Sonetos sobre Inferno

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Sonetos de inferno escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Fruto Envelhecido

Do coração no envelhecido fruto
√Č s√≥ desola√ß√£o e √© s√≥ tortura.
O frio soluçante da amargura
Envolve o coração num fundo luto.

O fantasma da Dor pérfido e astuto
Caminha junto a toda a criatura.
A alma por mais feliz e por mais pura
Tem de sofrer o esmagamento bruto.

√Č preciso humildade, √© necess√°rio
Fazer do coração branco sacrário
E a hóstia elevar do Sentimento eterno.

Em tudo derramar o amor profundo,
Derramar o perd√£o no caos do mundo,
Sorrir ao céu e bendizer o Inferno!

Spleen De Deuses

Oh! D√°-me o teu sinistro Inferno
Dos desesperos tétricos, violentos,
Onde rugem e bramem como os ventos
An√°temas da Dor, no fogo eterno…

D√°-me o teu fascinante, o teu falerno
Dos falernos das l√°grimas sangrentos
Vinhos profundos, venenosos, lentos
Matando o gozo nesse horror do Averno.

Assim o Deus dos P√°ramos clamava
Ao Dem√īnio soturno, e o rebelado,
Capricórnio Satã, ao Deus bradava.

Se és Deus-e já de mim tens triunfado,
Para lavar o Mal do Inferno e a bava
D√°-me o t√©dio senil do c√©u fechado…

Um P√°ssaro a Morrer

Não é vida nem morte, é uma passagem,
nem antes nem depois: somente agora,
um minuto nos tantos duma hora.
Uma pausa. Um intervalo. Uma viragem.

Prisioneira de mim, onde a coragem
de quebrar as algemas, ir-me embora,
se tudo o que em mim ria agora chora,
se j√° n√£o me seduz outra viagem?

E nada disto é céu nem é inferno.
Tristeza, só tristeza. Sol de Inverno,
sem uma flor a abrir na minha m√£o,

sem um b√ļzio a cantar ao meu ouvido.
Só tristeza, um silêncio desmedido
e um pássaro a morrer: meu coração.

Juízo

Quando, nos quatro √Ęngulos da Terra,
Troarem as trombetas ressurgentes,
Despertadoras dos mortais dormentes,
Por onde um Deus irado aos homens berra:

Prontos, num campo, em apinhada serra,
Todos nus assistir devem viventes
Ao Juízo Final e ver, patentes,
Seus delitos, que um livro eterno encerra.

Então, aberto o Céu, e o Inferno aberto,
Todos ali ver√£o: e a sorte imensa
Duma m√°goa sem fim, dum gozo certo.

Ver√£o recto juiz pesar a ofensa
Na balança integral, e o justo acerto,
Dando da vida e morte igual sentença.

Em Busca Da Beleza VI

O sono – Oh, ilus√£o! – o sono? Quem
Lograr√° esse v√°cuo ao qual aspira
A alma que de aspirar em v√£o delira
E já nem força para querer tem?

Que sono apetecemos? O d’algu√©m
Adormecido na feliz mentira
Da sonolência vaga que nos tira
Todo o sentir na qual a dor nos vem?

Ilus√£o tudo! Querer um sono eterno,
Um descanso, uma paz, não é senão
O √ļltimo anseio desesperado e v√£o.

Perdido, resta o derradeiro inferno
Do tédio intérmino, esse de já não
Nem aspirar a ter aspiração.

O Nosso Mundo

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Pousando em ti o meu olhar eterno
Como pousam as folhas sobre os lagos…

Os meus sonhos agora s√£o mais vagos…
O teu olhar em mim, hoje, √© mais terno…
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!

A Vida, meu Amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas, hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e as ilus√Ķes defuntas?…
Que importa o mundo e seus orgulhos v√£os?…
O mundo, Amor! … As nossas bocas juntas!…

Satanismo

N√£o me olhes assim, branca Arethusa,
Peregrina inspiração dos meus cantares;
N√£o me deixes a raz√£o vagar confusa
Ao rel√Ęmpago ideal de teus olhares.

N√£o me olhes, oh! n√£o, porquanto eu penso
Envolvido no luar das minhas cismas,
Que o olhar que me dardejas — doido, imenso
Tem a r√°pida explos√£o dos aneurismas.

Não me olhes. Oh! não, que o próprio inferno
Problem√°tico, fatal, c√°lido, eterno,
Nos teus olhos, mulher, se foi cravar!…

N√£o me olhes, oh! n√£o, que m’entolece
Tanta luz, tanto sol — e at√© parece
Que tens m√ļsicas cru√©is dentro do olhar!…

A Obsess√£o Do Sangue

Acordou, vendo sangue… – Horr√≠vel! O osso
Frontal em fogo… Ia talvez morrer,
Disse. olhou-se no espelho. Era tão moço,
Ah! certamente n√£o podia ser!

Levantou-se. E eis que viu, antes do almoço,
Na mão dos açougueiros, a escorrer
Fita rubra de sangue muito grosso,
A carne que ele havia de comer!

No inferno da vis√£o alucinada,
Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,
Viu v√≠sceras vermelhas pelo ch√£o …

E amou, com um berro b√°rbaro de gozo,
o monocromatismo monstruoso
Daquela universal vermelhid√£o!

Deus Do Mal

Espírito do Mal, ó deus perverso
Que tantas almas d√ļbias acalentas,
Veneno tentador na luz disperso
Que a própria luz e a própria sombra tentas.

Símbolo atroz das culpas do Universo,
Espelho fiel das convuls√Ķes violentas
Do gasto coração no lodo imerso
Das tormentas vulc√Ęnicas, sangrentas.

Toda a tua sinistra trajetória
Tem um brilho de lágrima ilusória,
As melodias m√≥rbidas do Inferno…

√Čs Mal, mas sendo Mal √©s solu√ßante,
Sem a graça divina e consolante,
Réprobo estranho do Perdão eterno!

Vinho Negro

O vinho negro do imortal pecado
Envenenou nossas humanas veias
Como fascina√ß√Ķes de atras sereias
E um inferno sinistro e perfumado.

O sangue canta, o sol maravilhado
Do nosso corpo, em ondas fartas, cheias.
como que quer rasgar essas cadeias
Em que a carne o retém acorrentado.

E o sangue chama o vinho negro e quente
Do pecado letal, impenitente,
O vinho negro do pecado inquieto.

E tudo nesse vinho mais se apura,
Ganha outra graça, forma e formosura,
Grave beleza d’esplendor secreto.

√ď Trevas, que Enlutais a Natureza

√ď trevas, que enlutais a Natureza,
Longos ciprestes desta selva anosa,
Mochos de voz sinistra e lamentosa,
Que dissolveis dos fados a incerteza;

Manes, surgidos da morada acesa
Onde de horror sem fim Plut√£o se goza,
N√£o aterreis esta alma dolorosa,
Que é mais triste que voz minha tristeza.

Perdi o galardão da fé mais pura,
Esperanças frustrei do amor mais terno,
A posse de celeste formosura.

Volvei, pois, sombras v√£s, ao fogo eterno;
E, lamentando a minha desventura,
Movereis à piedade o mesmo Inferno.

A Lanterna

O sabio antigo andou pelas ruas d’Athenas,
Com a lanterna accesa, errante, à luz do dia,
Buscando o var√£o forte e justo da Utopia,
Privado de paix√Ķes e d’emo√ß√Ķes terrenas.

Eu tambem que aborreço as cousas vãs, pequenas
E que mais alto puz a s√£ Philosophia,
Ha muito busco em v√£o–ha muito, quem diria!
O mais cruel ideal das concep√ß√Ķes serenas.

Tenho buscado em balde, e em v√£o por todo o mundo;
Esconde-se o ideal no sitio mais profundo,
No mar, no inferno, em tudo, aonde existe a d√īr!…

De sorte que hoje emfim, descrente, resignado,
Concentrei-me em mim s√≥, n’um tedio indignado,
E apaguei a lanterna – √Č s√≥ um sonho o Amor!

Morte, Juízo, Inferno e Paraíso

Em que estado, meu bem, por ti me vejo,
Em que estado infeliz, penoso e duro!
Delido o coração de um fogo impuro,
Meus pesados grilh√Ķes adoro e beijo.

Quando te logro mais, mais te desejo;
Quando te encontro mais, mais te procuro;
Quando mo juras mais, menos seguro
Julgo esse doce amor, que adorna o pejo.

Assim passo, assim vivo, assim meus fados
Me desarreigam d’alma a paz e o riso,
Sendo só meu sustento os meus cuidados;

E, de todo apagada a luz do siso,
Esquecem-me (ai de mim!) por teus agrados
Morte, Juízo, Inferno e Paraíso.

Perante A Morte

Perante a Morte empalidece e treme,
Treme perante a Morte, empalidece.
Coroa-te de l√°grimas, esquece
O Mal cruel que nos abismos geme.

Ah! longe o Inferno que flameja e freme,
Longe a Paiz√£o que s√≥ no horror floresce…
A alma precisa de silêncio e prece,
Pois na prece e silêncio nada teme.

Silêncio e prece no fatal segredo,
Perante o pasmo do sombrio medo
Da morte e os seus aspectos reverentes…

Silêncio para o desespero insano,
O furor gigantesco e sobre-humano,
A dor sinistra de ranger os dentes!

Em louvor do grande Cam√Ķes

Sobre os contr√°rios o terror e a morte
Dardeje embora Aquiles denodado,
Ou no r√°pido carro ensanguentado
Leve arrastos sem vida o Teuco forte:

Embora o bravo Macedónio corte
Coa fulminante espada o nó fadado,
Que eu de mais nobre estímulo tocado,
Nem lhe amo a glória, nem lhe invejo a sorte:

Invejo-te, Cam√Ķes, o nome honroso;
Da mente criadora o sacro lume,
Que exprime as f√ļrias de Lieu raivoso:

Os ais de Inês, de Vénus o queixume,
As pragas do gigante proceloso,
O c√©u de Amor, o inferno do Ci√ļme.

Minha Finalidade

Turbilhão teleológico incoercível,
Que força alguma inibitória acalma,
Levou-me o cr√Ęnio e p√īs-lhe dentro a palma
Dos que amam apreender o Inapreensível!

Predeterminação imprescriptível
Oriunda da infra-astral Subst√Ęncia calma
Plasmou, aparelhou, talhou minha alma
Para cantar de preferência o Horrível!

Na canonização emocionante,
Da dor humana, sou maior que Dante,
– A √°guia dos latif√ļndios florentinos!

Sistematizo, solu√ßando, o Inferno…
E trago em mim, num sincronismo eterno
A fórmula de todos os destinos!

Pacto Das Almas (I) Para Sempre!

Ah! para sempre! para sempre! Agora
N√£o nos separaremos nem um dia…
Nunca mais, nunca mais, nesta harmoia
Das nossas almas de divina aurora.

A voz do céu pode vibrar sonora
Ou do Inferno a sinistra sinfonia,
Que num fundo de astral melancolia
Minh’alma com a tu’alma goza e chora.

Para sempre est√° feito o augusto pacto!
Cegos serenos do celeste tacto,
Do Sonho envoltas na estrelada rede.

E perdidas, perdidas no Infinito
As nossas almas, no Clar√£o bendito,
H√£o de enfim saciar toda esta sede…

Vítima Do Dualismo

Ser miser√°vel dentre os miser√°veis
РCarrego em minhas células sombrias
Antagonismos irreconcili√°veis
E as mais opostas idiosincrasias!

Muito mais cedo do que o imagin√°veis
Eis-vos, minha alma, enfim, dada às bravias
Cóleras dos dualismos implacáveis
E à gula negra das antinomias!

Psiqu√™ biforme, o C√©u e o Inferno absorvo…
Criação a um tempo escura e cor-de-rosa,
Feita dos mais vari√°veis elementos,

Ceva-se em minha carne, como um corvo,
A simultaneidade ultramonstruosa
De todos os contrastes famulentos!

Ao Tempo

Levanta o pano, ó tragador das eras,
A cena mostra das fatais desditas,
Pois que no giro das paix√Ķes que incitas
Tragar venturas, vorazmente, esperas.

Do vário mundo que só nutre feras,
Co’a torva dextra lhe desvia as ditas.
Solta das asas as Tenta√ß√Ķes malditas,
Os filhos traga, que indolente geras.

Leva de rojo, c’o decretado gume,
Planos que traças ao profundo Averno.
Acende e apaga da Raz√£o o lume!

√ď Tempo, √≥ Tempo, regedor do Inferno!
Louvem-te as F√ļrias, de quem tens ci√ļme,
Que s√≥ adoro as decis√Ķes do Eterno.

Vis√£o Realizada

Sonhei que a mim correndo o gnídeo nume
Vinha coa Morte, co Ci√ļme ao lado,
E me bradava: “Escolhe, desgra√ßado,
Queres a Morte, ou queres o Ci√ļme?”

“N√£o √© pior daquela fouce o gume
Que a ponta dos farp√Ķes que tens provado;
Mas o monstro voraz, por mim criado,
Quanto horror h√° no Inferno em si resume.”

Disse; e eu dando um suspiro: “Ah, n√£o m’espantes
Coa a vista dessa f√ļria!… Amor, clem√™ncia!
Antes mil mortes, mil infernos antes!”

Nisto acordei com dor, com impaciência;
E n√£o vos encontrando, olhos brilhantes,
Vi que era a minha morte a vossa ausência!