Sonetos sobre Flores

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Sonetos de flores escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Continua a Tempestade

Aqui, sobre estas aguas cor de azeite,
Scismo em meu lar, na paz que l√° havia:
Carlota, √° noite, ia ver se eu dormia
E vinha, de manh√£, trazer-me o leite…

Aqui, n√£o tenho um unico deleite!
Talvez… baixando, em breve, √° Agoa fria,
Sem um beijo, sem uma Ave-Maria,
Sem uma flor, sem o menor enfeite…

Ah! podesse eu voltar √° minha infancia!
Lar adorado, em fumos, a distancia,
Ao p√© de minha Irm√£, vendo-a bordar…

Minha velha aia! conta-me essa historia
Que principiava, tenho-a na memoria,
¬ęEra uma vez…¬Ľ
Ah deixem-me chorar!

Na M√£o de Deus

Na m√£o de Deus, na sua m√£o direita,
Descansou afinal meu coração.
Do pal√°cio encantado da Ilus√£o
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignor√Ęncia infantil, despojo v√£o,
Depois do Ideal e da Paix√£o
A forma transitória e imperfeita.

Como crian√ßa, em l√ībrega jornada,
Que a m√£e leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na m√£o de Deus eternamente!

O Beija-Flor

Acostumei-me a vê-lo todo o dia
De manh√£zinha, alegre e prazenteiro,
Beijando as brancas flores de um canteiro
No meu jardim – a p√°tria da ambrosia.

Pequeno e lindo, só me parecia
Que era da noite o sonho derradeiro…
Vinha trazer às rosas o primeiro
Beijo do Sol, n’essa manh√£ t√£o fria!

Um dia, foi-se e n√£o voltou… Mas, quando
A suspirar, me ponho contemplando,
Sombria e triste, o meu jardim risonho…

Digo, a pensar no tempo j√° passado;
Talvez, ó coração amargurado,
Aquele beija-flor fosse o teu sonho!

Soneto do amor difícil

A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desej√°-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto n√£o √© mais que uma promessa…

Mas se na praia a onda se espedaça,
h√° logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de s√ļbito surgido √† flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.

Espiritualismo

I

Como um vento de morte e de ruína,
A D√ļvida soprou sobre o Universo.
Fez-se noite de s√ļbito, imerso
O mundo em densa e algida neblina.

Nem astro j√° reluz, nem ave trina,
Nem flor sorri no seu aéreo berço.
Um veneno subtil, vago, disperso,
Empeçonhou a criação divina.

E, no meio da noite monstruosa,
Do silêncio glacial, que paira e estende
O seu sud√°rio, d’onde a morte pende,

Só uma flor humilde, misteriosa,
Como um vago protesto da existência,
Desabroxa no fundo da Consciência.

II

Dorme entre os gelos, flor imaculada!
Luta, pedindo um ultimo clar√£o
Aos sóis que ruem pela imensidão,
Arrastando uma aur√©ola apagada…

Em v√£o! Do abismo a boca escancarada
Chama por ti na g√©lida amplid√£o…
Sobe do poço eterno, em turbilhão,
A treva primitiva conglobada…

Tu morrerás também. Um ai supremo,
Na noite universal que envolve o mundo,
Ha-de ecoar, e teu perfume extremo

No v√°cuo eterno se esvair√° disperso,
Como o alento final d’um moribundo,
Como o √ļltimo suspiro do Universo.

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Quatro Sonetos De Meditação РII

Uma mulher me ama. Se eu me fosse
Talvez ela sentisse o desalento
Da √°rvore jovem que n√£o ouve o vento
Inconstante e fiel, tardio e doce

Na sua tarde em flor. Uma mulher
Me ama como a chama ama o silêncio
E o seu amor vitorioso vence
O desejo da morte que me quer.

Uma mulher me ama. Quando o escuro
Do crep√ļsculo m√≥rbido e maduro
Me leva a face ao gênio dos espelhos

E eu, moço, busco em vão meus olhos velhos
Vindos de ver a morte em mim divina:
Uma mulher me ama e me ilumina.

Conto de Fadas

Eu trago-te nas m√£os o esquecimento
Das horas m√°s que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o unguento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos s√£o ondas de Sorrento…
Trago no nome as letras de uma flor…
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento…

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crep√ļsculos da tarde,
O sol que √© d’oiro, a onda que palpita.

Dou-te comigo o mundo que Deus fez!
– Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A Princesa do conto: ‚ÄúEra uma vez…‚ÄĚ

Eu Planto no Teu Corpo

Como se arrasta no sol morno um verme
Por sobre a polpa de uma fruta, eu durmo
A tua carne e sinto o teu contorno
Entre os meus braços como um fruto morno.

E a minha boca sobre a pele, um verme,
Vai percorrendo o teu sorriso, e torno
Ao longo do nariz, depois contorno
Os teus olhos fechados por querer-me.

E desço o teu pescoço, feito um mono,
Para os teus seios mornos, como um verme
Por sobre os frutos prontos para o tombo.

Vertendo a unção da morte nos teus membros,
E estremecendo numa cruz de febre,
Eu planto no teu corpo a flor de um pombo.

Assim

Assim foi nosso amor… um sonho que viveu
de um sonho, e despertou na realidade um dia…
Um pouco de quimera ao l√©u da fantasia…
Um flor que brotou e num bot√£o morreu…

Embora sendo nosso, este amor foi só meu,
porque o teu, n√£o foi mais que pura hipocrisia,
– no fundo, h√° muito tempo, a minha alma sentia
este fim que o destino afinal j√° lhe deu…

Não podes, bem o sei Рsendo mulher como és,
saber quanto sofri, vendo esta flor desfeita
e as p√©talas no ch√£o, pisadas por teus p√©s…

Que importa ? H√°s de sofrer mais tarde – a vida √© assim…
Esse mesmo sorrir que agora te deleita
√© o mesmo que depois h√° de amargar teu fim!…

Solemnia Verba

Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos v√£os and√°mos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos…

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E a noite, onde foi luz a Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se isto é vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.

Tentei fugir da mancha mais escura

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de n√£o poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escurid√£o…

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

A lamentável catástrofe de D. Inês de Castro

Da triste, bela Inês, inda os clamores
Andas, Eco chorosa, repetindo;
Inda aos piedosos Céus andas pedindo
Justiça contra os ímpios matadores;

Ouvem-se inda na Fonte dos Amores
De quando em quando as n√°iades carpindo;
E o Mondego, no caso reflectindo,
Rompe irado a barreira, alaga as flores:

Inda altos hinos o universo entoa
A Pedro, que da morte formosura
Convosco, Amores, ao sepulcro voa:

Milagre da beleza e da ternura!
Abre, desce, olha, geme, abra√ßa e c’roa
A malfadada Inês na sepultura.

A Voz do Amor

Nessa pupila r√ļtila e molhada,
Ref√ļgio arcano e sacro da Ternura,
A ampla noite do gozo e da loucura
Se desenrola, quente e embalsamada.

E quando a ansiosa vista desvairada
Embebo às vezes nessa noite escura,
Dela rompe uma voz, que, entrecortada
De solu√ßos e c√Ęnticos, murmura…

√Č a voz do Amor, que, em teu olhar falando,
Num concerto de s√ļplicas e gritos
Conta a história de todos os amores;

E vêm por ela, rindo e blasfemando,
Almas serenas, cora√ß√Ķes aflitos,
Tempestades de l√°grimas e flores…

Uma Amiga

Aqueles que eu amei, n√£o sei que vento
Os dispersou no mundo, que os n√£o vejo…
Estendo os braços e nas trevas beijo
Vis√Ķes que a noite evoca o sentimento…

Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos… que eu invejo…
Passam por mim… mas como que tem pejo
Da minha soledade e abatimento!

Daquela primavera venturosa
N√£o resta uma flor s√≥, uma s√≥ rosa…
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel Рtu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes…
Para ver o meu mal… e escarnec√™-lo!

Se é Doce

Se é doce no recente, ameno Estio
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias e os verdores,
Mole e queixoso deslizar-se o rio;

Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os vol√°teis amadores,
Seus versos modulando e seus ardores
Dentre os aromas de pomar sombrio;

Se é doce mares, céus ver anilados
Pela quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os cora√ß√Ķes, floreia os prados,

Mais doce é ver-te de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados.
Morte, morte de amor, melhor que a vida.

Campesinas II

De cabelos desmanchados,
Tu, teus olhos luminosos
Recordam-me uns saborosos
E raros frutos de prados.

Assim negros e quebrados,
Profundos, grandes, formosos,
Contêm fluidos vaporosos
S√£o como campos mondados.

Quando soltas os cabelos
Repletos de pesadelos
E de perfumes de ervagens;

Teus olhos, flor das violetas,
Lembram certas uvas pretas
Metidas entre folhagens.

Esperança Amorosa

Grato silêncio, trémulo arvoredo,
Sombra propícia aos crimes e aos amores,
Hoje serei feliz! – Longe, temores,
Longe, fantasmas, ilus√Ķes do medo.

Sabei, amigos Zéfiros, que cedo
Entre os braços de Nise, entre estas flores,
Furtivas glórias, tácitos favores,
Hei-de enfim possuir: porém segredo!

Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
Não leveis, não façais isto patente,
Quem nem quero que o saiba o pai dos numes:

Cale-se o caso a Jove omnipotente,
Porque, se ele o souber, ter√° ci√ļmes,
Vibrar√° contra mim seu raio ardente.

As Estrelas

L√°, nas celestes regi√Ķes distantes,
No fundo melancólico da Esfera,
Nos caminhos da eterna Primavera
Do amor, eis as estrelas palpitantes.

Quantos mistérios andarão errantes,
Quantas almas em busca da Quimera,
L√°, das estrelas nessa paz austera
Soluçarão, nos altos céus radiantes.

Finas flores de pérolas e prata,
Das estrelas serenas se desata
Toda a caudal das ilus√Ķes insanas.

Quem sabe, pelos tempos esquecidos,
Se as estrelas n√£o s√£o os ais perdidos
Das primitivas legi√Ķes humanas?!

A Tua Voz de Primavera

Manto de seda azul, o céu reflete
Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus l√°bios √ļmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!

Sinfonia de luz meu corpo n√£o repete
O ritmo e a cor dum mesmo desejo… olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a vis√£o dos poentes se complete!

Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
T√™m a firmeza el√°stica dos gamos…

Para os teus beijos, sensual, flori!
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!

Pequenina

À Maria Helena Falcão Risques

√Čs pequenina e ris…A boca breve
√Č um pequeno id√≠lio cor-de-rosa…
Haste de lírio frágil e mimosa!
Cofre de beijos feito sonho e neve!

Doce quimera que a nossa alma deve
Ao Céu que assim te fez tão graciosa!
Que desta vida amarga e tormentosa
Te fez nascer como um perfume leve!

O ver o teu olhar faz bem √† gente…
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores…
Quando o teu nome diz, suavemente…

Pequenina que a M√£e de Deus sonhou,
Que ela afaste de ti aquelas dores
Que fizeram de mim isto que sou!…