Textos sobre Mortos

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Textos de mortos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Quer-te Muito a Tua Mulherzinha

Recebi ontem à noite o telegrama que mandaste da Foz. Desejo que tivesses encontrado tudo bem na nossa casinha. Espero com ansiedade a primeira cartinha tua que já cá devia estar. Estou a escrever-te sentada a uma janela com o papel em cima dum livro e o tinteiro no chão; é 1 hora e meia, a hora de ir até às galinhas a ver se já havia algum ovo.

Há quanto tempo isso foi! Escreve para cá só até ao dia 23 ou 24 porque dia 26 pela manhã partimos para Vila Viçosa. O carnaval é dia 8 e já vejo que para minha desgraça o vou passar no covil enjaulada como as feras perigosas. Pouca sorte a da pobre Bela! Não posso ainda hoje falar com o advogado nem amanhã que é domingo, de forma que só segunda-feira te poderei dizer qualquer coisa a esse respeito. Há só um comboio dia sim dia não para Lisboa de forma que não estranhes nem te inquietes por alguma pequena demora na correspondência.
A√≠ vai um belo soneto que as saudades tuas me trouxeram ontem; s√≥ quando estou triste sei fazer versos com jeito como esses. Provavelmente n√£o gostas…

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Nunca Competir

Toda a pretens√£o com oposi√ß√£o prejudica o cr√©dito; a competi√ß√£o tira logo a desdourar, para deslustrar. S√£o poucos os que fazem boa guerra. A emula√ß√£o descobre os defeitos que a cortesia esqueceu; muitos viveram acreditados enquanto n√£o tiveram advers√°rios. O calor da contesta√ß√£o aviva ou ressuscita inf√Ęmias mortas, desenterra hediondezas passadas e antepassadas. Come√ßa a competi√ß√£o com manifestos de desdouros, socorrendo-se de tudo o que pode e n√£o deve; e, ainda que √†s vezes, e no mais das vezes, as ofensas n√£o sejam armas proveitosas, delas tira vil satisfa√ß√£o para sua vingan√ßa, e esta sacode com tais ares que faz saltar pelos desares o p√≥ do esquecimento. Sempre foi pac√≠fica a benevol√™ncia e ben√©vola a reputa√ß√£o.

Os Livros S√£o Janelas

Vi um livro no lixo e arrepiei-me pensando que h√° livros que nascem mortos. Pode-se viver sem ler ? Quem n√£o l√™ n√£o entra no rio da hist√≥ria e quem l√™ √© como o mar onde desaguam muitos rios. Comprar um livro √© sempre como a primeira vez, como quem marca um encontro para receber uma confid√™ncia. Uma casa sem livros est√° desabitada, √© uma pens√£o… Os livros s√£o janelas. Hoje vou abrir uma delas.

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O Bem e o Mal

Quando os acontecimentos nos colocam em oposi√ß√£o ao meio envolvente, todos desenvolvemos as for√ßas de que dispomos, ao passo que nas situa√ß√Ķes em que apenas fazemos o nosso dever nos comportamos, compreensivelmente, como quem paga os seus impostos. Daqui se conclui que tudo o que √© mau se pratica com mais ou menos imagina√ß√£o e paix√£o, enquanto o bem se caracteriza por uma inconfund√≠vel pobreza de afecto e mesquinhez.
(…) Se abstrairmos daquela grande fatia central do mundo e da vida ocupada por pessoas em cujo pensamento as palavras bem e mal deixaram de ter lugar desde que largaram as saias da m√£e, ent√£o as margens, onde ainda h√° prop√≥sitos morais deliberados, ficam hoje reservadas √†quelas pessoas boas-m√°s ou m√°s-boas, das quais algumas nunca viram o bem voar nem o ouviram cantar e por isso exigem de todas as outras que se extasiem com elas diante de uma natureza da moral com p√°ssaros empalhados pousados em √°rvores mortas; o segundo grupo, por seu lado, os mortais maus-bons, espica√ßados pelos seus rivais, manifestam, pelo menos em pensamento, uma tend√™ncia para o mal, como se estivessem convencidos de que √© apenas nas m√°s ac√ß√Ķes, menos desgastadas do que as boas, que ainda pulsa alguma vida moral.

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A Vida em Pleno

Diariamente criticamos o destino: “Porque foi este homem arrebatado a meio da carreira? E aquele, porque n√£o morre, em vez de prolongar uma velhice t√£o penosa para ele como para os outros?” Diz-me c√°, por favor: o que achas tu mais justo, seres tu a obedecer √† natureza ou a natureza a ti? Que diferen√ßa faz sair mais ou menos depressa de um s√≠tio de onde temos mesmo de sair? N√£o nos devemos preocupar em viver muito, mas sim em viver plenamente; viver muito depende do destino, viver plenamente, da nossa pr√≥pria alma. Uma vida plena √© longa quanto basta; e ser√° plena se a alma se apropria do bem que lhe √© pr√≥prio e se apenas a si reconhece poder sobre si mesma. Que interessa os oitenta anos daquele homem passados na inac√ß√£o? Ele n√£o viveu, demorou-se nesta vida; n√£o morreu tarde, levou foi muito tempo a morrer! “Viveu oitenta anos!”. O que importa √© ver a partir de que data ele come√ßou a morrer. “Mas aquele outro morreu na for√ßa da vida”. √Č certo, mas cumpriu os deveres de um bom cidad√£o, de um bom amigo, de um bom filho, sem descurar o m√≠nimo pormenor; embora o seu tempo de vida ficasse incompleto,

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O Caminho da Salvação

A cegueira e a obstina√ß√£o dos homens lembra-me √†s vezes a cegueira e a obstina√ß√£o das varejeiras enfrenizadas contra as vidra√ßas. Bastava um momento de serenidade, dez-r√©is de bom senso, e em qualquer fresta estava a liberdade. Mas o dem√≥nio da mosca, quanto mais a impossibilidade se lhe p√Ķe diante, mais teima. O resultado √© cair morta no peitoril.
Não se pode fazer ideia da maravilha de criança que era a filha de um poeta de meia tigela que hoje me lia versos impossíveis, a empurrá-la enfastiado com a mão esquerda, quando ela graciosamente o interrompia. A canção enluarada, a quadra perfeita, o soneto verdadeiro que justificavam aquele homem estavam ali, a brilhar nos olhos da pequenita; e o desgraçado às turras à janela, a zumbir e a magoar-se, sem ver que tinha diante de si o verdadeiro caminho da salvação!

Somos Uma Nação Que Se Regenera

Que somos n√≥s hoje? Uma na√ß√£o que tende a regenerar-se: diremos mais: que se regenera. Regenera-se, porque se repreende a si pr√≥pria; porque se revolve no loda√ßal onde dormia tranquila; porque se irrita da sua decad√™ncia, e j√° n√£o sorri sem vergonha ao insultar de estranhos; porque principia, enfim, a reconhecer que o trabalho n√£o desonra, e vai esquecendo as visagens senhoris de fidalga. Deixai passar essas paix√Ķes pequenas e m√°s que combatem na arena pol√≠tica, deixai flutuar √† luz do sol na superf√≠cie da sociedade esses cora√ß√Ķes cancerosos que a√≠ vedes; deixai erguerem-se, tombar, despeda√ßarem-se essas vagas encontradas e confusas das opini√Ķes! Tudo isto acontece quando se agita o oceano; e o mar do povo agita-se debaixo da sua superf√≠cie. O sarga√ßo imundo, a escuma f√©tida e turva h√£o-de desparecer. Um dia o oceano popular ser√° grandioso, puro e sereno como saiu das m√£os de Deus. A tempestade √© a precusora da bonan√ßa. O lago asfaltite, o Mar Morto, esse √© que n√£o tem procelas.
O nosso estrebuchar, muitas veze col√©rico, muitas mais mentecapto e rid√≠culo, prova que a Europa se enganava quando cria que esta nobre terra do √ļltimo ocidente era o cemit√©rio de uma na√ß√£o cad√°ver.

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N√£o Penses

N√£o penses. Que raio de mania essa de estares sempre a querer pensar. Pensar √© trocar uma flor por um silogismo, um vivo por um morto. Pensar √© n√£o ver. Olha apenas, v√™. Est√° um dia enorme de sol. Talvez que de noite, acabou-se, como diz o fil√≥sofo da ave de Minerva. Mas n√£o agora. H√° alegria bastante para se n√£o pensar, que √© coisa sempre triste. Olha, escuta. Nas passagens de n√≠vel, havia um aviso de ¬ępare, escute, olhe¬Ľ com vistas ao atropelo dos comboios. √Č o aviso que devia haver nestes dias magn√≠ficos de sol. Olha a luz. Escuta a alegria dos p√°ssaros. N√£o penses, que √© sacril√©gio.

Quem Aprendeu a Morrer Desaprendeu de Servir

Os homens v√£o, v√™m, andam, dan√ßam, e nenhuma not√≠cia de morte. Tudo isso √© muito bonito. Mas, tamb√©m quando ela chega, ou para eles, ou para as suas mulheres, filhos e amigos, surpreendendo-os imprevistamente e sem defesa, que tormentos, que gritos, que dor e que desespero os abatem! J√° vistes algum dia algo t√£o rebaixado, t√£o mudado, t√£o confuso? √Č preciso preparar-se mais cedo para ela; e essa despreocupa√ß√£o de animal, caso pudesse instalar-se na cabe√ßa de um homem inteligente, o que considero inteiramente imposs√≠vel, vende-nos caro demais a sua mercadoria. Se fosse um inimigo que pud√©ssemos evitar, eu aconselharia a adoptar as armas da cobardia. Mas, como isso n√£o √© poss√≠vel, como ele vos alcan√ßa fugitivo e poltr√£o tanto quanto corajoso, De facto ele persegue o cobarde que lhe foge, e n√£o poupa os jarretes e o dorso poltr√£o de uma juventude sem coragem (Hor√°cio), e que nenhuma ilus√£o de coura√ßa vos encobre, In√ļtil esconder-se prudentemente sob o ferro e o bronze: a morte saber√° fazer-se exp√īr √† cabe√ßa que se esconde (Prop√©rcio), aprendamos a enfrent√°-lo de p√© firme e a combat√™-lo. E, para come√ßar a roubar-lhe a sua maior vantagem contra n√≥s, tomemos um caminho totalmente contr√°rio ao habitual.

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A Inveja n√£o tem Passado

Ainda não tendes advertido, que a inveja faz grande diferença dos mortos aos vivos, e dos presentes aos passados? Os olhos da inveja são como os do Sacerdote Heli, dos quais diz o Texto sagrado, que não podiam ver a luz do Templo, senão depois que se apagava: Oculi ejus caligaverant, nec poterat videre lucernam Dei, antequam extingueretur. Enquanto as luzes são vivas, cada reflexo delas é um raio, que cega os olhos da inveja: porém depois que elas se apagaram, e muito mais se se metem largos anos em meio, então abre a inveja, como ave nocturna, os olhos; então vê o que não podia ver: então venera e celebra essas mesmas luzes, e levanta sobre as Estrelas seus resplendores. Por isso disse com grande juízo S. Zeno Veronense, que todo o invejoso é inimigo dos presentes, e amigo dos passados: In omnibus se inimicum praesentium servat, amicum vero pereuntium. Os mesmos que agora amam, e veneram tanto a Santo António, se viveram em seu tempo, o haviam de aborrecer e perseguir; e as mesmas maravilhas, que tanto celebram e encarecem, se foram obradas na sua Pátria, as haviam de escurecer e aniquilar.

A Morte N√£o √Č Nada Para N√≥s

Habitua-te a pensar que a morte n√£o √© nada para n√≥s, pois que o bem e o mal s√≥ existem na sensa√ß√£o. Donde se segue que um conhecimento exacto do facto de a morte n√£o ser nada para n√≥s permite-nos usufruir esta vida mortal, evitando que lhe atribuamos uma id√©ia de dura√ß√£o eterna e poupando-nos o pesar da imortalidade. Pois nada h√° de tem√≠vel na vida para quem compreendeu nada haver de tem√≠vel no facto de n√£o viver. √Č pois, tolo quem afirma temer a morte, n√£o porque sua vinda seja tem√≠vel, mas porque √© tem√≠vel esper√°-la.
Tolice afligir-se com a espera da morte, pois trata-se de algo que, uma vez vindo, não causa mal. Assim, o mais espantoso de todos os males, a morte, não é nada para nós, pois enquanto vivemos, ela não existe, e quando chega, não existimos mais.
Não há morte, então, nem para os vivos nem para os mortos, porquanto para uns não existe, e os outros não existem mais. Mas o vulgo, ou a teme como o pior dos males, ou a deseja como termo para os males da vida. O sábio não teme a morte, a vida não lhe é nenhum fardo,

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A Vaidade e a Inveja Desaparecem com a Idade

Com o passar do tempo, h√° dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja √© um sentimento horr√≠vel. Ningu√©m sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milion√°rio Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: ¬ęQuanto √© que ele deixou?¬Ľ O advogado respondeu: ¬ęDeixou tudo.¬Ľ Ningu√©m √© mais pobre do que os mortos.

Compaixão Mórbida

Todos os dias desfa√ßo-me, por via da raz√£o, desse sentimento pueril e inumano que faz que desejemos que os nossos males suscitem a compaix√£o e o pesar nos nossos amigos. Fazemos valer os nossos infort√ļnios desproporcionadamente para provocar as suas l√°grimas. E a firmeza face √† m√° fortuna, que louvamos em toda a gente, reprovamo-la e repudiamo-la aos nossos √≠ntimos quando a m√° fortuna √© a nossa. N√£o nos contentamos com que eles sejam sens√≠veis √†s nossas dores, precisamos que com elas se aflijam.
Deve-se espalhar a alegria, mas conter, tanto quanto poss√≠vel, a tristeza. Quem quer ser compadecido sem raz√£o √© homem que n√£o o merece ser quando houver raz√£o para tal. Estar sempre a lamentar-se √© caso para se n√£o ser lamentado, pois quem tantas vezes faz de coitadinho n√£o inspira d√≥ a ningu√©m. Quem faz de morto estando vivo sujeita-se a ser tido por vivo em morrendo. Vi doentes abespinharem-se por os acharem de bom semblante e com o pulso normal, reprimirem o riso porque este denunciava a sua cura e odiarem a sa√ļde por ela n√£o suscitar compaix√£o.

Perfeição é Virtude e não Ausência de Defeitos

A virtude √© a perfei√ß√£o no estado de homem e n√£o a aus√™ncia de defeitos. Se eu quero construir uma cidade, pego na malandragem e na ral√©. O poder h√°-de nobilit√°-las. Ofere√ßo-lhes uma embriaguez, diferente da embriaguez med√≠ocre da rapina, da usura ou da viola√ß√£o. √Č ver aqueles bra√ßos nodosos que edificam. O orgulho vai-se transformando em torres, templos e muralhas. A crueldade torna-se grandeza e rigor na disciplina. E ei-los a servirem uma cidade nascida deles pr√≥prios. Trocaram-se por ela no fundo dos cora√ß√Ķes. E morrer√£o de p√©, nas muralhas, para a salvarem. S√≥ descobrir√°s neles virtudes resplandecentes.
¬ęMas tu, que p√Ķes m√° cara diante do poder da terra, diante da grosseria, da podrid√£o e dos vermes dos homens, come√ßas por pedir ao homem que n√£o seja e que n√£o tenha nem sequer cheiro. Reprovas-lhe a express√£o da sua for√ßa. Instalas capados √† frente do imp√©rio. E eles entram a perseguir o v√≠cio, que n√£o passa de poder mal empregado. √Č o poder e a vida que eles perseguem e, no entanto, tornam-se guardi√Ķes de museu e vigiam um imp√©rio morto¬Ľ

Só a Morte Desperta os Nossos Sentimentos

Não amaremos talvez insuficientemente a vida? Já notou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha?! Como admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra! A homenagem surge, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez eles tivessem esperado de nós, durante a vida inteira. Mas sabe porque nós somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há deveres.

√Č assim o homem, caro senhor, tem duas faces. N√£o pode amar sem se amar. Observe os seus vizinhos, se calha de haver um falecimento no pr√©dio. Dormiam na sua vida mon√≥tona e eis que, por exemplo, morre o porteiro. Despertam imediatamente, atarefam-se, enchem-se de compaix√£o. Um morto no prelo, e o espect√°culo come√ßa, finalmente. T√™m necessidade de trag√©dia, que √© que o senhor quer?, √© a sua pequena transcend√™ncia, √© o seu aperitivo.
√Č preciso que algo aconte√ßa, eis a explica√ß√£o da maior parte dos compromissos humanos. √Č preciso que algo aconte√ßa, mesmo a servid√£o sem amor, mesmo a guerra ou a morte.

Ouvi-los a Todos, no Silêncio

Detesto a ac√ß√£o. A ac√ß√£o mete-me medo. De dia podo as minhas √°rvores, √† noite sonho. Sinto Deus – toco-o. Deus √© muito mais simples do que imaginas. Rodeia-me – n√£o o sei explicar. Terra, mortos, uma poeira de mortos que se ergue em tempestades, e esta m√£o que me prende e sustenta e que tanta for√ßa tem…
Como em ti, há em mim várias camadas de mortos não sei até que profundidade. Às vezes convoco-os, outras são eles, com a voz tão sumida que mal a distingo, que desatam a falar. Preciso da noite eterna: só num silêncio mais profundo ainda, conto ouvi-los a todos.

Os Deuses Reclinados

… Por todos os lados as est√°tuas de Buda, de Lorde Buda… As severas, verticais, carcomidas est√°tuas, com um dourado de resplendor animal, com uma dissolu√ß√£o como se o ar as desgastasse… Crescem-lhes nas faces, nas pregas das t√ļnicas, nos cotovelos, nos umbigos, na boca e no sorriso pequenas m√°culas: fungos, porosidades, vest√≠gios excrement√≠cios da selva… Ou ent√£o as jacentes, as imensas jacentes, as est√°tuas de quarenta metros de pedra, de granito areento, p√°lidas, estendidas entre as sussurrantes frondes, inesperadas, surgindo de qualquer canto da selva, de qualquer plataforma circundante… Adormecidas ou n√£o adormecidas, est√£o ali h√° cem anos, mil anos, mil vezes mil anos… Mas s√£o suaves, com uma conhecida ambiguidade ultraterrena, aspirando a ficar e a ir-se embora… E aquele sorriso de suav√≠ssima pedra, aquela majestade imponder√°vel, mas feita de pedra dura, perp√©tua, para quem sorriem, para quem, sobre a terra sangrenta?… Passaram as camponesas que fugiam, os homens do inc√™ndio, os guerreiros mascarados, os falsos sacerdotes, os turistas devoradores…

E manteve-se no seu lugar a est√°tua, a imensa pedra com joelhos, com pregas na t√ļnica de pedra, com o olhar perdido e n√£o obstante existente, inteiramente inumana e de alguma forma tamb√©m humana, de alguma forma ou de alguma contradi√ß√£o estatu√°ria,

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Vivemos de Matar

Os vivos alimentam-se e engordam √†s custas dos mortos. √Č a ess√™ncia da natureza. Basta ver os document√°rios sobre a vida selvagem na televis√£o, aves corpulentas arrancando com o bico as tripas das v√≠timas, disputando-as entre si; a leoa de focinho enterrado na carne ensanguentada da zebra. Mas nem √© preciso ir t√£o longe: as prateleiras dos supermercados s√£o deprimentes cemit√©rios: paletes de cordeiro morto, ossos e costeletas de boi esfaqueado, v√≠sceras de vaca sacrificada, lombo de porco eletrocutado, tudo isso em embalagens fabricadas com restos de √°rvores abatidas. Vivemos do que matamos. Vivemos de matar, ou do que nos √© servido morto: os herdeiros consomem os despojos do predecessor, e isso nutre-os, fortalece-os no momento de levantar voo. Quanto maior a quantidade de carne consumida, mais alto e majestoso o voo. E mais elegante, claro. Nada que seja alheio √†s regras da natureza.

Miser√°veis Macabros

√Č que n√£o foram t√£o poucas como isso as vezes que vi a piedade enganar-se. N√≥s, que governamos os homens, aprendemos a sondar-lhes os cora√ß√Ķes, para s√≥ ao objecto digno de estima dispensarmos a nossa solicitude. Mais n√£o fa√ßo do que negar essa piedade √†s feridas de exibi√ß√£o que comovem o cora√ß√£o das mulheres. Assim como tamb√©m a nego aos moribundos, e al√©m disso aos mortos. E sei bem porqu√™.
Houve uma altura da minha mocidade em que senti piedade pelos mendigos e pelas suas √ļlceras. At√© chegava a apalavrar curandeiros e a comprar b√°lsamos por causa deles. As caravanas traziam-me de uma ilha long√≠nqua unguentos derivados do ouro, que t√™m a virtude de voltar a compor a pele ao cimo da carne. Procedi assim at√© descobrir que eles tinham como artigo de luxo aquele insuport√°vel fedor. Surpreendi-os a co√ßar e a regar com bosta aquelas p√ļstulas, como quem estruma uma terra para dela extrair a flor cor de p√ļrpura. Mostravam orgulhosamente uns aos outros a sua podrid√£o e gabavam-se das esmolas recebidas.
Aquele que mais ganhara comparava-se a si pr√≥prio ao sumo sacerdote que exp√Ķe o √≠dolo mais prendado. Se consentiam em consultar o meu m√©dico, era na esperan√ßa de que o cancro deles o surpreendesse pela pestil√™ncia e pelas propor√ß√Ķes.

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