Sonetos sobre Fonte

66 resultados
Sonetos de fonte escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Vita Nuova

Se ao mesmo gozo antigo me convidas,
Com esses mesmos olhos abrasados,
Mata a recordação das horas idas,
Das horas que vivemos apartados!

N√£o me fales das l√°grimas perdidas,
N√£o me fales dos beijos dissipados!
H√° numa vida humana cem mil vidas,
Cabem num coração cem mil pecados!

Amo-te! A febre, que supunhas morta,
Revive. Esquece o meu passado, louca!
Que importa a vida que passou? que importa,

Se inda te amo, depois de amores tantos,
E inda tenho, nos olhos e na boca,
Novas fontes de beijos e de prantos?!

LXXV

Clara fonte, teu passo lisonjeiro
P√°ra, e ouve-me agora um breve instante;
Que em paga da piedade o peito amante
Te ser√° no teu curso companheiro.

Eu o primeiro fui, fui o primeiro,
Que nos braços da ninfa mais constante
Pude ver da fortuna a face errante
Jazer por glória de um triunfo inteiro.

Dura mão, inflexível crueldade
Divide o laço, com que a glória, a dita
Atara o gosto ao carro da vaidade:

E para sempre a dor ter n’alma escrita,
De um breve bem nasce imortal saudade,
De um caduco prazer m√°goa infinita.

Soneto De Intimidade

Nas tardes da fazenda h√° muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.

Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a √°gua fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ci√ļme
E quando por acaso uma mijada ferve

Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.

A lamentável catástrofe de D. Inês de Castro

Da triste, bela Inês, inda os clamores
Andas, Eco chorosa, repetindo;
Inda aos piedosos Céus andas pedindo
Justiça contra os ímpios matadores;

Ouvem-se inda na Fonte dos Amores
De quando em quando as n√°iades carpindo;
E o Mondego, no caso reflectindo,
Rompe irado a barreira, alaga as flores:

Inda altos hinos o universo entoa
A Pedro, que da morte formosura
Convosco, Amores, ao sepulcro voa:

Milagre da beleza e da ternura!
Abre, desce, olha, geme, abra√ßa e c’roa
A malfadada Inês na sepultura.

L√°grimas de Honesta Piedade e Imortal Contentamento

Amor, que o gesto humano na alma escreve,
Vivas faíscas me mostrou um dia,
Donde um puro cristal se derretia
Por entre vivas rosas a alva neve.

A vista, que em si mesma n√£o se atreve,
Por se certificar do que ali via,
Foi convertida em fonte, que fazia
A dor ao sofrimento doce e leve.

Jura Amor, que brandura de vontade
Causa o primeiro efeito; o pensamento
Endoidece, se cuida que é verdade.

Olhai como Amor gera, em um momento,
De l√°grimas de honesta piedade
L√°grimas de imortal contentamento.

Teus Olhos

Olhos do meu Amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
Meus anéis, minhas rendas, meus brocados.

Neles ficaram meus pal√°cios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d’Al√©m-Mundos ignorados!

Olhos do meu Amor! Fontes… cisternas..
Enigm√°ticas campas medievais…
Jardins de Espanha… catedrais eternas…

Ber√ßo vinde do c√©u √† minha porta…
√ď meu leite de n√ļpcias irreais!…
Meu sumptuoso t√ļmulo de morta!…

Miritiba

√Č o que me lembra: uma soturna vila
olhando um rio sem vapor nem ponte;
Na √°gua salobra, a canoada em fila…
Grandes redes ao sol, mangais defronte…

De um lado e de outro, fecha-se o horizonte…
Duas ruas somente… a √°gua tranq√ľila…
Botos no prea-mar… A igreja… A fonte
E as grandes dunas claras onde o sol cintila.

Eu, com seis anos, n√£o reflito, ou penso.
P√Ķem-me no barco mais veleiro, e, a bordo,
Minha m√£e, pela noite, agita um len√ßo…

Ao vir do sol, a √°gua do mar se alteia.
Range o mastro… Depois… s√≥ me recordo
Deste doido lutar por terra alheia!

LXI

Deixemo-nos, Algano, de porfia;
Que eu sei o que tu és, contra a verdade
Sempre h√°s de sustentar, que a divindade
Destes campos é Brites, não Maria!

Ora eu te mostrarei inda algum dia,
Em que est√° teu engano: a novidade,
Que agora te direi, é, que a cidade
Por melhor, do que todas a avalia.

H√° pouco, que encontrei l√° junto ao monte
Dous pastores, que estavam conversando,
Quando passaram ambas para a fonte;

Nem falaram em Brites: mas tomando
Para um cedro, que fica bem defronte,
O nome de Maria v√£o gravando.

X

Eu ponho esta sanfona, tu, Palemo,
Por√°s a ovelha branca, e o cajado;
E ambos ao som da flauta magoado
Podemos competir de extremo a extremo.

Principia, pastor; que eu te n√£o temo;
Inda que sejas t√£o avantajado
No c√Ęntico amebeu: para louvado
Escolhamos embora o velho Alcemo.

Que esperas? Toma a flauta, principia;
Eu quero acompanhar te; os horizontes
J√° se enchem de prazer, e de alegria:

Parece, que estes prados, e estas fontes
Já sabem, que é o assunto da porfia
Nise, a melhor pastora destes montes.

Panteísmo

Ao Botto de Carvalho

Tarde de brasa a arder, sol de ver√£o
Cingindo, voluptuoso, o horizonte…
Sinto-me luz e cor, ritmo e clar√£o
Dum verso triunfal de Anacreonte!

Vejo-me asa no ar, erva no ch√£o,
Oiço-me gota de água a rir, na fonte,
E a curva altiva e dura do Mar√£o
√Č o meu corpo transformado em monte!

E de bruços na terra penso e cismo
Que, neste meu ardente panteísmo
Nos meus sentidos postos e absortos

Nas coisas luminosas deste mundo,
A minha alma √© o t√ļmulo profundo
Onde dormem, sorrindo, os deuses mortos!

Na Fonte

Bem ao lado da gruta a fonte corre
Trepidamente, as √°guas encrespando,
Em murm√ļrios crebos, levantando
Uns chamalotes prateados — morre

No monte o sol que a luz no oceano escorre
E ainda eu vejo, as sombras afrontando,
Uma mulher que lava, mesmo quando
O sol mais rubro, mais vermelho jorre.

— √Č num s√≠tio afastado, um s√≠tio ermo…
P√°ssaros cortam vastid√Ķes sem termo,
Borboletas azuis roçam nas águas.

— E a mulher lava, enrubescida a face;
Lava, cantando, como se lavasse
As suas tristes e profundas m√°goas.

Soneto XXXVII

Menos sente o n√£o ver quem cego nasce
Que aquele, que depois de ter gozado
A frescura do rio, fonte e prado,
Nesta beleza os olhos j√° n√£o pasce.

Menos, o que n√£o viu a bela face
Da fortuna, que quem alevantado
No mais alto, caiu daquele estado,
N√£o temendo que esquiva se mostrasse.

Mas contudo n√£o sente tanto o cego
Que j√° viu, o n√£o ver, nem sente assi
O que j√° rico foi, ver-se em pobreza.

Como eu, e tanto mais nisto me emprego,
Quanto mor é o bem em que me vi
Que a vista de seus olhos e a riqueza.

Noitinha

A noite sobre n√≥s se debru√ßou…
Minha alma ajoelha, p√Ķe as m√£os e ora!
O luar, pelas colinas, nesta hora,
√Č √°gua dum gomil que se entornou…

Não sei quem tanta pérola espalhou!
Murmura algu√©m pelas quebradas fora…
Flores do campo, humildes, mesmo agora.
A noite, os olhos brandos, lhes fechou…

Fumo beijando o colmo dos casais…
Serenidade idílica de fontes,
E a voz dos rouxin√≥is nos salgueirais…

Tranquilidade… calma… anoitecer…
Num êxtase, eu escuto pelos montes
O cora√ß√£o das pedras a bater…

A Noite Branca

Uma fonte clara e musical
canta na noite branca de Roma
e dos jardins pag√£os vem o aroma
que embalsama as camas dos amantes.

A √°gua de si mesma enamorada
cinge a fronte fria das est√°tuas
de dia feridas pelas f√°tuas
vozes dos turistas sucessivos.

A memória oculta das cloacas
narra o seu trajeto de √°gua e f√°bula
pela boca dos trit√Ķes e m√°scaras.

No brancor da praça adormecida
Aparece um travesti aidético
E ouve a fonte, a eterna voz da vida.

Que Importa?…

Eu era a desdenhosa, a indif’rente.
Nunca sentira em mim o coração
Bater em violências de paixão
Como bate no peito à outra gente.

Agora, olhas-me tu altivamente,
Sem sombra de Desejo ou de emoção,
Enquanto a asa loira da ilus√£o
Dentro em mim se desdobra a um sol nascente.

Minh’alma, a pedra, transformou-se em fonte;
Como nascida em carinhoso monte
Toda ela é riso, e é frescura, e graça!

Nela refresca a boca um s√≥ instante…
Que importa?… Se o cansado viandante
Bebe em todas as fontes… quando passa?…

Passeio ao Campo

Meu Amor! Meu Amante! Meu Amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina…
Pele doirada de alabastro antigo…
Fr√°geis m√£os de madona florentina…
– Vamos correr e rir por entre o trigo! ‚Äď

H√° rendas de gram√≠neas pelos montes…
Papoilas rubras nos trigais maduros…
√Āgua azulada a cintilar nas fontes…

E √† volta, Amor… tornemos, nas alfombras
Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro s√≥ as nossas duas sombras!…

Soneto De Abril

Agora que é abril, e o mar se ausenta,
secando-se em si mesmo como um pranto,
vejo que o amor que te dedico aumenta
seguindo a trilha de meu próprio espanto.

Em mim, o teu espírito apresenta
todas as sugest√Ķes de um doce encanto
que em minha fonte n√£o se dessedenta
por n√£o ser fonte d’√°gua, mas de canto.

Agora que é abril, e vão morrer
as formosas can√ß√Ķes dos outros meses,
assim te quero, mesmo que te escondas:

amar-te uma só vez todas as vezes
em que sou carne e gesto, e fenecer
como uma voz chamada pelas ondas.

XX

Ai de mim! como estou t√£o descuidado!
Como do meu rebanho assim me esqueço,
Que vendo o trasmalhar no mato espesso,
Em lugar de o tornar, fico pasmado!

Ouço o rumor que faz desaforado
O lobo nos redis; ouço o sucesso
Da ovelha, do pastor; e desconheço
N√£o menos, do que ao dono, o mesmo gado:

Da fonte dos meus olhos nunca enxuta
A corrente fatal, fico indeciso,
Ao ver, quanto em meu dano se executa.

Um pouco apenas meu pesar suavizo,
Quando nas serras o meu mal se escuta;
Que triste alívio! ah infeliz Daliso!

Por Mostrar o Poder da Formosura

Por mostrar o poder da formosura,
que cativo me fez o peito isento,
desenastrava Sílvia ao fresco vento
os cabelos sobre uma fonte pura:

E vendo ao natural sua figura
t√£o bela no cristal h√ļmido e lento
sentiu grande paix√£o no pensamento,
n√£o vendo nele arder nova quentura.

E largando a m√£o resplandecente,
inquietou as √°guas sossegadas
dizendo n√£o sereis mais t√£o ditosas,

Que pois com minha vista morre a gente,
se com me ver n√£o sois chamas tornadas
é porque tendes frio de invejosas.

A Um Carneiro Morto

Misericordiosíssímo carneiro
Esquartejado, a maldição de Pio
Décimo caia em teu algoz sombrio
E em todo aquele que for seu herdeiro!

Maldito seja o mercador vadio
Que te vender as carnes por dinheiro,
Pois, tua l√£ aquece o mundo inteiro
E guarda as carnes dos que est√£o com frio!

Quando a faca rangeu no teu pescoço,
Ao monstro que espremeu teu sangue grosso
Teus olhos – fontes de perd√£o – perdoaram!

Oh! tu que no Perd√£o eu simbolizo,
Se fosses Deus, no Dia do juízo,
Talvez perdoasses os que te mataram!