Sonetos sobre Ruas

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Sonetos de ruas escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Rua Dos Cataventos – VI

Na minha rua h√° um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola. . .

Mas nesta rua h√° um oper√°rio triste:
N√£o canta nada na manh√£ sonora
E o menino nem sonha que ele existe.

Ele trabalha silenciosamente. . .
E est√° compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente. . .

Lembrança

Fui Essa que nas ruas esmolou
E fui a que habitou Paços Reais;
No m√°rmore de curvas ogivais
Fui Essa que as m√£os p√°lidas poisou…

Tanto poeta em versos me cantou!
Fiei o linho √† porta dos casais…
Fui descobrir a √ćndia e nunca mais
Voltei! Fui essa nau que n√£o voltou…

Tenho o perfil moreno, lusitano,
E os olhos verdes, cor do verde Oceano,
Sereia que nasceu de navegantes…

Tudo em cinzentas brumas se dilui…
Ah, quem me dera ser Essas que eu fui,
As que me lembro de ter sido… dantes!…

Miritiba

√Č o que me lembra: uma soturna vila
olhando um rio sem vapor nem ponte;
Na √°gua salobra, a canoada em fila…
Grandes redes ao sol, mangais defronte…

De um lado e de outro, fecha-se o horizonte…
Duas ruas somente… a √°gua tranq√ľila…
Botos no prea-mar… A igreja… A fonte
E as grandes dunas claras onde o sol cintila.

Eu, com seis anos, n√£o reflito, ou penso.
P√Ķem-me no barco mais veleiro, e, a bordo,
Minha m√£e, pela noite, agita um len√ßo…

Ao vir do sol, a √°gua do mar se alteia.
Range o mastro… Depois… s√≥ me recordo
Deste doido lutar por terra alheia!

A Lanterna

O sabio antigo andou pelas ruas d’Athenas,
Com a lanterna accesa, errante, à luz do dia,
Buscando o var√£o forte e justo da Utopia,
Privado de paix√Ķes e d’emo√ß√Ķes terrenas.

Eu tambem que aborreço as cousas vãs, pequenas
E que mais alto puz a s√£ Philosophia,
Ha muito busco em v√£o–ha muito, quem diria!
O mais cruel ideal das concep√ß√Ķes serenas.

Tenho buscado em balde, e em v√£o por todo o mundo;
Esconde-se o ideal no sitio mais profundo,
No mar, no inferno, em tudo, aonde existe a d√īr!…

De sorte que hoje emfim, descrente, resignado,
Concentrei-me em mim s√≥, n’um tedio indignado,
E apaguei a lanterna – √Č s√≥ um sonho o Amor!

√Čvora

Ao amigo vindo da luminosa It√°lia, a minha cidade, como eu soturno e triste…

√Čvora! Ruas ermas sob os c√©us
Cor de violetas roxas…Ruas frades
Pedindo em triste penitência a Deus
Que nos perdoe as míseras vaidades!

Tenho corrido em v√£o tantas cidades!
E só aqui recordo os beijos teus,
E só aqui eu sinto que são meus
Os sonhos que sonhei noutras idades!

√Čvora!…O teu olhar…o teu perfil…
Tua boca sinuosa, um mês de Abril,
Que o coração no peito me alvoroça!

…Em cada viela o vulto dum fantasma…
E a minh’alma soturna escuta e pasma…
E sente-se passar menina e mo√ßa…

Ao Sol Do Meio-Dia Eu Vi Dormindo

Ao sol do meio-dia eu vi dormindo
Na calçada da rua um marinheiro,
Roncava a todo o pano o tal brejeiro
Do vinho nos vapores se expandindo!

Além um espanhol eu vi sorrindo,
Saboreando um cigarro feiticeiro,
Enchia de fuma√ßa o quarto inteiro…
Parecia de gosto se esvaindo!

Mais longe estava um pobret√£o careca
De uma esquina lodosa no retiro
Enlevado tocando uma rabeca!…

Venturosa indolência! não deliro
Se morro de pregui√ßa… o mais √© seca!
Desta vida o que mais vale um suspiro?

O Condenado

Folga a justiça e geme a natureza РBocage

Alma feita somente de granito,
Condenada a sofrer cruel tortura
Pela rua sombria d’amargura
РEi-lo que passa Рréprobo maldito.

Olhar ao ch√£o cravado e sempre fito,
Parece contemplar a sepultura
Das suas ilus√Ķes que a desventura
Desfez em pó no hórrido delito.

E, à cruz da expiação subindo mudo,
A vida a lhe fugir j√° sente prestes
Quando ao golpe do algoz, calou-se tudo.

O mundo é um sepulcro de tristeza,
Ali, por entre matas de ciprestes,
Folga a justiça e geme a natureza.

Elegia para Santa Rosa

Aurora chega, e permaneces fria
noite, imobilizado, cego e mudo
às coisas das manhãs que amanhecias:
cavalete, jornal, café no bule.

O mundo neutro e nu pede a pintura;
a tela virgem, teu pincel tranquilo,
As cores vêm chorando pela rua,
entram no atelier branco e vazio.

Quais os murais que ir√°s compor no muro,
entre o que foste e o que ser√°s, erguido,
o indevass√°vel muro eterno e duro?

Ai, Santa, pesam sobre nós os dias
desta sobrevivência que te usurpa
o espaço e o tempo que te pertenciam.

Piano De Bairro

Na rua sossegada onde moro, Рà tardinha,
quando em sombras o céu lentamente escure,
– um piano solit√°rio, em surdina, – parece
acompanhar ao longe a tarde que definha…

Nessa hora, em que de manso a noite se avizinha,
seus acordes pelo ar tem murm√ļrios de prece…
РAh! Quem não traz como eu também, na alma sozinha,
um piano evocativo que nos entristece?

H√° sempre um velho piano de bairro, esquecido
na memória da gente, Рe que nas tardes mansas
sonoriza vis√Ķes de outrora ao nosso ouvido.

Seus monótonos sons, seus estudos sem cor,
repetem no teclado branco das lembranças
o inconcluso prel√ļdio de um long√≠nquo amor!

Tenho Fome da Tua Boca

Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,
e ando pelas ruas sem comer, calado,
n√£o me sustenta o p√£o, a aurora me desconcerta,
busco no dia o som líquido dos teus pés.

Estou faminto do teu riso saltitante,
das tuas m√£os cor de furioso celeiro,
tenho fome da p√°lida pedra das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.

Quero comer o raio queimado na tua formosura,
o nariz soberano do rosto altivo,
quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas

e faminto venho e vou farejando o crep√ļsculo
à tua procura, procurando o teu coração ardente
como um puma na solid√£o de Quitratue.

O Caix√£o Fant√°stico

Célere ia o caixão, e, nele, inclusas,
Cinzas, caixas cranianas, cartilagens
Oriundas, como os sonhos dos selvagens,
De aberrat√≥rias abstra√ß√Ķes abstrusas!

Nesse caix√£o iam talvez as Musas,
Talvez meu Pai! Hoffm√Ęnnicas visagens
Enchiam meu encéfalo de imagens
As mais contraditórias e confusas!

A energia mon√°stica do Mundo,
À meia-noite, penetrava fundo
No meu fenomenal c√©rebro cheio…

Era tarde! Fazia muito frio.
Na rua apenas o caix√£o sombrio
Ia continuando o seu passeio!

Obrei quanto o Discurso me Guiava

Obrei quanto o discurso me guiava,
Ouvi aos s√°bios quando errar temia;
Aos bons no gabinete o peito abria,
Na rua a todos como iguais tratava.

Julgando os crimes nunca os votos dava,
Mais duro, ou pio do que a lei pedia:
Mas devendo salvar ao justo ria,
E devendo punir aos réu chorava.

N√£o foram, Vila Rica, os meus projetos,
Meter em ferro cofre cópia de ouro,
Que farte aos filhos, e que chegue aos netos:

Outras s√£o as fortunas, que me agouro,
Ganhei saudades, adquiri afetos,
Vou fazer deste bens melhor tesouro.

A Rua Dos Cataventos – XXXV

Quando eu morrer e no frescor de lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixa-me em paz na minha quieta rua…
Nada mais quero com nenhum de vós!

Quero é ficar com alguns poemas tortos
Que andei tentando endireitar em v√£o…
Que lindo a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da Express√£o!…

Eu lavarei comigo as madrugadas,
P√īr de s√≥is, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas…

E um dia a morte h√° de fitar com espanto
Os fios da vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra do seu negro manto…

Joropo Para Timples E Harpa

Em duas asas prontas para o v√īo
assim se foi em par a minha vida
e com rilhar de dentes me perd√īo
trilhando as horas nuas na medida

Bilros tecendo rendas amarelas
bordando em v√£o um tempo j√° remoto
no sol dos girassóis da cidadela
canto um recanto que me faz devoto

A dor que existe em mim raiz que medra
no rastro mais sombrio as minhas luas
talvez não fora Sísifo ou a pedra

que encontro todo dia pelas ruas
ao revirar as heras nessa redra
trilhando na medida as horas nuas

Suave Mari Magno

Lembra-me que, em certo dia,
Na rua, ao sol de ver√£o,
Envenenado morria
Um pobre c√£o.

Arfava, espumava e ria,
De um riso esp√ļrio e buf√£o,
Ventre e pernas sacudia
Na convuls√£o.

Nenhum, nenhum curioso
Passava, sem se deter,
Silencioso,

Junto ao c√£o que ia morrer,
Como se lhe desse gozo
Ver padecer.

Colegial

Gosto de v√™-la, assim… Quando √† tarde ela vem
fisionomia suave, ingenuamente franca…
Toda a rua se alegra, e eu me alegro também
com o seu vulto feliz: saia azul, blusa branca…

Quantos nadas de sonho o seu olhar contém!
A luz viva do olhar ninguém talvez lhe arranca.
– Gosto de ve-la, sim… E ficam-lhe t√£o bem
aquela saia azul, e aquela blusa branca…

Azul: Рazul é a cor da vida que ela sonha!
E branca: Рbranca é a cor da sua alma de criança
onde ela própria se olha irrequieta e risonha

Feliz… N√£o tem presente e ainda nem tem passado…
Só o futuro, Рe o futuro é uma imensa esperança
um mundo que ainda fica oculto do outro lado!

Domicílio

… O apartamento abria
janelas para o mundo. Crianças vinham
colher na maresia essas notícias
da vida por viver ou da inconsciente

saudade de nós mesmos. A pobreza
da terra era maior entre os metais
que a rua misturava a feios corpos,
duvidosos, na pressa. E de terraço

em solitude os ecos refluíam
e cada exílio em muitos se tornava
e outra cidade fora da cidade

na garra de um anzol ia subindo,
adunca pescaria, mal difuso,
problema de existir, amor sem uso.

A um Poeta

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma de disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
√Č a for√ßa e a gra√ßa na simplicidade.

E Havia A Via Estreita

(Para Alexei Bueno)

Aquém de mim há quem procure sombras
como quem cata a vida em folhas mortas.
Se n√£o as acha, sobra-lhe do encontro
a coisa ida via estreita porta.

Saber do pó que lambe esses escombros
a pouca luz que espouca e me transporta
é ser e ter em mim o Outro que escondo
que vive a deslizar por ruas tortas.

Comigo sou, estou e ficarei
tecendo a tessitura que me esplende
na luz esparramada dessa grei.

Se aquém de mim, alguém, que me vende
os olhos, saiba: a via j√° passei.
E o verso vem comigo e n√£o se rende.

Soneto Da Lua

Por que tens, por que tens olhos escuros
E m√£os languidas, loucas, e sem fim
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que est√° nos puros ?

Que paix√£o fez-te os l√°bios t√£o maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruím
E t√£o fatal para os meus versos duros?

Fugaz, com que direito tens-me pressa
A alma, que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:

E és tão pouco
a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética e indefesa