Textos sobre Glória

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Textos de glória escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Invisibilidade √© a Condi√ß√£o para a Eleg√Ęncia

Parece-me que a invisibilidade √© a condi√ß√£o para a eleg√Ęncia. A eleg√Ęncia acaba se for notada. Sendo a poesia a eleg√Ęncia por excel√™ncia, n√£o sabe ser vis√≠vel. Ent√£o, para que serve?, dir-me-eis. Para nada. Quem a v√™? Ningu√©m. O que a n√£o impede de ser um atentado contra o pudor, e apesar de o seu exibicionismo se exercer entre os cegos. Contenta-se em exprimir uma moral particular. Depois, esta moral particular solta-se sob a forma de obra. Exige que a deixem viver a sua vida. Faz-se pretexto para imensos mal-entendidos que se chamam a gl√≥ria. A gl√≥ria √© absurda por resultar de um ajuntamento. A multid√£o cerca um acidente, conta-o a si mesma, inventa-o, perturba-o at√© se transformar noutro. O belo resulta sempre de um acidente. De uma quebra brutal entre h√°bitos adquiridos e h√°bitos a adquirir. Derrota, nauseia. Chega a causar horror. Quando o novo h√°bito for adquirido, o acidente deixar√° de ser acidente. Far-se-√° cl√°ssico e perder√° a virtude de choque. Por isso uma obra nunca √© compreendida. √Č admitida. Se n√£o me engano, a observa√ß√£o pertence a Eug√®ne Delacroix: ¬ęNunca se √© compreendido, √©-se admitido¬Ľ. Matisse repete com frequ√™ncia esta frase.

Neruda e García Lorca em Homenagem a Rubén Dario

Eis o texto do discurso:

Neruda: Senhoras…

Lorca: …e senhores. Existe na lide dos touros uma sorte chamada ¬ętoreio dei alim√≥n¬Ľ, em que dois toureiros furtam o corpo ao touro protegidos pela mesma capa.

Neruda: Federico e eu, ligados por um fio eléctrico, vamos emparelhar e responder a esta recepção tão significativa.

Lorca: √Č costume nestas reuni√Ķes que os poetas mostrem a sua palavra viva, prata ou madeira, e sa√ļdem com a sua voz pr√≥pria os companheiros e amigos.

Neruda: Mas n√≥s vamos colocar entre v√≥s um morto, um comensal vi√ļvo, escuro nas trevas de uma morte maior que as outras mortes, vi√ļvo da vida, da qual foi na sua hora um marido deslumbrante. Vamos esconder-nos sob a sua sombra ardente, vamos repetir-lhe o nome at√© que a sua grande for√ßa salte do esquecimento.

Lorca: N√≥s, depois de enviarmos o nosso abra√ßo com ternura de pinguim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lan√ßar um grande nome sobre a toalha, na certeza de que v√£o estalar as ta√ßas, saltar os garfos, buscando o olhar que todos anseiam, e que um golpe de mar h√°-de manchar as toalhas. N√≥s vamos evocar o poeta da Am√©rica e da Espanha: Rub√©n…

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A Trágica Necessidade de Conquista e de Mudança

Em todos os tempos os homens, por algum pedaço de terra de mais ou de menos, combinaram entre si despojarem-se, queimarem-se, trucidarem-se, esganarem-se uns aos outros; e para fazê-lo mais engenhosamente e com maior segurança, inventaram belas regras às quais se deu o nome de arte militar; ligaram à prática dessas regras a glória, ou a mais sólida reputação; e depois ultrapassaram-se uns aos outros na maneira de se destruirem mutuamente.
Da injusti√ßa dos primeiros homens, como da sua origem comum, veio a guerra, assim como a necessidade em que se acharam de adoptar senhores que fixassem os seus direitos e pretens√Ķes. Se, contente com o que se tinha, se tivesse podido abster-se dos bens dos vizinhos, ter-se-ia para sempre paz e liberdade.
O povo tranquilo nos lares, nas famílias e no seio de uma grande cidade onde nada tem a temer para os seus bens nem para a vida, anseia por fogo e sangue, ocupa-se de guerras, ruínas, braseiros e matanças, suporta impacientemente que os exércitos que mantêm a campanha não tenham recontros, ou se já se encontraram e não sustentem combate, ou se enfrentam e não seja sangrento o combate, e haja menos de dez mil homens no local.

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Os Feitos Simples s√£o os Mais Elogiados e Lembrados

Duas pátrias produziram dois heróis: de Tebas saiu Hércules; de Roma saiu Catão. Foi Hércules aplauso da orbe, foi Catão enfado de Roma. A um admiraram todos, ao outro esquivaram-se os romanos. Não admite controvérsia a vantagem que levou Catão a Hércules, pois o excedeu em prudência; mas ganhou Hércules a Catão em fama. Mais de árduo e primoroso teve o assunto de Catão, pois se empenhou em sujeitar os monstros dos costumes, e Hércules os da natureza; mas teve mais de famoso o do tebano. A diferença consistiu em que Hércules empreendeu façanhas plausíveis e Catão odiosas. A plausibilidade do cargo levou a glória de Alcides (nome anterior de Hércules) aos confins do mundo, e passará ainda além deles caso se alarguem. O desaprezível do cargo circunscreveu Catão ao interior das muralhas de Roma.
Com tudo isto, preferem alguns, e não os menos judiciosos, o assunto primoroso ao mais plausível, e pode mais com eles a admiração de poucos que o aplauso de muitos, sendo vulgares. Os milagres de ignorantes apelam aos empenhos plausíveis. O árduo, o primoroso de um superior assunto poucos o percebem, embora eminentes, sendo assim raros os que nele acreditam. A facilidade do plausível permite-se a todos,

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Boa e M√° Literatura

O que acontece na literatura n√£o √© diferente do que acontece na vida: para onde quer que se volte, depara-se imediatamente com a incorrig√≠vel plebe da humanidade, que se encontra por toda a parte em legi√Ķes, preenchendo todos os espa√ßos e sujando tudo, como as moscas no ver√£o.
Eis a raz√£o do n√ļmero incalcul√°vel de livros maus, essa erva daninha da literatura que tudo invade, que tira o alimento do trigo e o sufoca. De facto, eles arrancam tempo, dinheiro e aten√ß√£o do p√ļblico – coisas que, por direito, pertencem aos bons livros e aos seus nobres fins – e s√£o escritos com a √ļnica inten√ß√£o de proporcionar algum lucro ou emprego. Portanto, n√£o s√£o apenas in√ļteis, mas tamb√©m positivamente prejudiciais. Nove d√©cimos de toda a nossa literatura actual n√£o possui outro objectivo sen√£o o de extrair alguns t√°leres do bolso do p√ļblico: para isso, autores, editores e recenseadores conjuraram firmemente.
Um golpe astuto e maldoso, porém notável, é o que teve êxito junto aos literatos, aos escrevinhadores que buscam o pão de cada dia e aos polígrafos de pouca conta, contra o bom gosto e a verdadeira educação da época, uma vez que eles conseguiram dominar todo o mundo elegante,

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A M√°scara Falsa da Felicidade

Um erro sem d√ļvida bem grosseiro consiste em acreditar que a ociosidade possa tornar os homens mais felizes: a sa√ļde, o vigor da mente, a paz do cora√ß√£o s√£o os frutos tocantes do trabalho. S√≥ uma vida laboriosa pode amortecer as paix√Ķes, cujo jugo √© t√£o rigoroso; √© ela que mant√©m nas cabanas o sono, fugitivo dos grandes pal√°cios. A pobreza, contra a qual somos prevenidos, n√£o √© tal como pensamos: ela torna os homens mais temperantes, mais laboriosos, mais modestos; ela os mant√©m na inoc√™ncia, sem a qual n√£o h√° repouso nem felicidade real na terra.
O que √© que invejamos na condi√ß√£o dos ricos? Eles pr√≥prios endividados na abund√Ęncia pelo luxo e pelo fasto imoderados; extenuados na flor da idade por sua licenciosidade criminosa; consumidos pela ambi√ß√£o e pelo ci√ļme na medida em que est√£o mais elevados; v√≠timas orgulhosas da vaidade e da intemperan√ßa; ainda uma vez, povo cego, que lhe podemos invejar?
Consideremos de longe a corte dos príncipes, onde a vaidade humana exibe aquilo que tem de mais especioso: aí encontraremos, mais do que em qualquer outro lugar, a baixeza e a servidão sob a aparência da grandeza e da glória, a indigência sob o nome da fortuna,

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Da Duração das Obras

Algumas obras morrem porque nada valem; estas, por morrerem logo, s√£o natimortas. Outras t√™m o dia breve que lhes confere a sua express√£o de um estado de esp√≠rito passageiro ou de uma moda da sociedade; morrem na inf√Ęncia. Outras, de maior escopo, coexistem com uma √©poca inteira do pa√≠s, em cuja l√≠ngua foram escritas, e, passada essa √©poca, elas tamb√©m passam; morrem na puberdade da fama e n√£o alcan√ßam mais do que a adolesc√™ncia na vida perene da gl√≥ria. Outras ainda, como exprimem coisas fundamentais da mentalidade do seu pa√≠s, ou da civiliza√ß√£o, a que ele pertence, duram tanto quanto dura aquela civiliza√ß√£o; essas alcan√ßam a idade adulta da gl√≥ria universal. Mas outras duram al√©m da civiliza√ß√£o, cujos sentimentos expressam. Essas atingem aquela maturidade de vida que √© t√£o mortal como os Deuses, que come√ßam mas n√£o acabam, como acontece com o Tempo; e est√£o sujeitas apenas ao mist√©rio final que o Destino encobre para todo o sempre (…)

O Segredo de Salvar-me Pelo Amor

Quem há aí que possa o cálix
De meus l√°bios apartar?
Quem, nesta vida de penas,
Poder√° mudar as cenas
Que ningu√©m p√īde mudar ?

Quem possui na alma o segredo
De salvar-me pelo amor?
Quem me dar√° gota de √°gua
Nesta angustiosa fr√°gua
De um deserto abrasador?

Se alguém existe na terra
Que tanto possa, és tu só!
Tu só, mulher, que eu adoro,
Quando a Deus piedade imploro,
E a ti peço amor e dó.

Se soubesses que tristeza
Enluta meu coração,
Terias nobre vaidade
Em me dar felicidade,
Que eu busquei no mundo em v√£o.

Busquei-a em tudo na terra,
Tudo na terra mentiu!
Essa estrela carinhosa
Que luz √† inf√Ęncia ditosa
Para mim nunca luziu.

Infeliz desde criança
Nem me foi risonha a fé;
Quando a terra nos maltrata,
Caprichosa, acerba e ingrata,
Céu e esperança nada é.

Pois a ventura busquei-a
No vivo anseio do amor,
Era ardente a minha alma;
Conquistei mais de uma palma
À custa de muita dor.

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Amar ou Ser Amado?

Que √© o que mais deseja e mais estima o amor: ver-se conhecido ou ver-se pago? √Č certo que o amor n√£o pode ser pago, sem ser primeiro conhecido; mas pode ser conhecido, sem ser pago. E considerando divididos estes dois termos, n√£o h√° d√ļvida que mais estima o amor e melhor lhe est√° ver-se conhecido que pago. Porque o que o amor mais pretende, √© obrigar; o conhecimento obriga, a paga desempenha. Logo muito melhor lhe est√° ao amor ver-se conhecido que pago; porque o conhecimento aperta as obriga√ß√Ķes, a paga e o desempenho desata-as. O conhecimento √© satisfa√ß√£o do amor pr√≥prio; a paga √© satisfa√ß√£o do amor alheio. Na satisfa√ß√£o do que o amor recebe, pode ser o afecto interessado; na satisfa√ß√£o do que comunica, n√£o pode ser sen√£o liberal. Logo, mais deve estimar o amor ter segura no conhecimento a satisfa√ß√£o da sua liberalidade, que ver duvidosa na paga a fidalguia do seu desinteresse. O mais seguro cr√©dito de quem ama, √© a confiss√£o da d√≠vida no amado; mas como h√°-de confessar a d√≠vida, quem a n√£o conhece? Mais lhe importa logo ao amor o conhecimento que a paga; porque a sua maior riqueza √© ter sempre individado a quem ama.

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Presunção e Glória

Somos tão pouco presunçosos que gostaríamos de ser conhecidos da terra, mesmo das pessoas que vierem quando nós já cá não estivermos. Somos tão pouco vãos que a estima de cinco pessoas, vá lá seis, nos diverte e nos honra.
(…) A mod√©stia √© t√£o natural no cora√ß√£o do homem que um oper√°rio tem o cuidado de n√£o se gloriar e quer ter os seus admiradores. Os fil√≥sofos querem-nos. Os poetas mais do que ningu√©m! Os que escrevem em louvor da gl√≥ria querem ter a gl√≥ria de ter escrito bem. Os que l√™em querem a gl√≥ria de ter lido. Eu, que escrevo isto, glorio-me de ter esse desejo. Aqueles que o lerem h√£o-de gloriar-se tamb√©m.

A Incomodidade da Grandeza

J√° que n√£o a podemos alcan√ßar, vinguemo-nos falando mal dela. No entanto, n√£o √© inteiramente falar mal de alguma coisa encontrar-lhe defeitos; estes encontram-se em todas as coisas, por belas e desej√°veis que sejam. Em geral, ela possui esta vantagem evidente de se rebaixar quando lhe apraz, e de mais ou menos ter a op√ß√£o entre uma situa√ß√£o e a outra; pois n√£o se cai de todas as alturas; s√£o mais numerosas aquelas das quais se pode descer sem cair. Bem me parece que a valorizamos demais, e valorizamos demais tamb√©m a decis√£o dos que vimos ou ouvimos dizer que a menosprezaram ou que renunciaram a ela por sua pr√≥pria inten√ß√£o. A sua ess√™ncia n√£o √© t√£o evidentemente c√≥moda que n√£o a possamos rejeitar sem milagre. Acho muito dif√≠cil o esfor√ßo de suportar os males; mas em contentar-se com uma medida mediana de fortuna e em fugir da grandeza acho pouca dificuldade. √Č uma virtude, parece-me, a que eu, que n√£o passo de um patinho, chegaria sem muito esfor√ßo. Que devem fazer aqueles que ainda levassem em considera√ß√£o a gl√≥ria que acompanha tal rejei√ß√£o, na qual pode caber mais ambi√ß√£o do que no pr√≥prio desejo e gozo da grandeza, porquanto a ambi√ß√£o nunca se conduz mais √† vontade do que por um caminho desgarrado e inusitado?

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As Desvantagens do Ateísmo

Parece-nos que o homem feliz n√£o colhe vantagem alguma em ser ateu. √Č-lhe t√£o agrad√°vel cismar que os seus dias se prolongar√£o al√©m da vida! Com que desespero n√£o deixaria ele este mundo, se acreditasse separar-se para sempre da felicidade! Debalde sobre a sua cabe√ßa se acumulariam todos os bens do s√©culo, que serviriam apenas para lhe tornar mais tormentoso o nada.
O rico pode tamb√©m contar com que a religi√£o lhe amplie os prazeres, mesclando-os com inexplic√°vel ternura; n√£o se lhe endurecer√° o cora√ß√£o, o gozo, escolho inevit√°vel das grandes prosperidades, n√£o o infastiar√°; que a religi√£o refrigera as sequid√Ķes da alma: √© o que representa esse √≥leo santo com que o cristianismo consagrava a realeza, a inf√Ęncia, e a morte, para as salvar da esterilidade.
O guerreiro arremessa-se ao combate: ser√° ateu esse filho da gl√≥ria? O que busca uma vida infinita consentir√° em termin√°-la? Aparecei sobre as vossas nuvens fulminantes, soldados inumer√°veis, antigas legi√Ķes da p√°tria! Famosas mil√≠cias de Fran√ßa, e agora mil√≠cias do c√©u, aparecei! Dizei aos her√≥is da nossa idade, do alto da cidade santa, que o bravo n√£o cai inteiro no tumulo, e que, ap√≥s ele, permanece alguma coisa mais que um v√£o renome.

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Inveja Justa e Injusta

Quando a fortuna envia a alguém bens de que ele é verdadeiramente indigno, e a inveja só é excitada em nós porque amando naturalmente a justiça ficamos contrariados que ela não seja observada na distribuição desses bens, trata-se de um zelo que pode ser desculpável; principalmente quando o bem que invejamos de outros é de tal natureza que pode converter-se em mal nas mãos deles, como se for algum cargo ou ofício em cujo exercício eles possam comportar-se mal.
Mesmo quando desejamos para nós o mesmo bem e somos impedidos de tê-lo, porque ouros que são menos merecedores o possuem, isto torna mais violenta tal paixão; e ela não deixa de ser desculpável, contanto que o ódio que contém se relacione somente com a má distribuição do bem que se inveja, e não com as pessoas que o possuem e distribuem.
Mas há poucos que sejam tão justos, e tão generosos a ponto de não ter ódio por aqueles que os precederam na obtenção de um bem que não é comunicável a várias pessoas e que eles haviam desejado para si mesmos, embora os que os obtiveram sejam tanto ou mais merecedores. E o que habitualmente é mais invejado é a glória,

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Nada Pior que a Frivolidade

A frivolidade, meu amigo, aniquila os homens que a ela se apegam; talvez n√£o haja v√≠cio que n√£o se deva preferir a ela, pois ainda √© melhor ser vicioso do que n√£o ser nada. O nada est√° abaixo do tudo, o nada √© o maior dos v√≠cios; e que n√£o me diga que √© ser alguma coisa o ser fr√≠volo: √© n√£o ser nem para a virtude, nem para a gl√≥ria, nem para a raz√£o, nem para os prazeres apaixonados. Direis talvez: gosto mais de um homem nulo para qualquer vitude do que daquele que s√≥ existe para o v√≠cio. Eu vos responderei: aquele que √© nulo para a virtude n√£o est√° por isso livre dos v√≠cios; ele pratica o mal por leviandade e por fraqueza; ele √© o instrumento dos maus que t√™m mais g√©nio. Ele √© menos perigoso do que um homem seriamente empenhado no mal, isso √© poss√≠vel; mas ser√° necess√°rio ser grato ao gavi√£o por ele s√≥ destruir os insectos e por ele n√£o destruir os rebanhos e os campos como os le√Ķes e as √°guias? Um homem corajoso e dotado de sabedoria n√£o teme um homem mau; mas n√£o pode impedir-se de desprezar um homem fr√≠volo.

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Estou Habituado a que Recebam Mal os Meus Filmes

Estou habituado a que recebam mal os meus filmes e isso n√£o me altera, nem altera nada do que penso sobre o cinema. Eu reprovo o pr√©mio da competi√ß√£o. Os √ďscares, por exemplo, at√© porque s√£o dados a filmes de sucesso. Gosto mais dos pr√©mios que s√£o dados ao filme como coisa art√≠stica. Esse pr√©mio de competi√ß√£o est√° bem no futebol, que um mete mais golos que o outro. Mas j√° dizia o Rembrandt quando apresentou o seu quadro “A ronda da noite” √† sociedade ‚Äď fizeram muita tro√ßa, ele veio desconsolad√≠ssimo ‚Äď: “O militar conhece a sua gl√≥ria na vit√≥ria, o comerciante reconhece a sua gl√≥ria nos lucros do com√©rcio, mas o pintor, o artista, onde √© que ele a vai reconhecer?”. N√£o h√° nada que determine exactamente. A arte √© especial. H√° uma s√≥ lei: o tempo. O tempo √© o grande juiz, √© o grande juiz de tudo.

O homem pode demonstrar indiferença pela glória, mas não pela honra

O homem pode demonstrar indiferença pela glória, mas não pela honra.

A Verdadeira Virtude

N√£o se pode pensar em virtude sem se pensar num estado e num impulso contr√°rios aos de virtude e num persistente esfor√ßo da vontade. Para me desenhar um homem virtuoso tenho que dar relevo principal ao que nele √© volunt√°rio; tenho de, talvez em esquema exagerado, lhe p√īr acima de tudo o que √© modelar e conter. Pela origem e pelo significado n√£o posso deixar de a ligar √†s fortes resolu√ß√Ķes e √† coragem civil. E um cont√≠nuo querer e uma cont√≠nua vigil√Ęncia, uma batalha perp√©tua dada aos elementos que, entendendo, classifiquei como maus; requer as n√≠tidas vis√Ķes e as almas destemidas.
Por isso não me prende o menino virtuoso; a bondade só é nele o estado natural; antes o quero bravio e combativo e com sua ponta de maldade; assim me dá a certeza de que o terei mais tarde, quando a vontade se afirmar e a reflexão distinguir os caminhos, com material a destruir na luta heróica e a energia suficiente para nela se empenhar. O que não chora, nem parte, nem esbraveja, nem resiste aos conselhos há-de formar depois nas massas submissas; muitas vezes me há-de parecer que a sua virtude consiste numa falta de habilidade para urdir o mal,

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Contente Est√° Quem Assim se Julga de si Mesmo

A abastan√ßa e a indig√™ncia dependem da opini√£o de cada um; e a riqueza n√£o mais do que a gl√≥ria, do que a sa√ļde t√™m tanto de beleza e de prazer quanto lhes atribui quem as possui. Cada qual est√° bem ou mal conforme assim se achar. Contente est√° n√£o quem assim julgamos, mas quem assim julga de si mesmo. E apenas com isso a cren√ßa assume ess√™ncia e verdade.
A fortuna n√£o nos faz nem bem nem mal: somente nos oferece a mat√©ria e a semente de ambos, que a nossa alma, mais poderosa que ela, transforma e aplica como lhe apraz – causa √ļnica e senhora da sua condi√ß√£o feliz ou infeliz.
Os acréscimos externos tomam a cor e o sabor da constituição interna, como as roupas que nos aquecem não com o calor delas e sim com o nosso, que a elas cabe proteger e alimentar; quem abrigasse um corpo frio prestaria o mesmo serviço para a frialdade: assim se conservam a neve e o gelo.
√Č certo que, exactamente como o estudo serve de tormento para um pregui√ßoso, a abstin√™ncia do vinho para um alco√≥latra, a frugalidade √© supl√≠cio para o luxorioso e o exerc√≠cio incomoda um homem delicado e ocioso;

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Glória Efémera ou Eterna

Via de regra, a glória será tanto mais tardia quanto mais for durável, pois tudo aquilo que é excelente amadurece de maneira lenta. A glória que se tornará póstera assemelha-se a um carvalho que cresce bem lentamente a partir da sua semente; a glória fácil, efémera, assemelha-se às plantas anuais, que crescem rapidamente, e a glória falsa parece-se com erva daninha, que nasce num piscar de olhos e que nos apressamos em arrancar. Esse desenrolar das coisas relaciona-se com o facto de que, quanto mais alguém pertence à posteridade, ou seja, à humanidade geral e inteira, tanto mais estranho será à sua época, pois o que ele produz não é especialmente dedicado a ela como tal, mas só na medida em que a mesma é uma parte da humanidade; logo, as suas obras não são tingidas com a cor local do seu tempo; todavia, em consequência disso, pode acontecer que tal indivíduo passe facilmente como um estranho pela sua época.
Esta prefere apreciar aqueles que tratam os assuntos do seu dia-a-dia ou que servem ao humor do momento, portanto, os factos que pertencem integralmente a ela, que com ela vivem e com ela morrem. Por isso, a hist√≥ria da arte e da literatura ensina geralmente que as mais elevadas realiza√ß√Ķes do esp√≠rito humano,

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O Desporto √© a Intelig√™ncia In√ļtil

O sport √© a intelig√™ncia in√ļtil manifestada nos movimentos do corpo. O que o paradoxo alegra no cont√°gio das almas, o sport aligeira na demonstra√ß√£o dos bonecos delas. A beleza existe, verdadeiramente, s√≥ nos altos pensamentos, nas grandes emo√ß√Ķes, nas vontades conseguidas. No sport – ludo, jogo, brincadeira – o que existe √© sup√©rfluo, como o que o gato faz antes de comer o rato que lhe h√°-de escapar. Ningu√©m pensa a s√©rio no resultado, e, enquanto dura o que desaparece, existe o que n√£o dura. H√° uma certa beleza nisso, como no domin√≥, e, quando o acaso proporciona o jogo acertado, a maravilha entesoura o corpo encostado do vencedor. Fica, no fim, e sempre virado para o in√ļtil, o inconseguido do jogo. Pueri ludunt, como no prim√°rio do latim…

Ao sol brilham, no seu breve movimento de gl√≥ria esp√ļria, os corpos juvenis que envelhecer√£o, os trajectos que, com o existirem, deixaram j√° de existir. Entardece no que vemos, como no que vimos. A Gr√©cia antiga n√£o nos afaga sen√£o intelectualmente. Ditosos os que naufragam no sacrif√≠cio da posse. S√£o comuns e verdadeiros. O sol das arenas faz suar os gestos dos outros. Os poetas cantam-nos antes que des√ßa todo o sol.

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