©ria com que sinta, n√£o poderei respirar alegria, ou √≥dio, ou horror, porque n√£o tenho nem a faculdade com que o sinta, consci√™ncia abstracta no inferno do n√£o conter nada, n√£o-Conte√ļdo Absoluto, [Sufoca√ß√£o] absoluta e eterna! Oco de Deus, sem universo, (…).

O Maior Amor e as Coisas que Se Amam

Tomara poder desempenhar-me, sem hesita√ß√Ķes nem ansiedades, deste mandato subjectivo cuja execu√ß√£o por demorada ou imperfeita me tortura e dormir descansadamente, fosse onde fosse, pl√°tano ou cedro que me cobrisse, levando na alma como uma parcela do mundo, entre uma saudade e uma aspira√ß√£o, a consci√™ncia de um dever cumprido.

Mas dia a dia o que vejo em torno meu me aponta novos deveres, novas responsabilidades da minha intelig√™ncia para com o meu senso moral. Hora a hora a (…) que escreve as s√°tiras surge col√©rica em mim. Hora a hora a express√£o me falha. Hora a hora a vontade fraqueja. Hora a hora sinto avan√ßar sobre mim o tempo. Hora a hora me conhe√ßo, m√£os in√ļteis e olhar amargurado, levando para a terra fria uma alma que n√£o soube contar, um cora√ß√£o j√° apodrecido, morto j√° e na estagna√ß√£o da aspira√ß√£o indefinida, inutilizada.

Nem choro. Como chorar? Eu desejaria poder querer (desejar) trabalhar, febrilmente trabalhar para que esta p√°tria que v√≥s n√£o conheceis fosse grande como o sentimento que eu sinto quando n’ela penso. Nada fa√ßo. Nem a mim mesmo ouso dizer: amo a p√°tria, amo a humanidade. Parece um cinismo supremo. Para comigo mesmo tenho um pudor em diz√™-lo.

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Fim-de-Semana em Casa

√Č s√°bado. √Č Inverno. √Č dia de acastelar. Sa√≠mos com sacos, ¬ętupper-wares¬Ľ, rolos de notas e troco, listas.
Vamos aos mercados, às lojas, aos restaurantes. O objectivo é enchermo-nos de víveres, jornais e revistas, queijinhos frescos, nozes e avelãs, coentros e beringelas, feijoadas de chocos e caldeiradas, velharias, bolos e pilhas sobressalentes.
S√≥ o bastante para nos acastelarmos em casa, repimp√Ķes, com tudo ao nosso alcance, at√© √† long√≠nqua segunda-feira. Dia em que sa√≠remos – talvez – quando todos os forasteiros e fim-de-semaneiros tiverem voltado para casa deles.
Não temos um fosso ou sequer um ferrolho na porta Рmas corremo-lo à mesma, idealmente, tropeçando de verdade nas cabeças de alhos-porros e nas ramas das beterrabas, protuberando dos sacos de plástico deitados, mortos, no chão da cozinha.
Ser√° a mentalidade medieval do campismo ou o ideal ¬ęhippy¬Ľ da auto-sufici√™ncia? N√£o. Constitui a√ßambarcamento? √Č anti-social? Tamb√©m n√£o. √Č apenas o prazer do ninho. Com ameias.
Quanto pior o tempo, melhor sabe fecharmo-nos no nosso castelinho, seguros que estamos abastecidos, de tudo, para dois dias inteiros, prontos para sobrevivermos alegremente até ao fim do fim-de-semana. Cá nos acastelamos e cá nos vamos arranjando.
Noutra dimensão, graças a compras sabichonas,

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Causas e Curas para o Fanatismo

O fanatismo √© para a supersti√ß√£o o que o del√≠rio √© para a febre, o que √© a raiva para a c√≥lera. Aquele que tem √™xtases, vis√Ķes, que considera os sonhos como realidades e as imagina√ß√Ķes como profecias √© um entusiasta; aquele que alimenta a sua loucura com a morte √© um fan√°tico. (…) O mais detest√°vel exemplo de fanatismo √© aquele dos burgueses de Paris que correram a assassinar, degolar, atirar pelas janelas, despeda√ßar, na noite de S√£o Bartolomeu, os seus concidad√£os que n√£o iam √† missa. H√° fan√°ticos de sangue frio: s√£o os juizes que condenam √† morte aqueles cujo √ļnico crime √© n√£o pensar como eles. Quando uma vez o fanatismo gangrenou um c√©rebro a doen√ßa √© quase incur√°vel. Eu vi convulsion√°rios que, falando dos milagres de S. P√°ris, sem querer se acaloravam cada vez mais; os seus olhos encarni√ßavam-se, os seus membros tremiam, o furor desfigurava os seus rostos e teriam morto quem quer que os houvesse contrariado.
Não há outro remédio contra essa doença epidémica senão o espírito filosófico que, progressivamente difundido, adoça enfim a índole dos homens, prevenindo os acessos do mal porque, desde que o mal fez alguns progressos, é preciso fugir e esperar que o ar seja purificado.

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As Realidades do Sonho

O sonho √© a explos√£o dos s√ļbditos na aus√™ncia do rei. Se o homem fosse um ser √ļnico, n√£o sonharia. Mas cada um de n√≥s √© uma tribo em que somente um chefe tem os privil√©gios da vida iluminada. O chefe √© a pessoa reconhecida pelos semelhantes, o ¬ęmim¬Ľ legal da sociedade e da raz√£o, obrigado a uma concord√Ęncia fixa consigo mesmo. S√≥ ele tem rela√ß√Ķes expressas com o mundo exterior e o √ļnico a reinar nas horas de vig√≠lia. Mas abaixo dele h√° um pequeno povo de cadetes expulsos, de insurrectos punidos, de h√≥spedes indesej√°veis – exilados da zona da consci√™ncia, mas donos do subconsciente, encerrados no subterr√£neo, mas prontos para a evas√£o, vencidos mas n√£o mortos. H√° a crian√ßa que foi renegada pelo jovem, o delinquente imobilizado pela moral e a lei, o louco que todos os dias estende armadilhas √† raz√£o raciocinadora, o poeta que a pr√°tica condenou ao sil√™ncio, o bobo dominado pelas amarguras, o antepassado b√°rbaro que ainda se recorda do machado de pedra e dos festins de Tiestes.
O eu quotidiano e vulgar, o respeit√°vel, o vigilante, o vitorioso, dominou essa tribo de larvas inimigas, de irm√£os renegados e moribundos. E como a alma tem o seu subsolo,

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A Vida Oblíqua

S√≥ agora pressenti o obl√≠quo da vida. Antes s√≥ via atrav√©s de cortes retos e paralelos. N√£o percebia o sonso tra√ßo enviesado. Agora adivinho que a vida √© outra. Que viver n√£o √© s√≥ desenrolar sentimentos grossos ‚ÄĒ √© algo mais sortil√©gico e mais gr√°cil, sem por isso perder o seu fino vigor animal. Sobre essa vida insolitamente enviesada tenho posto minha pata que pesa, fazendo assim com que a exist√™ncia fene√ßa no que tem de obl√≠quo e fortuito e no entanto ao mesmo tempo sutilmente fatal. Compreendi a fatalidade do acaso e n√£o existe nisso contradi√ß√£o.

A vida oblíqua é muito íntima. Não digo mais sobre essa intimidade para não ferir o pensar-sentir com palavras secas. Para deixar esse oblíquo na sua independência desenvolta.
E conheço também um modo de vida que é suave orgulho, graça de movimentos, frustração leve e contínua, de uma habilidade de esquivança que vem de longo caminho antigo. Como sinal de revolta apenas uma ironia sem peso e excêntrica. Tem um lado da vida que é como no inverno tomar café num terraço dentro da friagem e aconchegada na lã.
Conheço um modo de vida que é sombra leve desfraldada ao vento e balançando leve no chão: vida que é sombra flutuante,

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