Sonetos sobre Orgulho

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Sonetos de orgulho escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Mundo Interior

Ouço que a natureza é uma lauda eterna
De pompa, de fulgor, de movimento e lida,
Uma escala de luz, uma escala de vida
De sol à ínfima luzerna.

Ou√ßo que a natureza, – a natureza externa, –
Tem o olhar que namora e o gesto que intimida,
Feiticeira que ceva uma hidra de Lerna
Entre as flores da bela Armida.

E contudo, se fecho os olhos, e mergulho
Dentro de mim, vejo à luz de outro sol, outro abismo
Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho,

Rola a vida imortal e o eterno cataclismo,
E, como o outro, guarda em seu √Ęmbito enorme,
Um segredo que atrai, que desafia, – e dorme.

Unge-me de Perfumes

‚ÄúGosto tanto de ti…‚ÄĚ, dizes. √Č pouco.
√Č das tuas m√£os erguidas que eu preciso.
Vê bem, Amor: não é orgulho louco.
Para os outros eu sou apenas riso.

Unge-me de perfumes, minha amada,
Como certa Maria de Magdala,
Ungiu os p√©s d¬īAquele cuja estrada
Só começou para além da vala.

Ama-me mais ainda, ó meu amor
Como aquela mulher ungiu o Cristo,
Unge o meu corpo todo, a minha dor…

Ela ungiu-o p¬īra o t√ļmulo, p¬īra a Cruz.
Unge-me teu, p¬īra o Sol por quem existo:
Viver é ir morrendo a beijar luz.

Amo-te Sem Saber Como

N√£o te amo como se fosses rosa de sal, top√°zio
ou seta de cravos que propagam o fogo:
amo-te como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.

Amo-te como a planta que n√£o floriu e tem
dentro de si, escondida, a luz das flores,
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo
o denso aroma que subiu da terra.

Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,
amo-te directamente sem problemas nem orgulho:
amo-te assim porque n√£o sei amar de outra maneira,

a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,
tão perto que a tua mão no meu peito é minha,
t√£o perto que os teus olhos se fecham com meu sono.

Fui Gostar De Você

“Fui Gostar de Voc√™”
II
Fui gostar de você Рfacilitei
no poder de seus olhos… Que loucura! …
– Nunca pensei que um dia esta figura
havia de fazer… Nunca pensei…

Bem triste a pantomima. . . E o que nem sei
é como hei de aturar esta tortura,
de ver você e alguém numa ventura
que sonhei para mim – que em v√£o sonhei

Fui gostar de você Рe agora vejo
que este amor viver√° num sonho apenas,
– na ren√ļncia suprema do que almejo…

√Č in√ļtil meu viver… Hoje, ao seu lado
sou alguém que sepulta as próprias penas
no orgulho triste de quem foi deixado.

Vozes De Um T√ļmulo

Morri! E a Terra – a m√£e comum – o brilho
Destes meus olhos apagou!… Assim
T√Ęntalo, aos reais convivas, num festim,
Serviu as carnes do seu próprio filho!

Por que para este cemitério vim?!
Por quê?! Antes da vida o angusto trilho
Palmilhasse, do que este que palmilho
E que me assombra, porque n√£o tem fim!

No ardor do sonho que o fronema exalta
Constru√≠ de orgulho √™nea pir√Ęmide alta,
Hoje, porém, que se desmoronou

A pir√Ęmide real do meu orgulho,
Hoje que apenas sou matéria e entulho
Tenho consciência de que nada sou!

Emiss√°rio de um Rei Desconhecido

Emiss√°rio de um rei desconhecido,
Eu cumpro informes instru√ß√Ķes de al√©m,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e an√īmalo sentido…

Inconscientemente me divido
Entre mim e a miss√£o que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me desdém
Por este humano povo entre quem lido…

N√£o sei se existe o Rei que me mandou.
Minha miss√£o ser√° eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou…

Mas h√°! Eu sinto-me altas tradi√ß√Ķes
De antes de tempo e espa√ßo e vida e ser…
J√° viram Deus as minhas sensa√ß√Ķes…

N√£o Ser

Quem me dera voltar à inocência
Das coisas brutas, s√£s, inanimadas,
Despir o vão orgulho, a incoerência:
– Mantos rotos de est√°tuas mutiladas!

Ah! arrancar às carnes laceradas
Seu mísero segredo de consciência!
Ah! poder ser apenas florescência
De astros em puras noites deslumbradas!

Ser nost√°lgico choupo ao entardecer,
De ramos graves, pl√°cidos, absortos
Na m√°gica tarefa de viver!

Ser haste, seiva, ramaria inquieta,
Erguer ao sol o coração dos mortos
Na urna de oiro duma flor aberta!…

Vestígios Divinos

(Na Serra de Marumbi)

Houve deuses aqui, se n√£o me engano;
Novo Olimpo talvez aqui fulgia;
Zeus agastava-se, Afrodite ria,
Juno toda era orgulho e ci√ļme insano.

Nos arredores, na montanha ou plano,
Diana caçava, Actéon a perseguia.
Espalhados na bruta serrania,
Inda h√° uns restos da forja de Vulcano.

Por toda esta extensíssima campina
Andaram Faunos, Náiades e as Graças,
E em banquete se uniu a grei divina.

Os convivas pag√£os ainda hoje os topas
Mudados em pinheiros, como taças,
No hurra festivo erguendo no ar as copas.

Mais Alto

Mais alto, sim! Mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se n√£o encontra! Aquela a quem

O mundo não conhece por Alguém!
Ser orgulho, ser √°guia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!

Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível
Turris Eburnea erguida nos espaços,
À rutilante luz dum impossível!

Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
O mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher!

Cede a Filosofia à Natureza

Tenho assaz conservado o rosto enxuto
Contra as iras do Fado omnipotente;
Assaz contigo, ó Sócrates, na mente,
À dor neguei das queixas o tributo.

Sinto engelhar-se da const√Ęncia o fruto,
Cai no meu coração nova semente;
J√° me n√£o vale um √Ęnimo inocente;
Gritos da Natureza, eu vos escuto!

Jazer mudo entre as garras da Amargura,
D’alma est√≥ica aspirar √† v√£ grandeza,
Quando orgulho n√£o for, ser√° loucura.

No espírito maior sempre há fraqueza,
E, abafada no horror da desventura,
Cede a Filosofia à Natureza.

Supremo Orgulho

Nunca soube pedir…Nunca soube implorar…
Nasci, tendo este orgulho em minha lama irriquieta,
– h√° um brilho que incendeia o meu altivo olhar
de crente superior… de indiferente asceta…

Minha fronte, jamais, eu soube curvar
na atitude servil de uma exist√™ncia abjeta…
Ningu√©m √© mais que eu!… Ningu√©m… e este meu ar
de orgulho, vem da gl√≥ria imensa de ser poeta…

Sou pobre Рmas riqueza alguma há igul à minha,
Рa mulher que eu amar terá a glória suprema
de um dia se sentir maior que uma rainha….

Terá a glória de saber o seu nome
perpetuado por mim nas estrofes de um poema,
desses que a História guarda e o Tempo não consome!

A Teodoro de Banville

De tal modo agarraste a Deusa pela crina,
Com ar dominador, num gesto sacudido
Que se alguém presencia o caso acontecido
Poderia julgar-te um rufi√£o de esquina.

Com o l√≠mpido olhar, ‚ÄĒ precoce e ardente vista,
Audaz, vais expandido o orgulho de arquitecto
Em nobres produ√ß√Ķes, de tra√ßo t√£o correcto,
Que deixam futurar um prodigioso artista.

O nosso sangue, Poeta, esvai-se dia a dia!…
Acaso, do Centauro, a t√ļnica sombria,
‚ÄĒ Que, f√ļnebres caudais as velas transformava ‚ÄĒ

Três vezes se tingiu com as barbas subtis
D’aqueles infernais, monstruosos, r√©pteis,
Que Hércules, em crença, a rir, estrangulava?

Tradução de Delfim Guimarães

Soneto X

Vendo da peste o b√°rbaro flagelo
Mil vidas a ceifar a cada instante,
D’√Āfrica deixa o solo distante
E veio no Brasil curar Otelo.

O semblante imposto negro-amarelo
Cresta do orgulho a chama crepitante,
Traz cheia de vidrinhos o turbante,
E buído punhal por escalpelo.

Homeopata é, e o albergue puro
Do puro Martins busca e diz-lhe ardido:
“Doutor, eu quero ter vosso futuro.”

‚ÄĒ Bravo! grita o Martins enternecido;
Pelas cinzas de Hahnemann te juro
Que n√£o h√°s de morrer desconhecido.

A Minha M√£e

Lembra alvuras de cisne sobre um lago
A minha vida imaculada e honesta…
Ouço bater meu coração em festa,
Pela bondade e amor que nele trago!

Do meu orgulho olímpico de mago
Só o desdém aos inimigos resta,
Maior que às folhas mortas da floresta,
Que nos meus dedos p√°lidos esmago.

Mas a piedade enche o meu peito, e vem,
Em vez de tão humano e vil desdém,
Ungir meus l√°bios de um perd√£o divino…

Julguei ser Deus! E choro de cansa√ßo…
Oh, mãe piedosa, embala no regaço
Meu cora√ß√£o exausto de menino!…

Os Meus Versos

Rasga esses versos que te fiz, Amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um momento!
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!…

Tanto verso j√° disse o que eu sonhei!
Tantos penaram j√° o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente…

Rasga os meus versos…Pobre endoidecida!
Como se um grande amor c√° nesta vida
N√£o fosse o mesmo amor de toda a gente!…

M√£e…

M√£e ‚ÄĒ que adormente este viver dorido,
E me vele esta noite de tal frio,
E com as m√£os piedosas ate o fio
Do meu pobre existir, meio partido…

Que me leve consigo, adormecido,
Ao passar pelo s√≠tio mais sombrio…
Me banhe e lave a alma l√° no rio
Da clara luz do seu olhar querido…

Eu dava o meu orgulho de homem ‚ÄĒ dava
Minha estéril ciência, sem receio,
E em débil criancinha me tornava.

Descuidada, feliz, dócil também,
Se eu pudesse dormir sobre o teu seio,
Se tu fosses, querida, a minha m√£e!

O Cometa

Um cometa passava… Em luz, na penedia,
Na erva, no inseto, em tudo uma alma rebrilhava;
Entregava-se ao sol a terra, como escrava;
Ferviam sangue e seiva. E o cometa fugia…

Assolavam a terra o terremoto, a lava,
A √°gua, o ciclone, a guerra, a fome, a epidemia;
Mas renascia o amor, o orgulho revivia,
Passavam religi√Ķes… E o cometa passava.

E fugia, ri√ßando a √≠gnea cauda flava…
Fenecia uma raça; a solidão bravia
Povoava-se outra vez. E o cometa voltava…

Escoava-se o tropel das eras, dia a dia:
E tudo, desde a pedra ao homem, proclamava
A sua eternidade ! E o cometa sorria…

Linhas Paralelas

Compreendemo-nos sempre incompreendidos,
como dois orgulhosos, sempre assim,
-n√£o gostava de ti… nem tu de mim…
afirm√°vamos ambos convencidos…

Isso dava-se outrora, em tempos idos,
antes do nosso amor chegar ao fim…
-hoje, depois de tanto orgulho, enfim,
nem somos vencedores nem vencidos…

Foi pouco tempo de namoro o nosso,
-n√£o me esqueces no entanto totalmente,
como de todo te esquecer n√£o posso…

Linhas iguais… Nascemos como um par
que, em paralelas, orgulhosamente
h√° de seguir sem nunca se encontrar!…

O Meu Orgulho

Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera
N√£o me lembrar! Em tardes dolorosas
Lembro-me que fui a Primavera
Que em muros velhos faz nascer as rosas!

As minhas m√£os outrora carinhosas
Pairavam como pombas… Quem soubera
Porque tudo passou e foi quimera,
E porque os muros velhos n√£o d√£o rosas!

O que eu mais amo √© que mais me esquece…
E eu sonho: “Quem olvida n√£o merece…”
E j√° n√£o fico t√£o abandonada!

Sinto que valho mais, mais pobrezinha:
Que também é orgulho ser sozinha,
E também é nobreza não ter nada!

Quantas vezes, Amor, me tens ferido?

Quantas vezes, Amor, me tens ferido?
Quantas vezes, Raz√£o, me tens curado?
Qu√£o f√°cil de um estado a outro estado
O mortal sem querer é conduzido!

Tal, que em grau venerando, alto e luzido,
Como que até regia a mão do fado,
Onde o Sol, bem de todos, lhe é vedado,
Depois com ferros vis se vê cingido:

Para que o nosso orgulho as asas corte,
Que variedade inclui esta medida,
Este intervalo da existência à morte!

Travam-se gosto, e dor; sossego e lida;
√Č lei da natureza, √© lei da sorte,
Que seja o mal e o bem matiz da vida.