Passagens sobre Escritores

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Frases sobre escritores, poemas sobre escritores e outras passagens sobre escritores para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Os Caçadores de Simulacros

O artista, o poeta, o escritor, os que perguntam: todos são caçadores de simulacros, incansáveis calculadores de improbabilidades. Pombas ou abutres, frágeis canários ou escondidos melros, raspam, rasgam, rompem, sempre roendo as suas próprias garras. O invisível que há neles então emerge.

A exploração do escritor é uma coisa vergonhosa. O livreiro, que tem só o trabalho de vender, ganha 30 por cento. O editor, entretanto, tem uma razoável margem de risco. Fica com 40 por cento dos quais tem que pagar ao escritor.

A Moral entre a Verdade e a Subjectividade

Um homem que busca a verdade torna-se s√°bio; um homem que pretende dar r√©dea solta √† sua subjectividade torna-se, talvez, escritor; e que far√° um homem que busca algo que se situa entre essas duas hip√≥teses? Mas tais exemplos, os de algo que est√° ¬ęentre¬Ľ, encontramo-los em qualquer senten√ßa moral, a come√ßar pela mais simples e mais conhecida: ¬ęn√£o matar√°s¬Ľ. V√™-se imediatamente que n√£o √© nem uma verdade nem uma experi√™ncia subjectiva. Sabe-se que, em muitos aspectos, nos conformamos estritamente a ela, mas que, por outro lado, se aceitam numerosas excep√ß√Ķes, ainda que perfeitamente delimitadas; no entanto, num grande n√ļmero de casos de um terceiro tipo – por exemplo na imagina√ß√£o, na esfera dos desejos, nas pe√ßas de teatro ou no prazer que experimentamos ao ler as not√≠cias dos jornais – deixamo-nos oscilar descontroladamente entre a avers√£o e a atrac√ß√£o.
Por vezes aquilo a que n√£o podemos chamar nem verdade nem experi√™ncia pessoal recebe o nome de imperativo. Tais imperativos foram associados aos dogmas da religi√£o ou da lei, concedendo-lhes assim o car√°cter de uma verdade derivada, mas os romancistas narram as excep√ß√Ķes, a come√ßar pelo sacrif√≠cio de Abra√£o e terminando na bela mulher jovem que matou o amante a tiro,

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No meu of√≠cio de escritor, penso n√£o me ter afastado nunca da minha consci√™ncia de cidad√£o. Defendo que aonde vai um, deve ir o outro. N√£o recordo ter escrito uma s√≥ palavra que estivesse em contradi√ß√£o com as minhas convic√ß√Ķes pol√≠ticas, mas isso n√£o significa que alguma vez tenha posto a literatura ao servi√ßo da minha ideologia. O que significa, isso sim, √© que no momento em que escrevo estou expressando a totalidade da pessoa que sou.

Sinto que precisava de viver mais 50 anos para concretizar todos os projectos que tenho. Se tivesse os meios, não me custava nada fazer dois filmes por ano. Ideias não me faltam, seja através de projecto escritos por mim ou por grandes escritores.

O Romancista e o Escritor

Releio o curto ensaio de Sartre O Que é Escrever?. Nem uma vez ele utiliza as palavras romance, romancista. Fala apenas do escritor da prosa. Distinção justa. O escritor tem ideias originais e uma voz inimitável. Pode servir-se de qualquer forma (romance incluído) e tudo o que escreve, já que marcado pelo seu pensamento, levado pela sua voz, faz parte da sua obra. Rouseau, Goethe, ChateauBriand, Gide, Malraux, Camus, Montherland.
O romancista n√£o liga muito √†s suas ideias. √Č um descobridor que, tacteando, se esfor√ßa por desvendar um aspecto desconhecido da exist√™ncia. N√£o est√° fascinado pela sua voz mas por uma forma que persegue, e s√≥ as formas que respondem √†s exig√™ncias do seu sonho fazem parte da sua obra. Fielding, Sterne, Flaubert, Proust, Faulkner, C√©line, Calvino.
O escritor inscreve-se na carta espiritual do seu tempo, da sua na√ß√£o, na da hist√≥ria das ideias. O √ļnico contexto em que se pode apreender o valor de um romance √© o da hist√≥ria do romance europeu. O romancista n√£o tem contas a prestar a ningu√©m, excepto a Cervantes.

Não podemos ensinar a criatividade Рcomo se tornar um bom escritor. Mas podemos ajudar um jovem escritor a descobrir, dentro de si próprio, que tipo de escritor ele gostaria de ser.

Só Há Duas maneiras de se Ter Razão

Quando o p√ļblico soube que os estudantes de Lisboa, nos intervalos de dizer obscenidades √†s senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclama√ß√£o de impaci√™ncia. Sim ‚ÄĒ exactamente a exclama√ß√£o que acaba de escapar ao leitor…

Ser novo √© n√£o ser velho. Ser velho √© ter opini√Ķes. Ser novo √© n√£o querer saber de opini√Ķes para nada. Ser novo √© deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opini√Ķes que t√™m, boas ou m√°s ‚ÄĒ boas ou m√°s, que a gente nunca sabe com quais √© que vai para o Diabo.

Os moços da vida das escolas intrometem-se com os escritores que não passam pela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de lha dizer, também a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometeriam nem com as senhoras nem com os escritores.

Bolas para a gente ter que aturar isto! √ď meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. Estudem ci√™ncias, se estudam ci√™ncias; estudem artes, se estudam artes; estudem letras, se estudam letras. Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra.

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A vida √† beira-mar, para um escritor, tem a desvantagem de o fazer esquecer o mundo. √Č t√£o absorvente e t√£o embalador este ritmo cont√≠nuo das ondas, que se perde a mem√≥ria do resto.

Em vez de ouvirem os escritores em busca de respostas sobre o que somos, as pessoas precisam ouvir umas às outras, porque nós, autores, não somos mais do que meros trabalhadores da palavra.

Os escritores aos quais eu volto sempre são Montaigne, Pessoa e Kafka. O primeiro porque somos a matéria do que escrevemos, o segundo porque somos muitos e não um, o terceiro porque esse um que não somos é um coleóptero.

Eu também, de vez em quando, afundo a minha canoa e me apresento como o da outra margem. Quando estou em ambientes demasiado literários, puxo do meu chapéu de biólogo. Quando estou entre biólogos que se levam muito a sério, rapidamente puxo do chapéu de escritor.

Um escritor é alguém congenitamente incapaz de dizer a verdade. Por isso, o que ele escreve chama-se ficção.

O meu horizonte sobre a humanidade √© ampliado pela leitura dos escritores de poemas, por ver um quadro, ouvir alguma m√ļsica, alguma √≥pera, e isso n√£o tem nada a ver com a vol√°til condi√ß√£o humana, ou luta, ou algo assim. Isso enriquece-me como ser humano.

A Minha Lista dos Grandes Autores

Uma revista espanhola teve a ideia de pedir a uns quantos escritores que elaborassem a sua √°rvore geneal√≥gica liter√°ria, isto √©, a que outros autores consideravam eles como avoengos seus, directos ou indirectos, excluindo-se do inventado parentesco, obviamente, qualquer presun√ß√£o de rela√ß√Ķes ou equival√™ncias de m√©rito que a realidade, pelo menos no meu caso, logo se encarregaria de desmentir. Tamb√©m se pedia que, em brev√≠ssimas palavras, fosse dada a justifica√ß√£o dessa esp√©cie de adop√ß√£o ao contr√°rio, em que era o ¬ędescendente¬Ľ a escolher o ¬ęascendente¬Ľ. A cada escritor consultado foi entregue o desenho de uma √°rvore com onze molduras dispersas pelos diferentes ramos, onde suponho que h√£o-de vir a aparecer os retratos dos autores escolhidos. A minha lista, com a respectiva fundamenta√ß√£o, foi esta: Lu√≠s de Cam√Ķes, porque, como escrevi no ¬ęAno da Morte de Ricardo Reis¬Ľ, todos os caminhos portugueses a ele v√£o dar; Padre Ant√≥nio Vieira, porque a l√≠ngua portuguesa nunca foi mais bela que quando ele a escreveu; Cervantes, porque sem ele a Pen√≠nsula Ib√©rica seria uma casa sem telhado; Montaigne, porque n√£o precisou de Freud para saber quem era; Voltaire, porque perdeu as ilus√Ķes sobre a humanidade e sobreviveu a isso; Raul Brand√£o, porque demonstrou que n√£o √© preciso ser-se g√©nio para escrever um livro genial,

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A Escrita Exige Sempre a Poesia

Sou escritor e cientista. Vejo as duas actividades, a escrita e a ci√™ncia, como sendo vizinhas e complementares. A ci√™ncia vive da inquieta√ß√£o, do desejo de conhecer para al√©m dos limites. A escrita √© uma falsa quietude, a capacidade de sentir sem limites. Ambas resultam da recusa das fronteiras, ambas s√£o um passo sonhado para l√° do horizonte. A Biologia para mim n√£o √© apenas uma disciplina cient√≠fica mas uma hist√≥ria de encantar, a hist√≥ria da mais antiga epopeia que √© a Vida. √Č isso que eu pe√ßo √† ci√™ncia: que me fa√ßa apaixonar. √Č o mesmo que eu pe√ßo √† literatura.

Muitas vezes jovens me perguntam como se redige uma peça literária. A pergunta não deixa de ter sentido. Mas o que deveria ser questionado era como se mantém uma relação com o mundo que passe pela escrita literária. Como se sente para que os outros se representem em nós por via de uma história? Na verdade, a escrita não é uma técnica e não se constrói um poema ou um conto como se faz uma operação aritmética. A escrita exige sempre a poesia. E a poesia é um outro modo de pensar que está para além da lógica que a escola e o mundo moderno nos ensinam.

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A Eterna Criação da Literatura

A literatura √© um acontecimento completamente √† parte. √Č um acontecimento que, de cada vez, recome√ßa de alto a baixo. √Č um acontecimento sem h√°bitos. No caso de um bom marceneiro, ou mesmo de um bom buscador de ouro, trata-se de refazer o que se fazia antes dele e – se for poss√≠vel – contribuir com o seu pequeno aperfei√ßoamento para a forma da mesa ou para o oco da bateia. Mas um jovem escritor n√£o deve absolutamente ameliorar Proust, ou aperfei√ßoar Claudel, completar Gide ou fazer um pequeno retoque a Val√©ry. N√£o, de modo algum. Cabe-lhe escrever como se nem Gide, nem Proust tivessem existido nunca.

O Cerne da Escrita e da Leitura

Não se é escritor por se ter preferido dizer certas coisas, mas por se ter preferido dizê-las duma certa maneira. E o estilo faz, evidentemente, o valor da prosa. Mas deve passar despercebido. Uma vez que as palavras são transparentes e que o olhar as atravessa, seria absurdo meter entre elas vidros despolidos. Aqui, a beleza é apenas uma força doce e insensível.
Num quadro, brilha antes de mais nada; num livro, esconde-se, age por persuas√£o como o encanto duma voz ou dum rosto, n√£o obriga, faz curvar sem que se d√™ por isso e pensa-se ceder aos argumentos quando afinal se √© solicitado por um encanto impercept√≠vel. A cerim√≥nia da missa n√£o √© a f√©, ela disp√Ķe a isso; a harmonia das palavras, a sua beleza, o equil√≠brio das frases, disp√Ķem as paix√Ķes do leitor sem que ele d√™ por isso, ordenam-nas como a missa, como a m√ļsica, como uma dan√ßa; se acaba por as considerar em si mesmas, perde o sentido, apenas restam oscila√ß√Ķes aborrecidas.