Poemas sobre Deuses

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Poemas de deuses escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Bicarbonato de Soda

S√ļbita, uma ang√ļstia…
Ah, que ang√ļstia, que n√°usea do est√īmago √† alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!

Uma ang√ļstia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os bra√ßos ao sol-p√īr do esfor√ßo…
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que √© que me falta, que o sinto faltar-me no est√īmago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
N√£o: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir…
E–xis–tir …

Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,

Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconsequência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas est√£o todas abertas!
Que ver√£o agrad√°vel dos outros!

Dêem-me de beber, que não tenho sede!

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N√£o te Arrependas

N√£o te arrependas, Amada, porque a mim t√£o depressa
te deste!
Podes crer, nem por isso de ti penso coisas insolentes
e vis!
Vária é a acção das setas do Amor: algumas arranham,
E do rastejante veneno languesce pra anos o peito.
Mas, com penas potentes e gume afiado de fresco,
Outras penetram até ao tutano e rápido inflamam
o sangue.
Nos tempos heróicos, quando Deuses e Deusas amavam,
Ao olhar seguia o desejo, ao desejo o prazer.
Crês tu que a Deusa do Amor pensou muito tempo
Quando no bosque de Ida um dia Anquises lhe
agradou?
Se Luna tardasse a beijar o belo dormente,
Auiora, invejosa, em breve o teria acordado.
Hero descobriu Leandro no festim ruidoso, e ligeiro,
Ardente saltou o amante pra a corrente nocturna.
Rhea Sílvia, a virgem princesa, vai descuidosa
Buscar √°gua ao Tibre, e o Deus dela se apossa.
Assim Marte gerou os seus filhos! ‚ÄĒ Uma loba
amamenta
Os Gémeos, e Roma nomeia-se princesa do mundo.

Tradução de Paulo Quintela

Ode ao Destino

Destino: desisti, regresso, aqui me tens.

Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
Рah então, no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.

Em v√£o tentei n√£o conhecer-te, n√£o notar
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam
que eu, de soslaio, e disfarçando, observava                               [em bandos,
pura conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.

Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magn√Ęnimo,
√ļnico mist√©rio de um mundo cujo mist√©rio eras tu.

Lei universal que a sem-razão constrói,
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada,

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Pensamentos Nocturnos

Lastimo-vos, ó estrelas infelizes,
Que sois belas e brilhais t√£o radiosas,
Guiando de bom grado o marinheiro aflito,
Sem recompensa dos deuses ou dos homens:
Pois n√£o amais, nunca conhecestes o amor!
Continuamente horas eternas levam
As vossas rondas pelo vasto céu.
Que viagem levastes j√° a cabo!,
Enquanto eu, entre os braços da amada,
De vós me esqueço e da meia-noite.

Tradução de Paulo Quintela

Liberdade

O poema é
A liberdade

Um poema n√£o se programa
Porém a disciplina
‚ÄĒ S√≠laba por s√≠laba ‚ÄĒ
O acompanha

Sílaba por sílaba
O poema emerge
‚ÄĒ Como se os deuses o dessem
O fazemos

Nós Homens nos Façamos Unidos pelos Deuses

N√£o a Ti, Cristo, odeio ou menosprezo
Que aos outros deuses que te precederam
Na memória dos homens.
Nem mais nem menos és, mas outro deus.

No Pante√£o faltavas. Pois que vieste
No Pante√£o o teu lugar ocupa,
Mas cuida n√£o procures
Usurpar o que aos outros é devido.

Teu vulto triste e comovido sobre
A ‘steril dor da humanidade antiga
Sim, nova pulcritude
Trouxe ao antigo Pante√£o incerto.

Mas que os teus crentes te n√£o ergam sobre
Outros, antigos deuses que dataram
Por filhos de Saturno
De mais perto da origem igual das coisas.

E melhores memórias recolheram
Do primitivo caos e da Noite
Onde os deuses n√£o s√£o
Mais que as estrelas s√ļbditas do Fado.

Tu não és mais que um deus a mais no eterno
N√£o a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Pante√£o que preside
À nossa vida incerta.

Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
Trouxe algo que faltava
Ao n√ļmero dos divos.

Por isso reina a par de outros no Olimpo,

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Aceita o Universo

Aceita o universo
Como to deram os deuses.
Se os deuses te quisessem dar outro
Ter-to-iam dado.

Se há outras matérias e outros mundos
Haja.

O que √Č Perfeito n√£o Precisa de Nada

Sim, talvez tenham raz√£o.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.

Na planta, na √°rvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das √°rvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes d√° a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.

No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
√Č um j√° dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.

E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.

E que estes entes ser√£o os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que n√£o morrem porque s√£o iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem s√£o e quem s√£o,

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Da Verdade n√£o Quero Mais que a Vida

Sob a leve tutela
De deuses descuidosos,
Quero gastar as concedidas horas
Desta fadada vida.
Nada podendo contra
O ser que me fizeram,
Desejo ao menos que me haja o Fado
Dado a paz por destino.
Da verdade n√£o quero
Mais que a vida; que os deuses
D√£o vida e n√£o verdade, nem talvez
Saibam qual a verdade.

Século XXI

Falam de tudo como se a raz√£o
lhes ensinasse desesperadamente
a mentir, a lançar
sem remorso nem asco um novo isco
à espera que alguém morda
e acredite nessa liturgia
cujos deuses s√£o f√°ceis de adorar
e obedecem às leis do mercado.

Falam desse ludíbrio a que chamam
o futuro
como se ele existisse
e as suas palavras ecoam
em flatulentas frases
sempre a favor do vento que as agita
ao ritmo dos sorrisos ou das entrevistas
em que tudo se vende
por um pre√ßo acess√≠vel: emo√ß√Ķes
& sexo & fama & outros prometidos
paraísos terrestres em horário nobre
Рmatéria reciclável
alimentando o altar do esquecimento.

O poder n√£o existe, como sabes
demasiado bem – apenas uma
in√ļtil recidiva biol√≥gica
de hormonas apressadas que procuram
ser fiéis aos comércio
dos sonhos sempre iguais, reproduzindo
sedutoras met√°stases do nada
nos códigos de barras ou nos cromossomas
de quem j√° pouco espera dos seus genes.

Aproveitar o Tempo

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha…
O trabalho honesto e superior…
O trabalho √† Virg√≠lio, √† M√≠lton…
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
√Č t√£o pouco prov√°vel ser Milton ou ser Virg√≠lio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos – nem mais nem menos –
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E est√£o certas tamb√©m do lado de baixo que se n√£o v√™)…
P√īr as sensa√ß√Ķes em castelo de cartas, pobre China dos ser√Ķes,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paci√™ncias ou de passatempos –
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo…
Sim, verbalismo…
Aproveitar o tempo!
N√£o ter um minuto que o exame de consci√™ncia desconhe√ßa…
N√£o ter um acto indefinido nem fact√≠cio…
N√£o ter um movimento desconforme com prop√≥sitos…
Boas maneiras da alma…
Eleg√Ęncia de persistir…

Aproveitar o tempo!

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Podemos Crer-nos Livres

Aqui, Neera, longe
De homens e de cidades,
Por ninguém nos tolher
O passo, nem vedarem
A nossa vista as casas,
Podemos crer-nos livres.

Bem sei, é flava, que inda
Nos tolhe a vida o corpo,
E n√£o temos a m√£o
Onde temos a alma;
Bem sei que mesmo aqui
Se nos gasta esta carne
Que os deuses concederam
Ao estado antes de Averno.

Mas aqui n√£o nos prendem
Mais coisas do que a vida,
M√£os alheias n√£o tomam
Do nosso braço, ou passos
Humanos se atravessam
Pelo nosso caminho.

N√£o nos sentimos presos
Sen√£o com pensarmos nisso,
Por isso n√£o pensemos
E deixemo-nos crer
Na inteira liberdade
Que é a ilusão que agora
Nos torna iguais dos deuses.

Assim Choram os Deuses

Os deuses desterrados.
Os irm√£os de Saturno,
√Äs vezes, no crep√ļsculo
Vêm espreitar a vida.

Vêm então ter conosco
Remorsos e saudades
E sentimentos falsos.
√Č a presen√ßa deles,
Deuses que o destron√°-los
Tornou espirituais,
De matéria vencida,
Longínqua e inativa.

V√™m, in√ļteis for√ßas,
Solicitar em nós
As dores e os cansaços,
Que nos tiram da m√£o,
Como a um bêbedo mole,
A taça da alegria.

Vêm fazer-nos crer,
Despeitadas ruínas
De primitivas forças,
Que o mundo é mais extenso
Que o que se vê e palpa,
Para que ofendamos
A J√ļpiter e a Apolo.

Assim até à beira
Terrena do horizonte
Hiperion no crep√ļsculo
Vem chorar pelo carro
Que Apolo lhe roubou.

E o poente tem cores
Da dor dum deus longínquo,
E ouve-se soluçar
Para al√©m das esferas…
Assim choram os deuses.

Eis-me

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos m√°gicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua m√£o me toca
O meu coração desce as escadas do tempo
[em que n√£o moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

Erra, Fio mortal da Alma, o Destino

Erra, fio mortal da alma, o destino.
Porém, trémulo, o não temo.
Seco será o poder do nada, o silêncio
dos deuses ou o rosto corrompido
dos homens. Estas folhas √°speras
e p√°lidas entardecem e conhecem-me.
O ar que queima, sem arder, a pedra
da manh√£ ou o inigualado luto
da noite, é solene, é suave,
inexorável princípio de tudo
quanto existir√°. √Č ido o sonho
do fogo, a exacta vida, sucumbe
o corpo no vazio enigma da cólera
divina. Dura, sem medida, a excessiva,
a ébria, a avara solidão, neste ar
perene que, no odor da terra se
oculta. Só minha absurda aparência
a Ave dilacera.

Cada Coisa a seu Tempo Tem seu Tempo

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
N√£o florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.

À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
N√£o puxemos a voz
Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas, sejam
Nossas palavras de reminiscência
(N√£o para mais nos serve
A negra ida do Sol) ‚ÄĒ

Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes
Histórias, que nos falem

Das flores que na nossa inf√Ęncia ida
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo.

E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade,
Como quem comp√Ķe roupas
O outrora comp√ļnhamos

Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
Naquilo que j√° fomos,

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Módulo

Alguém te considera e te recolhe
das hélades perdidas.

Um navio sem hélice levanta
seu voo de silêncio, desdobrando
as velas que te alindam na dist√Ęncia
da noite mais antiga.

Os deuses se juntaram para ouvir
a leitura solene de teu nome
disperso no poema.
Tudo o mais
é sinal de ruptura, senão rapto.

√Č In√ļtil Querer Parar o Homem

√Č in√ļtil querer parar o Homem,
o que transforma a pedra em piso,
o piso em casa e a casa em fonte
de novas m√ļsicas da carne
sob as velocidades da luz e da sombra.
√Č in√ļtil querer parar o Homem
acolher sempre um pouco de si próprio
no mistério da vida a cavalgar
os cavalos a√©reos da sem√Ęntica
sob uma indeferida eternidade.
√Č in√ļtil querer parar o Homem
e o impulso que o transforma sempre
na p√°tria sem fim do ato livre
que arranca a vida e o tempo e as coisas
do espelho imóvel dos conceitos.
Ah, que mistério maior é este
que liga a liberdade e o homem
e une o homem a outros homens
como o curso de um rio ao mar!
(quando a noite é una e indivisível,
nos olhos da mulher que eu amo
acende-se o deus deste segredo
-e uma sombra só nos transporta
ao fundo sem nome da vida.)

√Č in√ļtil querer parar o Homem.
Do que morre fica o gesto alto
a ser o germe de outro gesto
que ainda nem vemos no tempo.

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Regresso

E contudo perdendo-te encontraste.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter. A mim os oceanos.
E foste. E aproximaste.

Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi a aventura de partir e de chegar.

Mas já no mar quem fomos é estrangeiro
e j√° em Portugal estrangeiros somos.
Se em cada um de nós há ainda um marinheiro
vamos achar em Portugal quem nunca fomos.

De Calicute até Lisboa sobre o sal
e o Tempo. Porque é tempo de voltar
e de voltando achar em Portugal
esse país que se perdeu de mar em mar.

Da Nossa Semelhança com os Deuses

Da nossa semelhança com os deuses
Por nosso bem tiremos
Julgarmo-nos deidades exiladas
E possuindo a Vida
Por uma autoridade primitiva
E coeva de Jove.

Altivamente donos de nós-mesmos,
Usemos a existência
Como a vila que os deuses nos concedem
Para, esquecer o estio.
N√£o de outra forma mais apoquentada
Nos vale o esforço usarmos
A existência indecisa e afluente
Fatal do rio escuro.

Como acima dos deuses o Destino
√Č calmo e inexor√°vel,
Acima de nós-mesmos construamos
Um fado volunt√°rio
Que quando nos oprima nós sejamos
Esse que nos oprime,
E quando entremos pela noite dentro
Por nosso pé entremos