Textos sobre Ordin√°rios

20 resultados
Textos de ordinários escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Os Feitos Simples s√£o os Mais Elogiados e Lembrados

Duas pátrias produziram dois heróis: de Tebas saiu Hércules; de Roma saiu Catão. Foi Hércules aplauso da orbe, foi Catão enfado de Roma. A um admiraram todos, ao outro esquivaram-se os romanos. Não admite controvérsia a vantagem que levou Catão a Hércules, pois o excedeu em prudência; mas ganhou Hércules a Catão em fama. Mais de árduo e primoroso teve o assunto de Catão, pois se empenhou em sujeitar os monstros dos costumes, e Hércules os da natureza; mas teve mais de famoso o do tebano. A diferença consistiu em que Hércules empreendeu façanhas plausíveis e Catão odiosas. A plausibilidade do cargo levou a glória de Alcides (nome anterior de Hércules) aos confins do mundo, e passará ainda além deles caso se alarguem. O desaprezível do cargo circunscreveu Catão ao interior das muralhas de Roma.
Com tudo isto, preferem alguns, e não os menos judiciosos, o assunto primoroso ao mais plausível, e pode mais com eles a admiração de poucos que o aplauso de muitos, sendo vulgares. Os milagres de ignorantes apelam aos empenhos plausíveis. O árduo, o primoroso de um superior assunto poucos o percebem, embora eminentes, sendo assim raros os que nele acreditam. A facilidade do plausível permite-se a todos,

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A Amizade Verdadeira e Genuína

Do mesmo modo que o papel-moeda circula no lugar da prata, tamb√©m no mundo, no lugar da estima verdadeira e da amizade aut√™ntica, circulam as suas demonstra√ß√Ķes exteriores e os seus gestos imitados do modo mais natural poss√≠vel. Por outro lado, poder-se-ia perguntar se h√° pessoas que de facto merecem essa estima e essa amizade. Em todo o caso, dou mais valor aos abanos de cauda de um c√£o leal do que a cem daquelas demonsta√ß√Ķes e gestos.
A amizade verdadeira e genu√≠na pressup√Ķe uma participa√ß√£o intensa, puramente objectiva e completamente desinteressada no destino alheio; participa√ß√£o que, por sua vez, significa identificarmo-nos de facto com o amigo. Ora, o ego√≠smo pr√≥prio √† natureza humana √© t√£o contr√°rio a tal sentimento, que a amizade verdadeira pertence √†quelas coisas que n√£o sabemos se s√£o mera f√°bula ou se de facto existem em algum lugar, como as serpentes marinhas gigantes. Todavia, h√° muitas rela√ß√Ķes entre os homens que, embora se baseiem essencialmente em motivos ego√≠stas e ocultos de diversos tipos, passam a ter um gr√£o daquela amizade verdadeira e genu√≠na, o que as enobrece ao ponto de poderem, com certa raz√£o, ser chamadas de amizade nesse mundo de imperfei√ß√Ķes. Elas elevam-se muito acima dos v√≠nculos ordin√°rios,

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Causas e Curas para o Fanatismo

O fanatismo √© para a supersti√ß√£o o que o del√≠rio √© para a febre, o que √© a raiva para a c√≥lera. Aquele que tem √™xtases, vis√Ķes, que considera os sonhos como realidades e as imagina√ß√Ķes como profecias √© um entusiasta; aquele que alimenta a sua loucura com a morte √© um fan√°tico. (…) O mais detest√°vel exemplo de fanatismo √© aquele dos burgueses de Paris que correram a assassinar, degolar, atirar pelas janelas, despeda√ßar, na noite de S√£o Bartolomeu, os seus concidad√£os que n√£o iam √† missa. H√° fan√°ticos de sangue frio: s√£o os juizes que condenam √† morte aqueles cujo √ļnico crime √© n√£o pensar como eles. Quando uma vez o fanatismo gangrenou um c√©rebro a doen√ßa √© quase incur√°vel. Eu vi convulsion√°rios que, falando dos milagres de S. P√°ris, sem querer se acaloravam cada vez mais; os seus olhos encarni√ßavam-se, os seus membros tremiam, o furor desfigurava os seus rostos e teriam morto quem quer que os houvesse contrariado.
Não há outro remédio contra essa doença epidémica senão o espírito filosófico que, progressivamente difundido, adoça enfim a índole dos homens, prevenindo os acessos do mal porque, desde que o mal fez alguns progressos, é preciso fugir e esperar que o ar seja purificado.

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O Pranto e o Riso

Se o Pranto e o Riso aparecessem neste grande teatro no traje da verdade (sempre nua), sem d√ļvida seria a vit√≥ria do Pranto. Mas vestido, ornado e armado de uma t√£o superior eloqu√™ncia, que o Riso se ria do Pranto, n√£o √© merecimento, foi sorte. De tudo quanto ri saiu vestido, ornado e armado o Riso: riem-se os prados e saiu vestido de flores: ri-se a Aurora, e saiu ornado de luzes; e se aos rel√Ęmpagos e raios chamou a Antiguidade Risus Vestae, et Vulcani, entre tantos rel√Ęmpagos, trov√Ķes e raios de eloqu√™ncia, quem n√£o julgar√° ao miser√°vel Pranto cego, at√≥nito e fulminado? Tal √© a fortuna, ou a natureza, destes dois contr√°rios. Por isso nasce o Riso na boca, como eloquente, e o Pranto nos olhos, como mudo.
(…) Dem√≥crito ria sempre: logo nunca ria. A consequ√™ncia parece dif√≠cil e √© evidente. O Riso, como dizem todos os Fil√≥sofos, nasce da novidade e da admira√ß√£o e cessando a novidade ou a admira√ß√£o, cessa tamb√©m o riso; e como Dem√≥crito se ria dos ordin√°rios desconcertos do mundo, e o que √© ordin√°rio e se v√™ sempre n√£o pode causar admira√ß√£o nem novidade; segue-se que nunca ria, rindo sempre, pois n√£o havia mat√©ria que motivasse o riso.

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A Cultura n√£o se Adquire, Respira-se

A cultura n√£o se obt√©m com um labor obtuso e intensivo e √© antes o produto da liberdade e da ociosidade exterior. N√£o se adquire, respira-se. O que trabalha para ela s√£o os elementos ocultos. Uma secreta aplica√ß√£o dos sentidos e do esp√≠rito, concili√°vel com um devaneio quase total em apar√™ncia, solicita diariamente as riquezas dessa cultura, podendo dizer-se que o eleito a adquire a dormir. Isto porque √© necess√°rio ser d√ļctil para se poder ser instru√≠do. Ningu√©m pode adquirir o que n√£o possui ao nascer, nem ambicionar o que lhe √© estranho. Quem √© feito de madeira ordin√°ria nunca se afinar√°, porque quem se afina nunca foi grosseiro. Nesta mat√©ria, √© tamb√©m muito dif√≠cil tra√ßar uma linha de separa√ß√£o n√≠tida entre o m√©rito pessoal e aquilo que se chama o favor das circunst√Ęncias.

Na Paz Não Há Verdadeiro Progresso, o Egoísmo Impera

A ci√™ncia e a arte progridem sempre num primeiro per√≠odo imediato a uma guerra. A guerra renova-as, rejuvenesce-as, fomenta, fortalece, as ideias e imprime-lhes certo impulso. Numa larga paz, pelo contr√°rio, sucumbe tamb√©m a ci√™ncia. Indiscutivelmente o culto da ci√™ncia requer valor e at√© esp√≠rito de sacrif√≠cio. Mas quantos s√°bios resistem √† praga da paz? A falsa honra, o ego√≠smo e a √Ęnsia de prazeres superficiais, bestiais, fazem tamb√©m mossa no seu esp√≠rito. Procure o senhor acabar com uma paix√£o como a inveja, por exemplo; √© ordin√°rio e vulgar, mas com tudo isso penetra at√© nas nob√≠lissimas almas dos s√°bios. Tamb√©m o s√°bio acaba por querer ter a sua parte no brilho e esplendores gerais. Que significa, ante o triunfo da riqueza, o triunfo de uma descoberta cient√≠fica, a menos que seja t√£o estrondosa como a descoberta de um novo planeta? Parece-lhe que em tais circunst√Ęncias haver√° ainda muitos escravos do trabalho para o bem geral?

Longe disso, procura-se a gl√≥ria e cai-se no charlatanismo, na procura do efeito, e antes de mais nada no utilitarismo… visto que tamb√©m se quer, ao mesmo tempo, ser rico. Na arte acontece o mesmo que na ci√™ncia: id√™ntica √Ęnsia do efeito,

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A Doutrina do Objectivo da Vida

Quer considere os homens com bondade ou malevol√™ncia, encontro-os sempre, a todos e a cada um em particular, empenhados na mesma tarefa: tornar-se √ļteis √† conserva√ß√£o da esp√©cie. E isto n√£o por amor a essa esp√©cie, mas simplesmente porque n√£o h√° neles nada mais antigo, mais poderoso, mais impiedoso e mais invenc√≠vel do que esse instinto… porque esse instinto √© propriamente a ess√™ncia da nossa esp√©cie, do nosso rebanho.

Se bem que se chegue assaz rapidamente, com a miopia ordin√°ria, a separar a cinco passos os nossos semelhantes em √ļteis e em prejudiciais, em seres bons e maus, quando fazemos o nosso balan√ßo final e reflectimos sobre o conjunto acabamos por desconfiar destas depura√ß√Ķes, destas distin√ß√Ķes, e acabamos por renunciar a elas.

Talvez o homem mais prejudicial seja ainda, no fim de contas, o mais √ļtil √† conserva√ß√£o da esp√©cie; porque sustenta em si mesmo, ou nos outros, com a sua ac√ß√£o, instintos sem os quais a humanidade estaria h√° muito tempo mole e corrompida. O √≥dio, o prazer de prejudicar, a sede de tomar e de dominar, e, de uma maneira geral, tudo aquilo a que se d√° o nome de mal, n√£o passam no fundo de um dos elementos da espantosa economia da conserva√ß√£o da esp√©cie;

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Como Trair o Seu Marido em Imaginação

Proponho-me ensinar-lhes como trair o seu marido em imaginação.
Acreditem-me: só as criaturas ordinárias traem o marido realmente. O pudor é uma condição sine qua non de prazer sexual. O entregar-se a mais de um homem mata o pudor.
Concedo que a inferioridade feminina precisa de macho. Acho que, ao menos se deve limitar a um macho só, fazendo dele, se disso precisar, centro de um círculo de raio crescente de machos imaginados.

A melhor ocasião para fazer isso é nos dias que antecedem os da menstruação. Assim:
Imaginam o seu marido mais branco de corpo. Se imaginam bem, senti-lo-√£o mais branco sobre si.
Retenham todo o gesto de sensualidade excessiva. Beijem o marido que lhes estiver em cima do corpo e mudem com a imaginação o homem num olhar belo que lhes estiver em cima da alma.
A essência do prazer é o desdobramento. Abram a porta da janela ao Felino em vós.
Como tracasser o marido.
Importa que o marido às vezes se zangue.
O essencial é começar a sentir a atracção pelas coisas que repugnam não perdendo a disciplina exterior.
A maior indisciplina interior junta √† m√°xima disciplina exterior comp√Ķe perfeita sensualidade.

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Moderar as Expectativas

Ordin√°rio desaire de tudo o que √© muito celebrado antes √© n√£o chegar depois ao excesso do que foi concebido. Nunca o verdadeiro p√īde alcan√ßar o imaginado, porque fingir perfei√ß√Ķes √© f√°cil; dif√≠cil √© consegui-las. Casa-se a imagi¬≠na√ß√£o com o desejo e concebe sempre muito mais do que as coisas s√£o. Por maiores que sejam as excel√™ncias, n√£o bastam para satisfazer o conceito, e, se o enganam com exorbitante expecta√ß√£o, √© mais r√°pido o desengano que a admira√ß√£o. A esperan√ßa √© grande falsificadora da verdade: que a cordura a corrija, fazendo que a frui√ß√£o seja superior ao desejo. Princ√≠pios de cr√©dito servem para despertar a curiosidade, n√£o para empenhar o obje¬≠cto. Melhor resulta quando a realidade excede o conceito e √© mais do que se acreditou. Essa regra faltar√° no que √© mau, pois ajuda-o a pr√≥pria exagera√ß√£o; desmente-a o aplauso, chegando a parecer toler√°vel o que se temeu ser ruim ao extremo.

O Homem Irracional

Cubram-no de todos os bens terrenos, mergulhem-no na felicidade com a cabeça imersa de modo a só umas bolhas rebentarem à superfície; dêem-lhe uma prosperidade económica tal que não tenha mais nada que fazer senão dormir, comer doces e tratar da continuidade ininterrupta da história universal Рentão ele, o homem, mesmo assim, só por ingratidão, por maldade, far-vos-á uma pulhice qualquer. Arriscará até os doces e desejará propositadamente o mais prejudicial dos absurdos, o mais antieconómico disparate, unicamente para misturar com toda essa sensatez positiva o seu nocivo elemento fantástico. Desejará conservar precisamente os seus sonhos fantásticos, a sua estupidez mais ordinária, unicamente para confirmar a si mesmo (como se fosse assim tão indispensável) que as pessoas continuam a ser pessoas e não teclas de piano em que sejam as próprias leis da natureza a tocar, mas prometendo tocar a tal ponto que se tornará já impossível desejar qualquer coisa para além do calendário.
Mais ainda: mesmo que o homem se tornasse realmente uma tecla de piano, mesmo que tal facto lhe fosse provado por meio das ciências naturais e da matemática, não ganharia juízo, mas faria, de propósito, qualquer coisa contra, apenas por ingratidão; só para continuar na sua!

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Atenção ao Informar-se

Vive-se o mais de informa√ß√£o: o que vemos √© o menos; vivemos da f√© alheia: o ouvido √© a segunda porta da verdade e a principal da mentira. A verdade de ordin√°rio se v√™; extraordinariamente se ouve; raras vezes chega no seu elemento puro, muito menos quando vem de longe; traz sempre alguma mistura de afectos por onde passa; a paix√£o tinge com as suas cores tudo o que toca, seja odiosa, seja favor√°vel; puxa sempre a impressionar; muito cuidado com quem gaba, maior ainda com quem desgaba. √Č mister toda a aten√ß√£o nesse ponto para descobrir a inten√ß√£o de quem medeia, conhecendo de antem√£o por que raz√Ķes √© movido. Que a reflex√£o seja contraste do falto e do falso.

A Génese de um Poema

A maior parte dos escritores, sobretudo os poetas, preferem deixar supor que comp√Ķem numa esp√©cie de espl√™ndido frenesim, de ext√°tica intui√ß√£o; literalmente, gelar-se-iam de terror √† ideia de permitir ao p√ļblico que desse uma espreitadela por detr√°s da cena para ver os laboriosos e incertos partos do pensamento, os verdadeiros planos compreendidos s√≥ no √ļltimo minuto, os in√ļmeros balbucios de ideias que n√£o alcan√ßaram a maturidade da plena luz, as imagina√ß√Ķes plenamente amadurecidas e, no entanto, rejeitadas pelo desespero de as levar a cabo, as op√ß√Ķes e as rejei√ß√Ķes longamente ponderadas, as t√£o dif√≠ceis emendas e acrescentas, numa palavra, as rodas e as empenas, as m√°quinas para mudan√ßa de cen√°rio, as escadas e os al√ßap√Ķes, o vermelh√£o e os posti√ßos que em 99% dos casos constituem os acess√≥rios do histri√£o liter√°rio.
(…) No que a mim diz respeito, n√£o compartilho da repugn√Ęncia de que falei e nunca senti a m√≠nima dificuldade em rememorar a marcha progressiva de todas as minhas obras. Escolho O Corvo por ser a mais conhecida. Proponho-me demonstrar claramente que nenhum pormenor da sua composi√ß√£o se pode explicar pelo acaso ou pela intui√ß√£o, que a obra se desenvolveu, a par e passo, at√© √† sua conclus√£o com a precis√£o e o rigor l√≥gico de um problema matem√°tico.

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O Prestígio é Sempre Enganador

Tendo a generalidade das opini√Ķes que a educa√ß√£o nos inculca, unicamente a educa√ß√£o por base, facilmente nos habituamos a admitir, com prontid√£o, um conceito defendido por um personagem aureolado de prest√≠gio.
Sobre os assuntos t√©cnicos da nossa profiss√£o, somos capazes de formular conceitos muito seguros; mas, no tocante ao resto, n√£o procuramos sequer raciocinar, preferindo admitir, com os olhos fechados, as opini√Ķes que nos s√£o impostas por um personagem ou um grupo dotado de prest√≠gio.
De facto, quer se seja estadista, artista, escritor ou s√°bio, o destino depende, sobretudo, da quantidade de prest√≠gio que se possui e, por conseguinte, do grau de sugest√£o inconsciente que se pode criar. O que determina o √™xito de um homem √© a domina√ß√£o mental que ele exerce. O completo imbecil, entretanto, alcan√ßa √™xito, algumas vezes, porquanto, n√£o tendo consci√™ncia da sua imbecilidade, jamais hesita em afirmar com autoridade. Ora, a afirma√ß√£o en√©rgica e repetida possui prest√≠gio. O mais vulgar dos ¬ęcamelos¬Ľ, quando energicamente afirma a imagin√°ria superioridade de um produto, exerce prest√≠gio na multid√£o que o circunda.
(…) Mesmo entre s√°bios eminentes, o prest√≠gio √©, muitas vezes, um dos factores mais certos de uma convic√ß√£o. Para os esp√≠ritos ordin√°rios, ele o √© sempre.

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As Oscila√ß√Ķes da Personalidade

Pretender que a nossa personalidade seja m√≥vel e suscept√≠vel de grandes mudan√ßas √©, por vezes, no√ß√£o um pouco contr√°ria √†s id√©ias tradicionais atinentes √† estabilidade do ‚Äúeu‚ÄĚ. A sua unidade foi durante muito tempo um dogma indiscut√≠vel. Factos numerosos vieram provar quanto esta ideia era fict√≠cia.
O nosso ‚Äúeu‚ÄĚ √© um total. Comp√Ķe-se da adi√ß√£o de inumer√°veis ‚Äúeu‚ÄĚ celulares. Cada c√©lula concorre para a unidade de um ex√©rcito. A homogeneidade dos milhares de indiv√≠duos que o comp√Ķem resulta somente de uma comunidade de ac√ß√£o que numerosas coisas podem destruir.
√Č in√ļtil objectar que a personalidade dos seres parece, em geral, bastante est√°vel. Se ela nunca varia, com efeito, √© porque o meio social permanece mais ou menos constante. Se subitamente esse meio se modifica, como em tempo de revolu√ß√£o, a personalidade de um mesmo indiv√≠duo poder√° transformar-se por completo. Foi assim que se viram, durante o Terror, bons burgueses reputados pela sua brandura tornarem-se fan√°ticos sanguin√°rios. Passada a tormenta e, por conseguinte, representando o antigo meio e o seu imp√©rio, eles readquiriram sua personalidade pacifica. Desenvolvi, h√° muito tempo, essa teoria e mostrei que a vida dos personagens da Revolu√ß√£o era incompreens√≠vel sem ela.
De que elementos se comp√Ķe o ‚Äúeu‚ÄĚ,

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Verosimilhança não é Verdade

Quase sempre as suspeitas nos inquietam; somos sempre o joguete desses boatos de opini√£o, que tantas vezes p√Ķe em fuga um ex√©rcito, quanto mais um simples indiv√≠duo. (…) n√≥s rendemo-nos prontamente √† opini√£o. N√£o fazemos a cr√≠tica das raz√Ķes que nos levam ao temor, n√£o as esquadrinhamos. Perdemos todo o sangue-frio, batemos em retirada, como os soldados expulsos do seu campo √† vista da nuvem de poeira que levanta uma tropa a galope, ou tomados de terror colectivo por causa de um boato semeado sem garante.
Não sei como, mas as falsidades perturbam-nos desde logo. A verdade traz consigo a sua própria medida; tudo quanto se funda sobre uma incerteza, porém, fica entregue à conjectura e às fantasias de um espírito perturbado.
Eis porque, entre as mais diversas formas do medo, n√£o h√° outra mais desastrosa, mais incoerc√≠vel que o medo p√Ęnico. Nos casos ordin√°rios, a reflex√£o √© falha; nestes, a intelig√™ncia est√° ausente.
Interroguemos, pois, cuidadosamente a realidade. √Č veros√≠mil que uma desgra√ßa venha a produzir-se? Verosimilhan√ßa n√£o √© verdade. Quantos acontecimentos ocorreram sem que os esper√°ssemos! Quantos acontecimentos esperados que jamais ocorreram! Mesmo que venham a produzir-se, que √© que lucraremos em nos anteciparmos √† nossa dor?

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Intragável é Estar Parado

Intragável é estar parado. Não mudar. Aguentar. Sobreviver. Permanecer. Mesmo que seja pouco, mesmo que seja insuficiente. Manter tudo como está apenas para não correr o risco de ficar pior. Intragável é não perdoar, não ilibar. E só criticar, só apontar, só atacar. E não criar, não refazer, não imaginar. Intragável é não acreditar. Intragável é o que não é maravilhoso, o que não é delicioso, o que não é fantástico, monumental, abençoado, miraculoso, espantoso. Intragável é acordar para o dia a recusar o dia, a não querer o dia, a não apetecer o dia, a não pensar nas mil e uma maneiras de o tornar inesquecível. Deixar estar. Não mexer, não querer a ferida se for através da ferida que se chega à cura. Ser cauteloso, prevenido. Intragável é o que não é exagerado, o que não é desproporcionado, o que não parece incomportável. Se não parece incomportável, é insuportável. Não quero. Não admito. Não me admito. Intragável é repetir. Hoje como réplica exacta de ontem e como réplica exacta de amanhã. As mesmas coisas, as mesmas palavras, os mesmos actos, os mesmos movimentos. Sempre igual. Sempre o mesmo. Intragável é continuar por continuar, andar por andar, viver por viver.

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Bem Supremo e Raz√£o

Quando a experi√™ncia me ensinou que os acontecimentos ordin√°rios da vida s√£o f√ļteis e v√£os e me apercebi de que tudo que era para mim causa ou objecto de receio n√£o tem em si mesmo nada de bom ou de mau, a n√£o ser na medida da como√ß√£o que excita na alma, resolvi, finalmente, indagar se existia um bem verdadeiro e suscept√≠vel de se comunicar, qualquer coisa enfim cuja descoberta e posse me trouxessem para sempre um j√ļbilo continuo e soberano.
(…) O que nos ocupa mais frequentemente na vida e que os homens, como pode concluir-se dos seus actos, consideram ser o bem supremo pode reduzir-se a três coisas: riqueza, fama, prazer dos sentidos.
Ora cada um deles distrai o espírito de tal modo que mal pode pensar noutro bem. (…)
РPelo prazer sensual se detém a alma como se repousasse num bem verdadeiro, o que a impede em absoluto de pensar noutra coisa; após o prazer vem a extrema tristeza, que, se não suspende o pensamento, perturba e embota. A busca da fama e da riqueza não absorve menos o espírito, sobretudo quando a riqueza é desejada por si mesma, conferindo-lhe, então, a categoria de bem supremo.

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Vive Plenamente

Vê se consegues apanhar-te a lamentar-te, quer por palavras quer por pensamentos, por causa de determinada situação em que te encontres, do que as outras pessoas fazem ou dizem, do teu meio envolvente, da situação da tua vida, ou até mesmo por causa do tempo. Uma lamentação é sempre uma não aceitação daquilo que é. E traz invariavelmente consigo uma carga negativa inconsciente. Quando te lamentas, tu próprio te fazes de vítima. Quando elevas a voz, estás no teu poder. Por isso muda a situação tomando providências, levantando a voz se for necessário ou possível; deixa a situação ou aceita-a. Tudo o mais é loucura.

De certa forma, a inconsci√™ncia ordin√°ria est√° sempre ligada √† recusa do Agora. O Agora, evidentemente, tamb√©m significa o aqui. Est√°s a resistir ao teu aqui e agora? H√° pessoas que s√≥ est√£o bem onde n√£o est√£o. O seu “aqui” nunca √© suficientemente bom. Atrav√©s da auto-observa√ß√£o, v√™ se √© esse o teu caso. Estejas onde estiveres, est√° l√° plenamente. Se achares que o teu aqui e agora √© intoler√°vel e te deixa infeliz, tens tr√™s op√ß√Ķes √† escolha: ou te retiras da situa√ß√£o, ou a mudas, ou a aceitas totalmente. Se quiseres tomar a responsabilidade pela tua vida,

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Nunca Exagerar

Grande mat√©ria de considera√ß√£o √© n√£o falar por superlativos, seja para n√£o se expor a ofender a verdade, seja para n√£o desdourar a sua cordura. As exagera√ß√Ķes s√£o prodigalidades do estimar, que d√£o in√≠cio de curteza de conhecimento e gosto. A louva√ß√£o desperta viva curiosidade, pica o desejo, mas depois, n√£o equivalendo o valor ao apre√ßo, como de ordin√°rio acontece, a expectativa volta-se contra o engano e desforra-se no menosprezo pelo celebrado e por quem celebrou. Anda, pois, o cordo bem devagar, e mais quer pecar pelo pouco que pelo muito. Raras s√£o as emin√™ncias: modere-se a estimativa. O encarecer √© parente do mentir, e nele se perde o cr√©dito de bom gosto, que √© grande, e o de douto, que √© maior.

A Conversa Nunca é Imparcial

√Č espantoso qu√£o f√°cil e rapidamente a homogeneidade ou a heterogeneidade de esp√≠rito e de √Ęnimo entre os homens se faz manifesta na conversa√ß√£o: ela torna-se sens√≠vel √† menor situa√ß√£o. Entre duas pessoas de natureza substancialmente heterog√©nea, que conversam sobre os assuntos mais estranhos e indiferentes, cada frase de uma desagradar√° mais ou menos √† outra, em muitos casos irritar√°. Naturezas homog√©neas, pelo contr√°rio, sentem de imediato, em tudo, uma certa concord√Ęncia, que, tratando-se de grande homogeneidade, logo converge para a harmonia perfeita, para o un√≠ssono.
A partir disso, explica-se, em primeiro lugar, porque os tipos ordin√°rios s√£o t√£o soci√°veis e em qualquer lugar encontram boa companhia com tanta facilidade – gente estimada, am√°vel e honesta. Com os indiv√≠duos incomuns acontece o contr√°rio, e tanto mais quanto mais distintos forem, de tal maneira que, de tempos em tempos, no seu isolamento, podem alegrar-se por terem descoberto em algu√©m, uma fibra, por menor que seja, homog√©nea √† sua! De facto, cada um s√≥ pode ser para outrem o que este √© para ele. Esp√≠ritos verdadeiramente eminentes fazem o seu ninho nas alturas, como as √°guias, solit√°rios. Em segundo lugar, isso explica por que os indiv√≠duos de disposi√ß√£o igual se re√ļnem de imediato,

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