Sonetos sobre Futuro

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Sonetos de futuro escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Cam√Ķes III

Quando, torcendo a chave misteriosa
Que os cancelos fechava do Oriente,
O Gama abriu a nova terra ardente
Aos olhos da companha valorosa,

Talvez uma vis√£o resplandecente
Lhe amostrou no futuro a sonorosa
Tuba. que cantaria a ação famosa
Aos ouvidos da própria e estranha gente.

E disse: “Se j√° noutra, antiga idade,
Tróia bastou aos homens, ora quero
Mostrar que é mais humana a humanidade.

Pois não serás herói de um canto fero,
Mas vencer√°s o tempo e a imensidade
Na voz de outro moderno e brando Homero”.

Supremo Anseio

Esta profunda e intérmina esperança
Na qual eu tenho o espírito seguro,
A tão profunda imensidade avança
Como é profunda a idéia do futuro.

Abre-se em mim esse clar√£o, mais puro
Que o céu preclaro em matinal bonança:
Esse clar√£o, em que eu melhor fulguro,
Em que esta vida uma outra vida alcança.

Sim! Inda espero que no fim da estrada
Desta exist√™ncia de ilus√Ķes cravada
Eu veja sempre refulgir bem perto

Esse clar√£o esplendoroso e louro
Do amor de m√£e — que √© como um fruto de ouro,
Da alma de um filho no eternal deserto.

Mocidade

Ah! esta mocidade! — Quem √© mo√ßo
Sente vibrar a febre enlouquecida
Das ilus√Ķes, da cren√ßa mais florida
Na muscular art√©ria de Colosso…

Das incertezas nunca mede o po√ßo…
Asas abertas — na amplid√£o da vida,
P√°ramo a dentro — de cabe√ßa erguida,
V√™ do futuro o mais alegre esbo√ßo…

Chega a velhice, a neve das idades
E quem foi moço, volve, com saudades,
Do azul passado, o fulgido comp√™ndio…

Ai! esta mocidade palpitante,
Lembra um inseto de ouro, rutilante,
Em derredor das chamas de um incêndio!

A um Poeta

Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.

Acorda! √Č tempo! O sol, j√° alto e pleno
Afugentou as larvas tumulares…
Para surgir do seio desses mares
Um mundo novo espera s√≥ um aceno…

Escuta! √Č a grande voz das multid√Ķes!
S√£o teus irm√£os, que se erguem! S√£o can√ß√Ķes…
Mas de guerra… e s√£o vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

Ai de Mim!

Venho, torna-me velho esta lembrança!
D’um enterro d’anjinho, nobre e puro:
Infancia, era este o nome da criança
Que, hoje, dorme entre os bichos, l√° no escuro…

Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
Acompanharam-n’o ao jazigo obscuro,
E recebeu, segundo a velha usança,
A chave do caix√£o o meu Futuro.

Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
Leva-me o fado, √° bruta, aos empurr√Ķes,
V√° para a frente! Marcha! √Ā Vida! √Ā Vida!

Que hei-de fazer, Senhor! o qu’√© que espera
Um bacharel formado em illuz√Ķes
Pela Universidade da Chymera?

Retrospecto

Vinte e seis anos, trinta amores: trinta
vezes a alma de sonhos fatigada.
e, ao fim de tudo, como ao fim de cada
amor, a alma de amor sempre faminta!

√ď mocidade que foges! brada
aos meus ouvidos teu futuro, e pinta
aos meus olhos mortais, com toda a tinta,
os remorsos da vida dissipada!

Derramo os olhos por mim mesmo… E, nesta
muda consulta ao coração cansado,
que é que vejo? que sinto? que me resta?

Nada: ao fim do caminho percorrido,
o ódio de trinta vezes ter jurado
e o horror de trinta vezes ter mentido!

Freira

Em teu calmo semblante e em teu olhar parado
h√° perdido – bem sei – um mist√©rio qualquer…
– quem sabe se pecaste… e se foi teu pecado
quem te fez esquecer que √©s bela e que √© mulher…

Hoje es santa… O passado passou — √© passado…
– dele j√° n√£o ter√°s uma ilus√£o sequer,
e o amor que se tornou funesto e amargurado,
sepultas no sil√™ncio… e em teu √°rduo mister…

Mais √† frente est√° a vida… a vida humana e bela!
Рteu presente é uma prece; teu passado: um poema;
teu futuro: um ros√°rio, um altar, uma cela…

Evadida do mundo Рao ver-te, à luz do dia
– n√£o sei se te admiro a ren√ļncia suprema,
ou se lastimo a tua imensa covardia!

Soneto III – A Um Infeliz

Geme, geme, mortal infortunado,
√Č fado teu gemer continuamente:
Perante as leis do Fado √©s delinq√ľente,
Sempre tirano algoz ter√°s no Fado.

Mas para n√£o ser mais envenenado
O fel que essa alma bebe, e o mal que sente,
N√£o te iluda o falaz riso aparente
De um futuro de rosas coroado.

Só males o presente te afiança:
Encrustado de vermes charco imundo
Se te volve o passado na lembrança.

Busca, pois, o da morte ermo profundo:
Despedaça a grinalda da esperança:
Crava os olhos na campa, e deixa o mundo.

Aurora Morta, Foge! Eu Busco A Virgem Loura

Aurora morta, foge! Eu busco a virgem loura
Que fugiu-me do peito ao teu clar√£o de morte
E Ela era a minha estrela, o meu √ļnico Norte,
O grande Sol de afeto – o Sol que as almas doura!

Fugiu… e em si a Luz consoladora
Do amor – esse clar√£o eterno d’alma forte –
Astro da minha Paz, Sírius da minha Sorte
E da Noute da vida a Vênus Redentora.

Agora, oh! Minha M√°goa, agita as tuas asas,
Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas
E, num P√°lio auroral de Luz deslumbradora,

Ascende à Claridade. Adeus oh! Dia escuro,
Dia do meu Passado! Irrompe, meu Futuro;
Aurora morta, foge – eu busco a virgem loura!

Que Pode J√° Fazer Minha Ventura

Que pode j√° fazer minha ventura
que seja para meu contentamento.,
Ou como fazer devo fundamento
de cousa que o não tem, nem é segura?

Que pena pode ser t√£o certa e dura
que possa ser maior que meu tormento?
Ou como recear√° meu pensamento
os males, se com eles mais se apura?

Como quem se costuma de pequeno
com peçonha criar por mão ciente,
da qual o uso j√° o tem seguro;

assi de acostumado co veneno,
o uso de sofrer meu mal presente
me faz n√£o sentir j√° nada o futuro.

Sempre o Futuro, Sempre! e o Presente

Sempre o futuro, sempre! e o presente
Nunca! Que seja esta hora em que se existe
De incerteza e de dor sempre a mais triste,
E só farte o desejo um bem ausente!

Ai! que importa o futuro, se inclemente
Essa hora, em que a esperança nos consiste,
Chega… √© presente… e s√≥ √° dor assiste?…
Assim, qual é a esperança que não mente?

Desventura ou delirio?… O que procuro,
Se me foge, é miragem enganosa,
Se me espera, peor, espectro impuro…

Assim a vida passa vagarosa:
O presente, a aspirar sempre ao futuro:
O futuro, uma sombra mentirosa.

Idealização Da Humanidade Futura

Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
РHomens que a herança de ímpetos impuros
Tornara √©tnicamente irracionais! –

N√£o sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No h√ļmus dos monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!

Como quem esmigalha protozo√°rios
Meti todos os dedos mercen√°rios
Na consci√™ncia daquela multid√£o…

E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!

A Esperança

A Esperança não murcha, ela não cansa,
Também como ela não sucumbe a Crença.
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança.

Muita gente infeliz assim n√£o pensa;
No entanto o mundo é uma ilusão completa,
E não é a Esperança por sentença
Este laço que ao mundo nos manieta?

Mocidade, portanto, ergue o teu grito,
Sirva-te a crença de fanal bendito,
Salve-te a glória no futuro Рavança!

E eu, que vivo atrelado ao desalento,
Também espero o fim do meu tormento,
Na voz da morte a me bradar: descansa!

Hino À Razão

Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
√Č a voz dum cora√ß√£o que te apetece,
Duma alma livre só a ti submissa.

Por ti é que a poeira movediça
De astros, sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.

Por ti, na arena tr√°gica, as na√ß√Ķes
buscam a liberdade entre clar√Ķes;
e os que olham o futuro e cismam, mudos,

Por ti podem sofrer e n√£o se abatem,
M√£e de filhos robustos que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!

Retrato do Herói

Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar    de morte certa.

Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome    fechado o corpo ao breve
instante em que a den√ļncia fica alerta.

Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo    nem mártir    nem soldado
Mas apenas¬†¬†¬† por √ļltimo¬†¬†¬† indefeso.

Homem é quem tombando apavorado
d√° o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.

Colegial

Gosto de v√™-la, assim… Quando √† tarde ela vem
fisionomia suave, ingenuamente franca…
Toda a rua se alegra, e eu me alegro também
com o seu vulto feliz: saia azul, blusa branca…

Quantos nadas de sonho o seu olhar contém!
A luz viva do olhar ninguém talvez lhe arranca.
– Gosto de ve-la, sim… E ficam-lhe t√£o bem
aquela saia azul, e aquela blusa branca…

Azul: Рazul é a cor da vida que ela sonha!
E branca: Рbranca é a cor da sua alma de criança
onde ela própria se olha irrequieta e risonha

Feliz… N√£o tem presente e ainda nem tem passado…
Só o futuro, Рe o futuro é uma imensa esperança
um mundo que ainda fica oculto do outro lado!

Ciganos em Viagem

A tribo que prevê a sina dos viventes
Levantou arraiais hoje de madrugada;
Nos carros, as mulher’, c’o a torva filharada
Às costas ou sugando os mamilos pendentes;

Ao lado dos carr√Ķes, na pedregosa estrada,
Vão os homens a pé, com armas reluzentes,
Erguendo para o céu uns olhos indolentes
Onde j√° fulgurou muita ilus√£o amada.

Na buraca onde est√° encurralado, o grilo,
Quando os sente passar, redobra o meigo trilo;
Cibela, com amor, traja um verde mais puro,

Faz da rocha um caudal, e um vergel do deserto,
Para assim receber esses p’ra quem ‘st√° aberto
O império familiar das trevas do futuro!

Tradução de Delfim Guimarães

√Č Assim A Vida

Poderias ter sido tudo em minha vida
se ao menos tu tivesses desejado ser…
Dei-te a minha emoção mais profunda e sentida
e o mais profundo amor que concebeu meu Ser!

Por esse amor que em v√£o tentei te oferecer
eu fui poeta, eu fui crian√ßa… e tive a alma iludida!
Tra√≠ meu ceticismo, e sonhei… e quis crer…
– hoje… volto ao que fui, – a cren√ßa perdida…

Poderias ter sido tudo em meu destino:
– o meu lar, o meu filho, o meu rumo, o meu hino,
o meu pr√≥prio futuro… a obra que ainda n√£o fiz…

Tudo terias sido… E n√£o quiseste nada…
No entanto, ( a vida é assim), Рsei de uma outra, coitada,
que se um olhar dou… √© a mulher mais feliz!

Caminho

I

Tenho sonhos cru√©is; n’alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente…

Saudades desta dor que em v√£o procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o cora√ß√£o dum v√©u escuro!…

Porque a dor, esta falta d’harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o c√©u d’agora,

Sem ela o coração é quase nada:
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.

A Dor

Que venha, ref√ļgio ou ins√≥nia, futuro
antigo e comece no campo ou no flanco, à
direita, onde consome a alma, à esquerda
onde exclama no corpo, na seiva ou no ch√£o

dos sobressaltos. Venha, amantíssima e espessa,
orelha ou folha acesa, fugaz ou rasgada,
planície vermelha, doce, gélida ou rápida.
Obedeça ao enleio, desperte ou descanse,

corre pelo sangue como cervo na noite,
sol que despedaça o peito. O rosto se cobre
de grandes cinzas, pesado como uma l√°grima,

a alma, sendo ar, em nenhum lugar sereno.
√önica posse de que dispomos. √Č seu
absurdo desejo, subtil e sem domínio.